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Azerbaijão: o centro de gravidade do mundo atual

Heni Ozi Cukier

 

 

 

Nos últimos dias eu estava em uma terra distante e desconhecida dos brasileiros: Azerbaijão. É fascinante o que vi lá. Confesso que ainda não consegui definir exatamente o que é o país, e quem são os Azeris. Eu voei 3 horas de Moscou para chegar na capital, Baku.

A primeira impressão é de se estar no Oriente Médio, em algum país Árabe, mas aos poucos se percebe que não seria bem isso. Algumas características são comuns aos Árabes, o povo azeri adora conversar e é extremamente simpático, hospitaleiro e alegre. Desde que cheguei tive alguns encontros com o professor e pesquisador Shamkhal Abilov da Universidade de Qafqaz. Conversamos bastante e pude esclarecer minhas dúvidas em longas e intermináveis “aulas”. O professor Shamfhal é um muçulmano xiita e “cosmopolita” que estudou e morou na Europa e viajou bastante. Tivemos ótimas conversas e debates, inclusive sobre a guerra entre Hamas e Israel e fiquei impressionado com sua capacidade de enxergar o lado israelense do problema.

A grande maioria dos azeris segue o modelo de Shamkhal, mas existem novas correntes querendo alterar a secularidade e cosmopolitismo da sociedade. Um exemplo me chamou atenção, estávamos caminhando pela antiga cidade, e ao passarmos ao lado de uma mesquita percebi algo diferente do que tinha visto e ouvido até agora. Senti uma sensação estranha e um clima pesado naquela aglomeração do lado de fora. Logo que saímos da praça, ouvi de Shamkhal: esses são Salafistas. Naquele momento eu entendi a sensação que tive. O Salafismo é uma corrente do Islamismo Sunita radical e ligada ao terrorismo religioso. Não estou afirmando que alguém ali era extremista, mas senti algo diferente no ar e não era harmônico. Nos últimos anos, Turquia, Irã e Arábia Saudita tem buscado influenciar e promover as raízes religiosas do Azerbaijão. Felizmente, o governo azeri têm se mantido firme e adotado políticas para proibir a promoção religiosa.

Etnia, Cultura, Religião e Política

Os azeris são um povo rico pela sua rara mistura. Etnicamente, são Turcos, originário da Ásia Central (Uzbequistão, Quirguistão, etc). O idioma é muito próximo do Turco e ambos se entendem. Por outro lado, eles estão localizados em uma região de origem dos povos da Albânia Caucásica (nada a ver com o país Albânia) com descendentes vivos, como o povo Udi, vivendo no Azerbaijão de hoje. Culturalmente e tradicionalmente os azerbaijanis são mais persas. A região foi dominada por diversos impérios persas. A religião da maioria é o islamismo xiita, mesma do vizinho Irã. Politicamente o Azerbaijão herdou estruturas dos soviéticos por ter sido uma das suas repúblicas. Até hoje se aprende o russo na escola. O idioma é falado por muitos e é requisito para certas posições de trabalho. Além disso, lá também existem oligarcas nos moldes da Rússia. A Sovietização ajudou a reforçar o caráter secular do Azerbaijão. A diversidade religiosa vibrante e pacífica permite a existência de uma comunidade judaica que não sofre com antissemitismo. Baku tem 3 sinagogas. Algo raro hoje em dia, ainda mais em um país de maioria islâmica. É mais fácil entender essa mistura quando olhamos para o mapa e percebemos como a região do Cáucaso é o ponto de convergência de 3 grandes impérios: Soviético (Rússia), Persa (Irã) e Otomano (Turquia).

Azerbaijão e Cáucaso

MAR CÁSPIO

O Cáspio é o maior corpo de água fechado do mundo, muitas vezes visto como o maior lago do mundo. Cinco países fazem fronteira com o mar: Rússia, Azerbaijão, Irã, Turcomenistão e Cazaquistão. Sua importância estratégica está nas suas reservas de petróleo e gás. Estima-se que as reservas onshore e offshore de petróleo cheguem a 48 milhões de barris — 3,2% das reservadas mundais — e 8.7 trilhões de metros cúbicos de gás — 4,3% das reservadas mundiais. Grande parte dos depósitos offshore não foram explorados devido as disputas territoriais sobre aonde as fronteiras entre os cinco países devem ser demarcadas.

As negociações territoriais se estendem por mais de duas décadas e não dão sinal que vão ser resolvidas em breve. Rússia e Irã não fazem questão de resolvê-las, uma vez que ganhariam importantes competidores em mercados que são fundamentais para suas economias. O Irã tem muito petróleo espalhado pelo resto do país e não precisa de mais uma fonte produtiva. Além disso, a distribuição étnica de Azeris (abaixo eu explico melhor) no norte do país, justamente na fronteira com o Cáspio, bloqueia qualquer possibilidade de desenvolvimento da região. Tudo que o Irã não quer é enriquecer a região aonde vivem a maior minoria étnica. A Rússia também quer evitar que Turcomenistão e Cazaquistão encontrem alternativas para escoar sua produção energética e assim continuem dependentes da sua infra-estrutura e política.

