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31/01/1996 00:00

O boi engorda sem o olho do dono

É possível aplicar em gado sem ser fazendeiro. Basta dispor de 220 reais por mês. Mas é preciso ter estômago para riscos

Adriana Wilner, EXAME
Eles não usam chapéu de caubói nem conseguem perceber a diferença entre uma vaca leiteira e um boi da raça nelore. Mesmo assim, gastam milhares de dólares na compra de cabeças de gado, como se fossem pecuaristas de tradição no mercado. Loucura? Nem tanto. Já foi o tempo em que o olho do dono era fundamental para engordar a boiada. Atualmente, qualquer investidor, mesmo que nunca tenha posto os pés numa fazenda, pode comprar umas cabeças de gado - e ganhar (ou perder) dinheiro com isso.

O negócio funciona como uma aplicação num fundo de investimento. Só que, em vez de o fundo ser recheado por CDB ou por ações, é formado por rebanhos. A compra e a criação dos bois ficam sob a responsabilidade de uma empresa especializada na administração de fazendas. O lucro (ou prejuízo) do investidor depende das cotações da arroba do boi no final do período de engorda. O ganho de peso do gado também influencia o resultado. Trata-se, portanto, de uma aplicação de risco. "O boi não é um negócio de renda fixa, que garante um rendimento para o investidor", diz José Vicente Ferraz, sócio da FNP Consultoria, especializada em pecuária.

Na Fazendas Reunidas Boi Gordo, uma das pioneiras no ramo, o cliente pode comprar trinta bois de um golpe. (Neste caso, precisa dispor de 6 600 reais.) Ou então compra um boi por mês durante dezoito meses. Aí, precisará pagar 220 reais a cada mês. Cada boi é vendido com dez arrobas ao investidor. O período de engorda dura dezoito meses, e só depois é que o boi vira bife. A Boi Gordo garante, por contrato, um ganho mínimo, no peso, de 4,2 arrobas após esse período. Do que ultrapassar esse patamar, 22% são separados para pagar os custos.

MERCADO EM BAIXA - Apesar do ganho mínimo oferecido pela Boi Gordo no peso, não há nenhuma garantia de preço. Se a cotação da arroba cair, o cliente fica no prejuízo ou, se quiser, pode reinvestir seu dinheiro no negócio. No ano passado, o preço da arroba caiu 27% em dólar. O prejuízo final do investidor, descontada a engorda do gado, foi menor: 12% reais. Em anos anteriores, o resultado foi melhor. Em 1991, a rentabilidade em relação ao IGP-M foi de 86%; em 1992, 58%; em 1993, 43%; e em 1994, 18%.

O economista e consultor de empresas Azis Adib Naufal, 58 anos, foi um dos investidores que aplicaram seu dinheiro na Boi Gordo em 1995 e ficaram no vermelho. Naufal, no entanto, compensou as perdas do ano passado com ganhos que obtivera anteriormente. Em 1992, Naufal comprou 53 cabeças da Boi Gordo e não parou mais de investir. Seu maior ganho foi em 1994, quando uma seca prolongada gerou escassez no mercado. O preço da arroba do boi foi para as alturas e Naufal conseguiu um retorno de 90% durante o período de carência, de dezoito meses, do investimento. Hoje, Naufal tem 1 000 cabeças de gado, avaliadas em 220 000 reais. "Quando o mercado está em baixa, prefiro reinvestir o dinheiro a realizar o prejuízo", afirma Naufal.

HORA CERTA - Diversos fatores podem influenciar o preço da arroba. O primeiro é a demanda, que oscila de acordo com as mudanças no nível de renda da população. O consumo de carne bovina aumentou de 27 quilos por habitante, antes do Plano Real, para o patamar de 30 quilos após a estabilização. Teoricamente, portanto, o investimento em bois deveria ter sido bom também em 1995. Só que outros fatores contribuíram para a perda. A demanda no primeiro semestre foi excepcional. O preço da arroba bateu o recorde em seis anos. No segundo semestre, com a queda da atividade econômica, o consumo diminuiu e a carne bovina ficou mais barata.

Há ainda um outro ciclo a considerar, o de longo prazo. Diz-se que três anos de alta nos preços são seguidos de três anos de baixa. A explicação: quando o mercado se recupera, os boiadeiros investem na produção. Mas o resultado só começa a vir dali a três anos, assim que o bezerro cresce e pode ser vendido. A maior oferta então leva à depreciação nos preços. Por essa teoria, 1996 seria o segundo ano de baixa. Se agora é ou não o momento de entrar num investimento desse tipo, eis a questão. É voz corrente no mercado que o preço já caiu o que tinha para cair e, apesar das altas recentes, a hora de comprar é essa. Quando se analisa os gráficos do preço da arroba, no entanto, o que se vê é outra coisa. No momento, a arroba está sendo negociada a 22 dólares, preço superior à média histórica dos seis últimos anos. A FNP Consultoria prevê um preço médio de 19 dólares a arroba até junho e entre 23 e 24 dólares na entressafra.

Como costuma ocorrer nas bolsas de valores, aqui também os investidores estão sujeitos a entrar no negócio no momento errado. No ano passado, o número de clientes da Boi Gordo aumentou 70%. Atualmente são 3 870 investidores, dos quais 40%, curiosamente, são médicos. "Como muitos aplicadores compram os bois em dezoito meses, o risco de eles terem perdas diminui bastante", diz Paulo Roberto de Andrade, diretor e idealizador do empreendimento. Descendente de tradicional família de pecuaristas de Santa Cruz do Rio Pardo, no interior de São Paulo, Andrade percebeu que vários amigos paulistas sonhavam em viver no campo criando gado. Foi então que decidiu oferecer uma modalidade virtual de criação de boi a quem não tem perspectiva de sair de escritórios de concreto e aço.

MERCADO FUTURO - É preciso levar em conta, antes de aplicar o seu dinheiro nesse tipo de investimento, que ele não é controlado por nenhum órgão de fiscalização do governo. É possível que a Boi Gordo seja extremamente bem administrada e que a possibilidade de ela ter problemas financeiros seja praticamente nula. Mas nunca é demais reforçar que, nesse caso, o investidor não tem nenhum tipo de proteção caso alguma coisa ande errado.

Além da fórmula idealizada pela Boi Gordo, quem quiser ser uma espécie de fazendeiro do asfalto, aplicando seu dinheiro em gado sem se preocupar em criá-los, tem ainda outra opção, mais arriscada. É o mercado futuro de boi gordo da Bolsa de Mercadorias e Futuros, BM&F, de São Paulo. Lá se pode apostar que o preço da arroba vai subir ou vai cair. Na BM&F, o contrato mínimo é de 330 arrobas, ou 7 300 reais. Mas não é preciso colocar de cara esse tanto de dinheiro. Deposita-se apenas uma margem, de 6,5% do valor total do contrato, o que significa 474 reais. O ganho ou prejuízo se dá diariamente, pela diferença entre a cotação do dia e a fixada para o investidor. "Quem não conhece bem esse mercado pode se dar mal", diz James Ferraz Alvim Netto, da corretora Safic. A Safic negocia na BM&F o equivalente a 2 000 bois por dia. Se alguém lhe disser que o negócio é 100% certo, pode ter certeza: é conversa para boi dormir.

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