O consultor Marc Singer, da McKinsey, é um dos mais renomados especialistas mundiais em comércio eletrônico. Co-autor do livro Net Worth, lançado este ano nos Estados Unidos, Singer é um dos criadores do conceito de infomediário, aplicado aos novos intermediários da era da Internet. São sites como Amazon.com ou o eBay, que servem de ponte entre consumidores e fabricantes, vivendo basicamente da venda de informação. Singer esteve recentemente em São Paulo, onde fez uma exposição sobre as transformações que a Internet trouxe para o mundo dos negócios. Abaixo, trechos da entrevista que ele concedeu a EXAME:
Qual é a posição do Brasil na Nova Economia? O que empresas brasileiras devem fazer para se situar?
Não entendo muito de economia brasileira, mas tenho alguns palpites. Muitos modelos de negócios on-line já se encontram na segunda ou terceira geração. Portanto existe mais clareza sobre o que funciona e o que não serve. A questão é: quem vai conseguir fazer com que isso funcione primeiro em uma região? Consumidores e perícia locais têm grande importância. Como a distribuição e o varejo funcionam em um país? Qual a regulamentação? Existem oportunidades para que empresas estabelecidas criem novas unidades? Por exemplo: leilões são uma aposta fundamental no mundo on-line. Por que não criar um site sob medida para uma região específica? A entrega é um outro ponto importante. Se você tem de entregar algum produto na casa do consumidor, alguém terá de executar a tarefa. Infra-estrutura tem sido reconhecida como outro negócio a ser explorado. Muitas empresas estão olhando para mercados estrangeiros e dizendo: "Meu Deus, se podemos ser competitivos nos Estados Unidos, onde as coisas têm sido bastante eficientes, imagine o que podemos fazer nesses ambientes onde o sistema de distribuição é horrível? Qual é a natureza da oportunidade lá?".
Um grande problema no Brasil é que não temos uma empresa que faça entregas com o mesmo padrão da FedEx ou UPS.
Existe aí uma grande oportunidade.
No seu livro, o senhor chama atenção para outra oportunidade: os infomediários. Como o senhor definiria uma empresa infomediária?
Essas empresas podem ajudar o consumidor de diversas maneiras. Uma delas é arquivar todas as mensagens não relevantes que lhe são enviadas, não interessando se elas chegam por e-mail, telefone ou correio. Ou seja, bloqueia o que não serve para ele, aumentando a relevância da informação. Se você quer comprar algo, ela irá procurar o melhor negócio. Essas empresas também poderiam fornecer ferramentas de busca e proteger sua privacidade on-line.
Mas aí eu teria de confiar nelas para a minha proteção...
Sim, você teria.
E existe alguma garantia de que a minha privacidade será respeitada?
Uma coisa é certa: você teria de confiar nessas empresas. A questão é que muitas das informações que essas empresas armazenam acabam não sendo utilizadas. É por isso que é um negócio tão difícil de ser criado. Suponha que você e eu criássemos uma empresa infomediária amanhã. As pessoas iriam acreditar na gente com todo esse conhecimento? Existe um papel muito importante aqui que é o da confiança de uma marca.
Que tipo de empresa pode se tornar uma infomediária num futuro próximo?
Acho que eBay ou a Amazon.com estão aptas a isso. Uma grande instituição financeira também tem condições de seguir esse caminho. As empresas de cartões de crédito, como a American Express e a Visa, também podem ser infomediárias.
O senhor não acha que alguns mercados irão evoluir para um modelo de negociação semelhante ao do mercado de ações? Estou pensando, por exemplo, nas empresas de transportes americanas que começam a usar sites de infomediários para leiloar o espaço vazio que sobra nos caminhões depois que eles fazem entregas.
A McKinsey está trabalhando, nos Estados Unidos, com uma empresa de transportes que está passando por essa situação justamente agora. E não é porque existe uma nova necessidade de entrega. É que isso é ineficiente. Costumava ser muito difícil descobrir mercados como o de excesso de capacidade. Mas, se você conseguir tornar isso transparente e fácil de usar, então bons administradores podem executar uma gestão melhor do espaço. Veja o caso de anúncios para a televisão. Existe um bocado de espaços vazios que não são vendidos. E se um vendedor disser: "Se você tiver um anúncio de meia página, estamos fechando e aceitaremos a melhor oferta nesse anúncio agora, com um preço mínimo que nos reservamos o direito de aceitar".
Que outras oportunidades começam a aparecer na Internet?
As pessoas criam mercados ou arenas onde compradores e vendedores podem se encontrar. Pode ser qualquer coisa, desde um sistema para injeção de partes de plástico móveis até alumínio forjado. Existe um mercado em atividade aí. E existe outra oportunidade em construir a infra-estrutura de uma ponta a outra para conseguir que esses bens viajem de um lugar para o outro. E ainda existe uma oportunidade para serviços financeiros por trás disso também. Acredito que as instituições financeiras terão um mundo bastante interessante para explorar em termos de garantias. Por exemplo: uma empresa americana quer comprar algo do Brasil. Como você saberá que os brasileiros entregarão o produto? Pode haver uma terceira empresa que garanta isso.
Temos todos os tipos de coisas sendo recriadas na Internet: lojas, leilões, mercado de ações. Parece ser a reinvenção do capitalismo...
Bem, no curso de economia lhe ensinam como os mercados funcionam. Mas, quando você vê o mundo real, descobre que poucos mercados funcionam daquela maneira. Todos nós acreditamos que a informação é livre. Historicamente tem sido assim. Mas há todos os custos, assimetrias entre vendedores e compradores e uma porção de outras coisas. A Internet aproxima o mercado do ideal que aprendemos na faculdade.
Mas ainda há muito temor em relação a segurança.
Apesar de todo o falatório, não tenho conhecimento de nenhuma fraude com cartões de crédito na Internet. Garanto que, se houvesse alguma fraude, seria manchete dos jornais.