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Última atualização 23/05/2017 - 17:20 FONTE

Crise vira motor para expansão de startups no Brasil

Mesmo com o país na maior recessão em décadas, muitas empresas de tecnologia recém-criadas, as startups, seguem em expansão acelerada.

São Paulo — A história do mineiro Eduardo L’Hotellier, de 31 anos, parece com a de jovens ambiciosos do Vale do Silício que, com uma ideia consistente, acabam mudando a lógica de um setor inteiro. Em 2011, L’Hotellier criou a GetNinjas, plataforma online para recrutar mão de obra avulsa, como diarista, carpinteiro e pintor.

Essa espécie de Mercado Livre dos serviços gerais surgiu depois que L’Hotellier, então um consultor com passagem pela McKinsey e pela Angra Partners, sentiu na pele uma dificuldade comum no Brasil: encontrar gente boa para trabalhos domésticos. A crescente demanda fez o negócio decolar rapidamente: a GetNinjas tem hoje 130 000 profissionais cadastrados e 1 milhão de clientes mensais.

A empresa não revela os valores, mas estima-se que o faturamento já atinja 20 milhões de reais por ano. “Os números crescem a taxas de 2 dígitos por mês”, diz L’Hotellier. Um motor para a expansão veloz é a severa crise brasileira: com menos negócios nos clientes habituais, muitos profissionais autônomos migraram para a GetNinjas em busca de novos contatos.

O serviço também chamou a atenção de investidores. Em 2015, o fundo de investimento americano Tiger liderou um aporte de 40 milhões de reais para a ampliação das operações da GetNinjas na América Latina. “A ideia é ser um classificado global de serviços”, afirma L’Hotellier. No horizonte de empreendedores como L’Hotellier, os percalços da economia brasileira estão longe de ser um problema.

Ao contrário: para negócios como o da GetNinjas, a crise é uma oportunidade de brilhar. A ABStartups, uma associação do setor, estima que no ano passado tenham surgido 1 000 empresas de tecnologia com alto potencial de crescimento, 30% mais do que em 2014.

O volume de recursos aportados em startups brasileiras vem crescendo 30% ao ano desde 2011 — em cinco anos, superou 1,3 bilhão de dólares, segundo a Lavca, associação de fundos com atuação na América Latina. Uma crise econômica costuma ser catalisadora de startups.

Num momento em que o resto da economia precisa ganhar eficiência para lidar com receitas em queda, ganham espaço as empresas inovadoras, enxutas por natureza. Foi assim nos Estados Unidos.

Em 2008, em meio à recessão causada pelo estouro da bolha imobiliária, engatinhavam negócios como o Uber, aplicativo que possibilita o compartilhamento de veículos, e o Airbnb, que permite alugar quartos de particulares. Juntas, as duas empresas valem hoje quase 100 bilhões de dólares.

No Brasil, negócios inovadores têm também encontrado um terreno fértil. Com uma diferença em relação à experiência americana: lá, as startups surgiram num cenário de acesso quase universal à internet. Aqui, apenas metade dos 200 milhões de brasileiros está conectada à rede. Mesmo com muita gente ainda para entrar nesse mercado, o país já é a quinta maior economia digital.

Com uma população hiperativa nas redes sociais, o Brasil está entre os três principais mercados para Facebook, Google e Twitter. Em meio à transição tecnológica de PC para celular como porta de acesso a serviços online, o país tem o maior número de celulares por habitante no mundo.

“Olhando para a frente, isso só deve melhorar o ambiente para startups no Brasil”, diz Julie Ruvolo, diretora de investimentos da Lavca, em São Francisco. Não por acaso, o Google inaugurou em junho, em São Paulo, o Campus, espaço para abrigar empresas de tecnologia. É a sexta unidade no mundo.

“Só países com alta taxa de criação de startups, como o Brasil, recebem esse tipo de investimento”, afirma André Barrence, diretor do Google Campus no Brasil. Com a crise, muitos profissionais qualificados trocaram a gerência em grandes empresas pela abertura de um negócio de tecnologia.

É o caso dos administradores Paulo Castello, de 39 anos, Angelino Cruz, de 42, e do engenheiro Claudio Ferreira, de 41, sócios da paulistana Fhinck, desenvolvedora de softwares que medem a produtividade do trabalho e sugerem ações para uma empresa ganhar eficiência.

Em 2014, os sócios largaram a carreira executiva em grandes empresas, como a varejista Walmart e o frigorífico Marfrig, e investiram 200 000 reais para abrir a Fhinck. “A crise estagnaria minha carreira”, diz Castello. “Hoje vendo um sistema que ajuda empresas a enfrentar a crise.”

A Fhinck deverá faturar neste ano 3,5 milhões de reais com clientes como a consultoria Accenture, que adotou o sistema no Brasil e poderá exportá-lo para mais de 200 000 estações de trabalho no mundo. A economia em queda livre facilitou a aquisição de mão de obra qualificada.