GEOPOLÍTICA & SEGURANÇA ENERGETICA EUROPEIA 

O importantíssimo oleoduto Baku-Tbilisi-Ceyhan (BTC), inaugurado em 2006, transporta 1 milhão de barris por dia do Azerbaijão para a Turquia. O oleoduto sai da capital do Azerbaijão, segue pela Geórgia até desembocar no porto de Ceyhan, na Turquia. Se o Mar Cáspio é um potencial fornecedor de petróleo para a Europa e Ocidente, e somente um dos 5 países fronteiriços é autônomo e está localizado aonde existe saída para escoar esse petróleo, naturalmente esse país se torna de suma importância estratégica para qualquer política que vise diminuir a dependência energética europeia da Rússia ou mesmo conter as das ambições geopolíticas de Moscou. A região do Cáucaso é um corredor natural que liga o Mar Cáspio ao Mar Negro (ver mapa). Essa região é composta por 3 países e o Azerbaijão é o mais autônomo deles. Parte da sua independência vem da posição geográfica privilegiada junto ao Cáspio permitindo explorar os seus recursos naturais. O Azerbaijão é o único país que consegue extrair o petróleo e gás do Cáspio e enviá-lo, sem passar pela Rússia ou Irã, para a Europa e Ocidente. Em outras palavras, o país é o atalho seguro para os europeus por uma fonte abundante de energia.

O agravamento da situação na Ucrânia aumenta ainda mais a importância dos outros tabuleiros geopolíticos das ex-repúblicas soviéticas. Não é por acaso que a Rússia vem pressionando o Azerbaijão para escolher entre eles ou o ocidente. Mesmo depois da queda do avião da Malásia, e a morte de civis europeus dentro do seu continente, ainda vemos uma União Europeia dividida e reticente. Sabemos que a Europa não tem coragem de enfrentar ou endurecer sua política devido a dependência energética dos russos. É nesse contexto que o Cáucaso, Cáspio e Azerbaijão ganham extrema relevância. O Azerbaijão é o centro de gravidade não só do Cáucaso, mas de toda a independência energética europeia e parcialmente de todo o jogo geopolítico da Eurásia nesse momento.

ORIENTE MÉDIO 

O Azerbaijão não é só importante pela sua abundância energética e geopolítica eurasiana. Por fazer fronteira com o Irã e ter sido parte do império Persa, o país está inserido no contexto do Oriente Médio.

O povo Azeri acabou sendo dividido em dois territórios após as Guerras Russo-Persas e a maior parte deles se encontram dentro do território iraniano. No Irã, os azeris ocupam a região ao norte chamada de Azerbaijão Iraniano e somam um quarto da população. Tanto a sua posição fronteiriça quanto os laços históricos, culturais e étnicos fazem do Azerbaijão um portal de entrada e uma plataforma de influência no Irã. O acirramento dos confrontos entre Sunitas e Xiitas na região também eleva a importância do Azerbaijão perante as disputas regionais. Não é por acaso que os sunitas, sejam turcos ou sauditas, vem investimento para promover seu credo religioso no país. Cada vez mais o país será palco da disputa geopolítica regional.

Para o Ocidente, o Azerbaijão também oferece oportunidades estratégicas e políticas. Após a independência da União Soviética, líderes Azerbaijanis defenderam a unificação do povo azeri em um único país. O Irã naturalmente viu esse tipo de declaração como uma ameaça a sua segurança nacional e a partir daí passou a desconfiar das intenções do seu vizinho do Cáucaso. O Azerbaijão é um potencial desestabilizador do estado iraniano. A sua essência secular confronta os ideais da revolução Islâmica e do regime religioso em Teerã. Se existe algum país que tem capacidade de influenciar a teia social e servir de base para desestabilizar o Irã, esse país é o Azerbaijão.

Outro país que tem prestado atenção em Baku é Israel. As relações dos judeus com os azeris remontam desde os tempos antigos. Essas foram reforçadas com a revolução do petróleo e ganharam um novo sentido com as ambições regionais do Irã e seu programa nuclear. Uma convergência natural surgiu entre Israel e o Azerbaijão pois ambos viram no outro um possível aliado para lidar a ameaça iraniana. A aliança vai desde venda de armas até cooperação dos serviços de inteligência. Já se foi aventada a possibilidade de um ataque israelense contra as instalações nucleares iranianas partir do Azerbaijão ou usar suas pistas de pouso. Independente do escopo da aliança, os dois pequenos países viram uma conveniência estratégica e similaridades estruturais que garantem a durabilidade dessa parceria.

CONCLUSÃO

O Azerbaijão é um país fascinante pela sua diversidade, cosmopolitanismo, localização, secularidade, história, misticismo e multi-religiosidade. Combinar todos esses atributos não é tarefa fácil, mas fazê-lo em uma região tão instável como o Oriente Médio, Eurásia e Cáucaso é um feito ainda mais impressionante. O país deve principalmente ser compreendido pela sua relevante posição geopolítica que ganha ainda mais importância nesse momento de convulsão tanto no Oriente Médio como na Rússia. O Azerbaijão é o único país capaz de afetar simultaneamente as duas maiores crises de política internacional atuais.

Para que servem os BRICS?

