25.03.2014 - 18h10

Impacto e utilidade das sanções econômicas contra Rússia

Sanções são uma ferramenta política diplomática de ameaças e incentivo — negativas ou positivas. Normalmente, tais ferramentas são percebidas como o mais visível de todos os instrumentos de poder econômico. Sanções negativas vão desde embargos até congelamento de ativos financeiros. Do lado positivo, temos de ajuda financeira até acesso favorável a mercados.

Como todas as formas de poder, sanções econômicas dependem do contexto, propósito, e habilidade em converter recursos em comportamento desejado. Existe muita controvérsia sobre o impacto e efetividade das sanções. Para medi-las é preciso ter clareza sobre seus objetivos. Esses incluem mudança de comportamento, contenção, e mudança de regime. Em outras palavras, coerção, limitação e sinalização.

No início da semana que passou os EUA decidiram sancionar indivíduos e a UE também trouxe a sua lista de russos e ucranianos. Em resposta, os russos retaliaram sancionando políticos americanos. Será que as sanções contra a Rússia vão fazer Putin mudar de ideia e abandonar a Crimeira? Sem dúvida, não! Será que o risco de endurecer as sanções pode fazer ele desistir de anexar mais territórios da Ucrânia (como o leste do país)?

A sabedoria convencional diz que sanções econômicas não funcionam. Em parte não funcionam porque o mundo é muito grande e sanções unilaterais são menos efetivas que sanções universais. Se todos os países do mundo decidissem se juntar aos EUA e UE com certeza a pressão contra a Rússia seria mais intensa. Outra consideração seria o escopo das sanções. Sancionar alguns indivíduos é bem diferente de sancionar o setor mais importante da economia russa — petróleo. Os Europeus não aprovariam nenhuma sanção econômica de peso contra o setor energético russo devido a sua dependência com o mesmo. Outro problema é o fato de sanções severas afetarem a economia como um todo, e consequentemente a população, ao invés dos oligarcas russos.

Para investidores e o mercado, os desdobramentos das sanções são importantes. Desde a primeira lista americana publicada, na segunda feira, com 11 individuos, empresas russas repatriaram bilhões de dólares com medo que novas sanções possam congelar seus ativos. O inverso também está acontecendo; bilhões de dólares deixando a Rússia devido ao medo das instituições financeiras europeias de retaliação. Bancos americanos estão vendendo títulos russos. O governo russo por outro lado está diminuindo sua exposição aos Títulos do Tesouro Americano. O Banco Central da Rússia tinha U$138 bilhões de títulos da divida americana em dezembro. Na semana passada esse numero caiu para U$105 bilhões.

Somente 2% das exportações russas vão para os EUA. A maioria dessas exportações pode ser substituída por serem commodities. Em termos de importação, aproximadamente 5% das importações russas vem dos EUA. No setor financeiro os bancos russos tem pouca exposição ao mercado americano. No fim de 2013, os russos tinham $20 bilhões depositados nos bancos americanos — uma pequena parte dos $750 bilhões depositados em seus bancos. Os EUA possuem $56 bilhões em papeis russos — 6% do total de $870 bilhões de capitalização do mercado.  A maioria das empresas russas (especialmente estatais) não estão listadas no mercado americano e sim no mercado de Londres ou Frankfurt.

Portanto, não tem muito que Washington possa fazer para realmente afetar os russos a menos que esteja disposta a tomar medidas drásticas e banir empresas americanas de fazer negocio no país.

O único objetivo restante, por trás das sanções americanas, com alguma funcionalidade prática é enviar um sinal. É importante indicar para os outros países do mundo, e da região, que algo está sendo feito. Ao mesmo tempo, Obama mostra para a população americana que os EUA não estão passivos e se curvando diante da ofensiva russa.

Talvez tão importante quanto medir a efetividade das sanções é saber quais são as alternativas existentes. Força militar é normalmente mais efetiva, mas pode ser mais custosa e mais trazer conseqüências graves. O exemplo de Cuba retrata bem isso. Durante a Crise dos Mísseis, os custos de usar a força militar para remover Castro eram enormes, incluindo o risco de uma guerra nuclear. Por outro lado, não fazer nada no auge da Guerra Fria seria comprometedor do ponto de vista da competição política entre EUA e União Soviética. Ou seja, sanções econômicas — na forma do embargo — não foram capazes de derrubar Castro, mas eram a melhor alternativa dentre as opções de não fazer nada ou intervir militarmente.

Já que os EUA não estão dispostos (Europa menos ainda) a confrontar militarmente a Rússia, sanções econômicas são a única ferramenta política restante capaz de impor algum custo aos russos. O problema é que o pacote atual de sanções só gera custos simbólicos.

17.03.2014 - 18h56

Política – Voo 370 – Rússia – Ucrânia – China – Soft Power

O mundo está focado em dois acontecimentos distintos: crise na Ucrânia e o desaparecimento do avião da Malásia. Apesar desses eventos parecerem tão dispares, é possível identificar muitos pontos aonde eles se encontram. Alguns vão me perguntar: “Heni, pra que perder tempo com essa ligação?” Meu objetivo é mostrar que no século 21 a política permeia tudo o que acontece, e pela ótica do risco político global um acontecimento se relaciona e repercute com diversos outros.

Não se sabe ainda o que aconteceu com o avião da cia aérea da Malásia, mas mesmo assim podemos analisar as ligações e relações políticas diversas do acontecimento. A maioria dos passageiros eram chineses. Existem suspeitas de que o voo tenha sido alvo de alguma sabotagem ou ataque terrorista (até mesmo alvo de pirataria). Se esse for o caso, um dos grupos com interesse em atacar os chineses está sediado na região “autônoma” de Xinjiang, composta pela minoria dos Uigures – povo de origem turcomena. Alguns grupos separatistas dessa região — como o East Turkestan Islamic Movement (ETIM) — tem ligações com grupos radicais de outros países, como Taliban do Paquistão e al-Qaeda. Inclusive, o ETIM é denominado um grupo terrorista pelos americanos e está incluído na lista do Departamento de Estado como um dos grupos separatistas mais extremistas do mundo.

Com a tensão na Ucrânia colocando o Ocidente em rota de colisão com a Rússia, uma pergunta natural seria sobre a posição dos chineses nessa crise. Até mesmo para os chineses, parceiros diplomáticos costumeiros dos russos, a invasão da Crimeia representa sérios problemas porque viola um dos seus princípios mais sagrados de política externa: o principio de não intervenção. As regiões do Tibet e Xinjiang poderiam usar a questão da Crimeia como um precedente internacional para separação. É importante esclarecer algo que parece não ter ficado devidamente claro sobre a gravidade do que a Rússia está fazendo. Muitos podem dizer ou comparar a violação russa com alguma guerra preventiva americana ou derrubada de regime (Saddam Hussein, no Iraque) e apontar para a normalidade de tais eventos nas relações internacionais. A comparação não é valida porque os EUA não invadiram o Iraque com intuito de incorpora-lo ao seu território. O objetivo não era transformar o território iraquiano em um território americano anexado. Anexar territórios de outros países alterando fronteiras consolidadas sempre foi algo muito serio, ainda mais nos dias de hoje.

