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21/10/1998 00:00

Procuram-se otários

Clemente Nobrega, EXAME
Casamento e carreira: eis duas palavras que lembram a anedota do cobertor curto. Você puxa aqui e falta ali. Puxa ali e falta aqui. A pergunta é: dá para puxar aqui e ali sem necessariamente ficar descoberto de um lado ou de outro? Partamos do seguinte ponto: todo casamento é complicado. Recentemente, até Madre Tereza de Calcutá aplaudiu o fim de um, o de Charles e Diana. Que grande casamento é celebrado no cinema, na literatura? Em compensação, o amor impossível e o adultério são glorificados. Ema Bovary prevaricou e ficou imortal. Ana Karenina, também. Capitu, idem. Rick e Ilse se imortalizaram no desencontro de Casablanca. Foram felizes para sempre, no campo da arte, é uma expressão confinada aos contos de fadas.

Se todo casamento é de delicada administração, o de um executivo é ainda mais. Jornadas longas, foco na carreira e não na mulher, compromissos domésticos com freqüência sacrificados a compromissos profissionais: não, as condições estão longe de ser ideais para um casamento feliz. Isso quer dizer então que é impossível ter sucesso em ambos, casamento e carreira? Não, não quer. Há duas coisas muito claras a esse respeito. Primeiro: sim, ainda que difícil, é possível se dar bem nas duas frentes, como mostram as experiências matrimoniais de executivos que aparecem nesta reportagem. Segundo: o sucesso simultâneo no trabalho e no casamento não é para todos, exige aplicação rigorosa e só pode ser conseguido, no fundo, por quem coloca isso como um objetivo sinceramente prioritário em sua vida. "Para que dê certo, é preciso que o casamento se baseie numa relação de troca, de respeito à individualidade do outro, de metas e objetivos comuns", diz o psiquiatra Pablo Roig, fundamentado em sua experiência de quase vinte anos de trabalho na área. "E é essencial que exista admiração mútua."

Ter um casamento bem-sucedido como prioridade de vida é a chave da questão. Para alcançar o sucesso na carreira, os executivos sabem bem disso, é preciso, basicamente, força de vontade, garra para superar os obstáculos, criatividade para encontrar as soluções, atenção para não deixar que a soma dos detalhes prejudique o todo e determinação para agüentar o cansaço. E os executivos, freqüentemente, estão dispostos a fazer tudo isso e até mais se necessário. Muito bem. O problema é que, muitas vezes, esses mesmos executivos não se dão conta de que para conquistar uma união afetiva feliz é preciso agir de forma idêntica. Não existe casamento que dê certo por pura sorte, como se você entrasse num bingo e alguém cantasse, um por um, os números de sua cartela.

A ascensão profissional pode ser um obstáculo a mais à tranqüilidade conjugal. Um personagem executivo do mais recente livro do escritor americano John Grishan, The Rainmaker, colocou essa questão singelamente: você arruma uma mulher, arranja um emprego, progride na carreira, e então providencia uma mulher melhor. Depois, talvez ainda apareça outra mulher melhor que esta mulher melhor. Rude? Com certeza, mas muito comum.

De acordo com o IBGE, em 1989, ocorreram cerca de 830 000 casamentos e 75 000 separações. Em 1994, o número de casamentos baixara para 760 000 enquanto o de separações subira para 85 000. Ou seja: as pessoas ao mesmo tempo casam menos e se separam mais. Apesar disso, há quem acredite que o quadro pode se reverter daqui para a frente. "Foi-se o tempo da satisfação garantida ou minha liberdade de volta", afirma Vera Aldrighi, autora de uma pesquisa feita no ano passado sobre relações amorosas entre homens e mulheres, e que será publicada na íntegra na edição de maio da revista Claudia. "Hoje, os casais, sobretudo os de nível executivo, estão mais dispostos a cultivar e manter o seu casamento. E colocam isso como projeto de vida."

