Consultores-robôs avançam no mercado financeiro

De olho no pequeno investidor, empresas de tecnologia criam sistemas online para sugerir e gerenciar investimentos

São Paulo — Os serviços mais comuns dos bancos podem ser acessados por meio de celulares, tablets, computadores ou caixas eletrônicos, sem nenhum contato humano. Mas, quando o cliente se vê diante da dúvida de como investir seu dinheiro, o caminho tradicional ainda é procurar o conselho de uma pessoa em carne e osso.

As opções vão desde falar com o gerente da agência (que, obviamente, vai oferecer algum produto do banco) até contratar um assessor financeiro independente. Mas empresas de tecnologia no exterior começam a oferecer uma alternativa: sistemas de autoatendimento, pela internet, que buscam determinar qual é a opção de investimento mais adequada a cada tipo de cliente.

Lá fora, as startups ganharam o apelido de robo-advisors (“consultores-robôs”) e fazem parte de uma tendência de automação crescente no setor de serviços. Essas empresas têm atraído principalmente pequenos investidores de 25 a 35 anos que buscam facilidade para gerenciar seu patrimônio financeiro. Existem pelo menos 23 startups nessa área, a maior parte nos Estados Unidos e na Europa.

A pioneira é a americana Betterment, criada por dois sócios que tinham trabalhado no mercado financeiro. A empresa começou a operar em 2010. Hoje, tem 115 000 clientes e gerencia 2,8 bilhões de dólares. A principal concorrente é a também americana Wealthfront, que surgiu no fim de 2011 e possui 2,7 bilhões de ativos sob gestão e 41 000 clientes. 

O serviço oferecido pelas startups é totalmente automatizado. O cliente responde a algumas perguntas que ajudam a traçar seu perfil de risco e objetivo financeiro (guardar dinheiro para a aposentadoria, pagar a faculdade dos filhos e assim por diante). Com os dados, o algoritmo sugere os investimentos mais adequados.

Em geral, a carteira é bastante simples: divide-se entre fundos de renda fixa e ETFs (fundos de ações que seguem o desempenho de índices de mercado). Para concorrer com as companhias tradicionais e atrair o investidor que deixa o dinheiro no banco, as startups cobram taxas de administração geralmente mais baixas, que variam de 0,15% a 0,5% por ano (as assessorias tradicionais costumam cobrar de 0,5% a 1% por ano).

Além disso, as start­ups têm investimentos iniciais reduzidos. No caso da Betterment, o valor inicial é livre. Não existem dados para comparar se os algoritmos trazem resultados melhores ou piores do que uma assessoria olho no olho — o que coloca uma grande interrogação sobre o serviço —, mas a facilidade tem atraído clientes.

Em 12 meses, o valor gerenciado pelas 11 maiores startups cresceu 34%, somando 21 bilhões de dólares, de acordo com a consultoria americana Corporate Insight, especializada no setor financeiro.

O número ainda é insignificante se comparado ao total de 25 trilhões de dólares aplicados no mercado financeiro americano, mas um relatório do banco Citi, publicado em julho, estima que o valor pode atingir 3,4 trilhões de dólares em dez anos. O movimento não se restringe a startups. Grandes grupos financeiros já abraçaram essa tecnologia.

Em agosto, a maior gestora de fundos do mundo, a americana BlackRock, comprou a FutureAdvisor, outro “consultor-robô” dos Estados Unidos. E as gestoras tradicionais Vanguard e Charles Schwab lançaram os próprios serviços automatizados há menos de um ano.

Ainda sob teste

No Brasil, a mudança ainda é tímida. A primeira startup do setor é a Magnetis, de São Paulo, criada pelo administrador Luciano Tavares, que foi sócio da gestora Nest Investimentos durante dez anos. A empresa começou a operar em março e recebeu um inves­timento de 3 milhões de reais dos fundos brasileiros Monashees e Redpoint e.Ventures e do americano 500Start­ups.

A Magnetis não divulga a quantidade de recursos gerenciada nem a de consumidores. “Os clientes de start­ups como a nossa costumam ser profissionais que acumularam patrimônio mas não têm tempo para investir no mercado financeiro”, diz Tavares. Apesar do interesse sobre os “consultores-robôs”, o modelo carrega dúvidas.

O relatório do Citi aponta uma série de pontos negativos: a concorrência com empresas estabelecidas; a possibilidade de os ETFs apresentarem desempenho pior do que os fundos de ações com metas superiores; e a barreira para ganhar a confiança de clientes acima de 50 anos, que, em geral, são os maiores investidores.

Além disso, como surgiram no começo da década, as start­ups ainda não passaram por uma crise financeira e não se sabe a efetividade dos sistemas nesse cenário.

“Temos de ver como esse segmento se comporta em uma desaceleração global”, diz Rajesh Kandaswamy, diretor de pesquisa no setor financeiro da consultoria americana Gartner. O passado mostra que nem o melhor modelo matemático é capaz de prever uma grande crise.