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Com os negócios indo bem, no final dos anos 60, já não mais alugávamos livros, só os vendíamos, e a maioria em português mesmo. A livraria cresceu e meus pais transferiram o negócio para uma loja no Conjunto Nacional, uma galeria recém-inaugurada na avenida Paulista.
Comecei a trabalhar na livraria após a mudança. Eu tinha crescido entre as prateleiras de livros e conhecia bem o negócio. Havia me formado em administração e assumi a gestão da empresa.
Para não aumentar os custos, propus à minha mãe que eu ficasse um tempo trabalhando sem receber. Ela não concordou mas, mesmo assim, meu salário era baixo. Na época, eu já era casado, minha mulher tinha um bom emprego e podíamos nos manter com o dinheiro dela.
Por causa da origem da empresa, conquistamos uma clientela culta, formada por pessoas fluentes em idiomas estrangeiros e que compravam livros importados. Uma de minhas primeiras atribuições foi visitar feiras na Europa, onde ficava sabendo dos principais lançamentos e conhecendo os autores mais promissores.
Nas viagens, fechava contratos com as editoras para importar livros recém-lançados no exterior antes que fossem traduzidos para o português.
Muitos dos livros que eu trazia do exterior eram proibidos naquela época. Vivíamos sob a ditadura militar. Algumas obras eram censuradas por terem sido escritas por autores de esquerda. Outras sofriam restrições apenas por vir de países comunistas, embora não tivessem nada a ver com política - era o caso de um livro de arte erótica chinesa.
O fato é que a repressão aumentava a procura. Por vender muitas obras censuradas, fui chamado várias vezes para ser interrogado pelos militares. Eu respondia que precisava manter aquele tipo de livro no estoque porque universidades, como a USP, pediam que os alunos os estudassem e, como empreendedor, eu não podia perder dinheiro.
Na metade dos anos 70, abri duas pequenas filiais em São Paulo - uma na estação do metrô no Largo de São Bento, no centro da cidade, e outra no campus da PUC. Os aluguéis eram baratos e achei que as lojas dariam certo. Foi quando descobri que é difícil manter livrarias muito pequenas.
Se o cliente vai à loja e não encontra o livro que procura, acaba não voltando. As filiais vendiam pouco e tive de fechá-las algum tempo depois. Passei a investir na matriz no Conjunto Nacional onde, com o tempo, criamos uma espécie de complexo cultural, com teatro, espaço infantil e café.
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