Heni Ozi Cukier

Hoje estou escrevendo da Rússia, em Moscou. A minha amiga e colega, Malu, brincou comigo dizendo: “o Putin chega e você vai pra Rússia”. Com certeza eu não combinei com ele, até porque preferiria encontrá-lo aqui no Kremlin do que em Fortaleza, aonde está acontecendo a Cúpula dos BRICS. Vejo muitas similaridades entre a Rússia e Brasil do ponto de vista social. O país é lindo e as pessoas são simpáticas, mas não vou me estender na parte cultural ou social pois quero falar dos BRICS.

O acrônimo BRIC foi criado em 2001 pelo economista Jim O’Neil, do banco de investimento Goldman Sachs, para agrupar as maiores economias emergentes na época (Brasil, Rússia, Índia, China e posteriormente África do Sul). O termo puramente teórico saiu do papel para virar um frágil e informal grupo político até alcançar um status –na Cúpula de Fortaleza — de bloco semi-institucionalizado. A criação do banco dos BRICS é uma evolução substancial para um grupo tão distinto, mas mesmo assim não dá para ser muito otimista em relação à sua relevância imediata.

O bloco serve muito mais os interesses particulares de cada país do que uma verdadeira coalizão de emergentes aonde os interesses coletivos são evidentes e comuns. A maioria das áreas de convergência recai sobre a vontade de contrapor a Europa e os EUA. Talvez um dos poucos beneficiários dessa convergência seja a África. Todos os países tem laços comerciais fortes com o continente e até mesmo a Rússia (o menos presente) tem aumentado seus investimentos em energia na região.

O fato de os 5 países do grupo serem líderes em suas regiões e terem projeção global, aumenta as pressões domésticas, e as ambições e competição internacional. A realidade política e geopolítica da América Latina (Brasil) é bem diferente da Ásia (China) ou Eurásia (Rússia). O Sul da Ásia (Índia) tem necessidades e rivalidades nucleares bem distintas da imensidão do continente Africano (África do Sul). Algumas dessas regiões conversam politicamente enquanto outras apenas economicamente. Apesar do maior parceiro comercial do Brasil ser a China, somos muito mais isolados politicamente se compararmos às relações entre os outros. China, Índia e Rússia já foram aliados e inimigos em diferentes momentos. Brasil nunca esteve muito próximo deles, inclusive por questões geográficas de distância.

Para que servem os BRICS?

Quais são os interesses de cada país? Como cada um usa o bloco? Vou fazer um breve resumo dos principais interesses de cada país baseados no xadrez atual do mundo.

RÚSSIA

Vladimir Putin, presidente da Rússia, propôs uma integração entre A União Eurasiática (Rússia, Csaquistão e Bielo-Rússia) e a Unasul (União das Nações Sul-Americanas) e consequentemente aproximá-lo dos Brics. Putin precisa de alternativas para aliviar a crise geopolítica com a Ucrânia, Europa e EUA. O anúncio do Obama sobre novas sanções apenas reforça a tendência em andamento da Rússia buscar novas opções e parcerias para se fortalecer econômica e politicamente. Isso já foi demonstrado no recente acordo com a China para fornecimento de gás. O bloco é uma ótima plataforma para a Rússia conseguir abrir novas parcerias comerciais e ao mesmo tempo fortalecer sua narrativa e legitimidade diante das últimas crises geopolíticas.

CHINA

Já a China usa o grupo de forma mais simbólica, particularmente para confrontar o sistema internacional criado pelos americanos e construir intituições paralelas. Sendo a maior economia dos 5 países, a China vai arcar com a maior parte dos custos da formação do banco. No fundo, os chineses tem menos a ganhar e usam o bloco de forma mais indireta para exercer seu poder global. Afinal, os chineses já têm espaço internacional suficiente e tentam apenas diversificar sua exposição e projeção de poder. O banco dos BRICS é apenas um dos muitos mecanismos internacionais que a China está engajada. Na Ásia, os chineses estão querendo criar um banco de investimento para infra-estrutura. Portanto, o dragão asiático seguirá usando os BRICS como uma das suas várias alternativas para ampliar seu escopo de projeção de poder.

ÍNDIA 

Tem uma gama de problemas que impedem pensar no bloco como algo muito relevante. Os problemas internacionais do país estão mais ligados a questões regionais do que globais. Seu rival e vizinho Paquistão tem armas nucleares e é um estado falido. A Índia é o 4º país do mundo que mais sofre de terrorismo e está próxima dos três primeiros da lista (Afeganistão, Paquistão e Iraque). A ascensão chinesa e sua presença no Oceano Índico complica a vida dos indianos e a harmonia dos BRICS devido à crescente rivalidade dos dois gigantes. Cada vez mais a Índia vai ganhar relevância internacional e sua importância regional já lhe traz bastante visibilidade e desafios. Por isso, os indianos tendem a se manter ocupados e o bloco, por hora, deve ficar em segundo plano.

