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19/11/1997 00:00

Você também não quer cair do cavalo

Então preste atenção nos conselhos de quem está acostumado a pular obstáculos

David Cohen, EXAME
Você está vendo esse belo cavalo aí ao lado? (Atenção: é para ver o cavalo.) É o Favorito, um cavalo de salto. Ele enfrenta provas estressantes. Ele vence as barreiras que aparecem no seu caminho. Ele compete com outros cavalos. Ele vive em um tempo em que os obstáculos são muito mais elaborados, exigem mais perícia, mais técnica, e as barras que descontam pontos caem com mais facilidade do que no passado. Em suma, ele leva uma vida parecida com a sua.

Está bem, agora você já pode dirigir o olhar para a moça ao lado do cavalo. Bela, não? É Thereza Tourinho, campeã paulista e brasileira de 1997 de saltos em série para amazonas. Ela tem 24 anos, 14 de experiência em montar, saltar, adestrar, comprar e negociar com cavalos. E mais, de estabelecer uma relação de confiança, de formar uma equipe com eles. Você quer saber quais são os segredos dela para lidar bem com sua equipe e levá-la ao sucesso? Vamos a eles:

1) Planeje os seus saltos.

Antes de mais nada, é preciso ter em mente que só quem não monta é que não cai nunca. "Não cair é impossível", diz Thereza. Você tem que aproveitar as quedas para aprender alguma coisa nova. "E você pode aprimorar as suas diversas técnicas para diminuir os riscos." É claro, enquanto você está aprimorando suas habilidades, os armadores das provas estão inventando novos tipos de dificuldade para os saltos. Portanto, é fundamental o planejamento para enfrentar as barreiras. "Antes de uma prova, você tem 30 minutos para estudar a pista. Nesse tempo, você tem que medir as distâncias, decidir qual vai ser o ritmo de passadas que o seu cavalo vai dar, descobrir o melhor jeito de fazer as curvas." Sem esse planejamento, você não vai levar o seu cavalo a dar os melhores saltos possíveis.

E como é que se faz esse planejamento? "Contando as passadas entre as barreiras, fazendo o percurso mentalmente." Você tem que saber como o seu cavalo reage para tirar o máximo proveito das suas capacidades. "A prova toda tem um minuto e meio. São 90 segundos para mostrar o trabalho de um ano inteiro, você tem que estar totalmente focado no seu percurso."

2) Espere o momento certo de agir. Mas não o deixe passar.

"Para fazer um bom salto, você tem que chegar à barreira numa distância boa. Se você deixar o cavalo chegar perto demais do obstáculo antes de comandar o salto, ele vai cometer uma falha na entrada, vai esbarrar numa trave. Mas se você demorar demais para agir o cavalo vai cometer uma falha na saída do obstáculo. Você tem que ter um bom controle do animal e uma boa visão dos obstáculos." Agir na hora errada é sinônimo de agir mal. O salto pode até sair perfeito, mas o obstáculo vai estar em outro lugar.

3) Para cada desafio, uma estratégia.

"Cada obstáculo exige uma abordagem diferente." Há as barreiras de altura, as de largura, os rios, os buracos com água depois de um salto vertical, os obstáculos duplos, os triplos... No vertical, o salto tem que começar mais longe da barreira. No paralelo, você tem que chegar mais perto e com mais impulsão. "Quando você percebe que chegou com um timing errado, tem que saber corrigir no meio do caminho", afirma Thereza. Depois de passar um obstáculo com lances longos, por exemplo, o cavalo está mais "espalhado", com passadas largas, e você tem de contê-lo. Você não pode ter apenas um jeito de dirigir a sua equipe. "E mais uma coisa. Se você acabou de vencer um obstáculo, não pode ficar tranqüilo, já tem que estar pensando no próximo."

4) Forme um conjunto harmonioso com o seu cavalo.

"Esse é o princípio mais básico para um bom salto. A comunicação tem que ser perfeita, não dá para cada um estar olhando para um lado." Isso é mais fácil de falar do que fazer. Intimidade é obtida com muito tempo e esforço, diz Thereza. "Cada cavalo tem suas manhas." E cada um tem seus probleminhas. Favorito, por exemplo, é um cavalo que tem um pouco de dificuldade para fazer a curva para o lado esquerdo. "É um problema que não se percebia quando ele saltava obstáculos mais fáceis. Quanto mais complicado o circuito, mais exigências você faz ao seu cavalo."

