É preciso revolucionar os velhos produtos

Considerado um guru na área de inovação, o americano Larry Keeley diz que as empresas pecam ao apenas criar novas versões de velhos produtos

São Paulo – Eleito pela revista Bloomberg BusinessWeek um dos especialistas de inovação mais influentes do mundo, o americano Larry Keeley é presidente e cofundador da Doblin Inc., empresa de inovação estratégica recentemente adquirida pela Monitor.

Em visita ao Brasil, Keeley falou a EXAME.

1) EXAME – Qual é o erro mais comum quando o assunto é inovação? 

Larry Keeley – A inovação falha 95,5% do tempo porque as empresas buscam soluções no lugar errado. De modo geral, a tendência é criar novas versões de velhos produtos.

Por isso, há 60 tipos diferentes de escovas de dentes nos supermercados. Mas os consumidores não precisam de variações das mesmas coisas. O mundo precisa de ideias com o poder de mudar completamente as categorias de produtos. Foi o que o Google fez. As empresas precisam entender, em seus setores, qual é a facilidade que as pessoas buscam.

2) EXAME – Então inovação é sempre criar novos produtos? 

Larry Keeley – Não. Há dois tipos principais de inovação. As que criam novos modelos de negócio e as que criam novas experiências. No Brasil, a Casas Bahia descobriu como oferecer a experiência de comprar em muitas prestações.

Seus donos entenderam como assumir o risco da inadimplência e colocá-lo em seus preços. Para completar, tiveram a ideia de fazer as pessoas caminharem até o fundo de uma loja para pagar a prestação, vendo, no caminho, tudo o que está exposto e, muitas vezes, voltando a comprar. 

3) 
EXAME – O senhor conhece bem a realidade brasileira?

Larry Keeley – Hoje, o Brasil é visto como um dos principais motores do mundo. Há muito potencial no setor agrícola e nos combustíveis flex. Nessas áreas, o país é responsável por algumas das melhores inovações. Mas dá para fazer mais. 


4) EXAME – Como?

Larry Keeley – Essa é uma tarefa complexa, mas as linhas gerais são conhecidas. O Brasil precisa aproveitar o bom momento da economia para criar uma estratégia nacional de inovação. Isso só pode ser feito conectando as universidades, o governo e o setor privado. Singapura e Canadá fizeram exatamente isso — com enorme sucesso.

5) EXAME – Olhando para o universo das empresas, quanto elas deveriam investir em inovação? 

Larry Keeley – Com exceção das startups, quase nenhuma empresa investe mais de 10% de seu faturamento em inovação. A esmagadora maioria está bem longe desse percentual. As farmacêuticas são as que chegam mais perto, mas ainda assim não é o suficiente. Nos últimos dez anos, vimos muito poucas inovações nesse setor.

6) EXAME – Há outras maneiras de estimular a inovação? 

Larry Keeley – Toda vez que uma empresa investe em prêmios para pessoas que apresentem boas ideias, ganha muitas vezes mais na área de pesquisa e desenvolvimento. Dez milhões de dólares em prêmios equivalem a 170 milhões de dólares em ganhos. É um cálculo comprovado.

7) EXAME – Qual é a empresa mais inovadora do mundo?

Larry Keeley – Há uma disputa entre Google e Apple, mas essa é uma briga sem importância. Em pouco tempo, a empresa mais inovadora será uma que nem eu nem você conhecemos. Com certeza, fará algo que mudará o mundo. Poderá, muito bem, ser uma empresa brasileira. Impossível? Por quê?