O engenheiro Romero Rodrigues, de 33 anos, sempre nutriu certa mania de grandeza. Quando era garoto, pensava em ser dono de uma companhia que ficasse famosa como a Coca-Cola. Na faculdade de engenharia, ele criou com dois amigos, Ronaldo Takahashi e Rodrigo Borges, o BuscaPé, um dos primeiros sites do mundo a fazer comparações de preços.

Em pouco mais de uma década, a empresa — que começou com investimento de 300 reais — se transformou num negócio com receitas que devem chegar a 205 milhões de reais em 2011. Há dois anos, o fundo sul-africano Naspers comprou 91% do BuscaPé por 342 milhões de dólares. Nesta conversa com Exame PME, Rodrigues conta sua trajetória, fala do relacionamento com os investidores e de seus planos para o futuro.  

Sou o mais velho de três irmãos. Meu pai tinha uma construtora em São Paulo, e muita gente achava que eu iria assumir a empresa da família. Mas esse não era o meu sonho. Desde garoto, pensava em ter meu próprio negócio. Queria ser dono de uma empresa grande, com uma marca tão poderosa quanto a Coca-Cola. 

Nunca fui aplicado nos estudos, mas prestava atenção nas aulas. Isso me ajudou a entrar na faculdade de engenharia da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo, onde eu encontraria o caminho para empreen­der. Foi na universidade que conheci Ronaldo Takahashi e Rodrigo Borges, meus amigos e sócios até hoje.

Tentei várias coisas antes de fundar o BuscaPé. Por dois anos,  tive uma empresa de software de gestão com o Ronaldo. A gente passava o dia desenvolvendo programas de computador para microempresas. Até que percebi que não havia muita chance de crescer sem um pesado investimento. Na época, já havia grandes empresas que dominavam esse mercado.  

Um dia, quando ainda estávamos na faculdade, Rodrigo precisou comprar uma impressora e resolveu pesquisar preços na internet. Descobrimos que dava um trabalhão — era preciso entrar em todos os sites, anotar os preços, voltar para ver as condições de pagamento. Vi uma oportunidade de negócios a explorar. Foi assim que criamos o BuscaPé. A inspiração veio de nossa necessidade como consumidores. Mais tarde, soube que nos Estados Unidos havia um site parecido. 

Não posso dizer que abrimos uma empresa de garagem, porque nem garagem a gente tinha. Eu, o Ronaldo e o Rodrigo trabalhávamos em casa, de madrugada, e fazíamos reuniões por chat na internet. Nossa maior despesa era com a hospedagem do site, que custava 300 reais por mês. 

Quando entrou no ar, em junho de 1999, o BuscaPé comparava os preços de 35 lojas — esse era o tamanho do comércio eletrônico no Brasil. Naquele tempo, eu ainda não sabia se, com o BuscaPé, havia encontrado, enfim, a oportunidade de ter um grande negócio. Até que, em julho, tomei um susto ao atender o telefone: era o diretor de uma grande rede de varejo, muito bravo porque a loja dele estava listada no BuscaPé e aparecia com preços mais altos que os da concorrência.

Ele ameaçou nos processar se não tirássemos a empresa do site. Era a primeira vez que o telefone tocava e já estávamos ameaçados de ter problemas na Justiça. Foi ali que tive a certeza de que alguém estava prestando atenção na gente e que o BuscaPé tinha boas chances de dar certo.

Quando a empresa não tinha nem um ano de vida, já estávamos em busca de capital para acelerar o cres­cimento do BuscaPé. Uma das ne­go­ciações era com o americano Merrill Lynch e com o Unibanco.

Lembro que, na tarde de uma quarta-feira de junho de 2000, fui avisado por eles que o dinheiro poderia sair, mas para isso eu teria de apresentar, no dia seguinte, nosso plano de negócios em Nova York. Foi uma correria. Ainda morava com meus pais, e minha mãe disse que eu estava maluco quando me viu arrumando as malas. Eu era muito moleque, e ela achou o fim do mundo eu viajar sem tê-la avisado antes.

A reunião com os investidores foi um sucesso. Eles concordaram em comprar parte do BuscaPé. Voltei da viagem e, todo confiante, tranquei a faculdade para me dedicar aos negócios. Mas a euforia durou pouco. Nos meses seguintes, as empresas de tec­nologia começaram a enfrentar dificuldades.

