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Patrimonialismo: o desafio político

Heni Ozi Cukier

O ano começou (acabou o carnaval), mas os problemas do nosso país são antigos. O Ministro da Fazenda, Joaquim Levy, assumiu o cargo clamando, em seu discurso de posse, que iria acabar com o patrimonialismo. O termo patrimonialismo é mais comum no vocabulário de sociólogos e cientistas políticos ao invés de economistas. Dentre os sociólogos, Max Weber usou a palavra “patrimonial” para descrever governos que servem ou favorecem os interesses de uma rede de amigos, familiares, apadrinhados e afiliados políticos que demonstram lealdade aos donos do poder. O inverso – o estado não patrimonialista –  defende os interesses da sociedade como um todo de forma impessoal; as instituições e cargos públicos existem para servir a nação e não podem ser usados para ganhos privados.

O patrimonialismo não é um problema exclusivo do Brasil e muito menos um desafio contemporâneo. O termo clássico foi inclusive substituído pela sua versão moderna. Nem mesmo os ditadores mais corruptos acreditam – como reis e sultões acreditavam – que são literalmente donos do estado, e podem fazer tudo o que desejam. Por isso, o patrimonialismo evoluiu para neopatrimonialismo, um estado com uma aparência estrutural externa convencional – com instituições, sistema legal, eleições e outros – mas internamente governado por interesses privados. Alguns teóricos classificam essa nova forma de patrimonialismo de “ordem de acesso limitado”, modelo no qual uma elite política usa o seu poder para impedir a competição na economia e no sistema político. Outros chamam esse fenômeno de ordem “extrativista”. Em um momento da história humana, todos os governos podiam ser classificados de patrimonialistas, de acesso limitado ou extrativistas.

Estado Moderno

A pergunta óbvia é como essas estruturas patrimonialistas evoluíram para o estado moderno. Nenhuma sociedade é capaz de evoluir sem uma ordem política. Essa ordem é um produto da consolidação de três categorias básicas de instituições: o estado, estado de direito, e mecanismos de fiscalização. O estado é a organização centralizadora que estabelece a ordem e segurança física através monopólio do uso legitimo da força, em um determinado território. O estado de direito estabelece uma sociedade governada por um código de leis e regras estabelecidas. Essas leis são vinculantes até para os mais poderosos, sejam eles presidentes, reis, ou primeiro ministros. Se as leis forem alteradas para satisfazer os interesses dos “donos do poder” não temos um estado de direito. A peça central da funcionalidade do estado de direito é existência de um poder judiciário autônomo ao poder executivo. O terceiro pilar é a accountability, a responsabilidade do governo em proteger os interesses da sociedade – Aristóteles chamava isso de “bem comum” – ao invés dos interesses pessoais de poucos. Nas democracias modernas, accountability existe no processo democrático eleitoral. Eleições periódicas são conduzidas de forma livre e justa para escolher representantes em um sistema multipartidário.

O desafio de qualquer sociedade é criar um estado forte com capacidade de entregar bens públicos, como segurança, e aplicar as leis. Mas ao mesmo tempo, um estado com poder limitado que só será usado de forma controlada e consensual. Portanto, por um lado o estado deve ser forte e capaz, mas limitado para agir dentro de parâmetros estabelecidos pela lei.

A China tem um estado forte e bem desenvolvido, mas sem estado de direito e accountability. Estados falidos, como Somália ou Haiti, não possuem nenhuma das três estruturas políticas. Em contraste, uma democracia liberal desenvolvida, como Dinamarca ou Suíça, possuiu as três. Para citar uma das principais características do neopatrimonialismo africano, por exemplo, é preciso entender a “lei do personalismo”. A política sempre foi centrada ao redor da figura do Presidente ou Big Man (conceito político que explica a concentração de poder nas mão de um único indivíduo). Praticamente todos os sistemas políticos da Africa, no período pós-colonial, eram presidencialistas ao invés de parlamentaristas. Os líderes africanos se apresentavam como uma mistura de pai e chefe da máfia. Por exemplo, Julius Nyerere, da Tanzânia, exigia ser chamado de “Professor”, e Mobutu, do Zaire, usava um chapéu de leopardo, óculos escuros e carregava um bastão cerimonial. Até pouco tempo atrás, poucos presidentes africanos entregaram o poder pacificamente para seu sucessor, como George Washington fez após servir por dois mandatos.

