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01/11/1999 00:00

Quem arrisca petisca

Aos poucos, o capitalismo de risco começa a chegar ao Brasil. Mas ainda falta muito para decolar de vez

Laura Somoggi, de
Microsiga, Datasul, Booknet, Nutec, Logocenter. Aos poucos, os nomes das empresas brasileiras de tecnologia estão se tornando familiares. Mais do que isso: a indústria de tecnologia nacional está recebendo cada vez mais investimentos e, com isso, crescendo. Ainda não nasceu no Brasil nenhuma Microsoft, Apple, Sun ou Amazon.com (só para ficar em alguns exemplos), mas o pano de fundo necessário para que surjam por aqui negócios bilionários como esses já está sendo armado. O grande responsável por isso é o chamado capital de risco, ou, em inglês, venture capital.

Há cada vez mais investidores interessados em arriscar seu dinheiro em novos negócios no Brasil. Principalmente se as idéias estiverem ligadas a tecnologia e, mais especificamente, à Internet. Segundo dados do International Data Corporation, IDC, o número de internautas no Brasil deve crescer a uma taxa de 46% ao ano. Até o final de 1999, serão 3,8 milhões de pessoas ligadas à rede. Em 2003, 7,5 milhões. Essas projeções de crescimento justificam o apetite. "Hoje, há no mínimo dez vezes mais capitalistas interessados no Brasil do que há um ano", diz Susan Segal, sócia do Chase Capital Partners, uma das mais importantes empresas de capital de risco nos Estados Unidos. "E esse número deve dobrar no próximo ano."

De que cifras estamos falando? Os números, quando se fala em capitalismo de risco no Brasil, são um mistério. As estimativas são díspares. Elas variam de 250 milhões de dólares a dez vezes isso, 2,5 bilhões de dólares. Um levantamento feito pela EXAME chegou a cerca de 1 bilhão de dólares. E nem tudo vai para a Internet. Biotecnologia, comunicação, serviços e saúde são algumas das outras áreas que seduzem o capital, tanto o nacional quanto o estrangeiro. "Mas é a Internet e a tecnologia que vão ajudar a criar o capitalismo de risco no Brasil", diz Susan. "Cerca de 90% dos pedidos dos investidores são ligados à Internet", afirma Marcos Rechtman, diretor executivo do banco Bozano, Simonsen, que tem 100 milhões de dólares em capital de risco para investir por aqui.

Se as projeções são tão animadoras, onde está o risco desse capitalismo? Entenda como esse negócio funciona. Alguém com uma boa idéia de negócio procura um sócio capitalista. Ele nada mais é que um investidor disposto a arriscar seu dinheiro para fazer aquele projeto virar realidade. Se der certo, ambos ganham. Isso acontece porque, depois de algum tempo, a empresa abre o capital na bolsa. O empresário fica milionário. O investidor também. Ele costuma obter retornos estratosféricos ao vender a sua participação na empresa. Nos Estados Unidos, essa é a chave para o sucesso dos empresários digitais. Foi assim que Bill Gates, da Microsoft, e Steve Jobs, da Apple, montaram seus negócios. O único problema é que não há nenhuma espécie de garantia. É risco puro. Cerca de 90% desse tipo de empreitada costuma naufragar.

Se der certo, os ganhos podem ser mirabolantes. Resultado: correr o risco parece valer a pena para um número cada vez maior de investidores. Alguns números podem ilustrar o que significa ganhar dinheiro nesse negócio. No dia em que a Netscape abriu seu capital na Nasdaq, a bolsa eletrônica de Nova York, suas ações começaram valendo 28 dólares. No final do pregão, os papéis já batiam os 58 dólares. Nada menos do que uma valorização de 107% em algumas horas. Sites como Excite e Amazon.com, por exemplo, deram retornos de 12 vezes o capital investido para o fundo Kleiner Perkins. O KP, do famoso capitalista de risco americano John Doerr, colocou dinheiro em alguns dos mais importantes negócios do Vale do Silício: Sun, Compaq, Lotus, America Online, entre outros.

O capitalismo de risco existe há pelo menos 30 anos nos Estados Unidos. Lá, segundo dados da consultoria americana Pricewaterhouse Coopers, no ano passado, os investimentos chegaram a 14,3 bilhões de dólares, 24% a mais que em 1997 e 78% a mais que em 1996. "Os investimentos em tecnologia no primeiro semestre deste ano totalizaram 10,5 bilhões de dólares", afirma James Atwell, sócio do Global Technology Industry Group, da Price. "Esse é o mesmo valor investido no ano passado inteiro." Quando se fala em Internet, os saltos são ainda maiores. Os investimentos quadruplicaram quando se compara o segundo trimestre deste ano com o mesmo período de 1998. Na Europa, a história se repete. De todo o dinheiro investido pelos capitalistas de risco, 28% estão ligados à tecnologia. E essa fatia cresceu 75% no ano passado, de acordo com estudos da European Private Equity and Venture Capital Association, EVCA, associação que reúne os investidores de risco europeus.