BRASIL 

O Brasil tem dificuldades de projetar poder internacionalmente pois não é ativo nas questões relacionadas com a paz e segurança internacional. O tão almejado assento permanente no Conselho de Segurança da ONU busca preencher essa lacuna. A liderança regional brasileira é muito mais branda e desordenada por opção e falta de capacidade e planejamento. Ou seja, o Brasil é o país do bloco (excluindo África do Sul) que menos sabe acumular e projetar poder. Por essa razão, os BRICS dão uma visibilidade que o país não consegue em muitos outros fóruns ou interações internacionais. O fato do Brasil trazer outros países da região para participar do encontro em Fortaleza corrobora com a vontade de se apresentar como uma potência global, principalmente para os seus vizinhos. Ou seja, o Brasil é o país que tem mais a ganhar com o grupo. Mas por outro lado é também um dos menos poderosos do grupo e terá mais dificuldades em impor suas vontades. Isso ficou evidente na negociação da primeira presidência aonde o Brasil teve que ceder para a Índia.

ÁFRICA DO SUL

A inclusão da África do Sul no bloco, em 2011, pode ser considerada uma vitória para o líder Africano e um ganho de legitimidade para o grupo. Uma das razões que o país foi escolhido, ao invés de economias maiores como Nigéria e Indonésia, está relacionado com o alinhamento político com os outros membros. Para África do Sul, o desafio será equilibrar sua política externa de responsabilidades de potência emergente com a de liderança de um continente pobre. O enfoque é muito mais de cautela, sem criar grandes problemas no bloco e aproveitar para surfar na onda dos grandes sem ser um deles.

Conclusão e Futuro

Uma maneira de medir a capacidade dos BRICS é compará-lo com um grupo ou instituição global análoga, composta por grandes potências e líderes regionais. O mais próximo é o Conselho de Segurança da ONU com uma vantagem clara de ser um órgão de legitimidade universal ao invés de um grupo de uma classe restrita de países emergentes. Mesmo assim, sabemos muito bem das dificuldades do Conselho em obter consenso e como acaba travado politicamente devido os interesses diversos das potências. Por que um grupo com menos legitimidade global conseguiria obter mais coordenação e resolução?

 

Copa do Mundo e a Geopolítica

Heni Ozi Cukier

A Copa do Mundo, como outros eventos esportivos internacionais de grande porte, é um fenômeno político. Tanto o desejo de sediar o torneio, as paixões nacionais de vencer o seu rival ou derrotar uma grande potência como a promoção de ideologias nacionalistas são todos exemplos de como a política permeia esses eventos.

Torneios globais esportivos parecem promover valores e ideais universais, principalmente a noção de união e confraternização mundial. Contudo, a competição política regional ou global entre os países não é suspensa quando se iniciam as competições esportivas. Os ressentimentos e rivalidades políticas são replicados nos esportes em uma clara demonstração de como o nacionalismo ainda é a força dominante nas relações internacionais. Essa exaltação das diferenças nacionais e do nacionalismo foi comprovada em uma pesquisa realizada em 19 países e publicada recentemente no New York Times. A pesquisa mostra como as rivalidades políticas se manifestam dentro do campo na Copa do Mundo. Os Mexicanos indicaram os EUA como seu time menos favorito. Os brasileiros e argentinos querem a derrocada do outro. Os gregos atacam os banqueiros, apontando a Alemanha e EUA como os times que menos gostam. Japão e Coreia do Sul também não se gostam no esporte.

Nacionalismo & Retorno Economico 

O nacionalismo é uma força poderosa que oferece um sentido de lugar, historia e identidade. Parte de ser brasileiro está no fato de não sermos argentinos. A identidade coletiva é construída na diferenciação do nosso dissimilar. Hinos, bandeiras, cores, historias, cultura, símbolos e esportes são todos aspectos que constroem uma identidade nacional. A construção de qualquer cultura é formada por eventos e tradições históricas. Algumas culturas carregam laços de um passado histórico de lutas ou militar. No caso do Brasil temos menos historias coletivas de combates e mais símbolos como o futebol. O futebol é um dos momentos em que a sociedade brasileira compartilha dessa conexão coletiva nacional. Nessa caso, a Copa do Mundo é um momento único aonde todos esses símbolos mexem com a paixão coletiva da nossa identidade brasileira.

Hitler e Mussolini usaram as Olimpíadas e Copa do Mundo para exaltar o orgulho nacional e promover sua ideologia. O jogo da final da Copa de 1934 não foi realizado no Estadio Nacional do Partido Fascista por acaso. Em 1978, dois anos apôs o golpe militar na Argentina, a Copa ajudou a tirar o foco das perseguições, violencia e desaparecimento de dissidentes promovido pelo regime militar. Nelson Mandela usou o rugby e o futebol para reaproximar e unificar a Africa do Sul pós-apartheid.

O debate sobre investimentos e retornos econômicos também demonstra a relevância da política na Copa do Mundo. Os governos sempre justificam os altos investimentos para sediar tais eventos apontando para os benefícios econômicos. O retorno econômico mais citado é o turismo. Infelizmente, os resultados mostram outra coisa. No livro The Economics of Staging the Olympics, Holger Preuss mostra que é impossível provar que, por exemplo, as Olimpíadas em Sidney, Australia, teriam aumentado o turismo na cidade. Em 1988, nos jogos de inverno de Calgary houve uma queda de 12% no turismo imediatamente apôs os jogos e mais 10% no ano seguinte. Claro que durante o torneio o país recebe mais turistas, essa é a essência de sediar um evento internacional. Porém, comprovar ligações de causa e efeito, entre os torneios e o turismo, no longo prazo é muito difícil. Ou seja, sem comprovação de retorno econômico só resta a motivação política por trás do tamanho investimento.