Muitos investidores estavam perdendo dinheiro com negócios na internet. Por pouco, não ficamos sem os recursos prometidos pela Merrill Lynch, que esteve perto de desistir da transação. Se isso acontecesse, o BuscaPé fecharia. Para evitar o pior, eu e meus sócios tivemos de nos comprometer a tornar o negócio rentável logo e ficar sem salário por dois anos. Nessa fase, morávamos com nossos pais e tínhamos ajuda da família para viver.

O ano de 2001 foi terrível. Montei uma cama no escritório, onde passava boa parte das noites trabalhando. Felizmente, ao longo do ano a audiência do site foi aumentando. Assim, conseguimos começar a cobrar das empresas que quisessem continuar a ter seus preços e produtos listados no site. Isso foi fundamental para que, em setembro de 2002, a gente já tivesse lucro, um ano antes do prometido.

No fim de 2005, o Great Hill Part­ners, um fundo americano, comprou as participações da Merrill Lynch e do Unibanco e assumiu o controle do BuscaPé. Recebemos uma injeção de capital para absorver concorrentes, como o Bondfaro, e também empresas que desenvolviam sistemas an­ti­frau­de ou plataformas para pesqui­sas de comportamento do internauta.

Com isso, o BuscaPé deixou de ser apenas um comparador de preços para se transformar numa plataforma completa de serviços que ajuda a comprar e vender pela internet. Assim pudemos atrair lojistas de pequeno e mé­dio porte para o site. Muitos deles já tinham vontade de fazer vendas online, mas, sozinhos, não podiam pagar por ferramentas antifraude, co­mo fazem os grandes varejistas.  

O grande desafio agora é crescer na América Latina. O BuscaPé está presente em 20 países, mas, no geral, a presença lá fora ainda está bem abaixo do que eu gostaria. Um dos obstáculos é o próprio comércio eletrôni­co nesses países, menos desenvolvido do que aqui. Mas, agora, crescer na América Latina não é apenas um desejo. Virou meta, sobretudo depois que ganhamos um novo sócio, o fundo sul-africano Naspers, que comprou 91% do BuscaPé por 342 milhões de dólares em setembro de 2009.

A chegada do Naspers foi um marco. O mercado passou a olhar para a gente de um modo diferente. Os que ainda tinham dúvidas sobre a solidez do BuscaPé tiveram de rever a opinião. Pouca gente imaginava que o BuscaPé pudesse valer tanto. Após o anúncio do negócio, muita gente ficou perplexa. Houve quem me perguntasse se a conta fechava. Foi um dos maiores negócios de internet no Brasil e posso garantir que essa conta fecha, sim.

O Naspers comprou a participação do Great Hill Partners e de outros acionistas menores. Nada ficou no caixa do BuscaPé. Na nova composição, eu, Ronaldo e Rodrigo, que somos os fundadores, mais o Rodrigo Guarino, que era do Bondfaro, ficamos com 9% do negócio. Meus sócios também exercem cargos no BuscaPé. Não sei até quando vou ficar na empresa. Não tenho garantia do emprego nem obrigação de ficar para sempre. Mas ainda estou motivado. Tenho viajado muito para conhecer algumas operações de comércio eletrônico do Naspers em outros países, como Rússia e China.

Quase todos os dias surge alguém com um projeto em busca de investimentos. Mas ainda nada me despertou paixão. Eu me tornei empreendedor aos 20 anos de idade, investindo 100 reais por mês. Posso empreender de novo, mas tem de ser algo diferente, que me motive tanto quanto o BuscaPé. Em breve, pretendo me afastar da empresa por um ano para viajar e ler bastante. Tenho até uns roteiros em mente.

Um empreendedor tem de saber que a empresa é maior que ele. Mesmo que um dia ela esteja nas mãos de outra pessoa, a paternidade não muda. O BuscaPé já me devolveu muito mais do que imaginei quando montei o site. Queria criar uma marca que as pes­soas conhecessem. Quer ver algo que me dá muito orgulho? Às vezes, falando com desconhecidos, digo que trabalho no BuscaPé. E pergunto se já ouviram falar da empresa. Todo mundo diz que conhece. Eu já sei a resposta, mas mesmo assim não caibo em mim quando a pessoa diz que conhece. Adoro isso.

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