Fatores Modernizantes  

Ao longo da história alguns fatores contribuíram para a modernização dos estados. Um deles foi a competição militar; a presença de inimigos e ameaças demandou a criação de um estado eficiente. Por exemplo, a posição geopolítica desfavorável exigiu tanto da China antiga como da Prussia (precursora da Alemanha unificada) que compensassem essa deficiência militar através da criação de uma administração pública eficiente. Outro fator foi a mobilização e inserção social gerada pela industrialização. O crescimento econômico emancipou novos grupos que passaram a participar do sistema político. Essa foi parte da explicação da modernização do estado americano. Na época o clientelismo imperava. Foi necessário uma coalização de novos atores sociais – composta por empresários prejudicados pela má administração pública; fazendeiros do oeste se opondo aos interesses corruptos dos ferroviários; e uma nova classe média profissional e urbana – para transformar a governança do país.

O problema do Brasil e da grande maioria dos países em desenvolvimento é virar uma “Dinamarca”. Em outras palavras, ser capaz de se desenvolver politicamente. O entendimento comum da política enxerga apenas ideologias, partidos políticos ou políticas publicas. Presidentes vem e vão, leis podem ser alteradas, legisladores mudam, mas as regras fundamentais que organizam o estado e definem a ordem política devem ser sólidas.

Política, Ideologia e Pragmatismo

Heni Ozi Cukier

Em época de eleição as análises políticas são muito requisitadas, mas não necessariamente ajudam o eleitor ou a população a escolher. Os eleitores se comportam em grande parte de forma irracional. Esse é um fenômeno estudado por psicólogos cognitivos, sociólogos, cientistas políticos e outros. Emoção e ideologia são fatores poderosos no julgamento político. Por exemplo, medidas protecionistas são ruins para a maior parte da população e apenas um pequeno grupo se beneficia. Por séculos, economistas apontam os impactos negativos dessas medidas, mas quase todas as democracias persistem em restringir importações. Por que alguém defenderia medidas que são comprovadamente ruins para seu bem estar? Certas políticas nos fazem nos sentir bem superficialmente porque aparentam ser mais justas. O problema é que essa aparência é apenas uma falha de percepção da realidade tingida por emoções ou ideologia.

Vou tentar esclarecer a diferença entre política, ideologia e pragmatismo e assim quem sabe contribuir para escolhas mais racionais. Ficaria impossível debater esses temas em diversas áreas, por isso vou focar na Petrobras e o capitalismo de estado e suas ideologias correspondentes.

Política

A política é sobre divergência de opiniões e vontades. Na esfera governamental, é a arte e ciência de dirigir e administrar a unidade política ou o estado. Em última instância é a busca e consolidação do poder. Qual é a relação da Petrobras com a política? O fato da empresa ser pública facilita o seu uso político. O conhecido capitalismo de estado, que eu já tratei em outro post, busca controlar setores da economia ou empresas para administra-las de forma política e não como uma empresa, que por essência tem objetivos econômicos. As empresas estatais chinesas não existem para dar lucro, e sim para satisfazer as necessidades políticas do Partido Comunista. No caso, a necessidade maior de garantir sua perpetuação no poder.

Na Petrobras, o uso político acontece de muitas maneiras. Os mais evidentes são o loteamento de cargos, desvios de verbas, corrupção generalizada, subsídios de combustíveis, etc. Algumas das estatais chinesas não estão preocupadas em dar prejuízo desde que empreguem o maior número de pessoas. Manutenção do emprego em um país com um regime totalitário – especialmente tendo sua legitimidade ancorada no crescimento econômico, uma vez que a legitimidade vinda da ideologia comunista se desfez – é uma peça chave para manutenção da ordem política. Alguns podem me perguntar, o que tem de errado em manter o emprego da população? Nada de errado! Mas o verdadeiro emprego só acontece em bases sustentáveis e sólidas. Decidir manter uma empresa que não dá resultados é insustentável. Dá onde virá o dinheiro para manter essa empresa e, mais importante, pagar os salários? Se a empresa não se sustenta, e ela mantém sua produção apenas para empregar pessoas, uma hora vai quebrar e todos perderão seus empregos.

A Petrobras já ocupou a 12ª posição no ranking das maiores empresas do mundo em 2009, valendo US$211 bilhões. Hoje, depois de cinco anos de uso político, é a 120ª maior, com uma valor de mercado de US$76 bilhões. Desde 2012 os aumentos do valor do barril no mercado internacional não são repassados aos consumidores brasileiros, com intuito do governo de frear o aumento da inflação. Similar as empresas estatais chinesas que seguem pagando salários através de empresas que não se sustentam, o governo brasileiro segue tendo prejuízo na área de Abastecimento devido ao congelamento de preços da gasolina.

