Agora a ficha caiu para a Queiroz Galvão

O grupo Queiroz Galvão demorou para sentir os efeitos da Operação Lava-Jato e da recessão na economia. Mas agora o baque veio

São Paulo — Ao longo dos últimos 60 anos, a família pernambucana Queiroz Galvão construiu um império com discrição. Apesar de o grupo Queiroz Galvão viver basicamente de obras públicas — é dono de uma construtora, uma petroleira, uma empresa de saneamento e outros negócios que, somados, faturam quase 15 bilhões de reais —, os irmãos que controlam a companhia e seus herdeiros mal circulam por Brasília e raramente são reconhecidos fora da roda social de Recife.

Não costumam dar grandes festas, não têm jatinhos nem helicópteros — quando viajam, voam em aviões comerciais. Esse estilo distante ajudou o grupo a enfrentar o turbilhão provocado pela Operação Lava-Jato. No fim de 2014, um executivo e um ex-diretor da companhia foram presos e a construtora do grupo entrou para a lista da Petrobras em que estão empresas que não podem fazer negócio com a estatal.

Apesar disso, os efeitos para a Queiroz não foram imediatos. O grupo chegou à atual crise que assombra quase todos os setores da economia brasileira menos endividado do que seus pares. Durante quase um ano, a companhia seguiu operando quase como se nada tivesse acontecido.

Mas, claro, os negócios estavam sendo afetados. Recentemente, a situação começou a ficar mais difícil. Aí, sim, a ficha caiu. A construtora encolheu, enquanto a empresa naval, as siderúrgicas e a incorporadora passaram a ter prejuízo no segundo semestre de 2015 e, com isso, fecharam o ano no vermelho. Os resultados foram prejudicados pela progressiva queda nas receitas.

A construtora, que responde por 60% do faturamento do grupo, não fechou nenhum novo contrato no Brasil em 2015, o que reduziu 20% de suas receitas, e profissionais ligados à empresa esperam uma queda de mais 35% neste ano. Se isso acontecer, a maior empresa do grupo passará a ter metade do tamanho que tinha antes da crise.

Além de ter sido vetada pela Petrobras, resolveu desistir de obras consideradas polêmicas. É o caso da usina nuclear Angra 3, cuja construção está sendo investigada na Lava-Jato. Também abriu mão de terminar a ponte do Pontal depois que a UTC abandonou o projeto no ano passado (a Queiroz havia ficado em segundo na licitação e poderia ter assumido a obra).

Por diferentes motivos, as demais subsidiárias da Queiroz Galvão não vêm conseguindo compensar a queda na receita da construtora. Um dos dois estaleiros dos quais a companhia é sócia passou cinco meses com as obras paralisadas, já que a principal contratante, a enrolada Sete Brasil, está inadimplente.

A recessão reduziu a demanda por imóveis e, por isso, a incorporadora parou de lançar empreen­dimentos e sofre com a devolução de imóveis prontos. A subsidiária de petróleo e gás, que responde por 20% das receitas do grupo, vive uma situação dramática.

Com a desvalorização do petróleo e o custo de extração, a empresa não deve gerar caixa, segundo um cálculo da corretora do banco Itaú — o que poderia tornar a operação inviável.

Graças à atuação no exterior — a Queiroz Galvão presta serviços de construção e engenharia em mais de 20 países —, o grupo deve conseguir manter estável seu faturamento, segundo executivos próximos à companhia (sem o efeito do câmbio, a queda seria de 27%). O mesmo acontece com o volume total de contratos em carteira, de 100 bilhões de reais.

O lucro, porém, deverá diminuir 20%. Em razão da alta dos juros, o endividamento da construtora do grupo, que equivale a quatro vezes sua geração de caixa, preocupa. A família tomou duas ações raríssimas na história da Queiroz Galvão. Primeiro, fez demissões em larga escala. Entre 2015 e 2016, o grupo terá demitido 3 200 — somando 7% do total de empregados.

