A faxina vai longe ainda no Brasil

Está ficando difícil acompanhar o ritmo desembestado da roubalheira. É o resultado da decisão, tomada em 2003, de abrir as catracas do governo para a entrada de todo tipo de vigaristas e aventureiros

São Paulo – O advogado-Geral da União, pelo que se pode imaginar, é um advogado que advoga geralmente em favor da União. Mas aqui é o Brasil, e as coisas mais surpreendentes podem acontecer — sobretudo quando o partido que manda no governo está convencido de que é o único com direito a governar o país.

Nessas condições de temperatura e pressão, é perfeitamente possível que o homem de confiança do advogado-geral da União se veja indiciado em inquérito pela Polícia Federal por severas suspeitas de advogar não a favor, mas contra a União. É isso, justamente, o que está acontecendo com o advogado-geral adjunto José Weber Holanda — braço direito do advogado-geral Luís Inácio Adams e ocupante do lugar número 2 na hierarquia de uma repartição pública que existe para defender os interesses da administração federal.

Afastado do cargo dias atrás, Holanda é acusado de colocar-se a serviço do ex-senador Gilberto Miranda, velho conhecido dos policiais que investigam casos de lesão ao Erário, para ajudá-lo a “viabilizar” um projeto portuário de 2 bilhões de reais em Santos e permitir que continue ocupando uma ilha no litoral paulista.

Neste particular, por sinal, sua atuação se conecta com outro escândalo novinho em folha — onde brilha a recém-demitida chefe do gabinete da Presidência da República em São Paulo, Rosemary Noronha, colocada e mantida no cargo desde 2003 pelo ex-presidente Lula, assessora do ex-ministro José Dirceu durante 12 anos e indiciada por corrupção e outros crimes.

Vai ficando cada vez mais difícil, como se vê, acompanhar o ritmo desembestado da roubalheira nacional, tal a quantidade de episódios e a variedade dos delitos que vêm ao conhecimento geral em função do trabalho da Polícia Federal e do Ministério Público. É o resultado inevitável da decisão do ex-presidente Lula e do PT, tomada desde o início de seu primeiro mandato, em 2003, de abrir as catracas dos altos, médios e baixos escalões do governo para a entrada de todo tipo de vigaristas, parasitas e aventureiros; desde então, não se parou mais de roubar.


É complicado. A presidente Dilma Rousseff vai completar daqui a pouco a primeira metade de seu mandato, já demitiu uma dúzia de ministros e dezenas de autoridades graúdas, fechou de uma vez “pontos” de ladroagem na administração federal (o último deles, aliás, é o tal gabinete presidencial em São Paulo), e a faxina parece cada vez mais longe, e não mais perto, de se completar.

O problema, em qualquer circunstância, é muito ruim. Num momento como o atual, quando a economia está quase parada num crescimento de apenas 1,5% ao ano, se tanto, e o Brasil precisa com urgência de mais desenvolvimento, mais dinamismo e mais investimento, tudo fica pior ainda.

A sensação de que o governo perdeu a capacidade efetiva de controlar a corrupção gera um gás altamente tóxico para a atividade econômica: cria um clima generalizado de imprevisibilidade, e poucas coisas tiram tanto o apetite dos investidores quanto as situações imprevisíveis.

O episódio da AGU, nesse sentido, é exemplar. Até uns dias atrás, o advogado-geral Luís Inácio Adams era considerado um nome fortíssimo para ocupar a próxima vaga de ministro no decisivo Supremo Tribunal Federal. De uma hora para outra, passa a ser um nome mais do que fraquíssimo — suas chances reais de chegar lá caíram para zero, e ele terá de se dar por satisfeito se não acabar simplesmente no olho da rua. Se o que parece certo num dia torna-se impossível no outro, como alguém pode prever alguma coisa no Brasil de hoje?

As ações do governo na economia, percebidas cada vez mais como descaso com o cumprimento de contratos, já causam insegurança de sobra; é o que se vê quando a Petrobras perde metade de seu lucro em 2012 e as ações da Eletrobras caem 50% num único mês. A última coisa que o Brasil precisa no momento é da instabilidade trazida por um governo em que os mais altos funcionários estão sujeitos, o tempo todo, a ouvir a polícia bater nas suas portas.