A crise de uma das regiões agrícolas mais importantes do BR

O Matopiba, formado por partes de quatro estados, enfrenta uma seca que já dura três anos e deverá registrar perdas de 4 bilhões de reais neste ano.

São Paulo — Em 1983, o estudante de engenharia João Carlos Jacobsen, na época com 30 anos, largou a faculdade e percorreu 2 270 quilômetros de Clevelândia, no Paraná, para chegar a Barreiras, no oeste baiano. Filho de fazendeiros, Jacobsen foi atraído pelo sonho de fazer riqueza na agricultura na então inóspita área nordestina de terras baratas e de alto potencial de produtividade.

Mas a verdade é que pouco se sabia desse pedaço de sertão: não havia informação sobre as chuvas por ali ou quando era a hora certa de plantar e colher. O que era evidente era a falta de infraestrutura. Os produtores tinham de abrir por conta própria as estradas para chegar às suas terras. Em Barreiras, era preciso enfrentar filas de 2 horas para fazer uma ligação interurbana.

A despeito de todas as dificuldades, nascia ali uma espécie de eldorado do campo. A produção de grãos na região apelidada de Matopiba — formada por parte dos estados do Maranhão, de Tocantins, do Piauí e da Bahia (há quem chame o lugar de Mapitoba) — provou ser um grande negócio e atraiu ainda mais fazendeiros. Hoje, 9% da produção de grãos do país é colhida ali.

O sonho de Jacobsen virou realidade: em 2014, ele plantou em 21 000 hectares algodão, soja e milho, e faturou 80 milhões de reais. Mas a fama de que o Matopiba continua sendo o eldorado…

Bem, neste ano, a região enfrenta o terceiro ano consecutivo de seca, o que derrubou 35% da produção por lá. Isso significa que 7 milhões de toneladas de grãos deixarão de ser colhidas até setembro, quando se encerra a safra de 2016. Estima-se em 4 bilhões de reais as perdas dos produtores da região.

Com a descapitalização, 560 000 hectares de lavouras deverão ser abandonados no próximo ciclo de plantio, segundo cálculos da consultoria Agroconsult. “É um momento crítico. Levaremos pelo menos três anos para pensar em novos investimentos”, diz Jacobsen, que reduziu a área de cultivo a 8 000 hectares e deverá faturar 30 milhões de reais neste ano.

Considerada uma região de fronteira agrícola, o Matopiba recebeu um empurrão com a perspectiva em 2003 da construção de um terminal de escoa­mento de grãos no porto maranhense de Itaqui (obra inaugurada apenas em 2015) e com o superciclo das commodities, período em que os preços globais dos grãos deram um salto. Em 2005, a região produzia 7,4 milhões de toneladas.

Dez anos depois, a safra local beirava 20 milhões de toneladas. O hectare em Balsas, no Maranhão, que em 1988 custava 15 dólares, chegou a 5 000 dólares.

O bom desempenho nesse período fez com que os produtores tivessem fôlego financeiro para enfrentar os dois primeiros anos de estiagem, quando a expansão de novas áreas de cultivo e o investimento em safrinhas intermediárias mantiveram a trajetória ascendente. Neste ano, porém, a situação ficou insustentável.

A produtividade, que antes da seca era de 52 sacas por hectare, em média, caiu para 32 sacas, um nível que não cobre os custos. O desânimo atingiu lugares como Luiz Eduardo Magalhães, na Bahia, Balsas e Uruçuí, no Piauí, cidades que cresceram com a riqueza do Matopiba.

Com a queda na receita da lavoura na casa dos 4 bilhões de reais, deverá faltar dinheiro para pagar as dívidas com máquinas e defensivos, pondo em risco os investimentos na safra seguinte. Outro efeito da crise é o provável recuo de 10% da área cultivada.

Como consequência, os preços da terra, que antes só subiam, estagnaram. “Há quem queira vender parte da fazenda, mas agora não há comprador para essas terras”, diz o consultor Marcos Rubin, da Agroconsult. A crise no Matopiba tem feito tradicionais desbravadores da região repensar seus planos.

A V-Agro, uma das maiores empresas produtoras de grãos no Brasil, não renovou o contrato de arrendamento de terras na Bahia e encerrou a operação no Matopiba em abril deste ano. A companhia preferiu investir em Mato Grosso, onde o clima é mais estável. “Nosso plano de negócios já previa uma redução no Nordeste.

Com a adversidade do clima, essa certeza só aumentou”, diz Arlindo Moura, presidente da V-Agro. Outras empresas atuam com mais cautela. É o caso da gaúcha SLC Agrícola, que iniciou sua operação em 1988 no Maranhão. Hoje, a produção vinda de suas nove fazendas na Bahia, no Piauí e no Maranhão responde por mais da metade do faturamento, de 1,7 bilhão de reais.

Pela primeira vez, a SLC reduzirá 8 000 hectares de seus 205 000 hectares de área de cultivo. “Não crescemos desde 2013 e agora teremos uma pequena diminuição”, afirma Aurélio Pavinato, presidente da SLC. A primeira grande crise do Matopiba é o lado mais agudo de uma quebra de 9% na safra nacional de grãos.

No ano passado, a safra brasileira completou o sexto ano consecutivo de recordes e chegou a 207 milhões de toneladas de grãos produzidos — 6% mais do que em 2014 —, o que ajudou no saldo positivo de 75 bilhões de dólares na balança comercial. Neste ano, porém, a projeção é de um recuo de 9%. Dos 18,4 milhões de toneladas de perda, mais de um terço da queda vem da seca no Matopiba.

Estiagem em Mato Grosso e excesso de chuva em outras regiões do país comprometeram a produção total. Em qualquer parte do mundo, o risco climático é um dos principais fatores de incerteza no agronegócio. As mudanças no clima recentemente causaram prejuízos de bilhões de dólares na agricultura de paí­ses como Estados Unidos, Paquistão e Filipinas.

No Brasil, um estudo da PUC do Rio de Janeiro mostra que as alterações no clima poderão tornar a agricultura nacional 18% menos produtiva de 2030 a 2049. No Matopiba, poderá haver perda de um terço da produtividade.

O que está acontecendo hoje não torna a produção inviável na região — as oscilações climáticas lá também são um risco do negócio. Trata-se de um alerta para os eufóricos que apostavam em recordes de safras indefinidamente.