Empreendedores no Brasil estão com a cara do Vale do Silício

Pesquisa mostra que percepção dos brasileiros sobre o que é ser empreendedor é cada vez mais próxima da imagem dos criadores de negócios no Vale do Silício.

São Paulo — O administrador Vitor Torres, de 34 anos, descobriu rapidamente as agruras que envolvem ter um negócio no Brasil. Em 2012, ele tocava em Curitiba uma empresa de educação executiva criada alguns anos antes e se irritava com a burocracia e o custo para manter a contabilidade em dia — uma rotina complicada e cara no Brasil.

Como muitos de sua geração, que se acostumaram a usar bancos online e agências de turismo virtual, Torres passou a se questionar: “Não tem um jeito de fazer isso pela internet?” Não tinha. Logo, era preciso inventar um. Um ano depois, em 2013, Torres e o sócio Fábio Bacarin fundaram a Contabilizei, um escritório de contabilidade online que atende pequenas e médias empresas.

Por meio de planos de assinaturas, o site oferece uma plataforma tecnológica que automatiza as operações contábeis e permite o atendimento de milhares de clientes. A empresa não revela seus números para não provocar ainda mais a categoria profissional dos contadores — a turma já percebeu o potencial do concorrente virtual e começou uma disputa ao estilo “Uber versus taxistas”.

Com 60 funcionários e operações em 30 cidades, a rápida expansão da Contabilizei chamou a atenção do fundo Kaszek Ventures (dos criadores do Mercado Livre), que fez um aporte milionário na empresa no ano passado. Há não muito tempo, os fundadores da Contabilizei seriam vistos como dois jovens tentando inventar moda antes de arranjar um emprego de verdade.

Hoje, eles são encarados como verdadeiros empreendedores. O termo, que até recentemente era mais associado ao dono de um negócio de bairro ou à pessoa que perdia o emprego e precisava arranjar desesperadamente uma nova fonte de renda, carrega agora cada vez mais um significado relacionado à inovação.

Uma pesquisa da Endeavor, ­organização internacional de fomento a negócios de alto impacto, descobriu que hoje boa parte dos brasileiros vê o empreendedor como o sujeito que desenvolve uma solução inovadora e cria uma empresa.

Ou seja, a noção de empreendedorismo típica do Vale do Silício, onde quase todo mundo aspira ser um Sergey Brin ou um Larry Page, fundadores do ­Google, começa a se popularizar por aqui. “Foi uma surpresa. Quando a Endeavor surgiu no Brasil, em 2000, a palavra ‘empreendedor’ nem existia no dicionário da língua portuguesa”, diz Juliano Seabra, diretor-geral da Endea­vor.

Essa foi a primeira pesquisa do gênero feita no país. Mas há indicações de que a percepção sobre o empreendedorismo de fato esteja melhor. Em 2013, um levantamento, feito com outra metodologia, mostrava uma fotografia bem diferente.

Na época, 60% da população concordava com frases como “empreendedores exploram o trabalho de outra pessoa” e “empresários apenas pensam no próprio bolso”. Para Seabra, a fotografia de 2013 refletia uma rejeição ao setor privado e falta de compreensão da condição de empreendedor. Nos últimos anos, as motivações que levam uma pessoa a abrir um negócio no país vêm mudando.

Em 2002, de acordo com a Associação de Pesquisa do Empreendedorismo Global, que monitora mais de 100 países, 55% das pessoas que abriram empresas no Brasil o fizeram por falta de opção de renda. É o chamado empreendedorismo por necessidade. Na época, os empreendedores que seguiam uma vocação inovadora representavam só 38% do total.

Em 2014, o empreendedorismo por necessidade caiu para 29%, enquanto a criação de negócio por oportunidade alcançou 58%. A recessão e o alto desemprego, no entanto, aceleraram novamente a criação de negócios por falta de opção, que voltou a 42% em 2015, e reduziram as iniciativas por convicção a 47% do total.

É bom que se diga: não há nada de errado em abrir um negócio porque foi demitido — e empresas de sucesso podem se originar assim. Mas o importante, segundo Seabra, da Endea­vor, é que, apesar do recuo recente, a motivação do brasileiro tende a se aproximar do perfil americano. Nos Estados Unidos, 70% das pessoas investem em novos negócios porque apostam numa oportunidade de mercado.

A evolução da imagem dos empreendedores é resultado de uma série de fatores. Nos últimos 20 anos, a economia brasileira se tornou mais estável, sem os desafios alucinantes de uma inflação descontrolada (embora os últimos dois anos tenham feito muita gente reviver a insegurança dos anos 80 e do início dos 90), ao mesmo tempo que o mercado consumidor cresceu substancialmente.

Embora ainda modesto, o avanço educacional ajudou a formar mão de obra qualificada nas profissões mais requisitadas. Outro fator decisivo para estimular o brasileiro a se tornar empreendedor é o maior acesso à tecnologia. O Brasil já tem 76 milhões de smartphones — o equivalente a 30% do total de celulares.

Com eles, muitos descobriram que é possível inovar com aplicativos que facilitam o dia a dia, como Waze, Uber e Whats­App. “A internet antes da era do smart­phone foi apenas uma preparação para as inovações que já existem e as que ainda estão por vir”, diz Romero Rodrigues, fundador do Buscapé e agora sócio do fundo de capital de risco americano Red­­point eventures.

Ele estima que o número de smart­phones no Brasil chegará a 170 milhões nos próximos anos, ampliando ainda mais o mercado para novidades tecnológicas. Na esteira dessas mudanças, o dinheiro também começou a fluir mais para quem tem um projeto original. Em 2015, o capital investido em startups no Brasil chegou a 442 milhões de dólares — sete vezes o aportado em 2011.

E a oferta de recursos continua aumentando. A seguradora Porto Seguro, por exemplo, acabou de criar a gestora Porto Capital, com 400 milhões de reais para investir em start­ups. “No passado, as grandes companhias não levavam a sério o empreendedor que inventava uma solução tecnológica.

Hoje, elas não apenas financiam as ideias dessas pessoas como também se tornam seus clientes”, diz Franklin Luzes, diretor da Microsoft Participações, que gerencia um fundo de 300 milhões de reais no país. Assim, está mais largo o campo para o em­preen­dedor brasileiro que tem o mesmo DNA do pessoal do Vale do Silício. Bom para eles, bom para o Brasil.