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14/01/1998 00:00

Quem faz o pano faz a roupa

Com os concorrentes asiáticos no calcanhar, a Coteminas triplicou as vendas nos últimos cinco anos. Agora, quer ir mais longe

Ricardo Galuppo, EXAME
"Não queremos ser melhores do que eles apenas no Brasil", diz o empresário Josué Christiano Gomes da Silva, vice-presidente executivo da Coteminas. "Eles" são os fabricantes de tecidos de Hong Kong, de Taiwan, da Coréia do Sul e de outros pontos da Ásia. Entre 1992 e 1997, período em que a indústria têxtil brasileira viveu sob ameaça da concorrência oriental, a Coteminas quase triplicou suas vendas. A receita foi equivalente a 108 milhões de reais em 1992. Chegará, no balanço de 1997, aos 300 milhões de reais ou um pouco mais do que isso, conforme estimativas de analistas de mercado. Nesses cinco anos, a empresa não teve um ano de prejuízo. Desde 1994 seu lucro anual nunca foi menor que 50 milhões de reais - e o de 1997 não deverá ser diferente. "Queremos competir com os asiáticos aqui, na América do Norte, na Europa e até na própria Ásia."

Quem não o conhece e ouve essa afirmação pelo telefone imagina do outro lado da linha alguém pelo menos 10 anos mais velho. O tom é firme, mas não desafiador. A voz, grave e impostada como a de um locutor de FM, não combina com seus 34 anos, completados no último 25 de dezembro, dia de Natal - daí o Christiano de seu nome. O palavreado, finalmente, é formal demais para uma pessoa tão jovem. "Achamos positivas todas as referências elogiosas que fazem a nosso respeito", diz Josué, exatamente com essas palavras, referindo-se aos comentários que os analistas de investimentos fazem sobre a Coteminas. "Mas ainda somos um projeto em fase de implantação."

Raras organizações de porte estão hoje sob o comando de quem deverá administrá-las pelas próximas três décadas, pelo menos. Quando Josué fala do futuro da Coteminas, é de seu próprio futuro que está falando. A empresa, que até aqui se destacou como fornecedora de tecidos para a indústria de confecções, quer ir mais longe - e seus movimentos têm sido observados por muita gente.

"A Coteminas é uma empresa premium com alto potencial de crescimento", diz um relatório do banco Garantia que recomenda a investidores estrangeiros a compra de ações da companhia. De acordo com uma reportagem especial da edição da revista inglesa The Economist do dia 6 de dezembro passado, ela é uma das organizações que estão mudando a face da economia latino-americana neste final de milênio. A revista americana Business Week a considerou, em outubro de 1997, uma empresa latino-americana de classe mundial e se referiu a ela como "uma das produtoras de tecidos de custos mais baixos do mundo". É esse tipo de "referências elogiosas" que Josué considera positivas.

Entre 1992 e 1997 foram investidos 500 milhões de dólares em novas instalações e novos equipamentos como parte da estratégia de alcançar a liderança de custos na produção de tecidos. O dinheiro saiu do caixa, de chamadas de capital e do lançamento de títulos no mercado internacional. Financiamento no mercado interno, só a juros especiais. A primeira etapa, a dos investimentos em modernização do maquinário, está concluída e foi importante para a empresa se defender dos efeitos da concorrência. A ordem, agora, é atacar. "A indústria têxtil mundial evoluiu muito nos anos em que o mercado brasileiro ficou fechado", diz o consultor independente Vicente Bastos, do Rio de Janeiro, especialista no setor. "Deixou de ser intensiva em mão-de-obra e passou a ser intensiva em capital." Outra característica da indústria, segundo Bastos: é cada vez mais estreita a linha que separa a indústria de tecidos da de confecções. Quem faz o pano quer fazer a roupa - e é para esse mercado que a Coteminas está se voltando.