Será mesmo? Hoje, a luta pela melhoria da qualidade de vida é um item cada vez mais presente na agenda dos executivos. E uma boa relação afetiva tem tudo a ver com qualidade de vida. Mas ainda não se pode contestar a afirmação de que a coisa mais importante na vida dos homens é o trabalho. Os números da pesquisa citada acima comprovam isso. Para esse levantamento, foram entrevistados 880 homens e mulheres, casados, separados e solteiros, entre 20 e 49 anos, pertencentes à classe AB, de cinco grandes capitais brasileiras. Um dos resultados é que o sucesso e a realização profissional, de fato, ocupam o lugar de honra entre os ideais e objetivos de vida, tanto para homens como para - surpresa! - mulheres (89%). Logo em seguida, vem filhos saudáveis e família feliz (87%).

No capítulo dos problemas de relacionamento amoroso, a falta de romantismo e de diálogo ocupa o segundo lugar, com 30% das respostas. O primeiro lugar fica por conta do temperamento difícil (32%), o que, sem dúvida, é capaz de azedar qualquer tipo de relacionamento, incluídos os não amorosos. Diálogo e romantismo estão entre os ingredientes indispensáveis para a manutenção de uma boa relação a dois, como se poderá notar nos depoimentos que os executivos deram para esta reportagem. Se um dos membros do casal não tem liberdade de conversar abertamente, sem medo de que o parceiro se ofenda diante da primeira acusação, não há como conservar a relação saudável.

Igualmente importante, sobretudo para a mulher, é saber preservar o romantismo durante o casamento todo e não limitá-lo apenas à fase do namoro. Enfim, para que o casamento dos executivos cresça e se solidifique, é preciso que eles sejam mais que apenas bons provedores e façam outras coisas além de dormir em casa todas as noites. É necessário que saibam fazer com a mulher as coisas que gostariam que ela fizesse com eles: ouvir, ser companheiro e amigo, sentir prazer em estar junto da pessoa, ajudá-la a ter interesses próprios e participar da sua vida.

Observe o casal Robert e Tania Paris. Os dois são bem-sucedidos em suas carreiras de executivos. Têm duas filhas, Tabata, de 22 anos, e Natasha, de 20, já encaminhadas profissionalmente. Moram num bom duplex em Santo André, cidade do ABC paulista onde nasceram, e desfrutam de razoável folga financeira. Seu casamento, em suma, parece ir muito bem. Sorte? Não. Robert e Tania tiveram de investir pesado para conquistar esse sucesso, tanto no campo profissional como no campo afetivo e na vida em família. Seu caso, na verdade, oferece a primeira lição básica: para conciliar com êxito casamento e carreira, é indispensável que as pessoas trabalhem a sério, o tempo todo, com esse objetivo.

Quando se casaram, aos 20 anos de idade, os dois jovens da classe média trabalhavam, cursavam faculdade - ela de matemática, ele de engenharia química - e tinham três metas. Uma era subir na carreira, outra ter filhos cedo para serem ainda moços quando as crianças crescessem e a terceira, enfim, manter um casamento que realmente fosse a continuação da fase gostosa do namoro. São coisas que todo mundo quer, mas Robert e Tania aprenderam cedo que nada disso viria de graça. Para começar, o apartamento comprado pelo BNH não ficou pronto a tempo e o casal teve de morar num quarto alugado na casa de uma amiga durante seis meses. Os problemas de dinheiro eram permanentes - situação ideal para a criação de desentendimentos.

Foi preciso, em seguida, administrar outro problema delicado: profissionalmente, para Tania as coisas aconteceram antes que para Robert. Ela ingressou na GM aos 18 anos como estagiária de informática, liderou equipes de pequeno a grande porte, enfrentou toda sorte de desafios, viajou muitas vezes a trabalho e passou os últimos dez anos na EDS, subsidiária da GM, onde chegou à vice-presidência de marketing. (Saiu no ano passado e voltou para a escola, por vontade de se dedicar ao antigo hobby de decoração.) Robert, atualmente, é diretor de uma divisão de negócios da Serrana, empresa do grupo Bunge. Até as coisas se equilibrarem, entretanto, ambos tiveram de tomar muito cuidado para não deixar que o sucesso mais rápido de Tania e seu intenso envolvimento com a carreira não envenenassem a vida dentro de casa.

