Há 17 anos, tudo levava a crer que o catarinense Sidnei Borges dos Santos, de 35 anos, fundador da BS Construtora, estava no lugar errado e na hora errada. Ele tinha deixado a casa dos pais para tentar a sorte em Sorriso, em Mato Grosso, numa pequena construtora — mas a empresa fechou poucos meses depois. Desempregado, Santos fez pequenos serviços de reforma até juntar algum dinheiro para abrir sua empreiteira, a BS. “A pobreza me ensinou a improvisar”, diz. De lá para cá, a BS cresceu e, segundo estimativas do mercado, faturou cerca de 200 milhões de reais em 2010. A BS cresceu ao vender casas pré-montadas para famílias de baixa renda e para grandes empresas do agronegócio, como a Sadia, alojarem seus funcionários. Neste depoimento a Exame PME, Santos conta como soube aproveitar as oportunidades do Centro-Oeste brasileiro.

Nasci em 1975, em Xaxim, no interior de Santa Catarina, numa família de agricultores. Larguei os estudos aos 12 anos, para ajudar meus pais na lavoura. O trabalho na roça me en sinou que sempre dá para construir alguma coisa na vida, ainda que as possibilidades sejam limitadas. Certa vez, meu pai queria plantar trigo, mas não tinha bois para puxar o arado nem terreno. Ele pediu tudo emprestado a vizinhos, inclusive o lote de terra. Deu tudo certo, e aquela foi uma safra muito boa para nós.

Aos 18 anos, trabalhava como pedreiro. Um primo, dono de uma pequena construtora, me chamou para ser seu mestre de obras em Sorriso, no interior de Mato Grosso. Fui. Assim que cheguei, vi que os negócios dele iam mal, pois fui empregado como pedreiro e não como mestre de obras, conforme a promessa. A obra em que eu trabalhava era uma oficina a 6 quilômetros da casa de meu primo, onde eu morava de favor. Como era muito longe, não dava para voltar para almoçar. Então, peguei uma folha velha de zinco e um capô de Fusca e montei um barraco na obra mesmo. Ali, eu almoçava torresmo com café, coado numa lata de óleo. Foi um período difícil.

Pouco tempo depois, meu primo saiu da cidade, deixando a construção inacabada. Propus ao dono da oficina que eu terminasse o trabalho. Ele gostou do meu trabalho e passou a me chamar para pequenos serviços, como reformas de calçadas e de muros, além de indicar meus serviços para outras pessoas. Em pouco tempo, juntei dinheiro para comprar um carrinho de mão.

Muitos pedreiros não ligam para prazos e horários e largam o serviço no meio para beber no boteco. Nunca fui assim. Sempre segui um lema: nunca atrasar. Acho que isso foi importante para que mais gente me procurasse para me passar reformas e obras mais complexas. Aos poucos, fui progredindo. 

Há 15 anos, montei uma pequena empreiteira em Sorriso. Logo no primeiro ano, quase perdi tudo. Comprei ferramentas e uma betoneira a prazo, mas o que eu recebia nunca era suficiente para quitar a dívida. Não havia na empresa nenhum planejamento, nenhum controle de fluxo de caixa. Eu trabalhava muito e, mesmo assim, estava cheio de dívidas. Pensei em desistir várias vezes. Mas dei um jeito de trabalhar dobrado e honrar meus compromissos.

Foi muito importante passar por esse aperto logo no começo. Eu aprendi que planejamento é indispensável. Nesse sentido, minha mulher, Eliane, com quem me casei em 1997, foi fundamental. Abandonei os estudos na 5ª série, mas ela tem instrução. Eliane é formada em ciências contábeis e se especializou em administração de empresas. Foi ela quem assumiu as finanças da construtora. Em 2004, houve uma crise no agronegócio. Nessa época, todos os nossos clientes eram armazéns que estavam mal das pernas. Se não tivéssemos um dinheiro reservado, a empresa poderia ter afundado. 