Além do dilema diplomático, a China também terá que equilibrar seus interesses e parcerias comerciais com a Ucrânia. A Ucrânia vendeu para a China o seu primeiro porta-aviões, continua fornecendo muitas armas, e arrendou 5% das suas terras para companhias estatais chinesas em troca de projetos de infra-estrutura.

Se o voo 370 tiver sido alvo de um grupo terrorista isso aproximaria os chineses dos americanos pela natural importância do tema na agenda americana. Ao mesmo tempo, os russos também sofrem problemas com grupos radicais separatistas e simpatizariam com as preocupações chinesas. Talvez tanto Rússia quanto EUA tenham o mesmo poder de atração com os chineses dentro do quesito terrorismo/separatismo. Para entendermos realmente qual posição a China tomaria precisamos considerar muitos fatores. Entretanto, um deles vale a pena ser mencionado porque confere uma vantagem única para os EUA e tem ajudado a manter sua supremacia global.

Enquanto os EUA não se mostram dispostos para usar sua musculatura militar no confronto direto com a Rússia, estão usando a força militar através do Soft Power. Esse termo explica como recursos (força militar, cultura, valores, capital, etc) podem ser usados para produzir certas respostas ou ações (atração, cooptação e persuasão). O poder militar tem outras dimensões além daquelas de confronto bélico e imposição de vontades através da força superior. É possível usar o poder militar para ganhar confiança, gerar atracão ou cooptar os outros. Colocar navios militares e seu aparato de inteligência para oferecer ajuda ou assistência é uma forma de conquistar corações e mentes.

O Departamento de Inteligência Naval da Marinha Americana tem um histórico de sucesso na recuperação de navios, submarinos, pilotos e armas no oceano. Um desses casos foi a localização do submarino Scorpio, em 1968, quando afundou no norte do Atlântico. Por enquanto, a divisão de submarinos da marinha americana ainda não foi chamada para participar das buscas do voo 370. Até mesmo as buscas estão sujeitas a questões de segurança nacional como revelações sobre a capacidade e tecnologia dos satélites militares dos países. A China, por exemplo, dificilmente vai redirecionar os seus satélites militares para ajudar nas buscas com receio de revelar informações preciosas sobre a capacidade dos seus equipamentos. Para os EUA fica mais fácil usar essa vantagem militar sem se expor. Desastres e acidentes globais permitem os americanos exercerem seu poder brando e ganhar mais apoio mundial — um diferencial vital na hora de lidar com os confrontos diretos.

Não sabemos o desfecho da crise na Ucrânia e muito menos as causas do desaparecimento do voo 370, mas podemos analisar como eventos diversos se ligam facilmente dentro do universo da política. No mundo da política internacional é preciso transcender explicações unidimensionais e perceber como situações únicas podem impactar questões diversas.

04.03.2014 - 20h11

Por que o Ocidente não pode deixar a Rússia dominar a Ucrânia?

A ocupação militar da Crimeia pela Rússia representa o fim da estabilidade territorial europeia no pós-Guerra Fria. Por um lado, a Crimeia tem um significado estratégico militar limitado para os russos, apesar de sediar a base naval da sua Frota do Mar Negro. Na verdade, a real importância da península é de ordem geoestrategica uma vez que o controle total da Ucrânia alteraria o equilíbrio de poder global em favor da Rússia.

A condição geopolítica russa fez com que as preocupações de segurança nacional sempre tivessem uma importância acima da média se comparado com outras nações. Isso faz com que cada evento ou movimento ao redor do seu território (ou área de influencia) seja visto como uma ameaça mortal. Do ponto de vista do risco político global, não importa o quanto fundamentadas sejam as considerações russas e suas supostas justificativas. Permitir que a Rússia abocanhe um país do tamanho da Ucrânia é extremamente grave para a ordem mundial.

É importante deixar claro que a decisão russa de usar força militar é consciente e visa mandar um sinal de mudança de jogo. Moscou poderia ter usado sua costumeira pressão econômica, por exemplo, via gás natural. Não o fez por escolha, e com propósito. O Putin de 2014 não é o mesmo de 2004, ou até mesmo o de 2008 (quando invadiu a Georgia). O ex-KGB tem se mostrado desinteressado em aproximar a Rússia com a Europa. Seu projeto de país vislumbra uma Rússia nos moldes do Império Soviético e já deixou claro que está disposto a sacrificar os interesses econômicos por esse objetivo. O risco de abalar a reputação ou imagem internacional de seu país também não altera seus cálculos. Nem mesmo os 7 anos de preparativos e uma conta de 50 bilhões de dólares para sediar os Jogos de Sochi – que tinham como objetivo polir a imagem do país – foram suficientes para brecar suas ambições imperiais.

Uma revisão do status quo soberano abre precedentes que irradiariam insegurança para todos os membros do leste da OTAN e especialmente os países Bálticos–Lituânia, Estônia e Letônia (com as maiores minorias russas). A violação russa não se limita a soberania ucraniana mas também descumpre o Memorando de Budapeste quando a Rússia se comprometeu a não ameaçar ou atacar o território ucraniano. Depois da queda da União Soviética, a Ucrânia ficou em posse de muitas armas nucleares russas e concordou em devolver o arsenal somente depois de negociado garantias de proteção e segurança contra ofensivas futuras.

A crise Ucraniana elevou a polarização entre o Ocidente e Oriente dentro da periferia da antiga União Soviética. Moldova e Georgia estão buscando uma aproximação com o Ocidente para garantir sua segurança. Moldova enxerga a situação na Crimeia como uma replica da sua província (separatista e pro-russa) da Transnístria. Por outro lado, a Armênia anunciou que vai acelerar seu processo de adesão a União Euroasiática (uma espécie de União Europeia da Eurasia comanda pela Rússia). O país que já abriga uma base militar russa e laços econômicos sólidos está caminhando para uma integração ainda maior. No mundo pós-Crimeia, países como Polônia, Georgia, Ucrânia, Hungria, Romênia, Lituânia estão se perguntando se os EUA são aliados confiáveis e capazes de protege-los. Vai conquistar a fidelidade desses países aquele que demonstrar mais firmeza e força.

