São Paulo - Uma parte do trabalho dos funcionários do site paulistano Enjoei — brechó online que vende roupas e acessórios para casa usados — é descrever as mercadorias em destaque de um jeito engraçado. Há algumas semanas, uma camisa era anunciada assim: "Este modelo é para os mocinhos que adoram um xadrez. É nova, oba! A Luciana ia dar para o boy, mas o namoro acabou antes, que trágico! Sai por 140 reais".

Cativadas por tiradas desse tipo, mais de 80.000 pessoas já curtiram a página do Enjoei no Facebook. "Fechamos, em média, 200 pedidos por dia", afirma o administrador Tiê Lima, de 32 anos, que criou o site há apenas quatro meses com sua mulher, Ana Luiza McLaren, de 30. "Desse jeito podemos faturar uns 3 milhões de reais já neste ano." 

Negócios como a Enjoei vêm se beneficiando do crescimento no número de brasileiros que fazem compras pela internet. Segundo dados da e-bit, consultoria especializada no varejo online, no ano passado 9 milhões de pessoas fizeram compras pela internet pela primeira vez, o que fez o número de consumidores online chegar a quase 32 milhões atualmente.

A expectativa é que o setor movimente 23,4 bilhões de reais neste ano — 25% mais do que em 2011.  "A expansão acelerou à medida que o computador e a conexão à internet ficaram mais baratos e acessíveis a mais gente", diz Norberto Torres, diretor da Uniconsult, consultoria especializada no setor.

O resultado é que, em pouco mais de uma década, o  varejo online  deixou de ser uma promessa para ganhar dinamismo próprio. A tecnologia mais barata faz cair o custo de manutenção das lojas online, o que estimula o aumento da oferta de novos produtos e a criação de novas lojas. Mais movimento chama a atenção de novos operadores logísticos.

"Tudo funciona melhor, o que atrai mais e mais consumidores", diz Vinicius Pessin, diretor do UOL Host, braço de hospedagem de sites do provedor UOL. "Ao mesmo tempo, novos fornecedores entram no jogo, a cadeia se fortalece e, no fim, todo mundo sai ganhando." 

Veja o caso do Moip, fundado em 2008 por Igor Senra, de 34 anos, na incubadora da Universidade Federal de Minas Gerais. Seu negócio é ser uma espécie de central de recebimentos para lojistas online. Os sites que contratam os serviços da empresa podem receber pagamentos em cartões de crédito e débito, boletos ou transferências bancárias.

Em 2011, o Moip faturou 23 milhões de reais, 65% mais que no ano anterior. A inspiração para o Moip veio do site de pagamentos americano PayPal. "Adaptamos o conceito para o mercado brasileiro", diz Senra. "Aqui, o pagamento parcelado é extremamente popular."

Apresentamos Janaína da Silva Carneiro, de 32 anos, estudante de pedagogia em São Paulo. Ela fez sua primeira compra pela internet há pouco mais de um ano, quando sua filha, Emanuela, tinha acabado de nascer.  Na época, comprou um carrinho de bebê. "Já estava na faculdade e minhas colegas disseram que era mais barato e prático comprar pela internet", diz Janaína.

Ela costuma pagar com cartão de crédito, parcelando em mais de cinco vezes. Como muitas famílias das classes emergentes, Janaína tem um notebook. "Dá certo", diz ela. "Geralmente, as lojas dão desconto no site e sempre recebo as mercadorias no prazo". 

Consumidores novos, como Janaí­na, estão no radar de muitas empresas, e a concorrência entre os varejistas online aumentou. Nos últimos três anos, o número de lojas virtuais no Brasil quase dobrou, passando de 12.000, em 2008, para 23.000, no ano passado. Mais competição é perfeito para a carioca Sieve, fundada em 2008.

A empresa fornece um sistema que permite ao dono de um site saber em tempo real a oscilação dos preços dos concorrentes. "Nosso soft­ware  vasculha o catálogo de mais de 4.000 lojas eletrônicas no Brasil", diz André Massa, de 30 anos, sócio da empresa.

"Em datas estratégicas, como Dia das Mães e Natal, grandes varejistas costumam mudar o preço de um produto até oito vezes no mesmo dia." Atualmente, a empresa tem mais de 200 clientes — entre eles Walmart, Sack’s e Ricardo Eletro — e suas receitas chegaram a 2,5 milhões de reais no ano passado. 

Os grandes varejistas online estão muito interessados em contratar serviços de pequenas e médias empresas que vendam ferramentas que os ajude a aumentar as receitas e a manter seus clientes por perto. A Chaordic, de Florianópolis, produz um software que envia avisos com recomendações de produtos a consumidores.

A ferramenta já foi contratada por grandes lojas, como a livraria Saraiva e a Nova Pontocom (que controla as vendas online das marcas Extra, Ponto Frio e Casas Bahia). 

A Chaordic nasceu em 2008, quando os engenheiros João Bernartt, de 32 anos, e João Bosco, de 30, faziam um mestrado em inteligência artificial na Universidade Federal de Santa Catarina — e hoje fatura cerca de 3 milhões de reais por ano, segundo estimativas.

O software ajuda a mapear as preferências de determinado consumidor com base nos produtos que ele pesquisa e em seu histórico de compras, entre outros padrões de comportamento que podem ser monitorados. "As informações são usadas pela loja para recomendar produtos de acordo com o interesse mais provável de cada cliente", diz Bernartt. 

A loja americana Amazon e a locadora online Netflix são exemplos de empresas que utilizam sistemas semelhantes. No caso da Netflix, cerca de 60% dos filmes são escolhidos pelos espectadores com base em recomendações de um sistema.   

A logística de entrega dos produtos é outro terreno para novos negócios. A paulista CompletaLog nasceu para atender à demanda de pequenas lojas virtuais que vendem a partir de dez pedidos por dia.

"Há dois anos, quando fundamos o negócio, não era fácil uma loja virtual com poucos pedidos encontrar um bom operador logístico", diz Décio Alves, de 46 anos. Ele e seu sócio,  Armando Marchesan, de 36, são ex-executivos com passagens pelo Submarino e pela Natura. 

A CompletaLog mantém um armazém de 10.000 metros quadrados em Cajamar, na Grande São Paulo, onde recebe, armazena e remete os pedidos de quem faz compras num dos 30 sites que são seus clientes. "Em vez de exigirmos um faturamento mínimo mensal, como é praxe no mercado, cobramos um percentual sobre o valor das encomendas", diz Alves. Com esse modelo de negócios, a CompletaLog conseguiu receitas de 12 milhões de reais em 2011 e, em abril, recebeu um aporte do banco BR Partners.

Com reportagem de Carla Aranha

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