Entre nós sempre houve um nível grande de solidariedade", diz Tania. "Tanto em relação às conquistas e frustrações profissionais de um e outro como em relação aos afazeres domésticos e educação das meninas." Como funcionava essa solidariedade na prática? "Não cobrando a falta de tempo um do outro e estando pronto para passar uma noite inteira, se fosse preciso, ouvindo e ajudando o outro a solucionar os problemas de trabalho que eram trazidos para casa", diz Robert. Com o tempo o casal Paris foi descobrindo fórmulas próprias, "pequenos truques", como chamam, para impedir o afastamento conjugal.

Estipularam, logo de cara, o truque que chamam de last kiss: não poderiam dormir sem dar um beijo de boa noite, e este beijo não poderia ser dado se um estivesse magoado ou ressentido com o outro. Eram obrigados, assim, a conversar sobre a causa do problema até chegar a um consenso. É o tipo da coisa que dá trabalho. "Às vezes, conversávamos até as 2, 3 da manhã, apesar de termos de levantar cedo no dia seguinte", diz Tania. "As pessoas destroem um monte de coisas por não esclarecerem as dúvidas, por não se conhecerem. Essa atitude nos permitiu antecipar o que o outro quer e gosta", diz Robert. O casal compara a relação familiar aos projetos profissionais. "Em qualquer projeto de trabalho é preciso conferir todos os pontos para detectar e resolver os problemas a tempo." "É o que fazemos na vida pessoal", diz Tania.

A criatividade de Tania e Robert foi além das noitadas de diálogo. Nos tempos em que não sobrava dinheiro para jantares fora e viagens, os dois decidiram que, a cada promoção ou aumento de salário que tivessem, a diferença em dinheiro só seria incorporada às despesas rotineiras a partir do segundo mês. Dessa forma, ao menos duas vezes por ano, tinham condições de jantar num restaurante de luxo ou ir a uma boate se divertir. Quando os dois perceberam que suas noites estavam sendo invadidas pelo trabalho, além do razoável, decretaram que as quintas-feiras seriam sagradas. Nesse dia, ninguém poderia marcar compromissos ou trabalhar até tarde. "Sempre demos um jeito de reservar períodos para a manutenção do casamento", diz Robert.

Crises conjugais? Sim, apesar de todos esses esforços. Tania e Robert tiveram uma que durou seis meses. "Saíamos muito, e quando nasceu nossa primeira filha percebemos que nossa liberdade tinha sido prejudicada", diz Tania. Foi uma época de frustrações e impaciências, terreno fértil para o desenvolvimento das depressões que costumam acompanhar a perda de um estilo de vida. O casal enfrentou a situação aplicando o princípio de esquecer o ideal e viver o possível. "Passamos a levar nossa filha a todos os lugares que freqüentávamos", lembra ela. Segundo dizem, só conseguiram pôr em prática as regras rígidas que se impuseram por prezar seu casamento e saber que, sem atenção, ele não sobreviveria. "Nós temos um sistema de valores e sabemos que a vida está sempre tentando invertê-lo. Se deixarmos, poderemos cair facilmente em armadilhas", afirma Tania.

E quando a carreira é um valor fundamental apenas para um dos dois, quase sempre o homem, como acontece com tanta freqüência? Para o casal carioca Eduardo e Lulude Jácome, o completo envolvimento da mulher no trabalho do marido é indispensável para o sucesso da carreira e do casamento. Eduardo, 40 anos, é gerente de RH da IBM no Rio de Janeiro, e Lulude, 39, dona de casa. Eduardo e Lulude dizem ter enxergado, desde o começo de casados, há quase vinte anos, a importância de crescerem juntos para não permitir que se impusesse entre eles uma perigosa distância cultural, intelectual e de interesses. Como fazer isso na prática, se a mulher não tem uma vida profissional? "Participando ativamente do trabalho do marido, entendendo o que ele faz, fazendo perguntas, aprendendo, se interessando pela vida e pela carreira dele", diz Lulude. Ela se diz convencida de que a mulher de um executivo tem de tomar para si a carreira do marido, como se trabalhasse com ele.

