São Paulo - Existe chance de alguém aprender alguma coisa, numa sala escurinha, ouvindo blá-blá-blá de um sujeito passando intermináveis telas de PowerPoint? E de chamar a atenção de um cliente com panfetos colados no muro?

Os quatro empreendedores desta reportagem acham tudo isso muito tedioso. Eles descobriram os games como uma poderosa ferramenta para melhorar aspectos fundamentais de seus negócios. A seguir, os empreendedores contam como usaram os jogos para treinar e recrutar profssionais, melhorar os processos internos e fazer ações de marketing.

Treinar funcionários

Desde o ano 2000, os donos da RL Higiene, distribuidora paulistana de produtos de limpeza, organizam, todo mês de janeiro, um evento para os funcionários. O objetivo é divulgar as estratégias para o ano que se inicia. Em 2012, o discurso dos sócios — Ricardo Vacaro, de 54 anos, e Rogério Vacaro, de 51 — seria um pouco diferente do habitual.

"Por muitos anos, botamos pilha nos funcionários para aumentar as vendas a qualquer custo", diz Ricardo. "Em 2012, as metas eram cortar despesas e melhorar as margens." Para não diminuir o engajamento dos funcionários, Ricardo decidiu aproveitar o dia do evento para promover uma conscientização usando games.

Para isso, contratou a paulistana Vehuel, que desenvolve jogos de tabuleiro para clientes como Itaú, Unilever e BMW. A Vehuel criou um jogo em que os funcionários ocupavam o papel de donos da RL Higiene. Em cada turno, os participantes jogavam o dado e caíam em
casinhas que os incitavam a tomar uma decisão com base em situações hipotéticas. 

"Podia ser uma oferta tentadora de um fornecedor ou um cliente que insistia por um desconto mais alto", diz Carmem Manzano, diretora da Vehuel. Se a decisão prejudicava a rentabilidade do negócio, o jogador tinha de voltar algumas casinhas e ficava mais distante da vitória.

As perguntas envolviam dilemas relacionados a perfl de clientes, portfólio de produtos, estrutura de custos e cadeia de distribuição. Parece que funcionou. No ano passado, os custos diminuíram 13%, e as margens subiram 2%.  "Os funcionários passaram a entender melhor como eles são importantes para os resultados da empresa", afirma Ricardo. 

Recentemente, a empresa encomendou outro jogo, inspirado no tabuleiro War, para treinar os gerentes de vendas a conquistar territórios. Ganhava pontos quem conseguia convencer clientes da concorrência a trocar de fornecedor. "A conversão de
clientes prospectados aumentou 10%", diz Carmem, da Vehuel. De acordo com especialistas, encomendar um jogo de tabuleiro
pode custar de 3.000 a 35.000 reais.

Recrutar profissionais

Todo mês, o administrador ricardo Buckup, de 34 anos, recebe centenas de currículos de candidatos a vagas em sua empresa, a paulistana B2, que organiza formaturas e eventos para marcas que querem se relacionar com o público jovem. "A maioria dos candidatos não se enquadra no perfl das vagas que costumamos oferecer", diz ele. "E muitos recém-formados em universidades prestigiadas não se interessam por vagas numa empresa pequena."

No ano passado, Buckup convidou 25 jovens egressos da Universidade de São Paulo, da Universidade Estadual de Campinas e da Federal de Pernambuco para participar de uma gincana na sede da empresa durante um fim de semana. Os candidatos foram divididos em grupos e tinham de criar uma estratégia para a B2 diversifcar suas fontes de receita. 

A brincadeira foi dividida em cinco fases. As equipes de universitários só passavam para a próxima etapa quando tivessem a aprovação dos gestores da empresa — que consideravam critérios como originalidade da ideia apresentada e adequação aos recursos disponíveis no orçamento sugerido na gincana. 

Uma das propostas sugeridas por um dos grupos foi convidar fornecedores da B2 do setor de alimentos e bebidas a patrocinar as
formaturas organizadas pela empresa — distribuindo produtos como bolacha, sorvete e energético de graça aos convidados. 