Globalmente falando também teríamos precedentes perigosos. Outras potências revisionistas poderiam pensar em recuperar territórios perdidos do passado. Se o argumento russo é de que deve controlar a Crimeia porque tem que proteger suas minorias, o que dizer da minoria chinesa na Tailândia ou Vietnam? E a minoria iraniana na Arabia Saudita? A lista é grande!

Independente do Putin ganhar ou perder na Ucrânia, as chances da Rússia se tornar um parceiro na solução dos problemas do mundo diminuíra drasticamente. No Oriente Médio, por exemplo, os impactos serão evidentes. Bashar al-Assad da Síria será o primeiro a ter certeza que escolheu o aliado e estratégia certa. E o acordo nuclear com o Irã? A vontade dos EUA em resolver rapidamente o dilema nuclear somado a intenção da Rússia em impedir o progresso americano vão fortalecer o Irã nas negociações daqui para frente.

Mais uma vez, a pergunta central é por que os brasileiros precisam entender a crise política de um país que representa apenas somente 0.2% do PIB global? A crise já atingiu os mercados financeiros do mundo. O benchmark de Moscou caiu 9.4% e o rublo atingiu seu ponto mais alto em relação ao dólar. Todas as empresas com exposição aos mercados ucraniano e russo experimentaram fuga de capitais. O Dow Jones, S&P, FTSE, Euro Stoxx caíram. Os mercados de energia também foram muito afetados. 80% do gás natural russo que vai para Europa passa pela Ucrânia e 40% do gás importado da Europa vem da Rússia. O preço do gás natural subiu 6% nos mercados ingleses e as ações da Gazprom caíram 10%. Em caso de um agravamento da crise e corte no fornecimento do gás, a Europa tem 18 dias de gás estocado. Essa é uma pequena amostra de como entender o que acontece na Ucrânia pode ajudar a medir os riscos políticos nos mercados.

01.01.2014 - 10h43

Terra Australis Incognita: Geopolítica da Austrália

É sabido que a Austrália é um continente distante e isolado, mas isso só fica evidente quando se tenta chegar lá. Eu sai de São Paulo para Buenos Aires e segui pela Rota Polar (cruzando o Polo Sul) direto para Sydney. Depois de 15h15 minutos de voo, cheguei na Terra Australis Incognita, o nome dado na antiguidade para a terra desconhecida no hemisfério sul.

Desde a antiguidade, filósofos e geógrafos contemplavam a existência dessa região. Gregos e Romanos pensavam, em teoria, que o território existia. Em 150 A.D., Ptolomeu denominou uma grande região no mapa de Terra Australis. No século V, o filosofo romano Macróbio pensava que a terra era dividida em 3 zonas climáticas, com um grande continente cobrindo a maior parte do hemisfério sul. A fascinação pelo terra desconhecida continuou ao longo da história. Na Idade Media, chineses, indianos, gregos e árabes escreveram sobre uma região localizada em algum lugar ao sul de Java. Na pratica a Terra Australis só foi localizada muito tempo depois pelos exploradores europeus. Na verdade, o continente foi o ultimo pedaço de terra habitável do mundo a ser descoberto pelos europeus. 

Visitar a Austrália é se reconectar com a geografia. Austrália é uma ilha, continente, e nação em um só pacote. Não existe nada no mundo semelhante à condição australiana. De alguma forma seu isolamento pode ser comparado com a posição dos EUA, um país protegido de ameaças externas pelo oceano. Claro que os EUA possuem dois vizinhos, mesmo que pacatos e inofensivos. Austrália é o menor, mais seco e mais plano continente do mundo. Um dos sete maiores países do mundo. Metade do país é árido e 1/5 deserto; esse clima faz da maior parte do solo pobre para o cultivo agrícola.

A sociedade e economia australiana são reflexos dessa realidade geográfica e climática. Outro legado que define sua história é a sua colonização. Tudo começou com 11 navios levando presidiários exilados da Inglaterra. Os navios deixaram Portsmouth, no dia 13 de Maio de 1787, e chegaram em Sydney quase um ano depois, 26 de Janeiro de 1788 (celebrado como o Dia da Australia). Aqui caberia um debate interessante (quem sabe em outro post) sobre as causas da diferença do desenvolvimento social e econômico do Brasil e Austrália. Quantas vezes já não ouvimos o argumento que a causa dos problemas do Brasil foi a colonização de exploração portuguesa. Como explicar o sucesso australiano diante de uma colonização composta por presidiários? A história da Austrália nos faz refletir sobre nossas falhas e obviamente aponta para fatores alem do tipo de colonização como explicação dos nossos desafios. 

Chega de história e geografia e vamos falar um pouco da geopolítica australiana. O país vive um dilema estratégico: escolher entre quem te protege e quem te faz rico. Os EUA é o aliado indispensável, a ponto da Austrália ser o único país do mundo a participar todos os conflitos que os americanos se envolveram desde a Batalha de Hamel, na Primeira Guerra Mundial. A China se tornou o maior parceiro comercial passando o Japão em 2009. Obviamente a Austrália gostaria de manter boas relações com os dois gigantes. O problema é que tanto EUA quanto China enxergam sua relação política e estratégica com a ilha-continente através da sua rivalidade. Mesmo que a Austrália consiga agradar os dois, cada um deles vai fazer de tudo para impedir que seu rival fortaleça sua aliança.  

Por exemplo, qualquer choque militar entre Japão e China, pelas ilhas do Mar do Sul da China (ver post anterior), levaria a um envolvimento americano e consequentemente forte pressão para a Austrália se posicionar e participar. Nessa caso sua aliança com a China seria comprometida abalando as relações comerciais.  

Outro aspecto geopolítico é a dimensão marítima estratégica do continente. O hino australiano proclama: “our home is girt by sea” (nossa casa é cercada pelo mar); a frase ressalta a importância marítima da sua realidade. Cada estado australiano tem sua capital localizada em um porto ou próximo a um. No âmbito continental, a Austrália liga os Oceanos Pacífico e Índico. O Pacífico abriga a maior rota comercial do mundo e o Índico será o novo palco geopolítico do século 21, sendo o ponto de encontro entre China e Índia. Portanto, a localização da Austrália permite, dentre outras coisas, a criação de um corredor horizontal leste-oeste de extrema importância marítima. Forças estacionadas nos extremos de cada oceano — 7ª Frota Naval Americana localizada no Japão (Pacífico) e a 5ª Frota no Bahrain (Índico) — estão em desvantagem quando comparado com a possibilidade de estarem localizados próximo a geográfica central que a Austrália oferece.

