Aguarde...

28/02/2002 00:00

A ética no trabalho

Como manter esse valor de primeira grandeza numa situação delicada

Simon Franco, EXAME
PREZADO SIMON: sou engenheiro formado pelo Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), tenho quase 60 anos e há cerca de dez perdi um bom emprego como gerente numa multinacional. Aconteceu depois de uma conversa com meu diretor, na qual relatei problemas com o pessoal de compras da empresa. Eles estavam recorrendo sempre ao mesmo fornecedor, e não aos fornecedores que eu havia selecionado e que eram melhores e mais baratos. Em outras palavras, havia forte suspeita de corrupção. Dias depois fui dispensado numa "reestruturação". Hoje -- atuando com dificuldade como consultor de qualidade e produtividade --, fico pensando se não teria sido melhor ter ficado quieto. Como um profissional deve tratar a ética? (Sandro Lemos* São Paulo, SP)

Caro Sandro: a ética é um valor de primeira grandeza para o profissional. Nunca devemos abrir mão de certos princípios, como a honestidade e a transparência. O problema é o que fazer para manter tais princípios. É necessário desenvolver uma boa estratégia para garantir a manutenção da ética. Isso significa que precisamos também ser políticos no ambiente empresarial, na acepção verdadeira do termo. Precisamos tentar perceber sempre o melhor momento e as melhores condições de agir.

Na história contada por você, a suspeita levantada foi muito forte. Isso só deve ser feito com muito cuidado. Levantar uma suspeita como essa é como fazer uma acusação.

Antes de tudo, você precisaria dispor de muitas informações. Haveria outras razões para que a equipe de compras agisse daquela forma? Quais as diferenças de especificação, produtos, prazos de entrega e de pagamento entre os fornecedores que você indicava e os que estavam sendo escolhidos? Se a suspeita fosse mesmo de corrupção, seria necessário comprovar que, sob o aspecto exclusivamente técnico, alguém estava cometendo um erro.

Assim o caso seria completamente diferente. Você apresentaria a seu chefe um arrazoado técnico demonstrando uma falha que causava prejuízo à empresa. Não precisaria nem mesmo citar as possíveis razões disso. Sem uma comprovação técnica adequada, usar a suspeita de corrupção para combater as opções profissionais de alguém pode parecer, curiosamente, antiético.

Comprovado o problema, a empresa não teria como evitar uma pesquisa sobre as razões do erro -- e poderia chegar a um caso de corrupção sem que você precisasse levantar a suspeita diretamente. Ser político, nesse sentido, é saber agir racionalmente, com calma e objetividade.

Vale considerar também que é pouco provável que seu chefe não dispusesse dos mesmos dados sobre o comportamento do setor de compras. Se ele aceitava a situação, é porque estava de acordo, por razões técnicas ou não. Por isso, mais uma vez, seria necessário buscar mais informações sobre o que estava acontecendo. Em vez de levar uma suspeita, conversar com o chefe para tentar entender a posição dele.

Dessa forma, você teria uma estratégia mais clara para enfrentar a situação. Se seu chefe parecesse estar envolvido em alguma situação irregular, poderia levar o caso para uma instância superior. Aí também seria necessário tratar o assunto do ponto de vista técnico, sem suspeitas que não pudessem ser comprovadas.


*Nome alterado por solicitação do leitor
Simon Franco é diretor geral de desenvolvimento estratégico na américa Latina da TMP Worldwide

Comentários  

Editora Abril

Copyright © Editora Abril - Todos os direitos reservados