Ideologia

Uma ideologia que defenda a proposta de igualdade social (exemplificada na manutenção do emprego pleno) vai achar que o uso político das empresas estatais, pelo governo, para garantir o emprego da população está alinhada com seus valores. Cuidado! É aí que começa a confusão entre ideologia e política.

Politicamente os mandatários do poder, e praticantes do capitalismo de estado, não estão focados nos fins ideológicos, mas apenas nos fins políticos – nesse caso aumentar o seu poder. Aqueles realmente comprometidos com o fim ideológico (emprego pleno) não estariam sacrificando e depredrando um dos maiores ativos públicos do país para manter um falso senso de segurança e estabilidade. Se a empresa não tem como manter esses salários por um longo período, ou no caso da Petrobras – manter o preço da gasolina controlado – em algum momento a corda vai roer e os impactos serão muito mais nocivos.

Desviar dinheiro da empresa para comprar aliados e financiar campanha também é uma das formas de uso político e ainda pior pois não é possível fazer nenhuma ligação ideológica a essa prática. É possível enxergar na manutenção de empregos ou controle do preço da gasolina um fim supostamente nobre, apesar de perverso e insustentável. Por outro lado, não existe justificativa moral e ideológica que possa aceitar o roubo ou a corrupção como ferramenta para alcançar qualquer fim nobre. Crime é crime.

O capitalismo de estado não é uma ideologia, não é um outro nome para comunismo, e não é exclusivo de ideologias de esquerda. Mercado e orientação política não são o mesmo nos dias de hoje. Alguns países fechados politicamente promovem abertura econômica. Singapura, um país governado há mais de 50 anos pelo mesmo partido e promove empreendedorismo e a competição econômica. Singapura está sempre entre os melhores colocados na publicação Doing Business, do Banco Mundial, que mede a facilidade de abrir um negocio. Portanto, economicamente aberto, mas politicamente fechado. As empresas nacionais de petróleo são usadas como ferramentas políticas por monarquias ou regimes totalitários com discursos de esquerda e direita.

Os idealistas vão me perguntar: não existe nenhum político que esteja comprometido com as minhas ideologias? Eu diria que sim, existe, mas muito dessa resposta depende do contexto em que vivemos e de como a sociedade construiu seus valores. Para responder melhor essa parte eu volto para o terceiro tema desse post, o pragmatismo.

Pragmatismo 

O pragmatismo nasceu do pensamento filosófico americano, baseado nos pensadores William James e Charles Sanders Pierce, defendendo que a ênfase do pensamento deve estar na aplicação das ideias e nas conseqüências práticas de conceitos e conhecimentos. Portanto, antes de mais nada, para começarmos falar de pragmatismo devemos entender como a realidade se apresenta.

Dentro do nosso contexto cultural vale citar dois autores brasileiros importantíssimos. Sérgio Buarque de Holanda e Roberto DaMatta. Ambos discutem o caráter antiliberal da sociedade brasileira. Holanda aponta que no Brasil temos uma ética personalista, intimista, afetiva e sentimentalista. DaMatta distingue entre a “rua”, ambiente público  - na maioria das vezes inóspito, autoritário e desolador – e a “casa”, o ambiente privado do pessoal, do afeto e da família. Os estudos antropológicos e culturais desses dois pensadores são complementados por estudos quantitativos de Alberto Carlos Almeida em seu fascinante livro, A Cabeça do Brasileiro (recomendo à todos).

As pesquisas de Almeida comprovam a realidade que todos os brasileiros conhecem, independente de classe ou orientação ideológica. Apenas aqueles movidos por objetivos políticos ousariam negar tal realidade. Quando vemos alguém jogando um papel pela janela do seu carro temos uma demonstração da percepção que a rua (pública) não tem dono, enquanto “meu” carro (privado) não deve receber o meu lixo. Como a rua é de todos, por ser pública, não é de ninguém e consequentemente não há problema em suja-lá. Em outras palavras, o indivíduo se apropria do público para os seus interesses privados. Ou na linguagem de DaMatta, a casa engloba a rua com a utilização privada do que é público.

Por que o lixo não fica dentro do carro do fulano? Porque naquele momento ele se apropria do público para resolver seu problema privado. Não me digam que esse indivíduo é apenas um mal-educado. Se fosse o caso, ele jogaria o papel dentro do seu próprio carro. Ele foi seletivo na “má-educação”, não sujando aquilo que ele enxerga como pessoal, inimista e personalista e desconsiderando aquilo que é visto como desolador, impessoal e inóspito.

