É melhor segurar as esperanças no julgamento do mensalão

O julgamento do mensalão, pelo que se viu até aqui, tem tudo para lavar a alma de muita gente cansada de tanta impunidade. Só não vamos nos esquecer que estamos no Brasil — e por isso é prudente segurar as esperanças

São Paulo – Nem os espíritos mais otimistas, entre aqueles que querem ver um pouco de justiça sendo feita no Brasil quando os acusados são peixes gordos na prática do delito previsto no artigo 333 do Código Penal, que pune os crimes de corrupção, esperavam ficar tão encantados com o julgamento do mensalão no Supremo Tribunal Federal — pelo menos até agora.

Ao contrário da impunidade geral que se esperava, e para o espanto dos réus confiantes no poder do governo e nos advogados que contrataram a peso de ouro, o que se tem visto é o massacre da serra elétrica.

Turbinadas pelo trabalho implacável feito em silêncio nos últimos anos pelo relator do processo, ministro Joaquim Barbosa, as sentenças de condenação vão caindo sobre os acusados, uma após a outra — e transformando em paçoca as mentiras, espertezas e disparates que todos têm usado em sua defesa desde 2005, quando veio a público, graças à imprensa, o colossal sistema de corrupção armado durante o primeiro mandato do ex-presidente Lula.

O ministro Barbosa, sozinho, vale por um regimento de artilharia pesada. Foi menosprezado o tempo todo por Lula, pelo PT e por seus fãs, mas, enquanto riam, Barbosa ia socando pólvora no seu canhão, com o alinhamento de razões condenatórias construídas em concreto armado por sua lógica, técnica e competência jurídica. Quando acendeu a mecha, no início do julgamento, verificou-se que os seus votos têm sido acompanhados pela maioria dos outros ministros do STF.

Comandados por Lula, que sustentou durante anos que o mensalão não passava de uma bobagem inventada pela imprensa, pelas “elites” e pelos inimigos inconformados com os seus índices de popularidade, os réus, como se faz nas cantigas populares da Itália, cantaram durante sete anos o seu stornello. Ouvem, agora, o ritornello.

Descobriram, entre outras surpresas desagradáveis, que no seu caso não bastava apresentar desculpas grosseiramente inverossímeis como “defesa” numa corte de Justiça. A proprietária do Banco Rural, Kátia Rebelo, ficou chocada ao constatar, por exemplo, que o fato de ser proprietária do Banco Rural não lhe dava o direito de contar, em seu favor, histórias incapazes de convencer o mais crédulo dos leigos em práticas bancárias.

Seus executivos descobriram a mesma coisa. Outros réus, como o deputado João Paulo Cunha — que estava, como a máquina do PT “fechada” com ele, tão convencido da sua impunidade que se candidatou a prefeito de um dos municípios mais importantes de São Paulo —, ficaram sabendo que ter prestígio junto aos que mandam no Brasil há dez anos pode ser perfeitamente inútil para lhes salvar o couro.


É reconfortante, sem dúvida, constatar fatos como esses. Ninguém sabe, ainda, se a opinião pública receberá ou não a grande cereja do bolo — a condenação de José Dirceu e outros barões do Brasil petista. Mas o que aconteceu até o momento já deixou muita gente com a alma lavada.

A questão que começa a se colocar, agora, é o efeito disso tudo no futuro. Uma ideia que passou a circular é que o julgamento do mensalão, pelo menos se as sentenças continuarem na toada que vêm seguindo até agora, fará mudanças positivas no império da impunidade sob o qual o país vive há tanto tempo — e trará, também, melhorias na qualidade da vida política.

É excelente, sem dúvida, que se queira isso e que se façam pressões nessa direção. Mas é importante não esquecer que estamos no Brasil — e no Brasil podem acontecer as coisas mais extraordinárias. Depois do mensalão as coisas podem melhorar; podem também ficar do mesmo jeito ou até piorar.

Já aconteceu antes e não há prova de que não aconteça de novo. Milhares de delinquentes, neste exato momento, estão se preparando para invadir, na eleição municipal, prefeituras e câmaras de vereadores do Oiapoque ao Chuí. O funcionamento do Poder Judiciário brasileiro, com toda a demência do sistema que o comanda, não será alterado em um milímetro — sejam quais forem as sentenças finais do STF.

É melhor segurar as esperanças.