CONSUMIDOR FINAL - Até o ano de 2002, a intenção é chegar às lojas com marcas próprias de artigos de consumo final. Além das camisetas de malha, que já produz, a Coteminas quer fazer lençóis, toalhas e meias. Daí por diante, a intenção é instalar fábricas no México, de onde pretende atingir o mercado americano, e diversificar ainda mais sua linha de artigos de vestuário. (Maria da Graça, a irmã mais velha de Josué, que também trabalha na Coteminas, dedica-se desde o ano passado a fazer cursos de moda nos Estados Unidos e na Europa.)

A Coteminas é uma empresa jovem num setor onde não é raro encontrar nomes centenários (a catarinense Hering e a mineira Cedro e Cachoeira são dois exemplos). A primeira de suas fábricas foi inaugurada 22 anos atrás, na cidade mineira de Montes Claros, pelos empresários José Alencar Gomes da Silva, pai de Josué e acionista controlador, e Luiz de Paula Ferreira. A empresa começou fabricando apenas o tecido cru. Passou, em seguida, a produzir tecidos estampados e se expandiu em direção ao Rio Grande do Norte e à Paraíba. Hoje são sete fábricas em funcionamento e mais duas em construção. Dos 5 000 empregados da empresa, cerca de 500 são operários da construção civil que trabalham nas obras das novas unidades.

A virada em direção ao consumidor final começou em 1996. Naquele ano, a Coteminas passou a produzir numa de suas plantas (que até 1997 se chamava Wentex e agora é conhecida como Coteminas IV) as camisetas de malha da marca Jamm. Feitas em Natal, Rio Grande do Norte, na unidade que os donos asseguram ser "a mais moderna do gênero em todo o mundo", as camisetas Jamm foram lançadas para custar pouco. Para cada camiseta são necessários dois minutos de trabalho humano - o que significa 5 centavos de gastos com mão-de-obra por peça. Quase toda a produção é automatizada - o que permitiu à Coteminas apresentar ao mercado suas camisetas como mais baratas do que as asiáticas.

Conforme a concorrência, existe um mito em torno da camiseta mais em conta do que a similar chinesa. O preço de 75 centavos de dólar a peça, apresentado pela Coteminas, é o do produto destinado à exportação - ou o que efetivamente fica para a empresa depois de pagos os impostos. No mercado interno, cada camiseta acaba sendo vendida por 1,15 dólar, sem o frete. Nesse caso, o preço é quase igual ao do produto da concorrente Fibrasil. A empresa do grupo Vicunha recebe 1,20 dólar pelas camisetas que confecciona em sua fábrica pernambucana - já incluído o fre-te. "Nossas camisetas são tão competitivas quanto as deles", diz Bento Bravo, superintendente da Fibrasil. "Com a vantagem de que as nossas são de puro algodão e as deles de algodão com poliéster."

Pode ser, mas a Coteminas vem se saindo melhor nessa disputa. Conforme dados da Associação Brasileira da Indústria Têxtil, a Jamm assumiu a liderança do mercado em seu primeiro ano de vida. Em 1997, produziu 4,5% dos 750 milhões de camisetas vendidos no Brasil. E boa parte das camisetas da marca Hering, a segunda colocada, com 4% do mercado, foi confeccionada pela Coteminas. "Em 1998, ano de Copa do Mundo e de eleições, a venda de camisetas deve aumentar em pelo menos 10%", afirma Tobias Stingelin, analista de investimentos do banco Patrimônio.

Na embalagem das camisetas Jamm há um selo que diz: "Orgulhosamente produzido no Brasil pela Coteminas". A intenção, de agora em diante, é imprimir esses dizeres nas embalagens de mais artigos. A Coteminas é a maior fabricante brasileira de tecidos para roupa de cama, mas toda sua produção, até aqui, é destinada a confecções que a transformam em fronhas e lençóis. A idéia, agora, é chegar ao mercado com artigos de nomes conhecidos como Santista, Garcia, Calfat e alguns outros destinados ao mercado argentino. Essas marcas foram compradas da Artex (que por sua vez as comprara da Santista) num contrato que envolveu a incorporação pela Coteminas de uma fábrica do grupo catarinense, a Toalia, em João Pessoa.