"A sugestão era cobrar dessas empresas para ter acesso aos eventos em troca da divulgação da marca delas", diz Buckup. "A ideia foi
implantada logo depois da gincana, e os participantes do grupo foram contratados."

O processo da B2 é semelhante ao que fazem grandes companhias, como a Danone, que recentemente propôs a jovens interessados em estágios de verão na empresa a participação numa competição de perguntas e respostas sobre a gestão de uma empresa.

"As gincanas em processo seletivo mostram com  clareza as qualidades e os defeitos dos candidatos", afirma Fred Vasconcelos, da Joy
Street, desenvolvedora de jogos corporativos de Recife."Na entrevista, muitos candidatos ensaiam um discurso que todo profissional
de recursos humanos quer ouvir, mas que não demonstra suas reais características." 

Fazer marketing

O mineiro Rafael Rosa, de 32 anos, vive testando novas estratégias de marketing na Woli, empresa de Araxá, em Minas Gerais, especializada em ensino a distância. Entre os mais de 70 cursos oferecidos pela Woli via internet estão desde temas de negócios a tutoriais sobre como fazer churrasco.

Há poucos meses, Rosa criou um curso em parceria com o Corinthians para contar a história do clube. O produto, que custa 30 reais e garante um certifcado de conclusão, tinha vendas abaixo do esperado semanas depois do lançamento. Para divulgar o curso a potenciais clientes, Rosa criou um jogo no Facebook chamado Desafo do Timão.

O participante tem de responder a dezenas de perguntas sobre a história do time — o nome dos titulares que conquistaram o primeiro título nacional do clube, em 1990, por exemplo. À medida que avança no joguinho, o usuário enfrenta novos desafios, como acertar pênaltis usando o mouse ou adivinhar o nome de craques do passado numa brincadeira de forca. 

Ao final da competição, os resultados são publicados no perfil do jogador e podem ser vistos por seus amigos na rede social. "A ideia
é incentivar a competição", afirma Rosa. "Quem fca mal colocado acaba comprando o curso para não fazer feio diante dos amigos."

Os primeiros colocados no Desafio do Timão concorrem a camisas do clube, visitas ao centro de treinamento e ingressos para jogos
do Corinthians. "Hoje, o curso sobre a história do time é um dos mais vendidos da empresa", diz Rosa.

O custo para criar um jogo de marketing como o usado pela Woli costuma ser de 20.000 a 30.000 reais, segundo Daniel Lacerda, da ToPlay, desenvolvedora de games publicitários de Fortaleza. 

Ajudar nos processos

Há seis anos, o empreendedor Sergio Tadeu Ribeiro, de 64 anos, dono da Strong, rede de faculdades com sede em Santos, litoral paulista, implantou um sofware de gestão de relacionamento para seus 40 vendedores entrarem em contato com possíveis alunos da instituição.

"O sistema reuniu informações, como telefone e endereço, que antes estavam dispersas em diferentes formatos, sobre pessoas que haviam demonstrado interesse em estudar conosco", afirma Ribeiro. "Mas, para o sofware funcionar a contento, era preciso conscientizar os vendedores sobre a importância de alimentar frequentemente o banco de dados."

Durante a implantação do sofware de relacionamento com clientes, Ribeiro contratou uma empresa de treinamento — que desenvolveu
um game para simular o uso do sistema. Os vendedores foram divididos em equipes. Em 45 minutos de jogo, eles tinham metas de vendas para clientes hipotéticos — que, propositadamente, apareciam com seus dados errados.

"Os funcionários ficaram frustrados com as vendas perdidas, o que foi muito pedagógico", diz Ribeiro. Desde então, a simulação tem sido adotada em treinamentos periódicos aos vendedores. "O sofware de relacionamento com clientes ajudou a aumentar em 20% o número de alunos", afirma Ribeiro.  "O jogo foi fundamental para o sistema dar os resultados esperados."

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