Copa X Olimpíadas 

Outro ponto importante é a popularidade do futebol. Usar um evento desse porte para projetar poder e influência globalmente depende do nível de interesse da população mundial sobre o esporte. Na final da Copa de 2010, foram 500 milhões de telespectadores assistindo o jogo. Apenas 12% dos brasileiros se dizem desinteressados pelo futebol. Com 17% de desinteresse, a Rússia mostra que também gosta do futebol. Apesar do futebol ser um esporte praticado em todos os países e ter uma penetração global única, ainda pode ser considerado menos relevante no jogo da geopolítica. Se pensarmos em grandes potências — EUA, China, Rússia, Índia, Brasil, França, Inglaterra, Alemanha e Japão — apenas o Brasil, Alemanha e Rússia demonstram baixos índices de desinteresse pelo esporte. Para 60% dos americanos o futebol não é interessante. Os dois mais populosos do mundo, Índia e China, não são grandes admiradores do esporte.  Até mesmo para ingleses e franceses o número de desinteressados é alto, 50% afirmam não ligarem para o futebol. A Copa tem menos relevância geopolítica do que as Olimpíadas devido a popularidade do esporte nos países mais poderosos do mundo. O futebol pode atrair um número absoluto de admiradores maior que qualquer outra modalidade, mas não é tão relevante nos países “mais importantes”. A competição pela medalha de ouro e pela vitória no quadro geral de medalhas tem um significado político importante desde os tempos da Guerra Fria aonde a competição ideológica se dava na conquista das medalhas.

As olimpíadas também englobam uma diversidade de modalidades e por isso são mais representativas quanto as capacidades esportivas gerais de uma nação. O esporte promove valores de excelência, disciplina, determinação, superação e competição dentre outros. Portanto, uma nação campeã de medalhas pode clamar que cultiva capacidades que as qualifica para se tornar ainda mais poderosa.

No fundo, eventos internacionais desse porte servem muito mais interesses políticos do que a celebração do esporte. Na sua versão mais amena, a Copa é um circo promovido pelo estado democrático para ganhar atenção e exposição internacional buscando fortalecer sua imagem. Na sua versão piorada, competições internacionais ajudam regimes totalitários e violadores de direitos humanos parecerem membros responsáveis da comunidade internacional. O fato é que tanto Copa do Mundo como Olimpíadas ganham cada vez mais importância política, e não esportiva. Dizer que a Copa começou, e portanto devemos deixar a política de lado é simplesmente impossível. O esporte entre nações é político demais para ser visto apenas como uma competição atlética. Na esfera doméstica não poderia ser diferente, a política democrática usa ferramentas de percepção de massa, símbolos nacionalistas e populares. Nada mais popular e nacionalista do que o futebol para o brasileiro. Ilusão daqueles que acham que um evento como a Copa do Mundo não tem motivações e significados políticos.

No proximo post vou escrever sobre os fatores que influenciam uma disputa eleitoral. Dentro desse contexto de Copa do Mundo tenho escutado muitas discussões se o torneio tem ou não influência no processo eleitoral. Para aqueles que precisam avaliar os riscos políticos ligados as eleições, entender quais são os fatores críticos ajuda a desenhar cenários confiáveis.

Petrobras e o Capitalismo de Estado

Heni Ozi Cukier

Os últimos escândalos na Petrobras, e seu endividamento, nos fazem perguntar: por que isso aconteceu? O risco político pode nos oferecer boa parte da explicação. Já sabemos que os eventos políticos afetam os mercados e negócios; nesse caso, a existência de empresas estatais e outros mecanismos de intervenção governamental são manifestações ainda mais diretas do impacto da política nos negócios.

Nao existe divisão precisa no que separa o capitalismo de mercado e capitalismo de estado. Todos os governos tem algum envolvimento na regulamentação da atividade econômica e em todos os países existem trocas de mercado além dos tentáculos do estado. Ou seja, não existe país puramente capitalista ou puramente estadista. Os próprios Escandinavos, vistos como exemplos de “países socialistas”, nunca instituíram programas de nacionalização e as poucas empresas estatais foram privatizadas. Apesar dos altos gastos sociais desses países, a economia de mercado sempre foi o impulso central para o seu crescimento. O envolvimento do estado na economia nunca impediu que suas empresas privadas se tornassem potências globais. Maersk da Dinamarca, Nokia da Finlândia, Volvo ou IKEA da Suécia são competitivas globalmente porque tem produtos de qualidade e não porque gozam de vantagens políticas.

Por outro lado, o sistema aonde o estado domina os mercados é chamado de capitalismo de estado. Aqueles que adotam esse modelo não o fazem com um objetivo temporário para reconstruir a economia ou recuperá-la de uma recessão. Essa escolha é estratégica! Os governos querem controlar atividade econômica por diversas razões, que vão desde corrupção, fonte de receita, até arma geopolítica (no caso da Rússia). O capitalismo de estado enxerga o mercado primariamente como uma ferramenta para servir os interesses da elite no poder ao invés dos interesses da nação. O controle de setores estratégicos da economia oferece fontes de receita e poder para os seus governantes. Em resumo, a prioridade no capitalismo de estado é obter vantagens políticas com as empresas estatais ao invés de gerar lucro. Alias, o lucro está sempre subjugado a política.

