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03/12/1997 00:00

Sai o petróleo, entra o hidrogênio

Mikhail Lopes, EXAME
Em 1886, o alemão Gottlieb Daimler pegou uma carruagem, desamarrou os cavalos e instalou nela um motor a combustão. Seu compatriota Karl Benz fez o mesmo com um triciclo. Ironicamente, 100 anos depois a Daimler-Benz quer matar o invento de seus fundadores, o veículo movido pelo motor a explosão. A empresa alemã está liderando a corrida para substituir os carros atuais por outros, movidos a hidrogênio. Como? Sim, é isso mesmo: hidrogênio, o gás mais simples e abundante no universo.

Para isso, a Daimler associou-se recentemente à canadense Ballard, empresa que trabalhava com a tecnologia do hidrogênio desde os anos 80. Juntas, elas lançaram em maio passado o Nebus, um ônibus a hidrogênio. Três deles já estão em teste nas ruas de Chicago, nos Estados Unidos. No final do ano, será a vez de os canadenses de Vancouver estrearem os novos coletivos. Daqui a um ano, os ônibus deverão começar o teste definitivo: enfrentar o trânsito caótico de São Paulo.

Além da Daimler, que também fez um modelo de Mercedes a hidrogênio, só a japonesa Toyota tem um protótipo de carro desse tipo. Mas por que cargas d água essas empresas estão agora preocupadas em fazer veículos a hidrogênio? A resposta: Daimler e Toyota sabem que os carros atuais estão com os dias contados. Na era da teleinformática, da microeletrônica e da biotecnologia, nada mais obsoleto que o motor a explosão. Ele funciona com uma faísca que faz explodir uma mistura de ar e gasolina (está bem: ou álcool, ou diesel, ou gás). Essa geringonça polui, faz barulho e desperdiça energia. Além do mais, o petróleo vai acabar, cedo ou tarde.

Apesar de descoberta no século passado, a tecnologia dos veículos movidos a hidrogênio só foi usada para valer em foguetes da Nasa. O custo é mesmo estratosférico. E é isso que tem barrado seu uso em maior escala. Mas o preço do motor a hidrogênio caiu pela metade nos últimos dois anos. Ainda assim, cada quilowatt de potência que ele é capaz de produzir custa 5 000 dólares. Para comparar: no motor a gasolina, cada quilowatt custa 50 dólares. Os especialistas prevêem que os motores a hidrogênio só serão comercialmente viáveis quando o custo bater nos 200 dólares por quilowatt. Isso só deve acontecer quando forem produzidos em massa, por volta de 2005. "Nessa época, os motores terão um custo competitivo", diz Ferdinand Panik, diretor da Daimler-Benz. "O problema central é se os países terão hidrogênio barato." Aí o Brasil leva vantagem: fora do horário de pico do consumo de energia, as usinas hidrelétricas podem ser usadas para produzir o gás a baixo custo.

Ao parar num posto, o carro a hidrogênio poderá ser reabastecido com o gás ou com combustíveis como metanol ou metano. A partir deles, o próprio motor poderá gerar o hidrogênio. Nas entranhas do veículo, o gás passa por uma espécie de bateria e produz energia elétrica. É essa energia que faz ele andar. Ele roda, sem reabastecer, a mesma distância que um carro normal e quase não faz barulho. Como desperdiça menos energia, acredita-se que seja 50% mais econômico que os bebedores de petróleo. Ah! Tem mais: ele não polui. Só solta água pelo escapamento. Dá até para beber. "Do jeito que está o ar nas grandes cidades hoje, o fato de os veículos a hidrogênio não poluírem se tornou sua maior vantagem", afirma Ernesto Rafael Gonzalez, diretor do Instituto de Química da Universidade de São Paulo, em São Carlos. Foi por isso que a USP e os governos federal e do estado de São Paulo criaram o projeto de uso dos ônibus movidos a hidrogênio, financiado pela ONU, na maior cidade do país. No final de 1998, começam os testes. Em 10 anos, eles devem começar a substituir os velhos modelos a diesel da frota atual. Melhor para a população e para o governo, que vai economizar com programas de saúde. "Para cada um dos 25 000 ônibus que circulam em São Paulo, o governo gasta 113 reais por dia com tratamento de doenças respiratórias", diz Demóstenes da Silva, do Departamento Nacional de Água e Energia.

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