Tratamento de Medicina Ayurveda em Kerala (Índia) | EXAME.com
São Paulo
Germano Luders
Carregando

Tratamento de Medicina Ayurveda em Kerala (Índia)

Eduardo Álvarez
Por do sol em Varkala

Por do sol em Varkala

Mesmo desde antes de subir ao avião em São Paulo, há já exatos sete meses, um dos momentos da viagem que esperávamos com maior interesse era o tratamento ayurvédico que planejávamos fazer na Índia. Este tipo de medicina com mais de 5.000 anos de história vem ganhando reconhecimento recentemente, graças à moda global do bem estar e do yoga. Mila já tinha feito um destes tratamentos em 2009 com excelentes resultados, portanto estávamos bem empolgados.

1. A região.

Você pode encontrar excelentes tratamentos ayurvédicos em quase toda a Índia. Nas grandes cidades, os hotéis de luxo têm médicos e infra espetaculares para passar umas quantas semanas cuidando da saúde. Porém, esta medicina e seus melhores médicos vêm de Kerala, uma região na costa Sudoeste da Índia, banhada pelo Mar da Arábia. Terra tropical, nela nascem os ingredientes para remédios e massagens, e os médicos que são contratados a preço de ouro pelos grandes hotéis de Delhi, Mumbai e Kolkatta.

Kerala é maravilhoso, e vale a visita mesmo sem fazer tratamento. As praias, os rios navegáveis em metade de bosques lindos e os festivais já são suficiente para justificar uma passada por lá.

2. A cidade.

Quatro anos atrás, Mila fez seu tratamento numa linda cidade da costa chamada Kovallam. Para não repetir resolvemos ir a um lugar desconhecido, que terminou sendo Varkala, mais uma cidade do lado do mar cuja parte mais bonita e mais turística está num cliff lindo sobre o mar. Sem coches nem trânsito e cheia de restaurantes e cafés, com duas prainhas pequenas mas encantadoras, Varkala foi perfeita para passar 10 dias de descanso.

Comida, remédios e massagistas

Comida, remédios e massagistas

3. O hotel.

Surpreende como o Lonely Planet recomenda apenas um lugar para fazer tratamentos em Kerala, tendo mais de 15 opções, muitas delas aparentemente bem legais e que nem são mencionadas. Nós fomos no lugar que o guia escolheu, o Eden Garden, um hotel longe do barulho mas perto da praia. Nosso cottage era sensacional, tão lindo até nos menores detalhes que dava a impressão de que os donos gastaram todo o dinheiro nos cottages e ficaram sem grana para o resto do hotel, que dava uma impressão de lugar um pouco acabado. Como dá para imaginar pelo nome, o hotel está em metade dum jardim impressionante, onde cada dia encontrávamos um animal ou outro, perdidos por ai.

4. Os médicos.

“Temos um médico sênior e outro júnior”, explicou o gerente do hotel quando chegamos para falar do tratamento. Nem precisou explicar quem era quem. O júnior falava pouco, hesitava muito e fazia tudo o que a gente pedia (por exemplo, nos liberar para jantar fora do hotel, furando assim a dieta). O sênior explicava tudo com detalhes sempre interessantes e se recusava a nos deixar comer nada que não fosse cozinhado no hotel.

5. Fazemos qualquer negócio.

Uma das surpresas da medicina ayurvédica é seu escopo, pelo menos na teoria. Quando você conversa com o médico para montar o tratamento, parece que eles conseguem curar tudo. Evidentemente para as doenças mais graves é necessário bastante tempo, não apenas 10 dias como era nosso caso. Mas eles falam de colesterol alto, miopia, excesso de peso, problemas nas articulações, estresse, má digestão como se fossem problemas simples… No meu caso eles focaram no joelho esquerdo, que com pouca cartilagem e menos menisco me atrapalha bastante, e na desintoxicação, que é a especialidade da casa e que beneficia o organismo inteiro.

Sem querer ser tedioso, a teoria dos ayurvedas acredita entre outras coisas que a forma de preparar alimentos ocidental, assim como as carnes, o álcool e outras substâncias, geram um grande número de toxinas que impedem que nosso corpo funcione corretamente. Há três configurações de corpo possíveis: no começo do tratamento o médico entende qual é a do paciente, e baseado nela define um tratamento.