Alguns podem estar pensando: “como a austrália influência decisões financeiras ou economicas no Brasil”. O par do dólar australiano e dólar americano são a quarta moeda mais comercializada do mundo, representando 7% de todo o mercado global de câmbio. A moeda australiana sempre esteve atrelada ao preço das suas commodities exportadas, contudo em 2003, graças a globalização financeira o link foi desfeito. A estabilidade e cotação do dólar australiano não podem ser dissociadas dos acontecimentos políticos e geopolíticos que ditam os rumos de sua economia e da região. Ou seja, qualquer avaliação precisa sobre seus fundamentos não pode excluir uma análise do risco político da Terra Australis e seu papel geopolítico. 

10.12.2013 - 18h24

Crise na Ásia: Zona de Defesa Aérea e Mar do Leste da China

Nas ultimas semanas a China expandiu sua zona de defesa aérea dentro do Mar do Leste da China (veja mapa abaixo). Esse decisão ocorre em um contexto especifico: o acirramento das disputas territoriais das ilhas locais, o crescente nacionalismo na região e o redirecionamento estrategico-militar americano para a Ásia.

Mapa Zona de Defesa Aérea

 

 

Quando falamos de crises internacionais com potencial para escalada de confronto as atenções costumam estar voltadas para regiões tidas como mais frágeis: seja o Oriente Médio, África ou sul da Ásia (Índia e Paquistão). Contudo, a Ásia do século 21 pode se tornar a Europa do século 20. Até pouco tempo atras, todo o enfoque da região estava concentrado nas áreas econômicas e comerciais. A ascensão chinesa e o desenvolvimento econômico regional vem forçando a inclusão de preocupações geopoliticas na estratégia de segurança dos países.

A China reivindica 90% do total da area do seu mar do leste. A dificuldade com as ilhas desse mar estão na sobreposição do espaço territorial de todos os países próximos. Filipinas, Vietnã, China, Japão, Taiwan, Coreia do Sul, Malásia e Brunei possuem algum tipo de reivindicação territorial dentro desse espaço. Algumas dessas disputas, como a da soberania das ilhas Diaoyu/Senkakus existe desde a Guerra Sino-Japonesa de 1894. As ilhas não são a única causa da tensão, mas as zonas econômicas exclusivas pertinentes também geram disputa devido a abundância de recursos naturais como petróleo e gás.

O grande problema disso tudo é que estamos falando de disputas territoriais. Conflitos ideológicos podem ser menos precisos ou tangíveis. Território é algo fundamental para a existência de um estado. Busca por autonomia e controle de território é o que permite um povo ser dono do seu destino. Sem território não existe estado. Ou seja, nenhum país em sã consciência abdica de espaço pois esse é a matéria prima básica para sua existência. Não é por acaso que historicamente a vasta maioria das guerras, entre estados, foi travada por defesa e conquista territorial.

Outro risco com a demarcação da zona de defesa aérea chinesa é a sobreposição com mesma zona japonesa. A Coreia do Sul acabou de expandir sua zona de defesa aérea para dentro do mesmo espaço. Isso acentua as chances de um acidente ou choque não intencional. Quando um avião de qualquer um dos países entrar nessa zona vai ser interceptado e escoltado de acordo com as normas internacionais. Caso a interceptação não for feita da maneira correta temos o risco de um incidente internacional. Em 2001, um caça chinês estava executando intercepções agressivas até colidir com o avião americano de inteligência causando a morte do piloto chinês e forçando o pouso da aeronave americana na ilha de Hainan. Os 24 membros da tripulação ficaram presos por 11 dias gerando uma crise entre os dois países.

Essas zonas não são algo novo. São essencialmente um pára-choque fora do espaço aéreo do país. De acordo com o direito internacional, o espaço aéreo de um país engloba o céu acima do território mais os 22 quilômetros de distancia da sua costa de oceano. Muitos outros países criaram zonas parecidas em espaço aéreo internacional próximo ao seu estado. Como são impostas de forma unilateral e sem base legal facilitam atritos.

Por enquanto, o problema não foi a demarcação da zona chinesa, mas a possível tentativa em protege-la. Hoje, Pequim não tem os meios ou capacidade de monitorar todo o escopo desse espaço aéreo e nem as condições de projetar força. Monitorar o escopo da área requer sistemas navais, terrestres e aéreos. Como os chineses não controlam espaços terrestres (ilhas) próxima a zona ficam em desvantagem em relação aos japoneses. No quesito força, a China precisa de plataformas terrestres, aéreas e navais, mas ninguém pode atacar algo que não pode identificar ou localizar, e menos ainda sem a arma apropriada dentro do seu alcance. Essa capacidade de posicionar suas forças aéreas próximas a zona é comprometidas pela distância da costa e falta de treinamento e procedimentos.

O estabelecimento dessa zona trouxe uma nova dimensão – aérea, alem da naval e territorial – para a competição geopolítica da região. O desenrolar dessa tensão colocará em pauta a normalização militar japonesa e vai testar o comprometimento americano com seus aliados da região. Se Obama seguir o exemplo de como tem tratado os seus aliados do Oriente Médio, rapidamente o Japão pode mudar sua constituição e adotar uma postura mais agressiva. Os chineses estão desafiando o status quo enquanto os outros países estão apreensivos com as suas ambições.

25.11.2013 - 17h19

O significado do acordo nuclear com o Irã

Chegou-se ao esperado: um acordo interino sobre o programa nuclear do Irã. Já tínhamos muitos indícios que isso aconteceria. A eleição do suposto moderado Hassam Houhani, a condução da política externa de Obama e o impacto das sanções favoreciam o cenário para um acordo.

Os holofotes estão focados no acordo em si, quando o mais importante parece estar sendo deixado de lado. O ponto relevante não é a assinatura de um acordo, mas o tipo de acordo que foi assinado e seu significado para a questão em pauta — o programa nuclear iraniano.

Hoje a maior ameaça para a segurança internacional é o programa nuclear iraniano. Por que? Existem os motivos internos e externos. Do lado interno, o regime iraniano é um dos maiores violadores dos direitos humanos no mundo; financia, treina e arma dois dos mais ativos grupos terroristas (Hamas e Hezbollah); tem um projeto hegemônico na região; mantém o regime Sírio vivo; e ameaça riscar do mapa um dos seus rivais: Israel. Do ponto de vista externo, um Irã atômico desestruturaria o Tratado de Não Proliferação Nuclear (tratado que cuida das questões relacionadas a armas e energia atômica). O regime de proliferação nuclear seria abalado pois desencadearia uma corrida nuclear. Isso aconteceria justamente na região mais instável do planeta. Imaginem o Oriente Médio repleto de países nucleares? Arábia Saudita, Egito e Turquia iriam desenvolver sua bomba atômica. Se esses novos países entrassem para o clube nuclear, o que impediria outros países de buscar a arma mais poderosa de todas? Imaginem o mundo com 30 ou 40 países em posse de bombas atômicas!