Eduardo nem tenta deixar na empresa os problemas de trabalho. Faz questão de levá-los para casa e dividi-los com a mulher. "Lulude é, tranqüilamente, a minha melhor amiga", afirma Eduardo. "Minha relação com ela é tão aberta, que posso levar qualquer coisa para casa com a certeza de que ela não só vai me escutar e entender como também ajudar." Um hábito que os dois consideram importante para manter um bom relacionamento é fazer juntos tudo o que for possível. Isso vale desde a ida ao supermercado e arrumação das compras na despensa até a escolha das carnes e a prática de esportes (os dois correm 8 quilômetros, dia sim, dia não, na beira da praia). Outra regra prática: Lulude costuma levar e buscar Eduardo no trabalho só para conversar um pouco no caminho.

Não deixamos que as tarefas do dia-a-dia nos separem mais que o necessário", diz ela. Até os jornais o casal diz ler junto. À medida que vão lendo, um passa para o outro as notícias que podem interessar. Na época do Plano Collor II, Eduardo estava nos Estados Unidos fazendo um curso de vinte dias. Quando voltou, encontrou uma papelada preparada por Lulude sobre o que mudara. "Boa parte do meu sucesso profissional de hoje devo a minha mulher", afirma Eduardo. De acordo com Eduardo e Lulude, seu bom entrosamento conjugal se reflete na relação com os filhos Ana Carolina, 16 anos, e Luiz Felipe, 18. O casal conta que numa noite de sábado, um mês atrás, os quatro se juntaram em volta da mesa da cozinha para um lanche às 8 horas da noite e só levantaram às 2 da manhã, para dormir. Ninguém se lembrou de sair.

A falta de dinheiro atrapalha qualquer casamento. Mas não existe relação que consiga crescer e se manter saudável só pelo conforto que o dinheiro pode proporcionar. De acordo com a pesquisa da revista Claudia, apenas 15% dos entrevistados afirmam ter desentendimentos por causa de dinheiro. O empresário Salim Mattar, 46 anos, dono da Localiza, montou uma empresa que se tornou a maior locadora de carros do Brasil, mas nem todo o dinheiro que ganhou foi capaz de lhe dar sucesso em seu primeiro casamento.

Foram dez longos anos de tentativas. Hoje, Mattar reconhece que não investiu o que deveria na qualidade do seu relacionamento, e pagou o preço por isso. "Eu me dedicava de corpo e alma ao trabalho e não encarava o casamento como uma prioridade", diz Mattar. "Vivia feliz por meus negócios estarem indo bem. Naquela época, meu objetivo era realizar meus sonhos. E meus sonhos eram os meus negócios." Mattar casou pela segunda vez, apaixonado, conforme afirma, por uma moça quinze anos mais nova, Adriana. Mattar tem três filhas com Adriana - Tatiana, de 7 anos, Sarah, de 5, e Sophia, de 3 - e afirma procurar cumprir a promessa que fez a si mesmo de se empenhar no sucesso da relação.

De que tamanho é esse empenho? Ao trabalho Mattar continua dedicando 14 horas de cada um dos seus dias (chega ao escritório às 6h45 da manhã e sai entre 9 e 9h30 da noite), fora as duas ou três viagens que faz por semana. Para compensar, tira sessenta dias de férias por ano, além de passar os fins de semana e feriados com a família.

Sempre que a mulher não pode acompanhá-lo por alguma razão, Mattar diz ser capaz de, por exemplo, ir a São Paulo e voltar para Belo Horizonte no mesmo dia só para dormir em casa, mesmo sabendo que no dia seguinte tem de estar novamente em São Paulo. "Adriana cozinha pessoalmente os pratos de que gosto e me espera para jantar todas as noites, mesmo que eu chegue tarde", afirma ele. O lugar das férias de verão é escolhido pelas filhas. Na Páscoa o roteiro é sempre a Disney World. Duas vezes ao ano os dois viajam sozinhos e outras quatro ou cinco vezes as crianças os acompanham.