Na GetNinjas, que recentemente trocou um escritório compartilhado por um espaço próprio de 700 metros quadrados na zona oeste de São Paulo, o quadro de funcionários dobrou desde o ano passado — hoje são 80. E o interesse por startups também motivou a criação de uma escola, a Gama, que oferece aulas de vendas online e gestão de sites.

Com sede em Belo Horizonte, a Gama deverá abrir até o fim do ano unidades em São Paulo e Curitiba. “Há 2 000 candidatos na fila de espera”, afirma o sócio Guilherme Junqueira. Além de atrair gente boa, o ecossistema das startups está deixando de se concentrar em poucas metrópoles.

Segundo a Endeavor, instituição de apoio ao empreendedorismo, cidades médias, como Florianópolis, Uberlândia, no Triângulo Mineiro, e São José dos Campos, no interior paulista, figuram entre os melhores berçários para empresas de tecnologia no país. A novidade é que o apelo das startups existe até mesmo em cidades distantes de centros universitários consolidados.

Uma evidência disso são programas como o Like a Boss, do Sebrae, que treina gente disposta a abrir um negócio de tecnologia. Desde o início, em 2013, mais de 2 500 empreendedores passaram pelo programa, que teve turmas em cidades como Rio Branco, no Acre, Pato Branco, no Paraná, e Juazeiro do Norte, no Ceará.

“A ideia é começar um ecossistema e estimular os pioneiros a ensinar outros interessados a ter uma startup”, afirma Marcio Brito, coordenador do Sebrae. Essa orientação está nos planos dos ama­paenses Calmon de Eron Silva, de 31 anos, Fabio dos Santos, de 32, e Antonio Fascio Terceiro, de 39, sócios da Orça Fascio, plataforma online para cotação de material para construção.

Fundada em Macapá há cinco anos, a Orça Fascio espera uma receita anual de 5 milhões de reais. Formados em computação, os sócios se conheceram no emprego público. “Estávamos cansados da falta de perspectiva”, diz Eron Silva. “Com a empresa, pudemos viajar pelo país atendendo clientes como a Sabesp, a Receita Federal e o Comitê dos Jogos Olímpicos no Rio de Janeiro.”

As andanças também atraíram investidores como a Startup Farm, aceleradora de negócios para a qual a Orça Fascio se mudou em janeiro. A expansão das startups num Brasil em crise pode ser explicada também pela inovação desses negócios — o que gera benefícios em cadeias inteiras.

Um exemplo é a Nama, desenvolvedora paulistana de robôs virtuais, os “bots”, capazes de substituir um humano no atendimento a clientes. Criada em 2014 pelo publicitário Rodrigo Scotti, de 30 anos, a Nama deverá faturar 2 milhões neste ano.

Entre os contratantes está o governo paulista, que planeja empregar a tecnologia numa reforma do site do Poupatempo, no qual hoje é possível requisitar serviços públicos, como emissão da carteira de identidade e de boletim de ocorrência. “O objetivo é usar robozinhos virtuais para dar respostas automáticas ao cidadão em ambientes como WhatsApp e Facebook”, diz Scotti.

Com o câmbio jogando a favor das exportações brasileiras, o mercado externo está aberto para startups locais. É o que tem percebido a Nanovetores, empresa de Florianópolis que patenteou uma película feita com nanotecnologia para proteger princípios ativos de produtos como emagrecedores e cremes anticelulite.

“Essa casca faz o princípio ativo agir no local e hora mais adequados para um bom efeito no corpo”, diz Betina Giehl Zanetti Ramos, de 38 anos, que abriu a Nanovetores em 2012 depois de concluir o doutorado em farmácia. Em 2016, a Nanovetores prevê exportar para 22 países e alcançar uma receita de 20 milhões de reais — dez vezes o valor de 2014.

No ano passado, o Criatec, fundo do BNDES para startups, colocou 3 milhões de reais no negócio. “Há mercado para a Nanovetores na Europa e na Ásia”, diz Gustavo Junqueira, diretor da Inseed, gestora do Criatec. Embora o cenário seja promissor, há percalços na trajetória das startups brasileiras.

O volume de negócios e de investimentos no ecossistema está em alta, mas ainda é arriscado colocar dinheiro numa empresa dessas. A taxa de mortalidade de startups no país, de 25% ao ano, diminui o retorno dos aportes. A tributação também não ajuda: quando um investidor vende sua participação numa startup, a Receita Federal come um terço dos ganhos, em média.

“A junção das duas coisas afugenta investidores”, diz Alan Leite, sócio da Startup Farm e fundador do Dínamo, grupo de investidores e donos de startups que planejam encaminhar ao Congresso uma legislação para reduzir a cobrança de imposto de renda. Outro desafio é a crise em si.

Se ela continuar em 2017, a tendência é o capital que hoje escolhe o Brasil migrar para outros mercados com alto potencial, como o México.

“Os fundos precisam sentir logo que o dinheiro colocado aqui valeu a pena”, afirma Rodrigo Menezes, coordenador da Associação Brasileira de Private Equity e Venture Capital. Até o momento, as startups brasileiras se mostraram capazes de mudar mercados e resistir à crise. A prova de fogo começa agora.