O tratamento normal inclui, no mínimo, uma dieta muito estrita baseada em arroz, vegetais e temperos (tudo delicioso, acreditem), uma série de massagens muito vigorosos e uns remédios específicos para cada doença feitos pelos médicos e seus ajudantes com ajuda das plantas e ervas que crescem em Kerala. Dependendo do tratamento, o médico pode recomendar o uso de diferentes tipos de óleo que ajudam a lubrificar o corpo, e que se aplicam em lugares tais como a testa (para melhorar o sono), as articulações (para mim foi no joelho), no nariz e, às vezes, em outros lugares bem mais agressivos.

A praia fazia parte do tratamento...

A praia fazia parte do tratamento…

6. O dia a dia.

Depois de definir o tratamento, começou a rotina. A disciplina de atividades e horários é fundamental. Demoramos em achar um professor de yoga decente, mas quando conseguimos um, a gente fazia todos os dias a mesma coisa à mesma hora: café da manhã às 8h, yoga às 10h, praia das 12 à 130, massagem e tratamentos às 15, posta de sol maravilhosa às 18h, jantar às 20h. Antes e depois de cada comida tínhamos que tomar os remédios. Deste jeito passamos 8 dos 10 dias num ritmo lento, gostoso e saudável que só pode ser bom para o corpo.

É importante falar da comida. A dieta é bem rigorosa em quantidades, alimentos e forma de cozinhar. Tudo vegetariano, cozinhado com o mínimo óleo de coco possível. Embora possa parecer tedioso, é surpreendente a quantidade e variedade de pratos que conseguem fazer com vegetais e temperos, usando apenas produtos locais e esses pães sensacionais. Sonhei um par de vezes com steak tartares, mas ninguém é de ferro…

7. A aula de yoga.

Nosso pacote incluía uma aula – ou prática, como dizem os yogis – de yoga por dia. O primeiro professor, um gordinho incrivelmente flexível, fazia uma seqüência de movimentos bastante pouco lógica. Não era apenas eu, muito inexperiente, quem pensava assim, se não que a própria Mila achava a aula muito fraca. Pedimos um novo professor.

Éramos felizes e não sabíamos. O substituto, um senhor de uns sessenta anos, é possivelmente o professor de yoga mais elegante da Índia (e, pelo que tenho visto, do Brasil também). O problema era que não agüentava fazer duas posturas seguidas, e portanto preferia ficar 90% da aula falando e 10% praticando. Se a fala fosse interessante, ainda teríamos pensado em seguir com ele, mas o Armani do yoga apenas falava bobagens sem muito senso que faziam com que a Mila se irritasse pelo tempo perdido enquanto eu tentava conter as gargalhadas. Fizemos duas práticas com este cara de pau profissional, e terminamos decidindo fazer yoga fora do hotel, com um menino simpaticíssimo que dava uma aula de Ashtanga bem feitinha.

O hotel Taj Mahal em Mumbai, lindo e cheio de toxinas!

O hotel Taj Mahal em Mumbai, lindo e cheio de toxinas!

8. Los resultados.

É impossível passar 10 dias cuidando assim do corpo sem se sentir melhor. No final do tratamento eu me sentia mais leve e muito mais relaxado. Mila deixou de sentir dores no pescoço e dormia bem melhor. O que mais me impressionou é que deixei de sentir dores no joelho em várias situações em que normalmente quase gritaria, portanto parece que os óleos funcionam. Minhas dores lumbares e de pescoço também sumiram. E até enxergo um pouco mais do que antes do tratamento, segundo o médico pelo óleo que colocaram na testa (vai entender).

9. Os efeitos secundários.

É  importante lembrar que a volta à normalidade do nosso dia a dia – por exemplo, comer fritura, gordura, beber álcool – deve ser feita de forma progressiva. Não foi nosso caso. Depois destes 10 dias em Kerala fomos para Mumbai, onde destruímos o regime no maravilhoso hotel Taj Mahal. No dia seguinte apareceu uma enorme alergia do lado de ambas sobrancelhas no meu castigado rosto, o que não deixa de fazer pensar que tanta limpeza pode não ser totalmente boa, porque perdemos proteção contra as porcarias que, de qualquer forma, vamos nos encontrar na nossa rotina. É importante passar uma semana depois do tratamento comendo saudavelmente e evitando o álcool, para não sofrer reações na integração no dia a dia normal.

Mesmo assim, o tratamento é tão relaxante e você sai dele se sentindo tão bem, que sem dúvida vale a pena. Recomendado!

PS: Para ver mais fotos dos lugares que já visitamos clique aqui. E para curtir nossa página no facebook, clique aqui.

Comentários