O pior de todos os cenários seria a soma dos desafios internos e externos. Me refiro a proliferação nuclear para um grupo terrorista. O mundo entraria em choque, e simplesmente tudo mudaria caso tivéssemos um 11 de setembro nuclear. Todas as grandes capitais do mundo entrariam em estado de emergência com medo de serem alvos de um ataque terrorista nuclear. O numero de mortos seria muito superior a grandes conflitos históricos. O pânico seria total. Viagens e comércio internacional seriam muito abalados. As bolsas de valores do mundo derreteriam. O tamanho do estrago moral e material é imensurável e indescritível.

A descrição do pior cenário é necessária para contextualizarmos o porque está se debatendo um acordo com o Irã. O acordo não é para restabelecer relações diplomáticas do país com o Ocidente, principalmente os EUA. Claro que isso pode ser uma conseqüência futura, mas o foco dessa discussão é, ou deveria ser, o programa nuclear. Dessa forma, a conclusão obvia é de que um acordo só faz sentido se tratar do problema central: impedir as ambições nucleares do Irã.

O acordo assinado ontem tem uma serie de problemas. Segue a lista abaixo:

I. Inspeções não garantem confiabilidade

O acordo assinado permite inspetores visitar instalações, mas isso não tem muito significado devido ao histórico do país em dificultar as inspeções e enganar inspetores da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA). Por exemplo, desde o relatório da AIEA de 2011, a instalação de Parchin – um complexo de testes de explosivos e parte do programa militar nuclear do Irã – tem negado acesso aos inspetores da Agência Atômica. Pior do que isso, o Irã iniciou reformas no local que estão sendo documentadas por fotos de satélite. Todo o solo da base militar está sendo asfaltado. Normalmente inspetores precisam coletar amostras do solo para localizar rastros de material radioativo. Uma vez terminada a reforma, ficará impossível uma analise confiável. Para piorar, Parchin não está na lista de locais que inspetores terão acesso de acordo com o ultimo termo entre a Agência e o Irã. Como signatário do Tratado, o Irã já deveria permitir acesso irrestrito aos inspetores. Ou seja, essa concessão não pode ser vista nem como uma concessão, mas como uma falha na sua obrigação.

II. Acordos Interinos e seus problemas

Esse acordo não é um acordo final, mas apenas um aperitivo para preparar o terreno para as conversas futuras que virão. O problema é que o aperitivo foi muito farto para com o Irã e vai balizar as discussões dentro de uma perspectiva aonde o país precisa oferecer pouco e merece receber muito. O acordo atual não coloca um freio nos aspectos mais problemáticos do programa nuclear iraniano, particularmente limitando o numero de centrifugas e garantias solidas que o país não poderá converter seu urânio enriquecido em material para uma bomba.

Os obstáculos para serem superados são enormes, e os opositores internos dentro dos EUA e do Irã precisam estar convencidos que o acordo final representa seus maiores interesses. O Congresso americano só vai concordar em suspender todas as sanções caso existam propostas objetivas de destruição do programa nuclear e ao mesmo tempo mecanismos eficazes de verificação. Nada disso existe hoje, e nem foi colocado na mesa. Um acordo satisfatório para todos os stakeholders envolvidos tem uma cara muito diferente do acordo interino assinado ontem. Em outras palavras, será que Washington e Teerã são capazes de concordar com um acordo aonde o Irã abdica por completo do seu programa nuclear e os EUA suspende todas as sanções?

III. Legitimar um estado violador

O acordo atual manda um sinal muito ruim para o mundo e outros países que buscam construir suas bombas atômicas. O acordo retira o status de violador do Irã e passa a tratá-lo como um país que nunca descumpriu suas obrigações. A legitimidade das 6 resoluções do Conselho de Segurança da ONU, demandando que o Irã encerre o enriquecimento de urânio por não cumprimento do Tratado de Não Proliferação, jamais será restabelecida. Permitir que o Irã continue seu programa de enriquecimento, mesmo que seja até 5%, demonstra um retrocesso em termos das resoluções passadas do Conselho. O Irã sempre quis ter o direito de manter seu programa de enriquecimento e a comunidade internacional sempre se posicionou unanimemente contraria sabendo dos riscos dessa capacidade. Não existe bomba atômica sem capacidade de enriquecer urânio. O acordo interino recompensa o Irã pelo seu passado de violações e afrouxa os requisitos mínimos de garantia que possam impedir o país de construir sua bomba.

IV. Líbia ou Coreia do Norte

Presidentes em segundo mandato tentam melhorar seu legado. Obama passou os últimos anos dizendo que não deixaria o Irã adquirir a bomba atômica sob sua liderança. Reparem que ele está mais preocupado em garantir que isso não aconteça durante o seu mandato e não necessariamente em resolver o problema. Obama está tentando minimizar os seus riscos, jogando o problema o mais para frente possível com o mínimo de esforço e custo no presente. Clinton tentou sem sucesso em seu segundo mandato um acordo de Camp David II para acabar com o conflito Israelense e Palestino. Bush tentou um acordo final com a Coreia do Norte. Seu governo retirou a Coreia da lista de patrocinadores do terrorismo e suspendeu algumas sanções. Em resposta, os norte coreanos redobraram seu programa nuclear e balístico. O acordo atual remete mais ao cenário da Coreia do Norte do que ao acordo assinado com a Líbia para desmantelar seu programa nuclear.

V. Assimetria de trocas

Até hoje o Irã não aceitou nenhuma das propostas de acordo. O que fez o país mudar de ideia? As sanções finalmente começaram a ter efeito e estão abalando a sua econômica. Só tem uma coisa que o regime em Teerã valoriza mais do que armas nucleares: sua sobrevivência. Na verdade a maior utilidade de possuir tais armas é garantir sua sobrevivência. As sanções estão criando mais instabilidade e colocando em risco a sobrevivência do regime. Dentro desse contexto de máxima vantagem para o Ocidente que se deu inicio as negociações em Geneva. Estranhamente no momento de maior vantagem, os EUA decidiram fazer as maiores concessões, justamente quando quem estava pronto para ceder mais era o Irã. O Ocidente ofereceu suspender algumas sanções em troca de mudanças cosméticas que não alteram em nada a infra-estrutura nuclear do Irã. O próprio EUA aliviaram suas demandas ao permitir que o Irã continuasse enriquecer urânio. Durante o primeiro mandato, o próprio governo Obama ofereceu um acordo aonde o Irã deveria importar urânio enriquecido ao invés de enriquece-lo. Essa assimetria vai produzir paradigmas perigosos para qualquer acordo definitivo além de ser leniente com o programa nuclear e não endereçar o problema central que seria impedir o Irã de desenvolver uma bomba atômica.