No Brasil, o capitalismo de risco está apenas engatinhando. "Estamos hoje onde os Estados Unidos estavam há 20 anos", afirma Dennis Rodrigues, um dos sócios do FIR Capital Partners, empresa de capital de risco com foco no Brasil e no Mercosul. Um sistema como esse leva tempo para ser construído. Há uma série de condições necessárias (que ainda não temos) para que isso aconteça. Mas a aposta é que o crescimento deverá ser muito mais rápido por aqui. Muitos dos investidores trazem a experiência que tiveram em outros mercados e devem evitar repetir eventuais erros anteriores. "Todos os modelos que tiveram sucesso nos Estados Unidos estão surgindo por aqui", afirma Patrice Etlin, sócio do fundo americano Advent International, que neste ano tornou-se dono de 25% da Microsiga, empresa brasileira de software de gestão. O Advent colocou mais de 10 milhões de reais no negócio. Aos poucos, os fundos de capital de risco internacionais começam a investir no país. Em dezembro passado, outro fundo americano, o WestSphere, apostou 20 milhões de dólares na Datasul, maior empresa brasileira de software. Os estrangeiros têm priorizado o investimento em negócios que já tenham certa maturidade - com faturamento superior a 10 milhões de dólares. É o que se chama de private equity, ou aquisição de participação privada. Nesses casos, o risco é menor do que quando a aposta é feita numa idéia que mal saiu do papel. Se o risco é menor, a probabilidade de ganhos estratosféricos também diminui. Mas não descartam a possibilidade de investir em projetos incipientes.

Pode-se dizer que o investimento de risco só começou a alçar vôos mais altos há cerca de dois anos. Alguns bancos de investimento como Bozano, Simonsen, Icatu e Garantia passaram a analisar projetos de negócios promissores. A tendência é que haja cada vez mais bancos, fundos e empresas de participações atuando neste mercado. Além de nomes já conhecidos, há gente nova despontando. A Internetco Investments e EVM Empreendimentos - ambas de São Paulo - são dois bons exemplos. A Internetco está atrás de novos Bill Gates. "Procuramos empreendedores visionários focados em Internet", diz Pedro Mello, um dos sócios da empresa. A EVM, do ex-Rhodia Edson Vaz Musa e mais quatro sócios, já colocou 10 milhões de reais em empresas de tecnologia, saúde e serviços. Eles estão estruturando fundos que podem chegar a 30 milhões de reais. E não descartam a possibilidade de investir em projetos que ainda estejam no papel. "Para o investidor profissional colocar dinheiro apenas numa idéia, há duas alternativas: o empreendedor tem que ter muita experiência no negócio que está propondo ou deve atuar num nicho em que ninguém havia pensado antes", afirma Darryl Kirsh, um dos sócios da EVM.

Por que esse interesse está crescendo só agora? Num país com taxas de juro altíssimas, não é preciso correr risco para ganhar dinheiro. Com uma queda gradual nos juros, mais investidores alocarão parte dos seus recursos para bancar idéias inovadoras ou projetos incipientes que prometem altos retornos. Apesar de a melhora de cenário ser recente, já havia quem assumisse risco no passado. Até pouco tempo atrás, os grandes capitalistas de risco brasileiros eram apenas agências governamentais como o BNDES, via o BNDESPAR. O BNDESPAR mantém programa destinado a empresas de base tecnológica, chamado Contec. O aporte de capital por empresa é de, no máximo, 2 milhões de reais e a participação pode chegar a até 30% do capital. "Se o projeto não for ligado a tecnologia, as chances de conseguir algum tipo de capital caem absurdamente", diz Carlos Castelo Branco, gerente de operações de software do BNDES.

Além do BNDES, há outro nome que atua como capitalista de risco no Brasil há alguns anos. Mas no setor privado. É a CRP, Companhia Riograndense de Participações, do Rio Grande do Sul. Desde sua criação, em 1982, ela tem sido muito ativa na área. Hoje, tem três fundos diferentes e, por meio deles, entra como sócia minoritária nos projetos em que acredita. Cerca de 24% da sua carteira de investimentos se destina à área de tecnologia. Em outubro último, constituiu o fundo RSTec de 12 milhões de reais , destinado a empresas que usem tecnologias inovadoras. Inicialmente, o RSTec está aberto apenas para empresas gaúchas, mas, futuramente, é provável que empresas de outros estados possam participar.

Um dos caminhos que a CRP e um número cada vez maior de capitalistas de risco utilizam para encontrar projetos de negócios promissores é o contato com universidades e incubadoras. Ambas são importantes pólos de desenvolvimento tecnológico no país (veja reportagem na página 40), terrenos férteis para encontrar idéias inovadoras. O que é uma incubadora? É um lugar onde um empreendedor que tem uma idéia de negócios - e não tem as condições mínimas necessárias para montar uma empresa - pode se instalar. Geralmente são prédios localizados perto de universidades (embora não sirvam apenas para estudantes) onde os vários projetos compartilham serviços de escritório e recebem ajuda para tocar sua idéia. A maior vantagem de um ambiente como esse é a sinergia e a troca de idéias que acontece entre os diversos novos homens de negócios. "Nos últimos dois anos, os capitalistas de risco têm olhado muito para empresas incubadas", afirma José Henrique Moreira, gerente de projetos da Celta, incubadora de Florianópolis. "O investidor se sente mais seguro quando a idéia sai de um ambiente como esse."

