Para mansões americanas, a crise não chegou

Os corretores brigam pela honra de vender a mansão mais cara da história -- o preço chega a 165 milhões de dólares

Estouro da bolha, crise no crédito imobiliário subprime e queda da bolsa de valores são problemas que não preocupam um setor muito específico do mercado imobiliário americano: o das casas de mais de 100 milhões de dólares. A bem da verdade, falar em casas é insuficiente para fazer justiça aos colossos de luxo e requinte que se erguem nas colinas de Beverly Hills, nas praias da Flórida ou nas montanhas do Colorado. </p>

Os mimos que acompanham essas propriedades podem incluir 14 lareiras em ambientes variados, garagem para 16 veículos, campo de golfe particular e uma escadaria idêntica à do malfadado transatlântico Titanic. Neste ano, estão sendo vendidas nos Estados Unidos as casas mais caras da história. Dezenas de corretores correm pela honra de superar a barreira dos 103 milhões de dólares — valor da residência mais cara já vendida no país.

A líder em cifras nessa corrida de mansões é uma propriedade em Beverly Hills, na Califórnia, que já serviu de locação para filmagens de superproduções de Hollywood, como O Poderoso Chefão e O Guarda-Costas. A casa, que está no mercado  há dois meses, por 165 milhões de dólares, também é famosa por ter hospedado o ex-presidente americano John Kennedy e sua mulher, Jackeline Kennedy, durante sua lua-de-mel.

Construída em 1926, ela tem quase 7 000 metros quadrados de área útil e está dentro de uma propriedade do tamanho de cinco campos de futebol. São 29 quartos, 40 banheiros, um estúdio de arte e uma casa de hóspedes anexa, que podem ser visitados apenas por clientes pré-qualificados. Segundo o corretor Stephen Shapiro, responsável pela venda da mansão, a estratégia para atrair compradores é usar a abordagem indireta.

“Fazemos um trabalho de relações públicas com nossos contatos mais influentes, soltamos releases de imprensa e esperamos que os clientes nos procurem”, diz ele. Se o potencial comprador for uma pessoa famosa, qualifica-se automaticamente para a visita. Mas, se for um desconhecido, Shapiro usa a internet para buscar referências.

Vale até fuçar relatórios enviados à Securities and Exchange Comission em busca daqueles que ganharam planos de opções de ações de suas empresas. “Se não acharmos nada sobre essa pessoa ou sua empresa, já excluímos da qualificação”, afirma o corretor. Até agora, cinco clientes — cuja identidade é confidencial — mostraram real interesse na propriedade.


OUTROS PARTICIPANTES da contenda lançam mão de estratégias mais agressivas para atrair compradores. O corretor Robert Kass (um dos que trabalham para emplacar a venda de uma mansão em Los Angeles listada por 125 milhões de dólares) ficou dois meses viajando entre Londres, Moscou, Istambul, Dubai e Côte d’Azur para encontrar-se com potenciais clientes.

Ele calcula que cerca de 7 000 pessoas ao redor do mundo poderiam bancar uma propriedade como a Fleur de Lys, pomposo nome da casa inspirada nos palácios franceses do período de Luís XIV. “Pelo menos metade desses potenciais clientes está fora dos Estados Unidos”, diz Kass, citando China e Japão como mercados ainda a ser explorados. Apesar de não centrar esforços apenas nos bilionários — para o corretor, pessoas com patrimônio de “somente” 500 milhões de dólares já são potenciais compradores –, Kass utiliza as listas dos mais ricos do mundo como ponto de partida.

Enquanto os corretores e suas agências lutam por uma comissão de venda que fica entre 5% e 7% do valor do imóvel, os proprietários se beneficiam da subida vertiginosa no preço das mansões. E, curiosamente, os donos também brigam pelo direito de vender a casa mais cara.

O empresário Donald Trump, por exemplo, pagou cerca de 41 milhões de dólares por sua Maison de L’Amitié em Palm Beach, na Flórida, em 2004. Depois de algumas remodelagens estéticas, Trump a colocou novamente no mercado, dessa vez por 125 milhões de dólares. Em entrevista recente, ele criticou as duas propriedades à venda nos Estados Unidos com preço acima da sua.

Classificou o chalé de 135 milhões de dólares de Bandar bin Sultan, conselheiro de segurança nacional da Arábia Saudita, como “uma tentativa de alguém que joga o preço lá no alto só para bater Trump”. Quanto à mansão de 165 milhões em Beverly Hills, foi categórico: “É uma piada”. Os corretores rivais devolvem dizendo que não há piada mais engraçada que o cabelo de Trump. Os especialistas esperam que a casa mais cara da história dos Estados Unidos seja vendida nos próximos meses.