São Paulo
Germano Luders
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Arquivo do mês: novembro de 2010

Educação financeira começa cedo, com exemplos

Conrado Navarro

Algumas histórias são tão simbólicas que passam despercebidas diante dos olhos de muita gente. Suas lições, no entanto, são razão para profundas reflexões, especialmente quando nos damos conta de sua importância. Parte de meu aprendizado rumo à independência financeira surgiu a partir da observação, do conhecimento experimentado, do olhar atento ao que ocorria comigo e à minha volta. A história abaixo servirá de gancho para conversarmos mais sobre isso.

Eu devia ter uns quatro, cinco anos no máximo. Andava pelas ruas do bairro ao lado de meus pais, alguns amigos e seus pais. De repente encontrei alguns Cruzeiros (moeda da época) no chão, em notas amassadas, claramente perdidas há um bom tempo. Percebi o pequeno “tesouro” e ao abaixar para recolhê-lo, uma voz gritou: “Não pegue dinheiro assim. Não faça isso, dinheiro é sujo. O dinheiro está cheio de micróbios, bactérias e você vai ficar doente”.

Pelo tom da voz, soube imediatamente que as palavras não vinham de meu pai ou de minha mãe. Era Dona Ana, mãe de Pedro, que apontava seu dedo para mim e começava a esboçar a reação típica de alguém preocupado, querendo saber quão grave havia sido minha descoberta e atitude. Eu estava fazendo algo realmente impróprio e indesejado segundo sua avaliação.

Com calma e elegância minha mãe colocou sua mão no ombro de Dona Ana e lhe pediu licença. Ao se interpor entre mim e ela, falou com serenidade: “Imagine, está tudo bem com ele Ana”. Então virou-se para mim e disse: “Meu filho, recolha seu tesouro e vamos aproveitar para multiplicá-lo, como já o ensinei. Guarde-o com segurança e só então vamos lavar suas mãos”.

Eu estava tranquilo, aquela não era a primeira vez que eu “farejava uma oportunidade”. Ouvi os passos calmos de minha mãe em minha direção e continuei a trabalhar em uma forma de retirar o dinheiro sem danificá-lo. Quando chegamos em casa, algumas horas depois, fui correndo depositar meu tesouro no cofrinho dado pelos meus pais alguns meses antes.

Educação financeira começa cedo. Começa com o exemplo, com o apoio dos pais e com a crença de que o dinheiro não é, nem nunca será sujo. Aquele dia transformou minha vida por duas razões simples:

  • Eu podia confiar nos meus pais para realizar meus sonhos. Para uma criança, comprar um brinquedo e encontrar alegria em uma simples visita a um parque de diversões são metas ousadas, que exigem esforços de negociação, disciplina e algum dinheiro. Aprendi a valorizar a conquista porque era motivado a sonhar, mas também a valorizar (dar valor) o que desejava. Saber quanto custa é diferente de saber quanto vale. Uma criança só pode aprender isso com a ajuda dos pais;
  • Amor não significa proteger o outro de tudo. É certo que eu poderia ter desenvolvido alguma infecção, alergia ou coisa parecida ao tocar aquele dinheiro encontrado no chão. Mas estava em jogo uma lição mais importante, felizmente incentivada por minha mãe: nossas atitudes geram consequências, muitas delas frustrações. Viver em uma bolha não faz o tipo de quem quer ser independente financeiramente. Fui o tipo de criança que teve todo e qualquer tipo problema relacionado à curiosidade; aprendia e seguia em frente, sempre sob o olhar desafiador de meus pais.

Você, pai, mãe, já se deu conta do quanto ensina ao seu(s) filho(s) sobre dinheiro, finanças pessoais e investimentos através de seu comportamento, suas decisões e atitudes? Provavelmente não. Você costuma negociar e pedir desconto quando vai comprar alguma coisa? Investe no futuro de sua família? Guarda algum dinheiro? Está endividado? Sua família observa tudo. E toma seu passo como modelo.

Você, filho, filha, já é capaz de observar suas decisões econômicas e compará-las ao que acontece em sua família, com seus pais? Simplesmente replica muito do comportamento familiar, sentindo-se em uma espécie de piloto automático? Ou será que é capaz de discutir as opções, agregando valor à discussão, além de tentar provocar uma visão “fora da caixa”?

Como você percebeu, o texto de hoje é um convite. Precisamos ser mais responsáveis com a formação de nossos cidadãos. Você topa? Crianças, adolescentes e jovens são parte do processo, o que traz enorme responsabilidade ao ambiente familiar, escolar e às amizades. Você tem se preocupado apenas com a educação formal ou tem agido de forma a ensinar também com suas próprias mudanças e melhores escolhas?

O futuro cultural, financeiro e familiar de uma geração pode estar amparado no que nós, adultos, fazemos agora, hoje. Geralmente está. Será que somos humanos demais para perceber isso? Ora, justificar a inércia abusando de nossa natureza é abrir mão do verdadeiro amor que uma família deve carregar. Amar significa dizer “não” de vez em quando, ficar doente, “cair do cavalo”. Amar significa ajudar o outro a se levantar, processar as lições e dar o próximo passo.

Não é de hoje que temos que aprender a lidar melhor com a frustração, os momentos tensos, decisões difíceis e responsabilidades. Ouvia muito minha avó dizendo que “as palavras ensinam, mas só o exemplo arrasta”. Que tal viver um padrão de vida sustentável, dentro de seus limites possíveis? Que tal olhar para o seu filho e ver nele um cidadão, alguém que você quer que melhore as coisas, que deixe um legado? Que tal começar a dar exemplos decentes, dos quais você realmente se orgulharia? Ainda dá tempo.