Almeida mostra como o patrimonialismo é difundido entre a população brasileira. Uma das perguntas feitas em sua pesquisa revela que 74% da população considera que “cada um deve cuidar somente do que é seu, e o governo cuida do que é público”. Percebam a gravidade da situação quando transferimos essa mentalidade para a gestão do bem público. Entender e aceitar a realidade cultural que vivemos nos permite sermos pragmáticos e perceber que certos ideais não funcionam em todos os contextos. Não podemos ser a Noruega por decreto, e enquanto não tivermos alcançado seu estágio de consciência pública ou coletiva temos que lidar com a realidade como ela se apresenta.

Alguns vão me perguntar se essas características culturais devem nos impedir de tentarmos melhorar. A resposta é não, não devem nos impedir de nada. Mas o pragmatismo também sabe quanto tempo leva para mudar uma cultura e sabe que insistir no erro de aumentar o tamanho do espaço público dentro desse contexto patrimonialista é receita certa para destruição. Temos que buscar mudanças condizentes com o nosso contexto. Não adianta permitirmos que os tentáculos do estado aumentem seu controle sobre o bem público. Em uma sociedade que não entende e respeita o público, o lógico é diminuirmos espaços para abusos.

Conclusão 

Dentro da nossa realidade cultural deveríamos defender políticas que minimizem a chance de termos nossos maiores ativos públicos sendo geridos por interesses políticos de curto prazo ao invés de objetivos nobres. Ser pragmático nos permite questionar as verdadeiras intenções por trás de pseudo-ideologias. A quantidade que a Petrobras perdeu, seja em valor de mercado ou pelos ralos da corrupção, daria para ajudar de verdade muitos brasileiros a conseguir meios sólidos de ter uma vida melhor.

Estado-Nação: o impacto do referendo da Escócia

Heni Ozi Cukier

A resultado do referendo Escocês não enterrou uma das questões mais básicas sobre a organização política doméstica e internacional: o estado-nação. Apesar da maioria dos escoceses não ter escolhido se separar do Reino Unido, e portanto não buscar sua autonomia nacional, as vontades de auto determinação seguem mais vivas do que nunca no continente europeu. Vamos entender porque esse assunto é importante.

Nacionalismo

O Iluminismo Francês e sua Revolução colocaram a nação no epicentro moral do mundo. Antes do conceito de nação ganhar esse destaque, o mundo era comandado por dinastias, impérios e outras formas autoritárias de organização social e política. Um povo compartilhando o mesmo idioma, cultura e história teria o direito de determinar seu próprio futuro. É nessa condição que germinam as democracias republicanas, a forma de governo moralmente correta. Em outras palavras, a ideia do estado-nação fundamenta a moral da política doméstica e internacional.

Temos dois problemas relacionados ao estado-nação. O primeiro é que a estrutura política na qual um determinado povo compartilha do mesmo idioma, cultura ou história não garante seu caráter democrático. O segundo é mais pertinente para a discussão desse post; aonde devemos demarcar o nível de identidade desse grupo? Todos nós temos múltiplas identidades — pertencemos a uma família, bairro, cidade, país, região, continente, religião, etc — que se interrelacionam em diversos níveis. A pergunta é: em qual desses níveis se dará a sustentação para a criação da estrutura política que vai gerir nosso futuro? Vejamos, eu pertenço a uma família mas também vivo em um esfera coletiva maior, seja do meu bairro ou da minha cidade. Qual das duas identidades ou similaridades devo basear meu anseio por construir uma ordem política? Devo fundar um estado apenas com aqueles que compartilham do meu sobrenome ou com todos os meus vizinhos? Qual das duas identidades produzirá um estado mais forte, duradouro, legítimo ou factível?

É obvio que a minha família deve ter mais fatores em comum com meu passado do que os meus vizinhos. Perguntar se eu tenho mais em comum com alguém morando na China, comparado com a minha família, é fácil responder. Obviamente, eu e uma chinesa somos seres humanos, e isso já é uma identidade em comum, mas não o suficiente para criarmos uma estrutura política única. Afinal temos infinitas outras distinções de identidade que fazem o aspecto “humano” ser fraco demais para uma aproximação que permita compartilhar o comando do nosso destino. Alguns vão me perguntar, Heni você não pode se aproximar de uma chinesa para construírem um futuro juntos? Posso, mas percebam a disparidade e dificuldade de manter tal relação. Alias, todo casamento é no fundo um choque de identidades tentando compartilhar a gestão de um futuro comum. Imaginem os desafios de fazer isso em uma escala coletiva. Quanto menos elementos em comum tivermos, mais difícil será de manter a união.

