Brasil precisa copiar os melhores para vencer na educação

Para Andreas Schleicher, um dos maiores especialistas do mundo em educação, o Brasil colheu avanços no setor, mas ainda falta muito

São Paulo — De certo modo, o Brasil é um dos maiores casos recentes de sucesso em educação.

Desde 2001 o país aumentou significativamente a proporção de jovens de 15 anos com acesso à educação e, ao mesmo tempo, melhorou a qualidade dos resultados do ensino mais rapidamente do que qualquer outro país participante da avaliação Pisa, um exame de desempenho escolar realizado internacionalmente há 15 anos.

Mas o fato de jovens socialmente menos privilegiados em Xangai ainda mostrarem um aproveitamento melhor do que os jovens mais ricos no Brasil indica que há espaço para avançar e nos lembra que pobreza não é destino. A formação fraca de muitos brasileiros limita o acesso a empregos mais bem remunerados e mais compensadores.

E a distribuição desigual de habilidades tem implicações no modo como os benefícios do crescimento econômico são repartidos no interior da sociedade. Em poucas palavras, onde grandes porções de adultos têm habilidades fracas, fica difícil introduzir tecnologias que aumentem a produtividade e novos modos de trabalhar. E isso, por sua vez, impede a melhoria dos padrões de vida.

As habilidades afetam mais do que salário e emprego. Pessoas com deficiência de habilidades são mais propensas a ter problemas de saúde, não se enxergam como atores dos processos políticos e têm menos confiança nos outros — ou seja, vivem pior.

O Brasil simplesmente não pode desenvolver políticas inclusivas e atender às necessidades de todos os cidadãos se boa parte deles não tem habilidades básicas que permitam uma participação plena na sociedade. E para nenhum outro grupo isso é mais importante do que para a juventude atual, que não pode competir em experiência ou em redes sociais com as pessoas mais velhas.

Investir cedo é fundamental. As escolas brasileiras de hoje serão a economia e a sociedade brasileiras de amanhã. O conhecimento e as habilidades dos jovens de 15 anos são altamente indicadores da capacitação que terão quando adultos. O Brasil tem muito a ganhar com o aumento da qualidade e da igualdade nos resultados educacionais.

Se conseguir que todos os jovens de 15 anos completem com sucesso pelo menos o nível mais baixo de desempenho no Pisa, só isso adicionará 23 trilhões de dólares à economia brasileira no tempo de vida desses jovens. Isso equivale a 7,5 vezes o tamanho atual da economia brasileira e mostra que as recompensas de uma melhor escolaridade superam qualquer custo concebível da melhoria.

É evidente que não se pode simplesmente copiar e colar sistemas educacionais completos. Mas, quando se compara o Brasil aos países com melhor desempenho no Pisa, notam-se diferenças importantes. Os países líderes em sistemas de educação de alto desempenho são aqueles que convenceram seus cidadãos a valorizar mais a educação e o futuro do que o consumo e o presente.

Pais e avós chineses investirão até seu último centavo na educação de filhos e netos. Já o Brasil e o mundo ocidental chegam ao ponto de tomar emprestado o dinheiro dos filhos para financiar o consumo. É importante esclarecer isso.

O Brasil certamente aumentou seu investimento financeiro em educação muito significativamente na última década, mas ainda há muito que pais e educadores podem fazer para reduzir a tolerância ao insucesso. Outra questão é a crença na possibilidade de todas as crianças alcançarem resultados.

O fato de estudantes no Leste Asiático acreditarem consistentemente que o sucesso é antes de tudo resultado de trabalho duro, e não de uma inteligência herdada, sugere que a educação e seu contexto social podem fazer a diferença ao instilar os valores que promovem o sucesso na educação.

Compare-se isso com o Brasil, onde a maioria dos estudantes acredita que o sucesso na escola é resultado da inteligência inata. Esses estudantes tendem a ver a escola como um lugar seletivo. E não enxergam a si próprios como agentes de seu sucesso. Os sistemas escolares de alto desempenho compartilham padrões claros e ambiciosos.