Quando tinha 18 anos, me apaixonei por Eliane. Já estava morando em Sorriso, embora eu a conhecesse há tempos, pois ela era a melhor amiga de minha irmã. Namoramos a distância por um ano, entre viagens de ônibus, ou de carro, quando os pais dela a levavam de Santa Catarina para me visitar. Lembro que, uma vez, fui visitar os pais dela e, do nada, decidi pedir a mão de Eliane em casamento. Ela achou melhor não. Mas, afinal de contas, sou um empreendedor e não ia perder aquela oportunidade. Ela acabou aceitando. Meus sogros ficaram muito entusiasmados. Hoje, passados os anos, cada vez mais sei que escolhi a mulher certa. Temos dois filhos lindos — o segundo está com 2 meses — e estou muito feliz.

Em 2008, estava numa palestra de um diretor da Sadia, na cidade de Lucas do Rio Verde, a 60 quilômetros de Sorriso. A Sadia tinha planos de montar um frigorífico e construir casas para seus funcionários naquela cidade. Procurei o gerente responsável pelo projeto e me apresentei. Ele disse que a Sadia precisava de 1.500 casas de alvenaria, que tinham de ser construídas rapidamente. Parecia impossível  entregar tudo isso num prazo curto. Mas se teve uma coisa que aprendi com as dificuldades da roça é que nada é impossível.

Fiquei quebrando a cabeça, tentando encontrar uma solução. Tive uma ideia que me pareceu boa quando vi uma caixa de sapatos em cima de uma estante, em casa. Pensei: é isso! As paredes e a laje de cada moradia deveriam ser uma peça única — um bloco, como aquela caixa. Fiquei eufórico, segurando a caixa de sapatos nas mãos. Fiz um projeto e apresentei para a Sadia. Seria possível fazer até 15 casas por dia, cinco vezes mais que no processo tradicional. Conquistei o cliente.

É muito mais fácil primeiro montar cômodos inteiros já com encanamento, janelas e instalações elétricas e levar o bloco todo para o terreno do que do jeito convencional. Não ficamos sujeitos às chuvas que tanto atrapalham o setor da construção, já que fazemos as casas dentro de uma fábrica coberta. O transporte também é prático, pois uma casa dessas cabe dentro de um caminhão. E a montagem leva poucas horas.

A BS já vinha dando certo por causa do fortalecimento do agronegócio na Região Centro-Oeste, com obras para armazéns e empresas desse setor, como foi com a Sadia e depois com a Perdigão. Com as casas pré-montadas, os negócios deslancharam de vez. Em 2009, mudamos a sede da BS de Sorriso para Brasília. Desse modo, a empresa ficou bem posicionada em relação ao Centro- Oeste e também ao resto do Brasil. Outro motivo para termos feito a mudança é que queremos construir casas populares em Brasília, o que é um grande desafio, porque os terrenos são muito caros.

Hoje, a BS tem projetos em várias regiões do país. Fomos contratados, por exemplo, para construir uma cidade inteira a 9 quilômetros da usina de Jirau, em Rondônia. Transformamos uma enorme fazenda de gado numa cidade com 1 600 casas, com água encanada, energia e esgoto, além de escolas e cemitério. O lugar ficou lindo. Lá vivem agora os moradores do local onde fica a usina. Também temos projetos nos estados de Rondônia e Acre. Há pouco tempo, abrimos um escritório no município de Moreno, em Pernambuco, para prospecção de clientes.

No futuro próximo, acho que poderemos abrir o capital da BS. Estamos estudando a possibilidade de fechar contratos com investidores agora para que, daqui a dois anos, possamos estar na bolsa de valores. Mas essa não é, ainda, uma decisão irreversível. A ida à bolsa não deve ser algo feito a todo custo, mas uma etapa natural do crescimento.

O preço de uma casa construída pela BS é, em média, 90 000 reais. Em geral, são residências de dois quartos, sala, cozinha e banheiro, com alguma área externa e espaço de lazer no condomínio. Em 2010, fizemos aproximadamente 1.700 moradias com características como essas. É um orgulho ver que estamos entregando casas de qualidade para tantas pessoas. Nas fases mais difíceis da minha vida, em Sorriso, eu e minha mulher chegamos a morar numa casa com fossa aberta e insetos passeando pelo teto. Se naquela época a gente vivesse numa casa como as que a BS faz, eu teria achado ótimo.