Com modelo de negócio tido como ultrapassado, Havan fatura R$4 bi

Quem mora em grandes centros urbanos talvez nunca tenha ouvido falar na Havan. E há um bom motivo para isso.

São Paulo – As duas primeiras semanas do ano — aquelas meio mortas, em que quem pode viaja de férias e quem não pode trabalha entorpecido — foram particularmente agitadas para o empresário Luciano Hang. Aos 54 anos, Hang é um daqueles personagens que volta e meia aparecem na cena econômica brasileira: pouca gente sabe que ele existe, mas pode-se dizer que é um dos maiores empresários do país. Hang é dono da rede de lojas de departamentos Havan, que fatura 4 bilhões de reais. No início do ano, ele cruzou o país em seu avião particular para acompanhar a abertura de seis novas lojas. Uma delas, a ser inaugurada em Rio Branco, no Acre, será a 100ª unidade.

Quem mora em grandes centros urbanos talvez nunca tenha ouvido falar na Havan. Há um bom motivo para isso: a rede está toda espalhada pelo interior ou por cidades de médio porte. Mas as pessoas que andam pelas estradas brasileiras podem ter notado a bizarra existência de uma réplica da Estátua da Liberdade à frente de uma loja em forma de Casa Branca. Essa é a Havan. Fundada nos anos 80 na cidade catarinense de Brusque, a empresa sempre foi cercada por uma aura de mistério.

É comum ouvir que as lojas pertencem a coreanos, chineses, americanos ou ao bispo Edir Macedo. Segundo o último boato que circulou, a Havan pertencia a um dos filhos do ex-presidente Lula. Foi aí que Hang decidiu sair da toca. Pela primeira vez em 30 anos, ele estampou a campanha de Natal da rede no ano passado e participou de alguns poucos programas de TV.

Filho de operários do setor têxtil, Luciano Hang começou a carreira com uma loja de 45 metros quadrados especializada em tecidos importados em Brusque, a 100 quilômetros de Florianópolis. A abertura econômica no governo Collor impulsionou o negócio: em suas viagens ao exterior, além de tecido, Hang começou a comprar bugigangas para revender a lojas de 1,99 real na cidade. Tinha, na época, um sócio, Vanderlei de Limas (o nome Havan vem da junção das iniciais do sobrenome de um e do nome do outro).

Em 1991, o sócio deixou a empresa. Mas ele mantém, até hoje, uma pequena loja de tecidos em Brusque. Livre do freio causado pelas desavenças, Hang decidiu abrir lojas fora de Santa Catarina. Foi quando começou a desenvolver o modelo de negócios um tanto esquisito que levou a empresa à frente.

Poucos negócios são tão “anos 90” quanto as lojas de departamentos. Elas ficaram no passado, destruídas por erros de gestão e pela ascensão de outras opções de compra nas grandes cidades. A Havan tem tudo o que levou Mappin e Mesbla à lona. Vende mais de 100 000 itens, número altíssimo que torna a operação da loja extremamente complexa. Encontra-se de tudo por lá. Nas capitais do Sudeste, com shoppings de todas as categorias, esse tipo de loja seria inviável.

Mas Hang descobriu que, no interior do país, o jogo é completamente diferente. Os preços baixos, a decoração curiosa (para não dizer esdrúxula) e o espaço para alimentação e lazer conquistam os clientes, que muitas vezes chegam em ônibus intermunicipais. A proximidade de rodovias, o amplo estacionamento e a facilidade de acesso a transporte público também ajudam. Segundo a consultoria Boston Consulting Group, mais de 80% das cidades em que a Havan está presente têm menos de 500 000 habitantes. Uma das lojas está instalada em Porto União, em Santa Catarina, um município com apenas 30 000 habitantes.

O dono toca a Havan com um jeitão de PME. A empresa tem apenas cinco diretores, e Hang administra o negócio praticamente sozinho. A família quase não participa do dia a dia da empresa, e sucessão, por enquanto, é assunto proibido. “Tenho 54 anos, posso trabalhar tranquilamente até os 100”, diz Hang. Apesar desse tamanho todo, a Havan não divulga balanços. Segundo funcionários, um dos grandes prazeres que o empresário tem na vida é levar visitantes em seu helicóptero para conhecer o centro de distribuição da empresa em Barra Velha, no litoral de Santa Catarina.

A loja da cidade tem uma Estátua da Liberdade de 57 metros de altura, 10 a mais do que a original americana. A obsessão pelos Estados Unidos começou ainda na década de 80, em suas primeiras visitas como importador de mercadorias. A primeira estátua foi instalada em 1995 em Brusque. “Sou fã dos Estados Unidos porque admiro o ambiente livre de negócios”, diz Hang, entusiasmado. Há quem deteste a decoração americanófila da rede.

Em Bauru, no interior paulista, um protesto de moradores quase impediu a instalação da estátua. A prefeitura não viu problema e a estátua está lá. Hang gosta de dizer que se orgulha de pagar cerca de 1 bilhão de reais ao ano em impostos e encargos trabalhistas. Talvez a explicação para isso seja o desejo de deixar para trás uma condenação por crimes contra o sistema financeiro nacional (como sonegação e evasão de divisas) e lavagem de dinheiro na década de 90. A condenação a 13 anos de prisão acabou prescrevendo.

