O Vale do Silício, que se estende de São Francisco a San Jose, na Califórnia, tornou-se coração, pulmão, fígado e cérebro no mundo da tecnologia da informação. De lá se irradiam as idéias e tecnologias que têm impulsionado os Estados Unidos numa das maiores correntes de prosperidade de sua história. Mas num tipo específico de tecnologia, a do voto eletrônico, é uma porção do Brasil no Vale do Silício que dita as regras. Trata-se da Softvote, o braço americano da empresa carioca Módulo. Por que esse pessoal trocou as praias do Rio pelas da Califórnia? Porque a Módulo quer vender nos Estados Unidos o mesmo produto que ajudou a criar no Brasil: o sistema de votação eletrônica mais avançado do mundo. Nas eleições de 1998, votaram em urnas eletrônicas 58% dos 90 milhões de eleitores brasileiros. Para comparar, nos Estados Unidos cerca de 85% da população vota por meio de cartões perfurados ou cédulas em que o voto, marcado a tinta, é registrado por uma leitora óptica.
A Módulo é a exceção, não a regra. O setor de tecnologia da informação movimentou mais de 700 bilhões de dólares nos Estados Unidos em 1998. Isso equivale a 8% do produto interno bruto americano. No Brasil, a soma gerada pelo setor foi de 17 bilhões de dólares, ou 2% do PIB. Desse total, foram exportados apenas 707 milhões. A produção de software, porção mais lucrativa dessa indústria, movimentou 1 bilhão de dólares.
O Vale do Silício nasceu e cresceu sob o signo da trindade formada por capital, espírito empreendedor e conhecimento. Lá um jovem com uma boa idéia sai da universidade (às vezes antes de se formar), procura um capitalista de risco, levanta uma bolada, monta uma empresa e, se tudo der certo, fica milionário. Isso é especialmente verdade para empresas da Internet, que não requerem tanto capital e têm obtido uma valorização assustadora na bolsa de valores. No Brasil, há quem diga que falta espírito empreendedor. Mas é impossível ter certeza disso antes de se criar um mercado de capitais maduro, capaz de financiar os empreendimentos digitais à moda americana (ver reportagem na página 32). Quanto ao terceiro ingrediente digital, o conhecimento, o país não faz tão feio. Conta com boas escolas de informática, de onde é possível extrair a matéria-prima da indústria de software: capital intelectual.
Há centros de produção tecnológica gravitando em torno de universidades no Rio de Janeiro - como é o caso da Módulo -, Belo Horizonte, Recife, Joinville, São Paulo e Campinas, para ficar apenas nos mais conceituados. Esses foram os locais em que mercado e instituições de ensino conseguiram se aproximar mais. O desafio é estender isso ao resto do país. No Brasil, apenas 10% dos cientistas e engenheiros trabalham ligados a empresas. Os 90% restantes trabalham apenas em universidades e institutos de pesquisa. Nos Estados Unidos, 80% dos profissionais de tecnologia trabalham em empresas. "Ciência não vira PIB por aqui", diz o consultor mineiro Ivan Moura Campos, da Cabral, Campos Consulting.
Isso explica por que os exemplos nacionais de excelência tecnológica reluzem, mas ainda são casos isolados. O Brasil, com seus 163 milhões de habitantes e uma das maiores economias do planeta, não goza de expressão quase nenhuma no cenário tecnológico mundial. Enquanto isso, a Finlândia, com pouco mais de 5 milhões de habitantes, lidera o mercado mundial de celulares com a Nokia. Mais ainda: promete ditar os rumos da próxima onda da informática, na qual aparelhos como celulares e computadores de mão terão acesso à Internet.
É inevitável fazer comparações entre o Brasil e países periféricos e tecnologicamente mais relevantes. Não só a Finlândia, mas Índia, Israel ou Irlanda são exemplos normalmente citados como comparação. "Na Irlanda, há cincoanos não havia quase nada de tecnologia da informação", diz Dennis Rodrigues, sócio do FIR Capital Partners, um fundo de investimento sediado em Nova York. "Hoje o setor responde por 15% do PIB daquele país." O crescimento da indústria de tecnologia da informação na Irlanda é apontado como responsável pela recente onda de prosperidade por que passa o país. A economia irlandesa tem crescido a uma taxa média anual de 8,8% nos últimos anos.
Mas é preciso fazer algumas ressalvas. A Irlanda não é conhecida por sua excelência tecnológica. A explosão de crescimento se deve muito mais a empresas americanas como Microsoft, Intel, Dell, IBM e Hewlett-Packard, que se instalaram no país de olho nos incentivos governamentais e no mercado europeu. "A Índia, por sua vez, firmou-se no mercado mundial como fornecedor de mão-de-obra, especialmente para as empresas americanas", diz Atílio Reigada, dono da STTS, uma empresa de informática de Campinas.