Compartilho com vocês um vídeo em que falo mais sobre a relação dos filhos com o dinheiro, mesada e exemplos dos pais. Espero que gostem.

Até a próxima oportunidade. Siga-me no Twitter: @Navarro

O papel da frugalidade e da disciplina na construção de riqueza

Conrado Navarro

Quem não quer ficar rico? Atingir o primeiro milhão, parar de se preocupar com dinheiro e comprar tudo o que sempre desejou. Quem não quer? Felizmente, independência financeira não tem nada a ver com isso. Nada. Entrei em uma polêmica sobre o conceito pessoal de riqueza quando escrevi que é possível ser rico sem pensar só em dinheiro. A explicação é simples: enquanto uns pensam no que fazer para gastar seu capital, outros veem nele a possibilidade de ser livres.

Na ocasião, escrevi que ser rico é ter tempo para ser você, sem culpa pelo que abdica para que essa realidade se apresente.

Você trabalha para viver? Ou será que vive para trabalhar? O que faria se recebesse hoje, agora, R$ 100 mil? As perguntas parecem diferentes, é verdade. Não são. O padrão de vida que você leva diz muito sobre suas atitudes financeiras. É a partir dessas ações que construímos, ou não, nossa independência financeira. Ser livre não tem relação com quantos “isso” ou “aquilo” você pode comprar. Só é rico quem é capaz de viver um padrão de vida sustentável, hoje, amanhã e depois.

Mas como manter um padrão de vida coerente em uma sociedade que se mede pela intenção de pertencimento e ostentação? Se prefere uma reflexão mais amena, como equilibrar desejos, necessidades, manias e exageros?

Disciplina. Organização. Controle.

Falando assim parece uma chatice. As palavras são fortes, carregam um sentido de restrição, mas tudo não passa de uma visão simplista e leiga sobre o que elas realmente representam no dia-a-dia de alguém bem-sucedido. Só entende o poder de transformação dessas palavras quem tem objetivos de vida capazes de despertar-lhes amor, motivação e senso familiar.

O que faz alguém que não sabe onde quer chegar e prefere manter-se no piloto automático? Ora, desdenha de quem tem metas, se endivida e mente, para si e para a família. Estou certo de que você conhece as principais desculpas para não começar a cuidar melhor dos detalhes financeiros da família. Dizem que:

  • “É difícil, complicado”. Gastar é muito mais fácil, confiar na contabilidade mental também;
  • “Dá trabalho”. Anotar, somar, analisar, rever hábitos, fazer provisões, deixar de consumir, tudo isso cansa;
  • “Não dá tempo”. A correria do dia-a-dia é muito grande, hoje se trabalha demais e o pouco tempo que sobra tem que ser usado no bem-estar familiar.

Quanta justificativa furada, não? A vítima vive um pesadelo e implica com quem vive um sonho. Por que ser assim? Defesa? Egoísmo? Não seria melhor assumir a responsabilidade e decidir mudar? Desistir de mudar parece muito mais fácil, infelizmente. A lista de desculpas esfarrapadas poderia ser muito mais longa.

A verdade é clara: quem se comporta como vítima foca sua atenção nos problemas e dificuldades, pensa de forma negativa sobre seu próprio potencial de transformação. Vê no sucesso dos outros a razão de seu fracasso. A vítima sente culpa e inveja em excesso, ainda que não admita.

A essa altura parece que sovina é sinônimo de felicidade. Não é bem assim. Frugal é a palavra que define o estilo de vida sustentável que defendo. Experimente buscar essa palavra no dicionário: moderado, sóbrio. Frugalidade significa viver com coerência, mantendo objetivos como motores motivacionais, respeitando e revendo prioridades. O sovina vive só para economizar, se privando.

O sovina compra o mais barato; o frugal faz uma análise de custo/benefício. O sovina compra estritamente o necessário; o frugal satisfaz seus desejos, mas de forma a respeitar seus objetivos; O sovina avalia só preço e contesta o produto; o frugal contesta o preço de acordo com o produto. O sovina pensa que é disciplinado, quando na verdade é um escravo; o frugal pauta suas decisões de acordo com suas metas e vê no dinheiro um aliado para alcançá-las.

Disciplina. Organização. Controle.

Disciplina para respeitar o padrão de vida, as possibilidades de consumo da família e as necessidades de investimento com foco em objetivos claros. Disciplina para abrir mão dos gastos que não trazem satisfação e redirecionar essa energia para os verdadeiros momentos de felicidade. Disciplina para discutir a tomada de decisão, independente do âmbito.

Organização para manter-se em dia com seus compromissos sem se culpar pela falta de tempo. Organização para ter tempo. Organização para sempre ter tempo.

Controle para medir, avaliar sua evolução e comemorar os passos rumo ao seu sonho maior. Controle para saber exatamente o que precisa ser feito. Controle para dormir tranquilo.

Ainda parece chato? Sinto dizer que liberdade não é poder fazer tudo que quiser. Isso é ser irresponsabilidade. Liberdade é construir patrimônio com o objetivo de ser feliz. Liberdade é estar preparado para fracassar, se levantar, fracassar de novo, insistir. Tudo isso porque a vida é uma sucessão de eventos aleatórios. Muita coisa fora de nossos planos acontece. Para aproveitar ou minimizar essas oportunidades é preciso estar preparado. E ser feliz.

A palavra-chave do dia é coerência. Fazer o possível, dentro de limites claros e constantemente reavaliados. Experimente. Até a próxima.

Siga-me no Twitter: @Navarro

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