Pelo contrato com a Artex, a Coteminas assume a administração da Toalia, fabricante de tecidos para roupas de banho, com o compromisso de investir 25 milhões de dólares na sua modernização. Com isso, a empresa da família Gomes da Silva ganha também o direito sobre a marca Artex no Brasil e no exterior. Também está nos planos da Coteminas fabricar meias e ampliar sua capacidade de produção de camisetas dos atuais 62 milhões de peças para 144 milhões por ano.

O plano de transformar a Coteminas em fabricante de produtos finais foi elaborado por Josué. É ele quem toca a empresa desde 1994. Naquele ano, o patriarca José Alencar deixou a direção executiva para disputar o governo de Minas Gerais (foi o terceiro colocado, com quase 1 milhão de votos). Desde então, é Josué o primeiro homem da Coteminas, embora seu pai ainda conserve o posto de presidente.

Num encontro pessoal, Josué continua, pelos modos sóbrios e pelas roupas formais, dando a impressão de ser mais velho do que é. Os ternos, sempre escuros, parecem cortados pelo mesmo alfaiate de José Alencar, hoje com 66 anos de idade. O pai usa camiseta de malha sob a camisa mesmo nos dias mais quentes do verão. Ele também. "Gostaria que todo brasileiro tivesse o mesmo hábito", diz Josué.

Ele ri ao dizer essa frase. É um riso largo e sonoro, outra de suas semelhanças com o pai. As feições do rosto seriam seu único traço de juventude se Josué não trouxesse um detalhe escondido sob o punho da camisa. É um relógio de mostrador digital e pulseira de borracha verde, desses usados por mergulhadores. O desbotado da pele, no entanto, não deixa dúvidas: Josué não mergulha, caminha raramente e quase nunca se expõe ao sol. De segunda a sexta (e às vezes aos sábados e domingos), chega a seu escritório, na Avenida Paulista, em São Paulo, às 7 da manhã e só sai depois das 9 da noite.

Com os novos projetos, a Coteminas poderá chegar a 1999 com uma receita de 760 milhões de dólares, conforme análise do Garantia. Na avaliação do banco Patrimônio, existe a possibilidade de chegar a 1 bilhão de dólares no ano 2000. Isso é o que está no papel. A pergunta é: será que existe no setor têxtil brasileiro espaço para uma organização como a Coteminas pretende ser?

Só para lembrar: o grupo Vicunha, o maior do setor, optou pela diversi-ficação de seus investimentos. Hoje ele controla a Vale do Rio Doce e a Companhia Siderúrgica Nacional, ganhou a concorrência da banda B da telefonia celular no Nordeste e está em outras frentes. Não abandonou - nem pretende - seu negócio original, mas deixou claro que não deseja depender apenas do ramo têxtil no futuro. A Coteminas quer ser uma empresa têxtil e integrada da cabeça aos pés: quer fazer do fio de algodão ao produto final.

É bom lembrar, também, que as pessoas usam e continuarão usando roupas - e sempre haverá lugar para a empresa (brasileira, coreana, italiana ou senegalesa) que oferecer produtos de boa qualidade por preços competitivos. É aí que a Coteminas pretende se firmar. O certo, no entanto, é que o bilhão de dólares que poderá faturar no ano 2000 só virá se a empresa concluir todos os seus projetos, se suas fábricas produzirem tudo o que delas se espera e se toda a produção for vendida.