Reigada acredita que o modelo brasileiro tende a se assemelhar mais ao israelense. "Trata-se de um modelo baseado em produtos", diz. Ele quer dizer com isso que o país tem vocação para desenvolver tecnologias e produtos próprios e lançá-los no mercado internacional. É o oposto do que faz a Índia ao desenvolver programas para terceiros. Um caso célebre de produto israelense é o programa de comunicação instantânea na Internet ICQ, criado pela empresa Mirabilis. Por aqui ainda não surgiu nada com o sex-appeal do ICQ, mas há casos como o da Módulo. Além do sistema de votação eletrônica, a empresa ajudou a montar os sistemas de segurança de informações dos computadores que permitiram o envio de declarações de imposto de renda pela Internet. Neste ano a Receita Federal recebeu pela Internet 8,3 milhões de declarações de pessoas físicas, de um total aproximado de 13 milhões.
Inspirado pelo sucesso de sua empresa, Fernando Nery, sócio da Módulo e atual presidente da Associação das Empresas Brasileiras de Software e Serviços de Informática (Assespro), quer fazer do Rio de Janeiro o maior centro produtor de tecnologia da informação da América Latina: "O Rio pode se tornar o nosso Vale do Silício". Nery diz que existem no estado universidades e empresas modelo no emprego de tecnologia da informação. A incubadora de empresas da PUC-Rio, por exemplo, deu à luz a MHW. Fundada há cinco anos, ela faturou 1 milhão de reais no ano passado vendendo para empresas como a Xerox e o Banco Interamericano de Desenvolvimento um software que permite a elas montar sites de ensino a distância para os funcionários.
Além do Rio, Santa Catarina também desponta como celeiro de empresas de informática. São de Joinville, por exemplo, a Logocenter e a Datasul, a maior empresa de software nacional, com faturamento de 78 milhões de dólares em 1998. Em São Paulo, ao contrário do que acontece em Santa Catarina, a especialidade varia muito. Mas o setor que se destacou mais foi o da automação bancária. O banco virtual do Bradesco foi até citado no livro A Empresa na Velocidade do Pensamento, de Bill Gates.
Outros centros de conhecimento que sobressaem são a Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), no Recife, e a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), em Belo Horizonte. Elas têm travado uma boa briga para montar o melhor mapa da Internet brasileira. O pessoal de Recife criou um mecanismo de busca chamado Radix, que teria catalogadas todas as páginas Web feitas no Brasil. "Temos 4,5 milhões de páginas armazenadas", diz Silvio Meira, do departamento de informática da UFPE. Mas Alberto Laender, do departamento de ciência da computação da UFMG, rebate: "Nós estamos lançando o maior mecanismo de busca da Web brasileira. Temos 4 milhões de páginas catalogadas, mas sem duplicações, como acontece com o Radix". A universidade mineira tem precedente. Foi de lá que saiu o Família Miner, o sofisticado mecanismo de busca recentemente comprado pelo Universo Online, dos grupos Abril e Folha.
Mas, apesar de raros exemplos como o Miner, a universidade brasileira ainda passa ao largo do mercado. O que faltaria para as pesquisas com tecnologia da informação -e, portanto, com Internet - decolarem e virarem produtos? Entre outros fatores, o consultor Campos detecta a ausência de uma política industrial consistente. Ele cita a Zona Franca de Manaus como exemplo: "A Zona Franca, que ganhou incentivos para gerar exportações, acabou servindo como geradora de importações. Ninguém produz tecnologia em Manaus". Campos acha que essa política pode alijar o Brasil do barco da revolução tecnológica representada pela convergência entre TV, Internet e aparelhos de acesso à rede, como o celular. "Qualquer estudante de informática pode fazer softwares que tirem proveito dessas tecnologias", diz ele.
A solução para o problema, diz Campos, seria incentivar os fabricantes a fazer pesquisa e desenvolvimento no Brasil. Assim, programadores locais poderiam participar do processo e criar software para os equipamentos. O exemplo de Campinas mostra que isso é possível. Do 1,2 bilhão de dólares investido lá nos últimos dois anos, 75% foram para as áreas de telecomunicações e informática, aproveitando pólos de excelência como a Unicamp e o Centro de Pesquisa e Desenvolvimento da ex-Telebrás, CPqD, o maior instituto de pesquisa na área de telecomunicações da América Latina. É bem verdade que a maioria das empresas instaladas na área ainda não faz pesquisa e desenvolvimento de produtos localmente. Mas isso está mudando. A Motorola, baseada em Jaguariúna, região de Campinas, deve montar um centro de desenvolvimento de software para telefonia celular até o final do ano. A Lucent, por sua vez, está construindo em Valinhos uma sucursal do afamado Bell Labs, o braço de pesquisa da empresa, berço de um sem-número de prêmios Nobel. Luminoso futuro para o Brasil digital.