Para Mattar, é fundamental que a mulher de um executivo entenda que o sucesso custa caro e que ele não é, no fundo, o dono da sua agenda. "Se eu não puder estar presente em uma data significativa para a família, paciência. O importante é não deixar de comemorar, mesmo que dias depois", diz ele. Em seu primeiro casamento, essas datas eram completamente esquecidas. "A ausência de pressão familiar é prioritária para a redução do nível de estresse e saúde do casamento", diz Mattar. Adriana, a quem ele classifica como uma mãe e esposa profissional, afirma que o casamento "quase perfeito". "Só gostaria que ele trabalhasse menos."

Atenção demasiada ao trabalho pode mesmo destruir a relação. Foi o que aconteceu com o casamento de Noemia de Oliveira Novaes, 48 anos, executiva e sócia do escritório de advocacia Pinheiro Neto. Noemia fez uma carreira rápida como advogada. Dois anos depois de ingressar na empresa, foi enviada à França por três anos para tomar conta dos escritórios de Paris e Londres. O marido, um advogado dez anos mais velho e dono de outro escritório, a acompanhou. Na época, Pinheiro Neto ofereceu a Noemia participação na sociedade. Ela aceitou. Mal voltou ao Brasil, foi designada para cuidar de projetos de clientes na África, fase em que perdeu a conta do número de viagens feitas a países daquele e de outros continentes.

Noemia se considerava uma boa mãe para os filhos João Batista, 17 anos, e José Augusto, 10. Encontrava tempo para almoçar em casa, levar os meninos à escola, fazê-los dormir e dedicar-lhes os fins de semana. Comprometia boa parte de seu salário em ligações internacionais para a família. Achava que seu casamento ia bem pois não tinha brigas ou discussões com o marido e, não raro, saía com ele para jantar e dançar. Até que, cinco anos atrás, o marido pediu a separação. "Ele alegou que o motivo foi o meu sucesso profissional", afirma Noemia. Ela propôs fazerem terapia de casal para tentar resolver a questão. Ele não concordou.

Noemia atribui o naufrágio conjugal ao ritmo de vida de cada um. O marido, segundo ela, sempre preferiu uma vida sossegada, sem grandes tropeços e aflições. Ela se diz o contrário. "Eu venho de uma geração em que a mulher tinha de ser três vezes melhor que o homem para ocupar um cargo", diz Noemia. Noemia não tornou a casar. Segundo afirma, não encontrou ninguém de sua geração que seja compreensivo para entender seu ritmo de vida.

Um ponto de extrema importância para o sucesso do casamento é evitar que as pequenas desavenças tão comuns no dia-a-dia de grande parte dos casais cresçam e assumam peso desproporcional a seu real tamanho. Uma a uma, elas podem não ser suficientes para causar brigas sérias. Mas é a somatória das irritações que mina os relacionamentos. O executivo Waldir Luiz Corrêa, presidente do Instituto Brasileiro dos Executivos de Finanças e dono de uma consultoria especializada na mudança do perfil de médias empresas, dá um exemplo de como combater na prática esse tipo de crise potencial.

Para ele, manter funcionando todas as coisas materiais que cercam a vida da sua família é um antítodo contra irritações. "Na minha casa não há nada quebrado", diz ele. "As portas abrem e fecham, os aparelhos funcionam, as lâmpadas acendem e os carros andam direito. Tanto eu como minha mulher sempre investimos na nossa casa. Eu faço a minha parte e ela, a dela. Assim, não trocamos acusações do gênero você ainda não mandou consertar essa torneira ." Coisas desse tipo ajudam muito, embora, obviamente, não solucionem todos os problemas.