A companhia nunca havia encolhido tanto. Além disso, decidiu vender alguns de seus negócios para fazer caixa. Nas últimas duas décadas, o grupo vendeu apenas duas pequenas participações em geradoras de energia. Embolsou 68 milhões de dólares, segundo um levantamento da consultoria britânica Dealogic. No final do ano, a estratégia mudou.

Sua maior venda foi concluída há menos de dois meses, quando a companhia japonesa Itochu comprou 49% da fatia da Queiroz Galvão na holding de saneamento Águas do Brasil por 70 milhões de dólares. O grupo também já colocou à venda 49% de sua subsidiária de energia eólica, a Queiroz Galvão Energia, e ativos no setor de siderurgia.

Um deles é uma reserva florestal de 73 000 hectares que fornece madeira para os fornos de produção de ferro-gusa, exportados para a Ásia. A gestora canadense de investimentos Brookfield e a fabricante brasileira de papel e celulose Eldorado são os principais interessados. A Queiroz também tenta se desfazer de uma participação numa empresa de alimentos que produz e exporta frutas para a Europa.

Se conseguir fechar todas as operações, o grupo deverá embolsar 2 bilhões de reais. EXAME apurou que a expectativa da família é conseguir pelo menos 1 bilhão de reais até o terceiro trimestre, o que promete ser complicado. “Está difícil conseguir preços adequados”, diz um alto executivo do grupo. Procurada, a Queiroz Galvão não deu entrevista.

O papel dos donos 

A companhia demorou para sentir a retração na economia por três motivos principais, de acordo com analistas e executivos de mercado. Primeiro porque, pelo menos até o momento, os donos e os principais acionistas da Queiroz Galvão não foram envolvidos nas investigações.

Os dois executivos que foram presos são Othon Zanoide, então diretor da Vital Engenharia Ambiental, que pertence ao grupo (ele foi demitido), e Idelfonso Colares Filho, ex-diretor da construtora. Além disso, os dois foram liberados depois de uma semana e ainda não foram indiciados.

É uma situação bem dife­ren­te da enfrentada por Andrade Gutierrez, Galvão Engenharia e Ode­brecht, cujos presidentes foram presos e indiciados pelo Ministério Público Federal. Além disso, o endividamento do grupo Queiroz Galvão é menor do que o de suas concorrentes: corresponde a 2,8 vezes a geração de caixa — no grupo Ode­brecht, por exemplo, a dívida equivalia a 4,3 vezes a geração de caixa no ano passado.

O terceiro motivo é o fato de a Queiroz ter um histórico de distribuir poucos dividendos aos acionistas e manter mais recursos em caixa, o que ajuda a ter liquidez num momento de crise, e de poder contar com o patrimônio dos donos em períodos complicados. Em dezembro, a família Queiroz Galvão fez um aporte de 200 milhões de reais na construtora.

Entre dezembro e ­janeiro, colocou 270 milhões de reais no estaleiro Atlântico Sul junto com suas sócias no em­preendimento, a ­Camargo Corrêa e a HIH Corporation. EXAME­ apurou que os sócios podem injetar mais 250 milhões de reais no estaleiro ao longo do ano.

Internamente, a Queiroz Galvão respondeu à Lava-Jato mudando seus processos — como fizeram, ou prometeram fazer, muitas empresas investigadas. As novidades aconteceram na construtora. Em junho, a empresa contratou um diretor de controle de riscos e normas para revisar os processos de aprovação de obras e a contratação de empresas terceirizadas.

Em janeiro, formou um conselho de ética e, em fevereiro, começou a mudar o conselho de administração para incluir conselheiros independentes. O primeiro deles é o economista Maíl­son da Nóbrega, ex-ministro da Fazenda. Outros dois devem ser escolhidos até março, quando a companhia pretende colocar em funcionamento um canal de denúncias anônimas de funcionários e fornecedores.

A diretoria jurídica da construtora também avalia fazer um acordo de leniência para suspender as investigações de cartel na Petrobras, como fizeram a Andrade Gutierrez e a Camargo Corrêa. A crise pode até ter demorado para pegar o discreto grupo Queiroz Galvão. Mas que pegou, pegou.