A ameaça dos robôs à segurança não é ficção

Para Noel Sharkey, especialista em robótica, é urgente a regulamentação do uso de máquinas com inteligência artificial, que não param de se multiplicar

São Paulo — Professor de robótica na universidade de Sheffield, O britânico Noel Sharkey é uma das maiores autoridades no estudo da interação entre robôs e seres humanos. É dele a iniciativa da campanha “Parem os robôs assassinos”, que tenta banir o uso da inteligência artificial em guerras. Em novembro, ele criou, com outros especialistas, a Fundação pela Robótica ­Responsável.

A intenção da organização é discutir o impacto dos robôs na sociedade e nas empresas antes que, como diz Sharkey, “seja tarde demais”. Sobre esse assunto, ­Sharkey concedeu a seguinte entrevista a EXAME.

Exame – Por que o senhor está entre os especialistas que estão exigindo um debate sobre o papel dos robôs?

Sharkey – Já chegamos ao número de robôs que estava previsto para 2018. O processo de robotização está acontecendo numa velocidade mais rápida do que era esperado há alguns anos. Eles podem ter impactos negativos que nem imaginamos, e não estamos debatendo isso.

Exame – Quais seriam os efeitos negativos dos robôs?

Sharkey – Uma companhia africana criou drones equipados com spray de pimenta e outros que atiram balas de borracha. A intenção é usá-los para conter protestos de trabalha­dores contra empresas mineradoras na África. Num piscar de olhos, esse tipo de invenção pode se espalhar, o que seria um perigo. Já imaginou drones atacando um protesto pacífico de trabalhadores?

Exame – O que o senhor defende? Uma regulamentação internacional para o desenvolvimento de robôs?

Sharkey – Sim. Esse é o tipo de robô que não pode existir. No último Natal, 1 milhão de drones foram vendidos nos Estados Unidos, mas ainda não temos uma lei clara sobre como eles podem afetar as pessoas e as empresas.

Exame – De que maneira os drones podem ser uma ameaça às empresas?

Sharkey – Uma empresa que gastou um caminhão de dinheiro num projeto confidencial pode ver tudo ruir ao ser espionada por um drone, que facilmente pode sobrevoar e até mesmo entrar numa fábrica. Os robôs para cuidar de idosos e crianças, que se tornaram comuns no Japão, podem ser uma violação à privacidade. Precisamos falar sobre esses temas antes que seja tarde.

Exame – Qual é a rapidez com que os robôs estão melhorando? Teremos robôs que pensam como humanos?

Sharkey – É impossível ter certeza. Se tivesse de arriscar uma resposta, diria que não. Pelo menos não em um futuro próximo. Existem especialistas e empresas dizendo o con­trário. Falam que teremos uma máquina que pensa como um humano em 25 anos. Isso posso garantir que não vai acontecer. É puro marketing.

Exame – Há vários conceitos de inteligência artificial. Qual é o correto?

Sharkey – Máquinas com inteligência artificial fazem coisas que humanos teriam de usar a inteligência para fazer. Repare que isso não quer dizer que as máquinas são inteligentes.

Exame – Qual é o melhor exemplo de inteligência artificial?

Sharkey – Máquinas que jogam xadrez são um bom exemplo. Simples, não? Nada a ver com as invenções que vemos nos filmes de ficção científica.