As lições da cidade de Pequim para o mundo

Entre as principais cidades de países emergentes, a capital da China é a que mais cresce — e está errado quem acha que isso é resultado apenas da força de atração da economia chinesa

São Paulo – A cidade de Pequim é um daqueles lugares que impressionam já na chegada, para o bem e para o mal. Não pela vista de montanhas, como o Rio de Janeiro, ou pelo skyline, como Nova York. Quem aterrissa no aeroporto da cidade, o segundo mais movimentado do mundo, costuma ficar admirado pela monumental obra do arquiteto britânico Norman Foster.

Ao sair para a rua, o choque inicial é com a qualidade do ar, um dos piores do planeta. Mas logo se destacam as incontáveis gruas levantando prédios em toda parte, que dá ao visitante a sensação de estar entrando em um novo mundo.

Num estudo recente, a consultoria britânica PwC investigou o desempenho econômico das grandes metrópoles emergentes e confirmou essa impressão que os viajantes costumam ter. Das sete megalópoles pesquisadas (Pequim, Jacarta, Mumbai, Istambul, Moscou, Cidade do México e São Paulo), a capital chinesa é a que mais cresce — São Paulo, no extremo oposto, é a lanterninha. Nos últimos dois anos, a economia de Pequim se expandiu numa média anual de 8%, superior ao crescimento chinês.

Ser a capital da China, sem dúvida, ajuda — e muito. Pelo motivo óbvio de estar no país que bateu todos os recordes de crescimento nas últimas três décadas. Se não fizesse parte da locomotiva chinesa, Pequim dificilmente seria a sede de 47 das 500 maiores empresas do mundo.

Mas reduzir o sucesso da capital a esse ponto seria injusto, já que a economia local tem sido um destaque mesmo para os padrões chineses. Das mais de 700 empresas estrangeiras que montaram centros de pesquisa e desenvolvimento no país nos últimos anos, 30% escolheram Pequim. A lista inclui nomes como a empresa de softwares Microsoft, a consultoria Accenture, o site Yahoo!, a fabricante de computadores HP e a companhia do setor farmacêutico Merck.


A procura por terrenos e escritórios é tanta em Zhongguancun — distrito da capital conhecido como o Vale do Silício chinês — que empresas como o site de buscas Baidu, equivalente ao Google no país, estão planejando a construção de prédios em regiões mais distantes do centro.

A China pode ser a fábrica do mundo, mas Pequim se transformou numa cidade especializada no setor de serviços — que já responde por mais de 75% da economia local, percentual superior ao de Xangai. Só entre 2006 e 2010, o número de instituições financeiras duplicou.

De 2010 a 2012, o investimento estrangeiro anual saiu de 6,4 bilhões para 8 bilhões de dólares. Nos últimos anos, Pequim alavancou sua posição dentro da China. Usou incentivos fiscais de forma inteligente e, assim, construiu um ecossistema singular no país. “A cidade teve sua imagem tradicionalmente ligada ao poder político, mas tem sido um grande destaque na área econômica”, diz Xifang Xing, professor de planejamento urbano na Universidade de Tianjin, próxima a Pequim.

Quais foram, afinal, os méritos dos administradores da capital chinesa nas transformações registradas recentemente? Para incentivar a instalação de empresas, a cidade decidiu adotar uma política fiscal diferenciada. Companhias de alta tecnologia — chinesas ou estrangeiras, sem distinção — pagam um imposto de renda reduzido, de 15%.

As multinacionais que montam centros de pesquisa conseguem desembaraçar seus produtos na alfândega com mais facilidade. Essas medidas ajudam a explicar por que os investimentos em ciência e tecnologia avançam a uma taxa de 10% por ano na cidade.

Já as instituições financeiras podem ganhar subsídios de até 1,6 milhão de dólares para cobrir parte dos gastos com a mudança, além de abatimentos nos tributos. Só em 2012, o distrito financeiro de Pequim registrou a chegada de 70 empresas. A transferência de empregados de outras regiões da China ou do exterior também é agilizada.

Para atrair profissionais qualificados, a cidade oferece a determinadas categorias condições especiais no financiamento de imóveis. Tudo isso sem contar que existe uma preocupação por parte do governo local de tornar a vida das empresas menos difícil. O processo de desburocratização ganhou força a partir de 2009, quando Pequim começou a reduzir o número de departamentos públicos envolvidos na aprovação de investimentos.


Houve uma diminuição da quantidade de formulários exigidos, e vários deles passaram a ser preenchidos pela internet. Pequim é, em resumo, uma das metrópoles mais ativas na competição por investimentos. Elegeu setores estratégicos e elaborou um plano para atraí-los.

“Existem cerca de 100 cidades globais, e todas elas precisam desenvolver especializações que as diferenciem umas das outras”, diz Saskia Sassen, professora de sociologia da Universidade Colúmbia e famosa por ter inventado o conceito de cidade global.
Pequim é destaque também em termos de investimento em transporte.

Em 2001, quando foi a escolhida para sediar a Olimpíada de 2008, sua rede de metrô tinha, ao todo, 60 quilômetros. No ano passado, a extensão total chegou a 465 quilômetros, superando os sistemas de Londres e Nova York. Essa arrancada, é verdade, teve um forte empurrão do governo central, mas exigiu esforços das autoridades locais.

Nesse ponto, o contraste com os preparativos para a Copa do Mundo deste ano e a Olimpíada de 2016, no Rio de Janeiro, não poderia ser maior — dois eventos que também envolvem as várias esferas de governo. A ligação entre o aeroporto de Guarulhos e o centro de São Paulo, planejada para ficar pronta antes do Mundial, nem saiu do papel.

Nos últimos 12 anos, o metrô de São Paulo ganhou 25 quilômetros, e o do Rio, 2. No ano passado, o governo chinês decidiu mudar de rota e incentivar investimentos privados em infraestrutura. Mais uma vez, Pequim foi uma das cidades que saíram na frente. Em julho, os administradores municipais determinaram que empresas públicas e privadas devem receber tratamento igual em concorrências e anunciaram licitações em áreas como fornecimento de gás e energia elétrica.


Poluição

Um dos maiores desafios de Pequim — e da China como um todo — é reduzir o passivo ambiental. A qualidade do ar na cidade foi classificada como inadequada durante 60% dos dias no primeiro semestre do ano passado, fenômeno que os estrangeiros estabelecidos por lá chamaram de “arpocalipse”.

Em fevereiro deste ano, o “alerta laranja” (o segundo mais grave na escala de perigo) foi emitido pelo governo municipal por causa da má qualidade do ar. Quando isso acontece, as crianças são proibidas de fazer esportes ao ar livre, e as atividades de algumas empresas ficam limitadas.

É comum os expatriados compararem as marcas de seus purificadores de ar como se estivessem falando das qualidades de seus carros. “Do ponto de vista ambiental, o custo do sucesso da cidade foi muito alto”, diz Zhigang Li, professor de geografia urbana da Universidade Sun Yat-Sen. Para os administradores de grandes cidades brasileiras fica o aviso: não deixem o fog de Pequim encobrir os acertos da estratégia adotada para atrair novas empresas. n