Biografia de Roberto Civita chega às livrarias em setembro

Leia trechos inéditos da biografia de Roberto Civita, criador das revistas EXAME e VEJA e um incansável defensor do liberalismo.

São Paulo — Chega às livrarias no final de setembro o livro Roberto Civita — O Dono da Banca, uma biografia do editor e em­preen­dedor que fez da Editora Abril a maior do segmento de revistas da América Latina. O leitor terá a chance de conhecer Roberto, morto em 2013, em detalhes: seu carisma, seus gostos e suas­ motivações.

O responsável pela criação de EXAME, Veja e dezenas de revistas da Abril era um homem apaixonado pela vida e pelo que fazia, um defensor incansável do liberalismo e da liberdade de expressão, um dos brasileiros mais influentes de seu tempo.

Escrito de forma magistral pelo jornalista Carlos Maranhão, que trabalhou mais de 40 anos na Abril, o livro não foge de temas espinhosos, incluindo erros e defeitos do biografado. Leia a seguir trechos da obra.

O Plano Enquanto vivia nos Estados Unidos no final da década de 50, Roberto foi convidado para trabalhar na sucursal da revista Time em Tóquio. Ao saber, Victor, seu pai, pediu que viajasse ao Brasil para uma conversa.

“A viagem, dessa vez num Super Constellation, em uma rota diferente, durou 24 horas, três a menos do que fizera na ida para ir estudar nos Estados Unidos. Depois de decolar do aeroporto de Idlewild (atual JFK), em Nova York, o quadrimotor fez escalas em Ciudad Trujillo (hoje Santo Domingo), na República Dominicana, em Belém e no Rio de Janeiro antes de aterrissar em São Paulo.

Roberto desembarcou excitado e ansioso em Congonhas, onde o pai o aguardava. No caminho, dentro do Dodge 1952 que Victor dirigia, começaram a conversar. ‘Você não acha que está na hora de vir para casa e começar a trabalhar?’, provocou Victor, em italiano, língua na qual normalmente falavam, de acordo com a reconstituição do filho. ‘Mas eu vou trabalhar na Time, em Tóquio’, disse Roberto.

‘O que você quer fazer, quer mudar o mundo?’, continuou Victor. ‘Quero’, confirmou. ‘Pois aqui você terá muito mais espaço para isso. Lá haverá uma enorme concorrência e você será apenas mais um. No Brasil, sua alavanca será maior. E você estará trabalhando em algo seu, não para os outros. Pense esta noite. Amanhã falaremos de novo.’ Roberto acordou com olheiras. Praticamente não dormiu.

Revirava‑se na cama, enquanto a imagem da alavanca se gravava dentro dele. Era a primeira vez que se sentia insone. Ao retomarem a conversa, o pai foi direto ao ponto: ‘Já sabe o que quer fazer?’ Roberto balançou afirmativamente a cabeça. ‘Quero fazer três revistas’, disse, afinal. ‘Uma revista semanal de informações, uma revista de negócios e uma revista masculina.’

Estava pensando na Time, na Fortune e na Playboy. Ou nos projetos ainda longínquos da Veja, que nasceria dez anos depois, em 1968; da EXAME, que deixaria de ser um suplemento das publicações técnicas da Abril para ganhar vida independente em 1971; e da edição brasileira da Playboy, que adotaria esse título em 1978, após o lançamento com o nome A Revista do Homem em 1975.

‘Hoje não estamos prontos’, explicou Victor. ‘Mas vamos nos preparar. Eu prometo: se você vier, vamos fazer as três e muitas outras. Aliás, você vai fazer.’ ” Os valores Durante décadas, Roberto gastava a maior parte dos fins de semana lendo livros, revistas e jornais. Examinava diversas publicações da Abril, cujas páginas arrancava e mandava aos diretores com observações, críticas e elogios.

“Carregava convicções inabaláveis. Era um defensor do capitalismo (preferia a expressão ‘livre‑iniciativa’), da democracia representativa, da liberdade de expressão, do livre comércio e do liberalismo econômico.

Combatia a presença do Estado na economia e na vida dos cidadãos, a burocracia, os excessos na regulamentação, qualquer tipo de censura, os regimes autoritários, o socialismo, o comunismo, a esquerda e o Partido dos Trabalhadores. Mas não gostava de julgamentos e procurava evitar o confronto. No campo do comportamento, sua postura era absolutamente liberal. Rejeitava qualquer tabu.

Falava abertamente de sexo, inclusive com os filhos mal saídos da infância, não se distanciou das ex‑mulheres nem de antigos envolvimentos e defendia o aborto. Podia contar piadas grosseiras na presença de senhoras e gabar‑se de proezas eróticas.

Educado na religião católica desde a conversão dos pais, dizia que deixara de crer em Deus no dia em que, revoltado, descobriu que eles lhe haviam escondido a origem judaica. No entanto, sentia‑se de certo modo culturalmente judeu e, em determinados momentos da vida, foi aconselhar‑se com rabinos.