A pergunta essencial continua sendo com quem eu devo me unir para determinar meu futuro e consequentemente qual aspecto da minha identidade deve fundamentar essa união. O referendo da Escócia tratou exatamente dessa questão.

Qual é relevância do movimento separatista Escocês para a Europa e o mundo? 

A vontade da Escócia de separar do Reino Unido aponta exatamente para esse problema de escala das identidades. Se depois de mais de 300 anos juntos, a identidade comum de ingleses e escoceses correu o risco de seguir caminhos separados, o que dizer de outras uniões muito mais frágeis e muito mais jovens.

O referendo aponta para um fenômeno perigoso para a ordem mundial: a ascensão de micro identidades ou a deterioração das identidades coletivas maiores. Olhando para o projeto Europeu, temos uma proposta política que visa construir uma ordem supranacional (superior aos estados). Nesse modelo, o nível de identidade privilegiado seria o europeu (ou seja, continental). Deveríamos priorizar as identidades de grande alcance ao invés das identidades menores.

Curiosamente a era da globalização, informação, cosmopolitização, transnacionalidade, internacionalismos e outros está sendo ofuscada por um movimento inverso. O micro nacionalismo exalta as identidades de escopo menor em detrimento de estruturas coletivas maiores.

A própria Escócia sentiu na pele a pressão dessas micro forças sub-estatais clamando por autonomia. As Ilhas de Shetland e Orkney, localizadas ao norte do país, com apenas 44.000 pessoas, disseram que declarariam independência caso a Escócia abandonasse o Reino Unido. Ou seja, uma vez aberta a possibilidade de questionar o nível de identidade que forma o estado, o movimento pode desfazer qualquer identidade coletiva maior.

Essa espiral desintegradora destruiria o estado como conhecemos. O que garantiria o limite da expansão das micro identidades? Cada indivíduo é único, e o ápice desse movimento de auto determinação é uma realidade anárquica.

 Por que não podemos deixar todos os grupos fundarem seu próprio estado?

Por duas razões obvias e poderosas. Primeiro, a maioria das guerras na história da humanidade tem sido por controle de território, vontade de autonomia ou independência, controle e poder sobre outros povos. Toda discussão relacionada a criação de um estado passa por algum desses pontos. Portanto, quanto mais estados forem criados maiores as chances de conflitos e guerras. Quem ficaria com os recursos próximos as Ilhas Shetland? Os escoceses abdicariam disso facilmente? E os ingleses agora teriam que discutir com Shetland e Escócia? Imaginem a quantidade de problemas para serem discutidos. Isso é um divórcio!

O segundo motivo está ligado a criação de um estado. Um dos graves problemas do mundo é a incapacidade dos estados funcionarem. Grande parte da discussão sobre estados gira em torno do seu tamanho, mas pouco se fala da sua capacidade de funcionamento. Claro que tamanho impacta a efetividade do estado. Vários propõem fazer muito, mas fazem mal feito. O estado é uma entidade em desenvolvimento e crescimento. Demora tempo para ir se aperfeiçoando e muitas vezes dá mais passos para trás do que para frente. Criarmos mais estados não vai ajudar a resolver os problemas do mundo, muito ao contrario.

Conclusão

O referendo escocês vai incentivar muitos outros movimentos similares no continente. Alguns desses movimentos são mais violentos e outros menos organizados. O fato é que a onda desintegradora do estado-nação deve seguir seu rumo. Vejamos alguns dos principais movimentos separatistas da Europa:

1. Veneto, Norte da Itália; Sardenha e Tirol do Sul, Itália

2. Catalunha e País Basco, Espanha

3. Ilhas Feroe, Dinamarca

4. Córsega, França

5. Flanders, Bélgica

6. Bavaria, Alemanha

7. Frísia, Holanda e Alemanha

8. Ilhas Aland, Finlândia

9. Silésia, Polônia

10. Wales e Norte da Irlanda, Reino Unido

 

Ebola e Terrorismo

Heni Ozi Cukier

O mundo está vivendo uma crise com o novo surto de ebola no oeste da África. Desde que o vírus foi descoberto, no Zaire em 1976, essa é a maior epidemia. O número de pessoas contaminadas chega a 4.000 e passam de 2.000 os mortos. Temos 4 países afetados: Guiné, Libéria, Nigeria e Serra Leoa (Senegal relatou a ocorrência de um caso). A Organização Mundial da Saúde estima que possa chegar a 20.000 o número de infectados.