Os Estados usam diferentes ferramentas ou veículos para exercer seu poder sobre os mercados. Os 4 principais são:

1. Empresas Nacionais de Energia (Petróleo ou Gás)

Países com grandes reservas de petróleo controlam esses recursos. Hoje 3/4 das reservas de petróleo do mundo são propriedade de empresas estatais como Saudita Aramco, Gazprom (Rússia), CNPC (China), NIOC (Irã), PDVSA (Venezuela), Petrobras, Abu Dhabi National Oil Company, Kuwait Petroleum Corporation, e Petronas (Malásia). As maiores multinacionais privadas possuem somente 3% das reservas mundiais de petróleo e gás. Algumas dessas empresas foram nacionalizadas, outras não são totalmente controladas pelo estado.

2. Empresas Estatais 

Empresas estatais existem além do setor energético. Elas podem estar localizadas em diversos setores. O país com as maiores estatais não petrolíferas é a China. Desde empresas de fornecimento de energia até financeiras. No Brasil 38% das empresas são controladas pelo estado. Na Rússia esse número vai para 62% e na China 80%.

3. National Champions

Empresas privadas com participação do governo. O nosso exemplo conhecido é a Vale. Os campeões se beneficiam de contratos e financiamento estatal. Existe uma relação simbiótica com o governo. Muitos privilégios são concedidos a essas empresas até quase monopólio de setores inteiros da economia. A Huawei (telecom) e a Metalloinvest (aço) são exemplos na China e na Rússia.

4. Fundos Soberanos de Riqueza 

Fundos criados pelos governos para investimento estrangeiro. Normalmente o dinheiro do fundo vem de 3 fontes: exportações de recursos naturais como petróleo ou gás; dinheiro sobrando da balança comercial — como no caso Chinês; e transferências diretas do orçamento federal ou reservas do país. O último rank indica que os Fundos Soberanos controlam mais de $6 trilhões de dólares. O problema desses veículos financeiros é que não respondem a acionistas. Eles tem somente um stakeholder: o governo.

Sociedade e Estatização 

Alguns vão me dizer: Heni, o governo norueguês é o maior acionista da StatoilHydro portanto a Noruega também pratica capitalismo de estado. Errado! A interferência governamental na empresa é minima. O governo não direciona fundos da mesma para projetos de interesse político. O que importa é como a ferramenta é usada, não sua mera existência. O Fundo de Pensão Público da Noruega gere a riqueza do petróleo, mas é um exemplo de transparência e eficiência. É possível dizer que é melhor gerido e mais transparente que muitas instituições privadas. O Fundo possui 120 profissionais independentes do governo publicando relatórios periódicos com detalhes dos seus investimentos e políticas. O Fundo Norueguês já tomou decisões não puramente econômicas e excluiu algumas empresas do seu portfolio por questões éticas baseadas no histórico ambiental e de responsabilidade social. Entretanto, essas decisões não afetaram a lógica de mercado pois as outras empresas escolhidas para substituí-las não são de amigos e aliados do governo ou ainda investimentos não rentáveis. Os investimentos escolhidos são igualmente lucrativos e respeitam sua política ética.

Obviamente isso só é possível em uma sociedade aonde a percepção do bem público é consciente, e o senso de responsabilidade segue o mesmo padrão. O público na Noruega significa que todos são “acionistas” ou donos daquele bem. Enquanto no Brasil a percepção é de que tudo público é de alguma entidade impessoal chamada de “todo mundo”.  Aquilo que é de todo mundo não é de ninguém na nossa cultura. Aquele que joga papel na rua faz porque acha que a rua não tem dono ou porque não entende sua responsabilidade e ligação com aquela propriedade. Com certeza existem aqueles que jogam papel na rua e também dentro da sua própria casa, mas a maioria que suja a rua não parece sujar seu próprio carro senão o lixo não precisaria ser retirado da onde ele foi gerado.

 

Impacto e utilidade das sanções econômicas contra Rússia

Heni Ozi Cukier

Sanções são uma ferramenta política diplomática de ameaças e incentivo — negativas ou positivas. Normalmente, tais ferramentas são percebidas como o mais visível de todos os instrumentos de poder econômico. Sanções negativas vão desde embargos até congelamento de ativos financeiros. Do lado positivo, temos de ajuda financeira até acesso favorável a mercados.

Como todas as formas de poder, sanções econômicas dependem do contexto, propósito, e habilidade em converter recursos em comportamento desejado. Existe muita controvérsia sobre o impacto e efetividade das sanções. Para medi-las é preciso ter clareza sobre seus objetivos. Esses incluem mudança de comportamento, contenção, e mudança de regime. Em outras palavras, coerção, limitação e sinalização.

No início da semana que passou os EUA decidiram sancionar indivíduos e a UE também trouxe a sua lista de russos e ucranianos. Em resposta, os russos retaliaram sancionando políticos americanos. Será que as sanções contra a Rússia vão fazer Putin mudar de ideia e abandonar a Crimeira? Sem dúvida, não! Será que o risco de endurecer as sanções pode fazer ele desistir de anexar mais territórios da Ucrânia (como o leste do país)?

