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Você é imediatista?

Sidnei Oliveira

Cada vez mais nos habituamos a resolver pendências de forma rápida, sem filas, sem enfrentar o trânsito ou a chuva. Marcamos encontros em questão de minutos, acessamos mapas e a previsão do tempo na palma da mão, mas basta acabar a bateria, faltar luz ou cair a conexão para nos darmos conta da fragilidade do que acreditamos ser o mundo real e sentirmos aquele sentimento de irritação, de impaciência.

O sociólogo polonês Zygmunt Bauman definiu estes tempos como tempos “líquidos”, onde tudo modifica-se de forma quase instantânea, gerando imensa insegurança, principalmente no campo das relações humanas. Bauman afirma que os contatos online tornam tudo mais fácil nas relações entre pessoas de uma geração, que, ao menor desconforto durante uma conversa, podem simplesmente apertar o botão de desligar.     

Mariana Matos, historiadora e educadora, dá um ótimo depoimento: “Falo por experiência própria, quando afirmo que é difícil controlar impulsos imediatistas. Faço parte de uma geração nascida em um mundo globalizado, onde (quase) tudo pode ser resolvido com um simples toque de botão. É quase insuportável aguardar em uma fila ou ao telefone, torna-se difícil até mesmo esperar uma resposta chegar via e-mail. Quando percebo esses impulsos, tento fazer um exercício e pensar que não faz tantos anos que as pessoas correspondiam-se por cartas, que demoravam dias e até meses para serem respondidas – e mesmo assim é difícil”.

Em momentos como esse é que nos lembramos da necessidade da autoeducação, de sermos mais pacientes e de que nem sempre podemos nos desligar dos problemas com um toque de botão. Mariana ainda complementa: “Somos a nova geração, filhos do mundo globalizado e cada vez mais nos beneficiamos dos recursos tecnológicos disponíveis… Isso é incrível, mas que possamos ser conscientes e exercitar nossos impulsos imediatistas, nossa versatilidade, nossa habilidade de enfrentar filas, escrever cartas e esperar por alguma coisa!

A psicóloga e grafóloga Cristianne Valladares analisa que isso reflete a realidade do nosso dia a dia, do tempo em que vivemos e que essas necessidades vão se tornando complexas ao longo da vida, porque nem sempre tudo é efetivamente possível  no imediato momento. Ela afirma: “Somos estimulados a isso, somos pressionados a isso – cada vez mais o resultado tem que ser otimizado. Quem é imediatista, vive dominado por seus impulsos, vive com intensidade os prazeres da vida, por suas motivações instintivas e se mostra hábil em mobilizar os meios para os fins; no entanto, pode apresentar dificuldade para elaborar as ações, para lidar efetivamente com os problemas, principalmente os de maior risco, que requeiram maior tempo de análise; para ser eficaz; para acertar. Nesse caso, é mais fácil apertar o botão de desligar diante de um desconforto numa conversa do que lidar com a situação”.

A evolução dos tempos é bem-vinda com todas as facilidades para nos oferecer possibilidades, no entanto, o equilíbrio entre a razão e a emoção, acompanhado da clareza sobre si mesmo, de como somos e do que desejamos é imprescindível para o bem-estar pessoal e das relações.

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