Doenças são um desafio para o desenvolvimento de todos os países e um grave problema social. Apesar do ebola estar assustando o mundo, existem muitas outras doenças endêmicas que tem impactos de longo prazo mais severos. Tuberculose é um desses exemplos. Para efeito de comparação, em 2012, 8.6 milhões de pessoas foram infectadas e 1.3 milhões morreram de tuberculose. A bactéria matou mais de 3.500 pessoas por dia em 2012. O impacto econômico da doença está estimado em 12 bilhões de dólares por ano.

RISCOS POLÍTICOS 

Algumas das medidas de combate ao ebola, como imposição de quarentenas para certos bairros, tem gerado confrontos com a polícia. Na Libéria, os confrontos entre a população — tentando escapar da área de quarentena — e a polícia tem causando ainda mais tensão. Aqueles que furaram o cerco podem contaminar mais pessoas em outras áreas. A polícia tem usado munição de verdade e já feriu manifestantes. A desconfiança da população com o governo é profunda, e está relacionada ao passado político dos 14 anos de guerra civil no país.

O desafio vai ficar ainda maior conforme a epidemia avança sobre zonas urbanas, principalmente as favelas. Até agora o vírus estava confinado nas áreas rurais, mas a doença começa a ganhar espaço em grandes cidades como a capital de Guiné, Conakry. Combater o Ebola em lugares pobres e violentos como essas favelas será um duplo desafio com potencial de agravar as fragilidades políticas desses países.

Algumas empresas como Goodyear, Rio Tinto, Titanium Resources Group com operações respectivamente na Libéria, Guiné e Serra Leoa vão sofrer as conseqüências. As cias aéreas também já estão computando suas perdas. Air France, British Airways, Kenya Airways e Emirates pararam de voar para os países afetados.

HARD POWER HUMANITÁRIO  

Durante o Tsunami de 2004, as forças militares dos EUA e de Singapura, por exemplo, lançaram uma das maiores missões de resgate da história. Somente os EUA colocaram 12.600 militares, incluindo quase a totalidade da sua Frota do Pacífico, com 48 helicópteros e todos os navios hospitais da região.

A crise com a epidemia do ebola demanda uma operação logística de natureza militar. De acordo com um cálculo, para cada paciente sendo cuidado na Libéria seriam necessários 200 a 250 profissionais de saúde e uma logística condizente. Além disso, as forças de segurança desses países estão sobrecarregadas enfrentando uma população insatisfeita e revoltada. A presença de uma força militar internacional poderia ajudar a lidar com grande parte dos desafios logísticos e de segurança. Claro que tal ajuda não seria isenta de riscos colaterais como reforçar os boatos e teorias da conspiração que envolvem a epidemia. A teoria da conspiração clássica de toda epidemia moderna é que a CIA criou a doença e está contaminando o mundo.

TERRORISMO

A gravidade de epidemias como o ebola nos alerta para um perigo ainda maior. Se as doenças já são um grande desafio por si só, imaginem transformá-las em armas. Um laptop recém capturado na província de Idlib, próxima a fronteira com a Turquia, na Síria, relevou um documento assustador. O dono do computador — um Tunisiano chamado Muhammed S. afiliado ao Estado Islâmico (E.I.) — estaria estudando e aprendendo como construir armas biológicas. O documento de 19 páginas que descreve como construir uma arma através de uma praga extraída de animais infectados é apenas mais um dos pesadelos de um ataque terrorista com armas de destruição de massa.

No fim dos anos 80, o culto Japonês Aum Shinrikyo tentou sem sucesso produzir uma serie de armas biológicas. Somente quando optou pelas armas químicas (agente sarin) alcançou seu objetivo.

Se o objetivo do terrorismo é causar pânico, nada melhor do que usar armas que são percebidas como altamente perigosas. O leigo percebe o risco de forma diferente do analista de risco. Estudos de percepção de risco mostram que indivíduos comuns enxergam e classificam riscos de acordo com sua percepção e sem base estatística. Em outras palavras, o leigo enxerga um risco maior em determinadas situações. Essa percepção potencializa o impacto do uso de armas não convencionais porque agentes químicos, biológicos e radiológicos estão entre os materiais vistos como mais perigosos pela população.