Trabalhando para isso, pelo menos, a Coteminas está. O meio bilhão de dólares que investiu nos últimos cinco anos na construção de novas fábricas e na compra de teares e máquinas para fiação e acabamento reduziu a idade média de seus equipamentos para dois anos e meio. Nesse quesito, é um dos melhores índices da indústria têxtil em todo o mundo. No parque fabril brasileiro, os teares têm em média 23 anos. Apenas 32% das máquinas de fiação em operação no país têm menos de 10 anos (na Coteminas, quase 100% delas ainda não completaram uma década). Em Taiwan, 52% dos equipamentos de fiação têm menos de 10 anos. Na Itália são 70% e em Hong Kong 76%.

PRIMEIRO DA CLASSE - A atualização tecnológica é apenas um dos fatores que permitem à Coteminas olhar os concorrentes asiáticos, nas palavras de Josué, "com respeito, mas sem medo". Há outros:

Todas as fábricas da empresa estão localizadas em regiões beneficiadas pelos incentivos fiscais da Sudene.

A Coteminas paga a uma costureira de sua fábrica de camisetas um salário de aproximadamente 180 dólares por mês, fora os encargos sociais. No sul do país, a média mensal é superior a 400 dólares.

O custo da energia elétrica no Nordeste é mais baixo. A Coteminas paga cerca de 40 dólares por megawatt/hora de energia que consome. O preço do megawatt/hora cobrado das malharias de Santa Catarina é de 55 dólares.

Essa receita deu certo até agora na produção de tecidos. Ela será repetida na investida da Coteminas em direção aos artigos de consumo. Ou melhor, será reforçada. A Coteminas está investindo em energia. Em parceria com a Cemig, a estatal mineira de eletricidade, e com a Vale do Rio Doce, ela está construindo a hidrelétrica de Porto Estrela, no Rio Santo Antônio. A usina custará 90 milhões de dólares, e a Coteminas entrará com 33% do dinheiro. Com isso, reduzirá em 38% os gastos com eletricidade, responsáveis por 10% dos custos das fábricas da empresa na cidade de Montes Claros, na área mineira da Sudene. Também construirá em Natal uma termelétrica que suprirá parte da eletricidade utilizada pelas fábricas da Paraíba e do Rio Grande do Norte. A usina será construída em parceria com a americana Enron, líder mundial em aproveitamento do gás natural.

É por detalhes desse tipo que convém olhar com atenção para os planos de expansão da Coteminas. Eles vêm sendo estudados por Josué desde o final dos anos 80, quando fez seu MBA na universidade americana de Vanderbilt. Josué embarcou para os Estados Unidos depois de se diplomar em engenharia civil e direito, em Belo Horizonte. Já sabia, é claro, que sendo filho do dono tinha vaga garantida na Coteminas quando regressasse. Ao voltar, em 1990, trouxe, além do título, a medalha Cornelius Vanderbilt, que ganhou como o melhor entre os mais de 200 estudantes do curso. "O plano de produzir camisetas foi 100% do Josu", diz José Alencar, com um sorriso largo (de orgulho, mesmo) no rosto. "Hoje em dia, eu estudo o que ele sugere e digo se pode ou não ir adiante."

MENOS IMPOSTOS - A primeira resposta de José Alencar ao projeto de diversificação da Coteminas, apresentado em 1995, foi "não pode". A intenção inicial era comprar uma fábrica da Hering no Nordeste, modernizá-la e passar a produzir ali suas camisetas. Josué insistiu e José Alencar acabou se convencendo. Quando isso aconteceu, o grupo Vicunha havia mostrado interesse pela fábrica e feito à Hering uma oferta melhor que a da Coteminas. Então, em vez de adquirir uma empresa pronta, a Coteminas construiu, com 60 milhões de dólares que captou no mercado internacional, uma fábrica zero-quilômetro. Deu certo. Desde então, quase todas as idéias apresentadas por Josué recebem um "pode" como resposta. E não têm sido poucas.