O cenário atual já produziu boas notícias: idéias de negócios promissoras, Internet crescendo num ritmo alucinante, estabilidade econômica, investidores nacionais e estrangeiros olhando o mercado brasileiro com cuidado, muita vontade de colocar dinheiro aqui. O que falta, então, para o capitalismo de risco decolar no Brasil? Por que o país desperta menos interesse que outros lugares como Índia, Irlanda, Israel, Taiwan ou mesmo Argentina? Note que não estamos falando de nenhuma das mais importantes economias do mundo. Muitas são as razões. A imaturidade do mercado de capitais é a primeira causa a ser citada por qualquer capitalista de risco. Isso é fatal para o funcionamento desse tipo de investimento. Por quê?

Porque o capitalista de risco ganha dinheiro quando sai do negócio, isto é, quando lança ações na bolsa de valores. E fazer isso no Brasil não é fácil. Há alguns motivos. A bolsa de valores, muito concentrada em poucos papéis, é um deles. Só as ações de grandes companhias têm liquidez. Outro problema é a falta de transparência dos dados de muitas empresas. "Nenhum investidor sério gosta de trabalhar no escuro", diz Etlin, da Advent International. Além disso, há regulamentações muito rígidas que dificultam que pequenas e médias empresas, em estágios iniciais, tenham acesso a dinheiro do mercado. "É papel do governo flexibilizar essas regras de acesso ao mercado de capitais", diz Dennis Rodrigues, da FIR Capital Partners. A criação de um mercado de balcão, como o Soma, no Rio de Janeiro, pode ser uma alternativa para ajudar a resolver esse problema. Na Alemanha, o investimento de risco cresceu 84% em 1997, ano em que foi criado o mercado de balcão Neuer Markt para ações de alta tecnologia.

Quanto ao problema da liquidez, o acesso cada vez maior do pequeno investidor ao pregão pode ajudar. Aqui apenas 5% do volume da bolsa é negociado por pessoas físicas. Nos Estados Unidos, 60%. "A Internet, ao facilitar o acesso dos pequenos investidores ao mercado, deve ajudar a aumentar a liquidez", diz Susan Segal, do Chase Capital Partners. Enquanto a situação do mercado local não facilita a vida (e os ganhos) dos capitalistas e empreendedores brasileiros, uma das saídas mais desejadas é lançar ações na Bolsa de Nova York ou na Nasdaq. Só que isso também é difícil. Toda a contabilidade da empresa deve estar de acordo com as leis americanas. Essa conversão custa muito dinheiro e leva tempo. Outra possibilidade para os capitalistas brasileiros é vender a sua participação para outros investidores ou fundos.

Outro ponto crucial é a falta de organização desse setor no país. As agências de desenvolvimento não trabalham em conjunto, não há sinergia. E isso não acontece apenas no setor público. Não há no país nenhuma associação que reúna os dados desse mercado. Na Irlanda, o Irish Development Agency concentra todas as informações aos eventuais interessados. Lá, para obter algum dado, um telefonema basta. "Aqui, é provável que uma dezena não seja suficiente", diz Rodrigues. Uma estrutura organizada também ajuda a vender a imagem do país no exterior. Há muitos empreendedores irlandeses e indianos com escritórios no Vale do Silício. Há também diferenças culturais entre os empreendedores brasileiros e os de muitos outros lugares. Aqui eles querem ser donos do negócio. Muitos ainda não entendem a vantagem de ser apenas sócio. É melhor ter 5% de algo que vale 500 milhões do que ter 100% de algo que vale 50 000. A boa notícia é que essa postura está mudando. Aos poucos, os empreendedores brasileiros começam a pensar grande. "Nunca vi tantos bons planos de negócio como agora", diz Susan Segal, do Chase.

Pensar globalmente também é fundamental para o capitalismo de risco decolar aqui. Isso vai além de entender o funcionamento do mercado de capitais lá fora e as exigências de investidores internacionais. Além de ter capacidade gerencial impecável, os empreendedores devem pensar em produtos ou serviços de padrão internacional - que possam ser comercializados em qualquer país. Só assim os capitalistas de risco se sentirão tentados a colocar dinheiro e a correr risco aqui. A qualidade da pesquisa tecnológica local não deve ser estimulada apenas pelas incubadoras e universidades. A presença de empresas de tecnologia no país pode ajudar - e muito - nesse processo. Há dinheiro, boas idéias, economia estável. Agora só falta esse ciclo virtuoso se instaurar. Um mercado mais maduro atrai mais capitalistas de risco, que, por sua vez, atraem mais empresas. E, quando os empreendedores têm mecanismos para vender os seus negócios e ficar milionários, mais dinheiro flui. "Muitos empresários podem até se tornar capitalistas de risco", diz Fernando Musa, um dos sócios da EVM. Com isso, esse mercado não dependerá de grandes fundos ou instituições financeiras para se mover. É questão de tempo. E maturidade.

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