O casamento de Waldir, 47 anos, e sua mulher, Carmen, 44, uma advogada que trabalha com direito de família, foi recheado de brigas por muito tempo, conforme ela afirma. "Quando começamos a namorar, eu tinha 13 anos e o Waldir, 16. Foram oito anos de namoro, mais 23 de casamento, ou seja, tudo o que somos e sabemos aprendemos juntos", diz Carmen. Waldir afirma considerar vital o crescimento simultâneo. "Não posso imaginar um casamento no qual o homem evolui e a mulher fica para trás. Sempre incentivei Carmen a estudar, trabalhar, ter uma vida própria e conquistar o seu universo", afirma. Waldir considera, também, primordial que o homem executivo saiba fazer da companheira uma ativa participante da sua vida profissional.

Sua tática, para isso, é unir os compromissos de negócios à vida social. "Nas viagens e nos jantares de trabalho, já está implícito: a Carmen vai junto", afirma ele. Embora para Carmen o sucesso do casamento esteja quase que totalmente nas mãos da mulher, Waldir é consciente de que na vida moderna, na qual o casal sai para trabalhar, é necessário que o homem colabore dentro de casa muito mais que antigamente. "Nas horas de folga eu não faço o que quero. Minha preocupação é saber o que minha família quer", diz ele.

Essa frase de Waldir é o que a imensa maioria das mulheres do mundo gostaria de ouvir de seus maridos. Quem não conhece uma enorme quantidade de maridos que aproveitam os fins de semana para fazer esporte, tomar chope com os amigos, dormir a tarde inteira e mais nada? Para eles, em primeiro lugar estão os seus desejos e necessidades. Depois, se sobrar tempo, está a família. "Fazer coisas para o relacionamento muitas vezes significa deixar de fazê-las no plano individual", diz o psiquiatra especializado em terapia familiar Cirilo Tissot, sediado em São Paulo.

Waldir declara fazer questão de ser amigo dos filhos (Alessandra, 22 anos, Fabio, 20, e Fernando, 18) e dos amigos dos filhos. "Não vou para casa mais que os outros, mas vou inteiro", diz Waldir. Ele bate, aí, num ponto-chave: o fato de que muitos executivos, quando chegam em casa, querem sossego para ver televisão ou falar ao telefone. Ou seja: vão para casa, talvez até mais cedo que outros, mas na verdade não vão. Continuam fechados no seu mundo, e o resultado é que a mulher fica sozinha o dia todo, esteja ou não o marido em casa.

Waldir recomenda nunca esquecer de alimentar o romantismo na relação com a mulher. No Natal e aniversários, por exemplo, ele garante não deixar de comprar uma lembrança para cada filho presentear a mãe. "Meu prazer é surpreender minha mulher", afirma. Outra sugestão: criar projetos comuns. É uma arma eficiente para manter acesas as conversas entre o casal. Um exemplo? "Adoramos viajar", diz Waldir. "Então, para estarmos sempre com a perspectiva real de um programa juntos, temos viagens programadas até o ano 2000."

Profissionais em terapia matrimonial podem ajudar. Natalísio de Almeida, um dos vice-presidentes do Banco de Boston, é filho único e perdeu o pai poucos meses após sua filha, Mariana, hoje com 13 anos, ter nascido. De um dia para o outro a mãe e as duas irmãs pequenas passaram a ser responsabilidade dele. Sua família, que tinha apenas três membros, dobrou. Essa mudança afetou o relacionamento entre ele e a mulher, Sonia. A saída foi procurar ajuda externa para resolver o problema.

"Tivemos de reconstruir nossa vida", diz Sonia. "Fizemos algumas viagens sozinhos, aprendemos a conversar mais e adotamos o hábito de reservar as noites de sexta-feira e as manhãs de sábado para programas só nossos." Natalísio afirma que hoje se esforça para chegar em casa até as 7h30 da noite. "O relógio das pessoas que estão esperando pela minha volta corre de forma diferente do que corre no trabalho", diz ele.