VI. Mudanças não acontecem tão rapidamente

O regime iraniano não deixou de ser o regime iraniano e nem tem porque deixar de ser. Negar o Holocausto, ameaçar riscar Israel do mapa, financiar terrorismo e muitos outros são algumas das políticas que continuam fazendo parte do cardápio iraniano. Eu já escrevi em outro post como o programa nuclear iraniano é em parte tão grave e problemático devido ao seu comportamento e suas políticas. Caso o governo do Irã não fosse quem é, os riscos em jogo seriam menores para todos. A retórica extremista só aumenta a tensão e mostra a essência do regime dos clérigos. O regime não mudou e não deve mudar. O ex-presidente Ahmadinejad não era o único extremista, e o atual presidente, Rouhani, só parece moderado quando comparado com seu antecessor. O líder supremo fez um pronunciamento semana passada descrevendo Israel como um “cachorro fanático” e demostrando que a ideologia extremista continua sendo o pilar do regime. Rouhani quando perguntado sobre o Holocausto respondeu que não era um historiador para confirmar sua veracidade.

O Irã não deve deixar de financiar e promover o terrorismo na região. Muito menos apoiar o regime de Assad. É difícil confiar em uma mudança na área nuclear sabendo que o governo segue o seu mesmo padrão em todas as outras áreas.

Em suma, o dilema do programa nuclear iraniano está longe de ser resolvido e o seu problema central não parece ter sido resolvido pelo acordo de ontem. Vamos acompanhar as cenas dos próximos capítulos.

24.10.2013 - 15h26

Petróleo, Geopolítica e Segurança Energética

Há 40 anos atrás o mundo estava lidando com a crise do petróleo criada pela OPEC (Organização dos Países Exportadores de Petróleo) quando a organização cortou suas exportações para os EUA e seus aliados, como forma de punição ao apoio a Israel na Guerra do Yom Kippur em 1973.

O embargo de 1973 tem muito a nos dizer sobre risco político e geopolítica. A independência e segurança energética são questões estratégicas para qualquer país. É dentro desse contexto que o Brasil acaba de finalizar o leilão do primeiro bloco do pré-sal, a reserva de Libra.

Será que os EUA ainda têm sua segurança energética ameaçada por um embargo ou por uma dependência excessiva no combustível fóssil? Eu escuto muito as pessoas usando o petróleo como a explicação de tudo que acontece no mundo. Desde a política externa americana no Oriente Médio até as intervenções na Síria, Líbia e Iraque (só para citar alguns dos assuntos), a causa de tudo é o interesse no petróleo. Nesse post eu não quero me aprofundar nos porquês das guerras, mas posso afirmar que colocar o petróleo como o centro de tudo é uma simplificação e superficialização da realidade. Tendo dito isso podemos voltar para a pergunta acima.

Primeiramente, o embargo tinha como objetivo resolver uma questão geopolítica, acabar com o apoio do Ocidente a Israel. Não aconteceu. Portanto, o embargo não se mostrou uma ferramenta efetiva. Segundo, os países afetados foram em busca de alternativas e soluções para a sua dependência energetica. É curioso que um dos argumentos mais comuns aponta para a dependência americana de fornecimento do petróleo do Oriente Médio. Os EUA nunca foram dependentes do fornecimento de petróleo da região e hoje apenas 9% do seu fornecimento vem de lá. Historicamente, a região nunca forneceu mais de 15% do total do petróleo americano.

O erro comum de focar na dependência energética indica uma outra confusão mais grave. O perigo para os EUA, e para outros países que buscam auto suficiência energética, em termos de fornecimento, está na incapacidade de controlar o preço do petróleo e todas as conseqüências econômicas resultantes da sua variação. O problema do embargo não foi o corte de fornecimento para os EUA, mas a diminuição na produção do cartel que fez o preço do barril subir de $5.12 para $11.65. O mundo todo sofreu com o embargo, não somente os países que foram alvos do corte de fornecimento.

Hoje a China, por exemplo, importa 60% do seu petróleo e 30% do seu gás natural. Ter o seu fornecimento vindo de fontes externas não é o ideal, mas talvez a maior dependência seja em relação ao impacto do preço do petróleo na competitividade de uma economia de manufaturados orientada para exportação. A variação do preço do petróleo impacta o custo de transporte que por sua vez aumenta o preço final dos produtos chineses. Auto suficiência energética é só uma parte da equação energética.

O cartel do petróleo ainda domina 3/4 das reservas convencionais da commodity, 1/3 do fornecimento global e tem o menor custo de produção por barril do mundo. O fato do cartel ser formado por países soberanos, ao invés de empresas privadas, impossibilita que leis antitrust penalizem a pratica abusiva. Se estamos falando de um cartel de países, então estamos falando de riscos políticos na sua forma mais pura no que se refere ao combustível de transporte mais importante.

Felizmente, nem todos os membros da OPEC querem ver aumentos imediatos e exorbitantes da sua commodity. Venezuela e Irã adorariam que isso acontecesse pois ajudaria suas economias fracas. Já os outros países aprenderam algumas lições com o embargo de motivação política de 1973. A queda de preço do petróleo nos anos 80, posterior ao embargo, foi causada pelo impacto econômico nos países afetados e mostrou como pressionar seus clientes pode trazer problemas no longo prazo. A exploração de novos campos de petróleo fora do cartel e a busca por eficiência energética foram também algumas das medidas adotadas para contrapor o embargo.

Politicamente muitos dos países Árabes, principalmente a Arábia Saudita, têm a opção de aumentar sua produção para baixar o preço. Hoje os sauditas estão mais preocupados com a ameaça iraniana do que punir seus aliados ocidentais. O caos político e social que se instalou no Oriente Médio pós-Primavera Árabe mostra bem o tamanho das dificuldades intra-regionais. Talvez uma melhor opção nesse momento para a Arabia Saudita seja baixar o preço do petróleo e não aumenta-lo. A situação política regional e o risco de forçar seus clientes a acelerarem a busca por alternativas faz do cenário de 1973 um evento pouco provável.

A produção energética também está passando por uma revolução no que tange as novas tecnologias de exploração como o petróleo e o gás de xisto. 10% de todo o petróleo do mundo e 32% do gás natural estão localizados em formações de xisto. De acordo com o Energy Information Administration (EIA) esses novos recursos aumentaram as reservas globais de petróleo em 11% e 47% de gás natural. Em 2012, 1/4 da produção de gás americana vem do xisto e em 2035 o número será o dobro.

O mapa no post seguinte mostra as possíveis bacias de xisto espalhadas pelo mundo. Grandes reservadas estão na China, Argentina, Austrália e África do Sul. Muitos países se beneficiariam da exploração do xisto, incluindo Brasil. Alguns países como Polônia, Turquia e Ucrânia teriam ganhos geopolíticos ao conseguirem diminuir sua dependência de fornecedores hegemônicos como Rússia e Irã.