CONSEQÜÊNCIAS

Felizmente, os terroristas ainda são amadores o suficiente para acreditar que armas biológicas são fáceis de serem adquiridas, implantadas efetivamente e produzirem mortes em massa. O exemplo do culto Japonês retrata bem as dificuldades envolvidas com esse tipo de arma. Um dos grandes obstáculos no uso de armas biológicas é a dificuldade de distribuição ou definir o veículo de contaminação. O documento do E.I. fala sobre granadas de mão contendo o vírus. A estratégia seria jogar tais granadas em estádios de futebol, metros e centros de entretenimento próximas ao dutos de ar condicionado ou em operações suicidas. O problema (ou solução no caso do mundo civilizado) é que a bactéria usada nessa tal arma é muito frágil e morreria com a explosão da granada.

O mundo está em colapso?

Heni Ozi Cukier

Nas últimas semanas tenho falado de tantos assuntos que por vezes me perco no caos dos acontecimentos e notícias. O caos parece tomar conta do Iraque, Síria, Líbia, Egito, Gaza, Ucrânia, Mar do Sul da China, Venezuela, Coreia do Norte e Nigéria e continuam em crises temáticas como a ambiental (preservação e sustentação), epidemológica (Ebola), energética (segurança e capacidade), demográfica (previdência e aposentadoria), proliferação nuclear, democrática (legitimidade e representatividade), etc. Será que o mundo está piorando? O post está um pouco mais longo que o comum, mas vale a pena ler para entender o que está acontecendo no mundo.

Uma visão nostálgica nos dá a impressão que a vida era melhor antes; mais simples e com problemas menores. Existem muitas explicações para vermos a vida assim. Sabemos que as memórias ruins não tem a mesma durabilidade que as boas, afinal seria insuportável vivermos com as lembranças duras. Você olha para um relacionamento passado e lembra dos bons momentos esquecendo porque não deu certo, e prontamente conclui que se fosse hoje tudo seria diferente. Somos nostálgicos por essência!

Voltemos ao mundo… O volume de acontecimentos indica que tudo está acontecendo ao mesmo tempo e aparece demonstrar que tudo está pior. Sim, tudo está acontecendo ao mesmo tempo, mas sempre esteve! A diferença é que antes ninguém sabia o que acontecia em uma vila no Afeganistão ou em uma montanha no norte do Iraque. Será que a quantidade de informação e a exposição imediata da simultaneidade dos eventos nos faz deduzir que o mundo está piorando? A existência de mais guerras significa que o mundo está pior? Primeiro, precisamos ter certeza que temos mais guerras ou conflitos. Depois temos que medir a intensidade dos conflitos de hoje com o passado.

Mundo Binário e Absoluto?

O mundo não é binário ou absoluto. Não se mede a realidade apenas citando o preto em detrimento do branco. Existe muita coisa entre 0 e 1. Não existe estado permanente de guerra ou de paz perpétua. Paz e guerra são facetas da mesma moeda. É impossível compreender um sem conceber o outro. O que muda são os níveis de tolerância e aceitação de cada um dos lados. Talvez um dia a guerra seja abolida. Será? Mesmo se for possível, sempre haverá algum nível de conflito por mais pacífico que o mundo seja. O mundo utópico ou idealizado nega a realidade porque elimina uma parte da dualidade em que vivemos. O idealista busca eliminar aquele lado da realidade que ele não gosta ou concorda por crença ou julgamento.

O mundo não ser binário significa que nada pode ser medido em valores absolutos. Não existe frio, existem temperaturas mais baixas em comparação com um referencial ou contexto. Tudo é medido em níveis, do mais alto para o mais baixo. Isso releva um outro insight sobre mensurarão da realidade: como nada é absoluto, tudo carrega um pouco do seu inverso. Por exemplo, a industria bélica produz armas que matam, mas também desenvolve tecnologias que salvam milhares, como o GPS. Tudo isso pode parecer óbvio, mas em uma análise de comparação do mundo atual com o passado e um prognóstico do futuro é essencial entendermos essas nuanças.

Em resumo, nada é preto no branco. Nada é absoluto. Tudo é mensurado em níveis e tudo tem um lado positivo por maior que sejam os efeitos negativos. Vejam que isso não é relativizar a realidade, mas apenas aceitar a existência de parâmetros contextuais.

Presente: o fim do caos? 