Sonia afirma que a crise conjugal reforçou sua convicção da importância de ter vida própria. Viaja sozinha com a filha nas ocasiões em que o marido não pode acompanhá-las, e mantém, constantemente, uma atividade profissional. Ela acaba de adquirir uma franquia do Café do Ponto. Natalísio aplica, em relação à mulher, o mesmo princípio usado no desenvolvimento de um novo produto. (A área faz parte de suas atribuições no Banco de Boston.) "Procuro pensar com a cabeça do consumidor, imaginando o que ele deseja do produto. Na vida pessoal, eu sou o produto e minha mulher e filha, os consumidores", diz Natalísio.

Terapias de casal como a que fizeram Natalísio e Sonia costumam durar de seis meses a um ano. De acordo com a terapeuta de casais Maria Rita Seixas, que tem consultório em São Paulo, um sentimento comum entre as mulheres de executivos é o do abandono. Enquanto os homens crescem, elas ficam estagnadas e vivendo em função dos filhos até se darem conta de que perderam o interesse dos maridos. Tornam-se chorosas e chatas, o que só piora a situação. "É grande o número de separações de casais na faixa dos 45 aos 55 anos, fase em que o homem ainda está no auge, os filhos já são independentes e a mulher está cansada, desgastada, perdida e sem saber o que fazer da vida", afirma Maria Rita. "A mulher pode prevenir essas situações estando sempre atenta para toda e qualquer mudança no relacionamento, impedindo o distanciamento através de diálogo e se esforçando para não ser apenas mãe e dona de casa. O que empobrece a mulher não é ser mãe e dona de casa. É ser só mãe e dona de casa."

A história do industrial José Lúcio Costa, 52 anos, um dos donos da Suggar, empresa mineira produtora de eletrodomésticos, que fatura 60 milhões de dólares por ano, mostra a importância de os dois membros do casal terem objetivos próprios além dos comuns, e estarem prontos para crescer e mudar. O casamento, há 24 anos, não impediu que Patrícia, sua mulher, prosseguisse o curso de decoração de interiores que fazia. Em termos de atividades, porém, Patrícia não exercia nenhuma além de ter um filho atrás do outro. Foram quatro no total.

Encerradas as passagens pela maternidade e a fase das fraldas e mamadeiras, Patrícia entrou na ginástica, emagreceu, fez plástica e voltou para a escola. Freqüentava as aulas noturnas do curso de engenharia civil enquanto Lúcio ficava em casa tomando conta das crianças, sem prática em lidar com elas e, segundo ele mesmo admite, perturbado por ciúmes da mulher. Ou seja, ele não estava preparado para conviver com a nova mulher, embora considerasse importante ela ter ideais próprios e poder realizá-los. A solução para o problema? Psicanálise.

"Fiz, faço há nove anos e recomendo", diz ele. "Percebi que é preciso manter a mulher apaixonada, e isso só se consegue tratando-a com muito amor e carinho, prestando-lhe atenção e fazendo-a sentir-se querida." Na opinião de Lúcio, a maioria dos homens que têm problemas no casamento não percebe que as mulheres querem que o romantismo do tempo de namoro perdure para sempre. "Aprendi a deixar meu preconceito machista de lado e a conviver com as coisas do jeito que elas são e não como eu gostaria que fossem", afirma Lúcio.

A terapeuta Maria Rita alerta para o perigo de o executivo se transformar, puramente, num trabalhomaníaco. "A personalidade do homem fica empobrecida, pois ele passa a desenvolver um só papel: o de profissional", diz ela. Na opinião do psiquiatra Pablo Roig, que também tem consultório em São Paulo, o executivo que passa o domingo aflito aguardando a chegada da segunda-feira para trabalhar se vicia tanto no convívio profissional que não consegue mais se acostumar com o convívio familiar.

