Mianmar precisa crescer, mas sem destruir a natureza

Devido a anos de isolamento econômico, Mianmar tem hoje o que a China perdeu: uma natureza quase intocada. Seu desafio agora é crescer sem destruir esse patrimônio

São Paulo – É possível contar nos dedos os países do mundo que conseguiram até hoje equacionar crescimento econômico e preservação do meio ambiente. A maioria simplesmente vê seu PIB aumentar à medida que o patrimônio natural é dilapidado. A China é o exemplo mais recente e gritante de nação que não escapou dessa sina.

Um país vizinho dos chineses, porém, começou a alardear recentemente que pretende seguir uma trajetória diferente. Quem quer fugir a essa regra é Mianmar, um dos únicos países do Sudeste Asiático que conseguiram manter suas florestas tropicais e rios praticamente intocados.

Toda essa preservação foi possível graças às sanções econômicas impostas por Estados Unidos e União Europeia como represália às repetidas violações dos direitos humanos perpetradas pelas Forças Armadas há décadas no poder. Como há dois anos os militares começaram a promover certa abertura política, os bloqueios foram, aos poucos, sendo suspensos. 

Para selar essa nova fase, no final de novembro Barack Obama se transformou no primeiro presidente americano a visitar o país. E cresce a cada dia o número de investidores interessados em fincar o pé no território inexplorado, conhecido por suas reservas de petróleo, gás natural, terras, madeira e minerais.

Mas, à medida que aumentam as expectativas em torno do potencial econômico do país, cresce também entre os ambientalistas a ansiedade em relação ao futuro do meio ambiente. “O desenvolvimento econômico de Mianmar é inevitável, e é justo que ele aconteça”, afirma Jack Hurd, diretor da The Nature Conservancy (TNC), uma das maiores ONGs ambientalistas globais. “A questão é se o país conseguirá fazer isso sem repetir os erros dos vizinhos.”

Até agora, pelo menos, os ambientalistas têm motivos para estar otimistas. O atual presidente, Thein Sein, um ex-general, vem declarando em repetidos fóruns que o país não quer nenhum investimento estrangeiro que seja prejudicial ao meio ambiente. Poderia ser só mais um político a incluir intenções verdes em seu discurso. No caso dele, porém, há mais que palavras.

Em mea­dos de 2011, Sein alegou preocupações ambientais e sociais para suspender as obras da hidrelétrica Myitsone, um projeto de 3,6 bilhões de dólares que estava sendo bancado pela China. A energia da Myitsone seria gerada no Irrawaddy, um rio de Mianmar, para beneficiar a província chinesa de Yunnan, na fronteira.


Mianmar ficaria com a receita da venda de energia, mas perderia uma área do tamanho de metade da cidade de São Paulo com a inundação do lago da usina. Recentemente, Thein Sein também baniu projetos de mineração nos quatro principais rios do país e cancelou a construção de uma termelétrica que seria financiada pela Tailândia. 

Comida, diversão e arte

Por enquanto, o presidente tem sido eficiente em barrar projetos ambientalmente contestáveis, mas em algum momento terá de entregar o crescimento econômico esperado pela população. O que motiva os ambientalistas é o fato de que o fim do bloqueio também vem fortalecendo a atuação dos órgãos ambientais do país e das ONGs — tanto locais como estrangeiras.

A Panthera, uma das mais respeitadas instituições de defesa de felinos selvagens, com sede em Nova York, está há 15 anos em Mianmar tentando proteger os tigres, mas o trabalho sempre foi muito difícil. “Nunca houve recurso ou pessoal qualificado o suficiente para monitorar as áreas protegidas, e as sanções impediam a entrada de capital internacional”, diz Alan Rabinowitz, presidente da Panthera. “A abertura política certamente muda isso.”

A despeito do otimismo, os ambientalistas sabem que é preciso dosar as expectativas. Depois de anos isolado da economia mundial e das benesses que ela pode proporcionar, Mianmar pode facilmente sucumbir à mesma receita de crescimento usada pelos vizinhos.

“Há no país um desejo de buscar um modelo diferente de desenvolvimento, mas sabemos que as pressões para que ele siga a fórmula convencional são muito grandes”, afirma Hurd, da TNC.Mianmar já foi exemplo de tudo o que não fazer. Pode se transformar, agora, em um modelo a ser seguido.