5) Você tem que inspirar confiança.

"O seu cavalo tem que ter confiança em você. E tem que fazer aquilo porque gosta, tem que saltar com prazer." O estilo agressivo também funciona, muita gente lidera na base da pancada. "Mas os cavalos duram menos tempo. E ficam mais inconstantes: às vezes fazem o percurso com perfeição, outras vezes param em obstáculos fáceis." Segundo Thereza, nunca se deve forçar o cavalo além do seu limite. "Ele tem de saber que, se você quer que ele salte, é porque ele é capaz."

E, para torná-lo capaz, é preciso treiná-lo todo dia. Os treinamentos são de dois tipos. Primeiro, a simulação dos saltos, para o cavalo se acostumar com o que, afinal, é o seu trabalho. É quando se investe na compreensão, na integração entre cavaleiro e cavalo. O segundo tipo de treino é a capacitação. Todo dia o cavalo tem que fazer exercícios específicos para melhorar os pontos em que tem dificuldades.

6) Saiba agradar e punir.

"Eu dou sempre uma cenoura depois do treino para os meus cavalos." Uma palmadinha de recompensa é essencial. "Você tem que mostrar que ele fez a coisa certa." E quando ele erra? "Você não pode deixar passar o momento, tem que corrigir no ato, com uma pernada, uma esporada ou uma chicotada. Se deixar para punir depois, o cavalo não vai saber por que está sendo maltratado."

7) Saiba cuidar do seu investimento.

O cavalo é sua equipe, mas é também o seu capital. Você tem que tratá-lo como as duas coisas. Para começar, precisa saber escolher. Com treinamento adequado, qualquer cavalo melhora, mas nenhum treinamento faz milagres. "O seu material tem que ser bom, como uma boa pedra bruta, para você poder lapidar."

Os cavalos têm temperamento. Há os mais rústicos, que dificilmente param ante um obstáculo. Podem até cometer falta, mas não param. Há os "limpos", que não gostam de bater na trave. Se você chegar mal a uma barreira, ele pára. E há os "sem-caráter", que a qualquer momento podem deixar você na mão, seja porque não estão com vontade de ser montados, seja porque têm medo de água ou se assustaram com alguma trave colorida. Cásper, o segundo melhor cavalo de Thereza, não refuga, mas às vezes faz faltas desnecessárias. Já o Favorito é mais delicado. "Todo craque é mais complicado, não aceita qualquer comando."

Há trabalhos para tornar um cavalo mais "limpo", como saltar com travas mais pesadas (quando ele bate, dói, e aí ele não vai querer bater de novo). Mas um cavalo "limpo" por natureza é diferente. Se você monta um cavalo com o qual não pode ficar absolutamente tranqüilo, tem uma preocupação a mais. "Você tem que mostrar mais firmeza em cada movimento, mas aí perde em refinamento", diz Thereza. "Chega um nível de competição em que não dá para você saltar pelo cavalo, cada um tem que cumprir o seu papel."

É claro, se você sente que um cavalo tem potencial, aposta tudo nele, mas nunca tem certeza - você tanto pode se decepcionar como se surpreender. "Eu achava que o Favorito seria um bom saltador de 1,30 metro, mas a cada etapa ele foi superando as minhas expectativas, e hoje salta em provas de 1,40 ou 1,50 metro." Note, também: nenhum cavalo se faz sozinho. "A pessoa que está treinando o cavalo é muito importante. Ela pode fazer com que ele renda muito mais ou pode estragá-lo." E como se estraga um cavalo que tem tudo para ser campeão? "Um cavaleiro tem que esperar o animal amadurecer antes de colocá-lo em uma prova. Se não fizer isso, pode queimá-lo." Ou ainda: "Se o montador está sempre chegando a um obstáculo numa distância ruim, vai tirando a confiança do cavalo".

Na prática, um mau chefe perde dinheiro, muito dinheiro. Um cavalo de boa linhagem, num leilão, custa algo entre 15 000 e 40 000 dólares. Bem trabalhado, ele pode se tornar um belo campeão, chegando a valer 300 000, 500 000, até mais de 1 milhão de dólares. Mal treinado, desperdiça todos os seus talentos naturais, até ser oferecido por 5 000 dólares. Mas o prejuízo, dependendo da competição, pode ir bem além disso: quantos reinos não se perdem, todos os dias, pela falta de bons cavalos?

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