"Isso é conseqüência da alteração que foi ocorrendo no esquema social deste século", diz Roig. "Hoje, o furor pelo êxito e a importância que os indivíduos dão ao lugar que ocupam na pirâmide social levam o homem a colocar a família em segundo plano." Os resultados da dedicação exagerada ao trabalho são graves não só para o casamento como para os filhos. "O modelo de relacionamento que os pais vivem será seguido pelos filhos", diz Maria Rita. "Se homens e mulheres não cumprem os papéis de pai e mãe, marido e mulher como se deve, os filhos terão um modelo errado para seguir."

Algum tempo atrás, ela e alguns colegas terapeutas fizeram uma pesquisa com 100 adolescentes de um colégio da classe média alta de São Paulo para saber o que pensam em relação ao casamento e à vida em família. Eles disseram que dão muito valor à relação familiar, mas afirmaram não querer as mães dentro de casa. Também criticaram os pais que só trabalham e dão pouca atenção à mãe e à família. Indagados sobre como se comportariam quando casassem, responderam que da mesma forma que os pais. "A gente vê claramente como a força do modelo é grande e poderosa", diz a terapeuta.

O presidente da emissora de filmes HBO no Brasil, Marcelo Milliet, 35 anos, é outro que diz que, sem suor, sem esforço para manter a chama no casamento, não há salvação. "Não adianta esperar que apareça um tempo extra para dedicar à família", diz Marcelo. "É preciso criar tempo, seja para atender ao telefone quando a mulher liga, seja para sair mais cedo quando a situação pede." Marcelo, casado com a advogada Renata, julga não ter sabido balancear bem as coisas durante seu primeiro casamento. Hoje, embora não consiga trabalhar menos de 12 horas ao dia, ele diz investir na qualidade dos momentos que passa em casa, marcando bem sua presença. "É preciso dar algo em troca da ausência diária. Ser familiaholic é a melhor saída", diz.

Mari Emmanouilides Pereira, 39 anos, executiva do banco de investimentos Merrill Lynch, e seu marido, Sérgio Pereira, 43, dono de uma empresa de áudio e vídeo, são de opinião de que há alguns indicadores de que o relacionamento é saudável e gratificante. O primeiro é o casal ter a capacidade de rir e se divertir a dois. A cena do casal sentado à mesa do restaurante fazendo a refeição completamente mudo já se tornou célebre. Quem não presenciou? "Se estamos com amigos, nos divertimos muito. Se estamos sozinhos, nos divertimos mais ainda", afirma Mari. "Não é raro sairmos só os dois para jantar e passarmos 4 ou 5 horas seguidas conversando. O assunto nunca acaba."

O segundo indicador do casal Pereira é encarar a casa como uma empresa que produz mais se for administrada em conjunto por marido e mulher. Este é outro foco de discórdia entre os casais. Na maioria dos casos o homem considera as tarefas caseiras uma obrigação exclusiva da mulher. "Nós dois saímos para trabalhar. Se ao chegar em casa a Mari ainda tiver de resolver problemas, certamente vai ficar sobrecarregada", afirma Sérgio. Na ausência da empregada, Mari prepara o café da manhã e Sérgio tira a mesa. Se quem põe a louça na máquina é Mari, cabe a Sérgio tirar e guardar no armário. É assim que os dois resolvem as compras de supermercado, açougue e peixaria, bem como chamar o técnico para consertar a máquina de lavar ou o que for. "É a melhor maneira de garantir que os afazeres domésticos não pesem mais sobre um que sobre o outro e evitar acusações desnecessárias", diz Sérgio.

Sérgio tem uma imagem para a vida conjugal. "Casamento é como chiclete", afirma. "Não se pode deixar o açúcar acabar para que não sobre só aquela borracha horrível." A receita que Mari e Sérgio dizem aplicar em sua união inclui ainda ingredientes como nunca lavar roupa suja fora de casa, não desautorizar o parceiro na frente de outras pessoas e saber ceder. Claro que você pode usar todos esses ingredientes e ainda outros mais, e, mesmo assim, ver seu casamento ir pelo ralo. Acontece. Mas o pior dos mundos é imaginar que o sucesso de um casamento é questão de sorte. É, como aliás quase tudo na vida, uma questão de suor. O esforço é, quase sempre, recompensado.

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