Hang descobriu o potencial de consumo do interior do país antes de muita gente, mas é claro que a concorrência acordaria um dia. As empresas de shoppings, por exemplo, estão fugindo das capitais e migrando para as cidades médias. Apesar de abaladas pela crise, pretendem inaugurar 41 shoppings no país até 2018. Enquanto a concorrência não aumenta, a Havan  anunciou um investimento de 300 milhões de reais para abrir dez lojas em 2017. Com isso, estima-se que o faturamento pule para 5 bilhões de reais. Hang quer chegar à 200a loja em cinco anos. Se conseguir, será bom para ele — e para os fabricantes de estátuas da Liberdade também.

Comentários

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  1. Como dizer que é um modelo de negócios ultrapassado, se no próprio país de inspiração dele, você pode encontrar Marshalls, Ross, TJ Maxx e Burlington (para citar apenas essas) faturando mais de $11 bilhões por ano? Eu acho é que ele já deveria estar com um plano de expansão para a América Latina e também um e-commerce.

    1. Já existe um ecommerce na Havan.
      http://www.havan.com.br

  2. Johnny C Souza

    Matéria estranha essa da Exame, se o negocio está indo bem e gerando lucro, e ainda crescendo o que há de errado? Só a cabeça dessa jornalista, o que diz a teoria da ADMINISTRAÇÃO e que para cada tipo de negócio ou situação aplicamos uma dessas teorias e se ele está lucrando e por esta colocando as em prática .
    No Brasil onde o modelo era o ”Eike ” o que tem de errado com a Havan ?

    1. Rodrigo Pereira

      disse tudo…

    2. Emerson Luis

      F

  3. Roberto Carvalho dos Santos

    Eu queria entender qual o motivo da matéria?! Eu acho quem escreveu não deve sair do escritório em SP, e muito menos entender de negócios.
    É uma gestão pragmática, com pouca complexidade, sem burocracia e que funciona.
    O problema é que estamos acostumados, com excessos de níveis nas “grandes” empresas e que acabam dificultando, deixando o negócios rígido e com dificuldade de mobilidade.
    Eu acho quem escreveu essa matéria deveria entender um pouco melhor sobre negócios para poder ter melhores argumentos.

    1. Michele Tieme da Silva Afuso

      Concordo.

  4. Fraga Luis Claudio

    É difícil compreender a visão da jornalista Naiara Bertão sobre o mercado de varejo brasileiro.

    A Havan é a empresa com maior crescimento do mercado e figura na lista das 50 Maiores Varejistas no ranking da Exame. E foi notícia no The New York Times (https://goo.gl/aXf67C), sem nenhum comentário jocoso sobre a estátua e a fachada – ícones utilizados como marketing e que chamaram a atenção dos seus jornalistas.
    Qual empresa brasileira já foi notícia por la?
    Acho que a Naiara escreveu sem conhecimento de causa e sem ter pisado em uma loja Havan. Azar dela.

  5. Vilmar Dubiella

    Típica reportagem da Exame onde fazem observações desnecessárias como ‘decoração esdrúxula’ e ‘estilo americanizado’, ao invés de expor com mais profundidade o modelo de negócio que está dando certo. Nesse cenário de crise, que bom saber do sucesso de alguma empresa brasileira. Menos bairrismo e tom pejorativo, please.

    1. Emerson Luis

      Esdrúxula é essa reportagem meia boca.

  6. Têm coisas muito mais importantes para protestar, do que ser contra a estátua da liberdade de um empreendimento privados; Deveriam olhar para a miséria do entorno em que vivem.

  7. Hernando Santana Pinto

    Está desabilitada a opção Responder, mas Gustavo Camilo, e-commerce ele já tem a muito tempo! havan.com.br

  8. Eu gostaria de entender o que se chama de grandes centros, SP e RJ apenas? Há várias lojas da Havan aqui em Curitiba e região metropolitana.

  9. Daniel Antunes Talma Dat

    hahahah estou rindo dos comentários do pessoal, esta matéria foi encomendada pelo próprio luciano hang é como esta na matéria, isso faz parte do marketing dele e o pessoal achando estranho a matéria cairam certinho nessa heim, quem não queria ter um modelo de negocio ultrapassado desses

  10. CLAUDIA MAZEPA

    Um modelo de negócio tido como ultrapassado na visão dos grandes empresários. Mas que no olhar de um grande empreendedor da muito certo. Sabe porque? Porque ele focou nos pequenos centros e não foi no embalo de todos. PARABÉNS HANG!

  11. Adriano de Souza

    Cara jornalista Naiara Bertão, você está fora de si.
    Querida, ultrapassada está você que, com esta mentalidade é melhor estudar mais sobre TGA.

  12. Adriano de Souza

    com esta mentalidade é melhor estudar mais sobre TGA.

  13. A julgar pelo tom depreciativo com que aborda o sucesso da Havan, a Exame parece não estar costumada com cases de sucesso que buscam caminhos alternativos.

    Para a revista, um modelo de negócios só pode dar certo se seguir a cartilha de conceitos tidos como “modernos” e “inovadores”.

    Seus editores parecem ignorar que, para muito além do glamour de determinados empreendimentos, existe um Brasil impulsionado por uma economia interiorana diversificada, onde o que vale é o faro do dono para os negócios.

    Talvez por isso tenha feito, ao longos dos anos, tantos elogios ao Eike Batista e seu estilo “moderno” de fazer negócios.