Concluindo, a OPEC ainda tem poder mas o cenário político de hoje não favorece o uso do petróleo como arma política contra o Ocidente. Um entendimento mais amplo do conceito de segurança energética deve transcender a ideia de auto suficiência e nesse ponto o Brasil deve pensar suas considerações estratégicas.

 

15.10.2013 - 19h42

Fundamentos da supremacia do dólar e dos EUA

Com a crise do teto da dívida seguindo seu caminho recorrente de brinkmanship (tática de negociação de destruição mútua) começam os questionamentos sobre o poder americano, o papel do dólar no sistema internacional, decadência da potência, etc.

Existem razões estruturais pelas quais o dólar tem sido a moeda líder e de reserva do mundo após 1945. A moeda americana forneceu a fundação monetária para a economia internacional e seu papel é ao mesmo tempo um reflexo e reforço da supremacia dos EUA.

O dólar tem sido tão atraente devido ao tamanho e profundidade das instituições da sua economia, seu mercado de capitais, crescimento econômico, vitalidade e lucratividade, e mais importante: estabilidade política e incomparável segurança física.

A questão da segurança física pode parecer totalmente dissociada da solidez da moeda de um país. Entretanto, nada é mais básico do que ordem e segurança para os fundamentos do estado e consequentemente da economia, que não existe em um vácuo. Max Weber definiu o estado como a entidade que detém o monopólio do uso legitimo da força. Reparem que ele não fala de saúde, cultura, idioma, etnia, religião, educação, partidos políticos ou qualquer outra coisa relacionado ao estado, mas somente sobre uso da força; em outras palavras, segurança.

Segurança é uma vantagem única do Estado americano. Os EUA tiveram seu território atacado somente em Pearl Harbor e no 11 de setembro. Mesmo assim foram ataques pontuais. O continente da América do Norte está desconectado do resto do mundo, nenhuma outra região tem acesso terrestre ao continente. América do Sul não tem ligação capaz de ameaçar a segurança do norte. Europa, Ásia e Eurasia só acessam o território americano via oceanos e isso seria impossível hoje devido ao domínio dos oceanos pela marinha americana. Pergunte aos países asiáticos se sentem o mesmo nível de segurança na sua região. A Rússia vive presa a paranóias geopolíticas devido aos riscos territoriais. E os europeus? A Europa demorou muitos séculos para encontrar a sua paz baseada em uma aliança que está se mostrando extremamente frágil.

A questão da segurança é tão importante que serve de base para sustentação do dólar em contextos de insegurança de outras grandes potências. Alguns dos países que apoiam oficialmente o papel do dólar no mundo são países que dependem dos EUA para a sua segurança. Japão, Coreia do Sul, e membros do Conselho de Cooperação do Golfo (Emirados Árabes, Arábia Saudita, Omã, Qatar, Bahrein e Kuwait). Até mesmo a China tem uma relação política e estratégica que não vale a pena confrontar o papel do dólar.

Além da questão da segurança, existem outros fatores estruturais que oferecem vantagens únicas para os EUA. Os americanos captam dinheiro a um custo muito baixo. Os contratos são feitos dentro das suas próprias leis. Essa vantagem permite que calotes involuntários sejam impossíveis porque se o governo precisar pode imprimir mais dólares. Ainda é possível mudar as leis para beneficiar os devedores. Existe precedente na história americana aonde, em 1935, a Suprema Corte decidiu alterar as regras de contratos privados argumentando que o mesmo poder que lhe confere passar uma lei de falência, que possibilita seus devedores se livrarem das suas obrigações, também pode mudar leis contratuais.

A Grecia é um ótimo exemplo do custo de não poder imprimir sua moeda e mudar as leis sob as quais suas dividas estão regulamentadas. A incapacidade de mudar leis que governam os seus títulos impediram uma desvalorização da moeda e mudança de contratos que estavam registrados em jurisdição externa.

Todos os países gostariam de pegar dinheiro emprestado, de investidores estrangeiros, na sua própria moeda e dentro da sua jurisdição legal com poder de mudar as leis em seu beneficio, caso necessário. Felizmente ou infelizmente somente 3 países tem credibilidade para fazer isso: EUA, Grã-Bretanha e Japão.

Outra questão importante é não confundir o valor (ou taxa de câmbio) do dólar com o seu papel no mundo. A depreciação do dólar é diferente do seu papel político e econômico. Para medir o papel político do dólar precisamos analisar 3 utilidades do dinheiro: meio de troca, reserva de valor, unidade de conta.

Em todos esses aspectos o dólar tem sido disparado a moeda mais importante e continua sendo. O meio de troca se refere a moeda como um veiculo de transações internacionais. Um indicador da predominância absoluta do dólar como meio de troca é a ultima pesquisa do Banco de Compensações Internacionais (Bank of International Settlements) identificando a moeda americana como veiculo dominante em 87% de todas as transações do mercado de câmbio global. O Euro está em segundo com 33% (com queda de 6% de 2010 para cá). O FMI, mostra que como reserva de valor, o dólar compõe 61.9% das reservas oficiais do mundo comparado com 23.8% do Euro, 3.85 da Libra e 3.8% do Yen.

Mudanças estruturais na geopolítica global precisam acontecer para o dólar perder sua supremacia. Esses tipos de mudanças não acontecem apenas com uma crise fiscal ou impasse político como o teto da dívida.

07.10.2013 - 21h07

Risco político, paralisação do governo e dívida americana

Desde a semana passada os serviços não essenciais do governo americano foram paralisados. A causa foi a disputa política entre democratas e republicanos sobre o orçamento para o ano fiscal de 2013-2014. Além disso, o teto da dívida pública americana, de 16,7 trilhões, está próximo de ser atingido. Esses dois eventos são frutos de um tipo de risco pouco considerado e analisado, o risco político. Este blog olha para os eventos políticos sob essa lente, analisando os riscos da política no mundo. O que está acontecendo nos EUA é um dos clássicos exemplos de como a política determina os rumos da economia e mercados.

Vivemos na era da informação e conhecimento, isso significa que o mundo se tornou mais rápido e dinâmico. Em um mundo assim, tudo se tornou mais complexo e instável. O dinamismo da comunicação da a impressão que vivemos em um mundo despolitizado, quando na verdade a política continua tendo um papel central em todas as esferas e atividades humanas.

Vamos entender o papel da política nessas crises nos EUA. Os críticos têm dito que a política americana está falida e enlouquecida, principalmente o partido Republicano e o Tea Party. Grande parte dessa visão acontece pela falta de entendimento da política. A paralisação do governo não é um fenômeno novo na política. O governo americano já foi paralisado 17 vezes desde 1976, e grande maioria das vezes os democratas controlavam a Câmara. Por exemplo, em 1981, ainda no primeiro ano de governo, Ronald Reagan enfrentou o primeiro fechamento do governo. No seu segundo mandato, o governo foi paralisado 6 vezes, em um total de 12 dias, devido a negociações de orçamento entre a Casa Branca e a Câmara democrata, liderada por Tip O’Neil.