Foi de Josué a idéia, executada ao longo de 1997, de separar os negócios da família em dois grupos distintos. Uma nova empresa, batizada com o nome de Encorpar, foi criada para abrigar os negócios que nada tinham a ver com a produção de tecidos. Ela ficou com um hotel em Belo Horizonte, o Wembley, duas fazendas, alguns imóveis e com as participações que os Gomes da Silva detêm em outras duas empresas de tecidos. São deles 25% da Cedro e Cachoeira e 35% da Tecelagem São José, duas das mais tradicionais empresas têxteis de Minas Gerais.

Na Coteminas, ficaram o escritório de São Paulo e as fábricas. O objetivo foi fazer com que os balanços passassem a expressar a realidade operacional da Coteminas e dessem a seus 5 000 acionistas (entre os quais se encontram investidores como o fundo de pensão dos professores da Califórnia e o fundo de pensão da General Motors mundial) mais clareza sobre o andamento do negócio. Foi, também, uma medida de economia. Como empresas isoladas, as sete fábricas da família tinham de recolher a CPMF, o PIS e o Cofins sobre os negócios que faziam entre si. Juntas, ficarão livres de parte desses tributos.

A elaboração do plano tomou a maior parte do tempo de Josué, prolongou o seu expediente e fez com que descuidasse um pouco da forma no primeiro semestre de 1997. Há três meses, ele trocou os sanduíches, que comia com pressa no almoço, e as massas do jantar por saladas e carnes brancas, grelhadas. Emagreceu 11 quilos (está com 80 quilos, peso quase normal para quem mede pouco menos de 1,80 metro). A dieta, que passou a seguir com disciplina rigorosa por insistência dos pais e da mulher, Cristina (estão casados há 10 anos), não foi interrompida nem nos dias tensos que viveu no final de outubro, nos Estados Unidos e na Europa.

A viagem, agendada com dois meses de antecedência, tinha o objetivo de convencer investidores a comprar 100 milhões de dólares em ações da Coteminas, que seriam lançadas no início de dezembro para financiar as próximas etapas do programa de expansão da empresa. As reuniões coincidiram com o auge das incertezas que o abalo das bolsas asiáticas espalhou pelo mundo inteiro. Na segunda-feira, 27 de outubro, dia da queda da Bolsa de Nova York, Josué estava em Edimburgo, na Escócia, e chegou a temer pelo sucesso do lançamento dos papéis.

A tensão passou. Todas as ações, oferecidas no mercado no dia 4 de dezembro, pelo banco Garantia, foram vendidas - e entre os compradores estavam os escoceses com quem Josué se reunira no final de outubro. "Fomos a primeira empresa brasileira a colocar ações no exterior depois da crise", diz José Alencar.

O plano de diversificação da Coteminas parece bem elaborado - mas é preciso prestar atenção num detalhe fundamental. O mercado de artigo de consumo é completamente diferente da produção de bens intermediários. A empresa terá de mudar sua política de relacionamento com os clientes, terá de rever seu marketing e passar a se preocupar com uma série de detalhes com os quais não precisou se incomodar até agora. Além disso, terá de assumir muito mais cuidados administrativos. O objetivo de produzir desde o fio de algodão até o artigo acabado é, evidentemente, aumentar a receita com a venda de peças de maior valor agregado. "A rigor, não existe garantia de que esse tipo de esforço traga, junto com mais receitas, uma margem de lucro maior", diz o consultor Ulisses de Viveiros, sócio da Deloitte Touche Tohmatsu. "É preciso lembrar que os custos sobem junto."

"Não quero ser otimista demais", diz Josué. "Mas sempre fomos preocupados com custos e não seríamos malucos de investir em mercados que não fossem promissores." Essa preocupação com os custos, por sinal, é muito anterior a Josué. "Já nos preocupávamos com isso desde que abrimos o primeiro negócio", diz José Alencar. Numa das paredes de sua sala de trabalho, em Belo Horizonte, entre as centenas de diplomas de cidadão honorário que ganhou (a maioria na época em que presidia a Federação das Indústrias de Minas Gerais), está emoldurado o contrato social de sua primeira firma, A Queimadeira, uma loja de tecidos aberta em 1949 na cidade mineira de Caratinga.