A sabedoria convencional diz que sanções econômicas não funcionam. Em parte não funcionam porque o mundo é muito grande e sanções unilaterais são menos efetivas que sanções universais. Se todos os países do mundo decidissem se juntar aos EUA e UE com certeza a pressão contra a Rússia seria mais intensa. Outra consideração seria o escopo das sanções. Sancionar alguns indivíduos é bem diferente de sancionar o setor mais importante da economia russa — petróleo. Os Europeus não aprovariam nenhuma sanção econômica de peso contra o setor energético russo devido a sua dependência com o mesmo. Outro problema é o fato de sanções severas afetarem a economia como um todo, e consequentemente a população, ao invés dos oligarcas russos.

Para investidores e o mercado, os desdobramentos das sanções são importantes. Desde a primeira lista americana publicada, na segunda feira, com 11 individuos, empresas russas repatriaram bilhões de dólares com medo que novas sanções possam congelar seus ativos. O inverso também está acontecendo; bilhões de dólares deixando a Rússia devido ao medo das instituições financeiras europeias de retaliação. Bancos americanos estão vendendo títulos russos. O governo russo por outro lado está diminuindo sua exposição aos Títulos do Tesouro Americano. O Banco Central da Rússia tinha U$138 bilhões de títulos da divida americana em dezembro. Na semana passada esse numero caiu para U$105 bilhões.

Somente 2% das exportações russas vão para os EUA. A maioria dessas exportações pode ser substituída por serem commodities. Em termos de importação, aproximadamente 5% das importações russas vem dos EUA. No setor financeiro os bancos russos tem pouca exposição ao mercado americano. No fim de 2013, os russos tinham $20 bilhões depositados nos bancos americanos — uma pequena parte dos $750 bilhões depositados em seus bancos. Os EUA possuem $56 bilhões em papeis russos — 6% do total de $870 bilhões de capitalização do mercado.  A maioria das empresas russas (especialmente estatais) não estão listadas no mercado americano e sim no mercado de Londres ou Frankfurt.

Portanto, não tem muito que Washington possa fazer para realmente afetar os russos a menos que esteja disposta a tomar medidas drásticas e banir empresas americanas de fazer negocio no país.

O único objetivo restante, por trás das sanções americanas, com alguma funcionalidade prática é enviar um sinal. É importante indicar para os outros países do mundo, e da região, que algo está sendo feito. Ao mesmo tempo, Obama mostra para a população americana que os EUA não estão passivos e se curvando diante da ofensiva russa.

Talvez tão importante quanto medir a efetividade das sanções é saber quais são as alternativas existentes. Força militar é normalmente mais efetiva, mas pode ser mais custosa e mais trazer conseqüências graves. O exemplo de Cuba retrata bem isso. Durante a Crise dos Mísseis, os custos de usar a força militar para remover Castro eram enormes, incluindo o risco de uma guerra nuclear. Por outro lado, não fazer nada no auge da Guerra Fria seria comprometedor do ponto de vista da competição política entre EUA e União Soviética. Ou seja, sanções econômicas — na forma do embargo — não foram capazes de derrubar Castro, mas eram a melhor alternativa dentre as opções de não fazer nada ou intervir militarmente.

Já que os EUA não estão dispostos (Europa menos ainda) a confrontar militarmente a Rússia, sanções econômicas são a única ferramenta política restante capaz de impor algum custo aos russos. O problema é que o pacote atual de sanções só gera custos simbólicos.

Política – Voo 370 – Rússia – Ucrânia – China – Soft Power

Heni Ozi Cukier

O mundo está focado em dois acontecimentos distintos: crise na Ucrânia e o desaparecimento do avião da Malásia. Apesar desses eventos parecerem tão dispares, é possível identificar muitos pontos aonde eles se encontram. Alguns vão me perguntar: “Heni, pra que perder tempo com essa ligação?” Meu objetivo é mostrar que no século 21 a política permeia tudo o que acontece, e pela ótica do risco político global um acontecimento se relaciona e repercute com diversos outros.

Não se sabe ainda o que aconteceu com o avião da cia aérea da Malásia, mas mesmo assim podemos analisar as ligações e relações políticas diversas do acontecimento. A maioria dos passageiros eram chineses. Existem suspeitas de que o voo tenha sido alvo de alguma sabotagem ou ataque terrorista (até mesmo alvo de pirataria). Se esse for o caso, um dos grupos com interesse em atacar os chineses está sediado na região “autônoma” de Xinjiang, composta pela minoria dos Uigures – povo de origem turcomena. Alguns grupos separatistas dessa região — como o East Turkestan Islamic Movement (ETIM) — tem ligações com grupos radicais de outros países, como Taliban do Paquistão e al-Qaeda. Inclusive, o ETIM é denominado um grupo terrorista pelos americanos e está incluído na lista do Departamento de Estado como um dos grupos separatistas mais extremistas do mundo.