As paralisações mostram que a política americana sempre foi partidária e conflituosa. Alias, democracias são assim! Debater e defender seus interesses até a ultima instancia é da natureza democrática. Muitas democracias foram desenhadas com divisões de poderes (executivo, legislativo e judiciário) para garantir que não houvesse supremacia de um grupo sobre o outro. Nem mesmo da maioria sobre a minoria. No sistema democrático, utopias de ambos os lados do espectro político são difíceis de serem levadas adiante porque fogem do consenso necessário que satisfaça as vontades de constituintes de até mesmo grupos menores. Ou seja, o que está acontecendo faz parte da norma, e não de uma disfunção política.

Quais seriam as conseqüências para o mercado financeiro, caso os EUA não aumentem o teto da dívida? Ben Bernanke, Chairman do Federal Reserve, disse que um calote da dívida seria um “recovery-ending event” (evento do fim da recuperação). Até mesmo um impasse de longa duração pode causar problemas para a economia. Incertezas nos mercados de bonds colocarão pressão para um aumento das taxas de juros, aumentando os custos de empréstimos do governo federal, negócios e consumidores. O longo e complicado debate sobre aumento da dívida em 2011 fez a agência de classificação Standard and Poor’s rebaixar a classificação de credito americana. No dia seguinte do rebaixamento, 8 de agosto de 2011, o Dow Jones Industrial Average despencou 635 pontos sendo uma das maiores quedas diárias da história do mercado financeiro e a maior queda desde dezembro de 2008. Alguns dias antes, 4 de agosto, já temendo o pior, o índice Dow marcou uma das suas 10 piores quedas diárias da história, caindo  513 pontos. Outro estudo do Escritório do Governo Americano mostrou que o atraso em aumentar o teto da dívida custou aos contribuintes aproximadamente $1.3 bilhões em 2011.

Como a política vai proseguir? Qual cenário político vai determinar a votação sobre o aumento do teto da dívida? Nas outras vezes aonde o impasse político se repetiu, Obama ainda podia concorrer a re-eleição e no caso de um calote – por mais que pudesse colocar a culpa nos republicanos – acabaria absorvendo parte da culpa afetando sua popularidade. Na discussão que está por vir, Obama pode estar mais inclinado a correr riscos, ainda mais se estiver mais preocupado com seu legado ao invés da futura candidatura democrata. Os republicanos sentindo a natural saturação da opinião pública, com 8 anos de Obama, podem se sentir mais confiantes em continuar pressionando a Casa Branca.

Os impactos na economia e nos mercados de um calote, ou impasse longo sobre as negociações do teto da dívida americana, são evidentes. Para analisar os riscos do desenrolar dessa discussão é preciso seguir de perto a política americana e o movimento das peças do xadrez para as próximas eleições. Eu estarei acompanhando o andamento desses cenários e comentando com vocês.

30.09.2013 - 21h26

É possível um acordo com o Irã?

Talvez o assunto mais relevante da Assembleia Geral da ONU em Nova York essa semana foi os acenos do presidente iraniano, Hassan Rouhani, para os EUA. O mundo está eufórico com a possibilidade de normalização das relações do Irã com a comunidade internacional. Tudo parece  depender da possibilidade de um acordo sobre o seu programa nuclear.

É interessante que as expectativas estão depositadas somente no assunto nuclear, reduzindo a crise iraniana somente ao desejo do Irã em possuir uma arma nuclear. Será que um Irã que não financiasse terrorismo, desrespeitasse tanto os direitos humanos, e tivesse uma política externa menos hegemônica seu programa nuclear causaria menos tensão? Esses outros temas e comportamentos mostram que a crise com o Irã não se resume ao programa nuclear. Portanto, para analisar as possibilidades de um acordo não podemos esquecer do contexto que faz a questão nuclear mais grave no caso do Irã.

Os riscos de um Irã nuclear são muitos e representam a maior ameaça para a estabilidade e segurança internacional nos dias de hoje. Caso o Irã construa a bomba teríamos uma corrida nuclear na região mais instável do mundo. Arabia Saudita, Turquia e Egito seriam os primeiros candidatos. Outra conseqüência seria um desequilíbrio na balança de poder regional. Um Irã em posse de uma bomba atômica ficaria mais poderoso e os seus rivais ou inimigos se sentiriam ameaçados. Quando existe desequilíbrios as chances de conflitos são maiores. Outras conseqüências mais perigosas seriam a proliferação de tecnologia ou armas atômicas para grupos terroristas. O Irã financia, treina e ajuda Hezbollah e Hamas além de outros grupos menores.

Para termos um acordo entre Irã e EUA precisamos muito mais do que boa vontade por parte de Rouhani. Do lado iraniano quem comanda é o líder supremo, Aytollah Ali Khamenei e um dos maiores grupos de influencia do país é a Guarda Revolucionaria uma organização que controla grande parte do aparato de segurança e economia. Do lado americano, os possíveis obstáculos são o Congresso, opinião publica e outros grupos de interesses que não confiam no Irã e na capacidade de cumprir com qualquer acordo.

Aliados como Israel e Arabia Saudita também estão preocupados com a movimentação iraniana e se sentindo deixados de lado pelos EUA. Obviamente não querem que seu inimigo ganhe mais tempo e possa enrolar os americanos. Esse obstáculo é de natureza geopolítica.

A literatura sobre negociação internacional é bem clara quanto ao papel da confiança em um acordo. Ou seja, sem confiança é difícil se chegar em algum lugar. Eu já conversei com negociadores especializados em situações de reféns e resgates que defendem que confiança não é essencial. Mesmo assumindo que confiança seja irrelevante para um acordo, temos que entender quais são os mecanismos de verificação de um acordo. No caso de um acordo nuclear, inspeções seriam necessárias e ate hoje o Irã foi capaz de enganar os inspetores.

O frenesi da mídia internacional parece desproporcional ao desafio que existe pela frente. A primeira questão é se realmente o Irã quer mudar. Por que o país decidiu mudar radicalmente? Que tipos de incentivos existem para essa mudança? Se livrar das sanções? O país convive com elas a décadas. Rouhani é um moderado? Nunca foi, e mesmo que tenha virado, o poder não esta em suas mãos. Um acordo com o Irã não virá facilmente, e mesmo que suas intenções sejam sinceras, algumas cicatrizes profundas precisam ser curadas. Amanha Netanyahu fala na ONU, veremos o qual será o teor do seu discurso.