Ali, todos sabem o que é preciso para obter uma qualificação. Isso continua a ser um dos mais poderosos indicadores de nível de um sistema de ensino. Por fim, a qualidade do sistema educacional brasileiro jamais poderá exceder a qualidade de seus professores. O Brasil investiu bastante na melhoria das condições de emprego de professores, mas isso é apenas o começo.

Sistemas educacionais de alto desempenho tornam o ensino uma opção de carreira atraente para conquistar os melhores candidatos possíveis. Eles asseguram uma formação de alta qualidade aos professores, proporcionam uma boa orientação e assistência a novos professores e baseiam o profissionalismo do professor numa compreensão apoiada em evidências do aprendizado efetivo.

Além disso, oferecem caminhos inteligentes para os professores progredirem na carreira, coisa que ainda não está funcionando no Brasil. Estimulam os professores a fazer inovações em pedagogia, a melhorar seu desempenho e o dos colegas e a trabalhar juntos para estruturar boas práticas. E cultivam e distribuem liderança por todo o sistema escolar.

No passado, o objetivo era padronização e conformidade, com as pessoas de melhor desempenho puxando a criatividade nas escolas. Pode-se impor padrões aos professores, mas o brilho pode, no máximo, ser inspirado. 

O resultado mais marcante dos sistemas escolares de classe mundial talvez seja que eles oferecem alta qualidade em todo o ambiente de ensino, para que cada aluno se beneficie de um aprendizado excelente. Para isso, esses sistemas conseguem atrair os professores mais talentosos para as classes mais problemáticas e os diretores escolares mais fortes para as escolas mais difíceis.

Alguns estados no Brasil começaram a conectar melhor ­suas escolas e a criar um sistema escolar mais coerente. Mas isso também ainda está longe de ser uma política universal no país. Finalmente, o Brasil terá de repensar seu sistema educacional para melhor antecipar o conhecimento e as habilidades necessárias à reativação de sua economia.

A coexistência de graduados desempregados com empregadores que dizem que não conseguem encontrar pessoas com o preparo de que precisam mostra claramente que só mais educação não se traduz automaticamente em melhores empregos e vida melhor. O descompasso de habilidades é hoje um fenômeno muito real que se manifesta nas perspectivas de rendimento das pessoas e em sua produtividade.

Saber quais habilidades são necessárias na sociedade e quais caminhos educacionais levarão os jovens para onde eles querem estar é fundamental. Em última instância, uma boa educação tem a ver com promover a paixão pelo aprendizado e cultivar a humanidade; estimular a imaginação; desenvolver tomadores de decisão independentes e capazes de moldar nosso futuro; e criar resiliência e alegria de progredir.

Pode-se resolver a maioria dos problemas nos exames escolares atuais no Brasil em segundos com a ajuda de um smartphone. Para as crianças brasileiras serem mais inteligentes do que um smartphone, a formação delas tem de ir além de torná-las capazes de reproduzir o que aprenderam, para que consigam extrapolar o que sabem e usar o conhecimento em situações novas.

O mundo atual já não recompensa pessoas pelo que elas sabem — o Google sabe tudo —, e sim pelo que podem fazer com o que sabem. É precisamente disso que trata o sucesso no exame do Pisa.

Melhorar o sistema educacional é, portanto, não somente atualizar e reembalar o conteúdo, mas tratar de ajudar os estudantes a descobrir quem eles são, o que querem fazer na vida e como chegarão lá num mundo cada vez mais incerto e em acelerada transformação. É uma tarefa pesada, mas a cada três anos as avaliações do Pisa nos fazem lembrar que os países podem cumprir a promessa da educação.

As comparações internacionais nunca são fáceis, com certeza, e também não são perfeitas. Mas os dados mostram o que é possível em educação e ajudam o Brasil a se ver no espelho dos resultados educacionais e das oportunidades proporcionados pelos líderes mundiais nesse campo.

Sem desenvolver as habilidades certas, as pessoas acabarão nas margens da sociedade brasileira, o progresso tecnológico não se traduzirá em crescimento econômico, o Brasil enfrentará uma grande dificuldade para ficar na frente neste mundo hiperconectado. E, por fim, perderá o cimento social que mantém coesas as sociedades democráticas.”