Steven Pinker escreveu um livro — The Better Angels of Our Nature: Why Violence has Declined — defendendo que a humanidade tem experimentado 6 grandes declínios de violência e com isso estaríamos nos tornando menos violentos. No seu ver o mundo está melhorando apesar das imagens constantes de violência. O contra ponto é o fato do século 20 ter sido o mais sangrento da história da humanidade e estarmos apenas na primeira década do século 21. Portanto, em termos históricos, temos muito chão pela frente para confirmar a tendência pacífica e bastaria uma 3º Guerra Mundial para as estáticas de Pinker serem desvalidadas. O mais importante no argumento de Pinker é o que ele chama de forças pacificadoras. Sua teoria afirma que não é a natureza humana que mudou mas as circunstancias históricas que tem favorecido o nosso lado “angelical”. Uma das principais forças pacificadoras foi a criação do estado, com seu monopólio do uso legítimo da força.

Outros indicadores também mostram uma evolução enorme nos dois últimos séculos apontando uma melhoria na vida humana, seja através da expectativa de vida ou na qualidade de vida medida pelo aumento da renda mundial. Nesse video, Hans Rosling faz um belo resumo da evolução global nos últimos 200 anos.

Risco Político & Poder

Como essa reflexão sobre a realidade do mundo afeta a política, a distribuição de poder, a vida das pessoas, negócios, investimentos, mercados, sociedades e culturas? Como acabei de pontuar, tudo tem dois lados e consequentemente um impacto negativo e um positivo. Os avanços da democratização, tecnologia, acesso à informação, direitos individuais e outros produziram um mundo mais justo e mais equilibrado.

Por outro lado, esses avanços impactaram as estruturas de poder do mundo. Até o momento, a criação do estado-nação e a centralização da autoridade e do poder foram capazes de trazer ordem em um estado de natureza, descrito por Thomas Hobbes, como brutal e destrutivo. Moisés Naím explica em seu último livro, O Fim do Poder, que 3 grandes revoluções estão transformando o mundo e alterando as estruturas de poder convencionais. A revolução do “mais, mobilidade e mentalidade” dificultam o exercício do poder e autoridade. O impacto é um mundo mais anárquico. Essa realidade é visível na distribuição de poder no mundo corporativo, nos países, forças militares, e na política. Naím fala da ascensão de micropoderes que estão desafiando a antiga ordem. Uma das conseqüências da ascensão dos micropoderes é um mundo mais instável.

Naím não é o único a falar sobre instabilidade. Muitos outros pensadores tem escrito sobre o mesmo fenômeno. Ian Bremmer também escreveu recentemente sobre um mundo anárquico, no que ele chama de G-Zero. Não existe G7, G8, ou G20! O mundo não tem liderança e o ambiente é de cada um por si, salve-se quem puder. Outro guru das relações internacionais, Richard Haass, também escreveu sobre o que ele chama de “Age of Nonpolarity” (Era da Não polaridade). Sua visão expõe como o poder está difuso dando acesso e meios para desestabilizar as estruturas de um mundo hegemônico ou multipolar.

Como interpretar essas duas visões de mundo: “os otimistas e os pessimistas”? Ambos estão corretos, os fenômenos que os dois lados descrevem são reais. Lembrem-se, tudo tem dois lados. Minha tarefa é cruzar o maior número de dados para oferecer uma descrição precisa da realidade. Se o otimista Pinker estabelece que a base da diminuição dos conflitos está na criação do estado, qual seria o impacto das teorias dos pessimistas que mostram que o estado está perdendo poder e o mundo está se tornando mais anárquico? Ao mesmo tempo, Rosling consegue organizar uma imensidão de dados para mostrar a tendência positiva de melhora na qualidade de vida do mundo, mas ressalta que durante as grandes guerras esses ganhos foram perdidos.

Conclusão

O mundo não piorou (pelo menos ainda não). Mas pode piorar muito porque está em curso um processo de desestruturação e anarquização. Alguns acham que novas estruturas organizacionais vão surgir para substituir as velhas. Os momentos da história aonde nasceram novas estruturas foram sempre muito conturbados e sangrentos. Vejam as revoluções políticas do século 18 (Americana e Francesa) ou o fim da colonização alcançado apôs a 2º Guerra Mundial. Hoje temos uma crescente erosão e deslegitimação da autoridade em todos os níveis. Um mundo sem autoridade é um mundo mais instável, paralisado, perigoso e competitivo. O mundo não está pior, mas talvez esteja caminhando para uma piora em alguns aspectos. O perigo é a piora exatamente nos aspectos mais estruturais e portanto centrais.