Temia a solidão e precisava ter sempre uma mulher a seu lado. Mas nunca se viu sozinho ou desacompanhado. Não sabia mentir e normalmente engolia de boa‑fé o que lhe diziam de forma persuasiva. Como editor, pregava suas ideias com a convicção de um evangelista.

Entendia que o desafio dos jornalistas era tornar interessantes os assuntos importantes e repetiu infatigavelmente que a Abril só tinha compromisso com o leitor e o país, não com governos, anunciantes ou amigos.

Assim, seguindo o que assimilou na biografia de uma das personalidades que mais venerava, o americano Henry Luce, que em 1923 fundou a Time com Briton Hadden, pioneira entre os semanários de informação, modelo da Veja, suas revistas deveriam manter uma rígida separação entre Igreja e Estado. Ou seja, o editorial e o comercial.

Empenhou‑se para que essa lei fosse cumprida, o que geralmente acontecia. Defendeu a vida inteira, com ardor e convicção, um princípio que considerava inegociável: a liberdade de expressão. Era um homem de grande cultura.

Ele a adquiriu não só em sua formação escolar e universitária, destacando‑se quase sempre como o primeiro ou segundo aluno da classe em instituições de ponta no Brasil e nos Estados Unidos, mas também por leituras que pareciam infindáveis. Dos cerca de 5 000 livros que tinha em casa e no escritório, é possível afirmar que leu a maioria. Estão em grande parte repletos de anotações e passagens sublinhadas.

Seu interesse era diversificado e surpreendente. Tinha uma vasta quan­tidade de obras sobre política, eco­nomia, imprensa, história, filosofia, linguística, psicologia, literatura, biografias (dezenas de Winston Churchill, uma de suas principais referências), teatro, música, religião (em especial o judaísmo), física, gastronomia, vinhos…

E estantes de Shakespea­re, um de seus autores favoritos e de quem declamava de cor extensos diálogos de Júlio César, Romeu e Julieta, Macbeth e outras peças. O último livro que terminou de ler, em um fim de semana no litoral norte de São Paulo, foi uma tradução inglesa de Meditações, do imperador romano Marco Aurélio. Marcou 58 trechos. Um deles: ‘Se não é certo, não faça. Se não é verdade, não diga’.”

A revista de economia Logo após seu lançamento em 1971, EXAME firmou‑se como a maior revista de negócios do país. “Em 1974, surgiu a gigantesca edição anual Melhores E Maiores, com a classificação, muito aguardada no mundo dos negócios, das 500 principais empresas brasileiras nos mais diferentes setores.

Uma delas, escolhida por uma série de critérios pela direção da revista, com a decisão referendada por Roberto, era eleita A Empresa do Ano. A entrega do prêmio à vencedora de cada segmento — do comércio varejista à indústria automobilística — e à campeã entre todas elas acontecia em um jantar ao qual comparecia em peso o PIB nacional.

O então presidente Fernando Collor de Mello esteve em uma delas. Os ministros da área econômica eram presenças rotineiras, como oradores, bem como o governador de São Paulo e uma série de autoridades, fosse o governo que fosse. Esse evento comprovava o prestígio da Abril, da EXAME e de Roberto.

Ele recebia os convidados com um largo sorriso, circulava no meio das rodinhas em conversas rápidas antes da cerimônia e subia ao palco para ler um discurso.

Na sua fala, analisava o momento econômico, discorria ora com otimismo, ora com preocupação sobre o futuro do Brasil, dependendo da conjuntura, criticava o intervencionismo estatal, exaltava o papel das multinacionais e do capital estrangeiro no desenvolvimento do país, lamentava o excesso de regulamentações e atacava a burocracia.

Finalmente, ele enfatizava, reprisando uma filosofia que defendia com ardor, que sem a livre‑iniciativa não há concorrência, sem concorrência não há publicidade, sem publicidade — desvinculada do editorial — não há imprensa livre e sem imprensa livre não há democracia.

‘Os meios de comunicação de massa’, afirmava, ‘não subsistiriam sem a publicidade, que não existiria se não houvesse competição, que não teríamos sem um sistema de mercado livre, que depende — fechando esse ciclo virtuoso e admirável — da democracia e da liberdade para garanti‑lo’.

Ou seja, a democracia e a liberdade dependem, para se manter, das informações e da fiscalização que somente uma gama diversificada de veículos independentes pode assegurar. Nessa lógica, ‘sem publicidade não existiria uma imprensa vigorosa, uma imprensa que, sabemos todos, e os ditadores mais do que nós, é o alicerce do primado da lei e de uma sociedade livre’.

Com poucas mudanças, independentemente do grupo político que estivesse no poder, foi essa, durante anos, a linha de seus pronunciamentos — e o ideário que desejava ver refletido tanto na VEJA como na EXAME.”