DDI DE UBÁ - José Alencar, o 11º de uma família de 15 filhos, cursou até a primeira série ginasial no colégio São Paulo, da cidade mineira de Muriaé. (Só voltou aos bancos escolares bem mais tarde, com mais de 40 anos, para aprender inglês. Fez dois anos de curso no Brasil e três meses de imersão numa escola no sul da Inglaterra.)

Começou a trabalhar aos 14 anos como balconista de uma loja de tecidos. O ordenado inicial, recorda, era de 300 cruzeiros, a moeda da época. A primeira negociação importante que fez foi baixar de 400 para 220 cruzeiros o preço que teria de pagar por uma vaga, com direito a almoço e jantar, num hotel da cidade. Não teve direito a um quarto, mas a um catre no final do corredor. "Mas foi ali que eu me viabilizei", diz José Alencar. Quatro anos mais tarde, emancipado pelos pais, conseguiu com um irmão mais velho, Geraldo, um empréstimo de 15 000 cruzeiros para abrir A Queimadeira. (Hoje o retrato do irmão está pendurado numa das paredes da sala de trabalho, ao lado das figuras do pai e do avô de José Alencar.)

O passo seguinte foi em direção a Ubá - cidade da Zona da Mata mineira conhecida por ser a terra natal do compositor Ary Barroso. Com a morte do irmão que lhe emprestara os 15 000 cruzeiros, ele assumiu A União dos Cometas, um atacadista de tecidos que Geraldo havia fundado em sociedade com três amigos. José Alencar acabou comprando as partes dos sócios e montando, mais tarde, a confecção Wembley (que manteve até três anos atrás, quando a vendeu para um grupo de executivos).

Ubá, onde nasceram seus dois filhos mais novos, Patrícia e Josué (a mais velha, Maria da Graça, é de Caratinga), é a referência da família. Em 1974, José Alencar estava em Hong Kong fazendo pesquisas para a primeira fábrica da Coteminas. Ao pagar a conta no hotel onde se hospedara, da cadeia Mandarin, viu num folheto uma lista com os códigos telefônicos das principais cidades do mundo. Do Brasil só havia o 55-11 de São Paulo e o 55-21 do Rio de Janeiro. Pediu para falar com um gerente. "Está errado", disse em inglês. "Falta a terceira cidade mais importante do Brasil, Ubá." Foi embora e não se lembrou mais da história.

Poucos anos depois, José Alencar encontrou no aeroporto do Rio de Janeiro um amigo que acabava de chegar de Cingapura. "Você não vai acreditar no que tenho aqui", disse o amigo - e tirou da pasta um folheto da rede de hotéis. Lá estava, abaixo dos códigos de São Paulo e do Rio, o 55-32 de Ubá. "Hoje eu lamento essa brincadeira", diz ele. "Mas não imaginei que eles pudessem levá-la a sério." A ligação com Ubá foi herdada por Josué. Bárbara, de 9 anos, sua filha mais velha, nasceu nos Estados Unidos. O registro brasileiro foi feito no cartório de Ubá. (O segundo filho, que também se chama Josué, nasceu em São Paulo.)

José Alencar lembra que foi em Ubá que ele conheceu o sócio, Luiz de Paula Ferreira, que o levou para visitar Montes Claros e a Sudene. Construíram a primeira fábrica com recursos de financiamentos do governo, e a Coteminas acabou se tornando uma das poucas empresas nascidas do nada na era do dinheiro barato a se firmar no mercado. Agora, ela quer ir mais longe ainda. Mesmo que tenha de enfrentar os asiáticos - que chegaram a ter 9% do mercado nacional de roupas - em seu próprio território.

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