Com a tensão na Ucrânia colocando o Ocidente em rota de colisão com a Rússia, uma pergunta natural seria sobre a posição dos chineses nessa crise. Até mesmo para os chineses, parceiros diplomáticos costumeiros dos russos, a invasão da Crimeia representa sérios problemas porque viola um dos seus princípios mais sagrados de política externa: o principio de não intervenção. As regiões do Tibet e Xinjiang poderiam usar a questão da Crimeia como um precedente internacional para separação. É importante esclarecer algo que parece não ter ficado devidamente claro sobre a gravidade do que a Rússia está fazendo. Muitos podem dizer ou comparar a violação russa com alguma guerra preventiva americana ou derrubada de regime (Saddam Hussein, no Iraque) e apontar para a normalidade de tais eventos nas relações internacionais. A comparação não é valida porque os EUA não invadiram o Iraque com intuito de incorpora-lo ao seu território. O objetivo não era transformar o território iraquiano em um território americano anexado. Anexar territórios de outros países alterando fronteiras consolidadas sempre foi algo muito serio, ainda mais nos dias de hoje.

Além do dilema diplomático, a China também terá que equilibrar seus interesses e parcerias comerciais com a Ucrânia. A Ucrânia vendeu para a China o seu primeiro porta-aviões, continua fornecendo muitas armas, e arrendou 5% das suas terras para companhias estatais chinesas em troca de projetos de infra-estrutura.

Se o voo 370 tiver sido alvo de um grupo terrorista isso aproximaria os chineses dos americanos pela natural importância do tema na agenda americana. Ao mesmo tempo, os russos também sofrem problemas com grupos radicais separatistas e simpatizariam com as preocupações chinesas. Talvez tanto Rússia quanto EUA tenham o mesmo poder de atração com os chineses dentro do quesito terrorismo/separatismo. Para entendermos realmente qual posição a China tomaria precisamos considerar muitos fatores. Entretanto, um deles vale a pena ser mencionado porque confere uma vantagem única para os EUA e tem ajudado a manter sua supremacia global.

Enquanto os EUA não se mostram dispostos para usar sua musculatura militar no confronto direto com a Rússia, estão usando a força militar através do Soft Power. Esse termo explica como recursos (força militar, cultura, valores, capital, etc) podem ser usados para produzir certas respostas ou ações (atração, cooptação e persuasão). O poder militar tem outras dimensões além daquelas de confronto bélico e imposição de vontades através da força superior. É possível usar o poder militar para ganhar confiança, gerar atracão ou cooptar os outros. Colocar navios militares e seu aparato de inteligência para oferecer ajuda ou assistência é uma forma de conquistar corações e mentes.

O Departamento de Inteligência Naval da Marinha Americana tem um histórico de sucesso na recuperação de navios, submarinos, pilotos e armas no oceano. Um desses casos foi a localização do submarino Scorpio, em 1968, quando afundou no norte do Atlântico. Por enquanto, a divisão de submarinos da marinha americana ainda não foi chamada para participar das buscas do voo 370. Até mesmo as buscas estão sujeitas a questões de segurança nacional como revelações sobre a capacidade e tecnologia dos satélites militares dos países. A China, por exemplo, dificilmente vai redirecionar os seus satélites militares para ajudar nas buscas com receio de revelar informações preciosas sobre a capacidade dos seus equipamentos. Para os EUA fica mais fácil usar essa vantagem militar sem se expor. Desastres e acidentes globais permitem os americanos exercerem seu poder brando e ganhar mais apoio mundial — um diferencial vital na hora de lidar com os confrontos diretos.

Não sabemos o desfecho da crise na Ucrânia e muito menos as causas do desaparecimento do voo 370, mas podemos analisar como eventos diversos se ligam facilmente dentro do universo da política. No mundo da política internacional é preciso transcender explicações unidimensionais e perceber como situações únicas podem impactar questões diversas.

Por que o Ocidente não pode deixar a Rússia dominar a Ucrânia?

Heni Ozi Cukier

A ocupação militar da Crimeia pela Rússia representa o fim da estabilidade territorial europeia no pós-Guerra Fria. Por um lado, a Crimeia tem um significado estratégico militar limitado para os russos, apesar de sediar a base naval da sua Frota do Mar Negro. Na verdade, a real importância da península é de ordem geoestrategica uma vez que o controle total da Ucrânia alteraria o equilíbrio de poder global em favor da Rússia.

A condição geopolítica russa fez com que as preocupações de segurança nacional sempre tivessem uma importância acima da média se comparado com outras nações. Isso faz com que cada evento ou movimento ao redor do seu território (ou área de influencia) seja visto como uma ameaça mortal. Do ponto de vista do risco político global, não importa o quanto fundamentadas sejam as considerações russas e suas supostas justificativas. Permitir que a Rússia abocanhe um país do tamanho da Ucrânia é extremamente grave para a ordem mundial.

É importante deixar claro que a decisão russa de usar força militar é consciente e visa mandar um sinal de mudança de jogo. Moscou poderia ter usado sua costumeira pressão econômica, por exemplo, via gás natural. Não o fez por escolha, e com propósito. O Putin de 2014 não é o mesmo de 2004, ou até mesmo o de 2008 (quando invadiu a Georgia). O ex-KGB tem se mostrado desinteressado em aproximar a Rússia com a Europa. Seu projeto de país vislumbra uma Rússia nos moldes do Império Soviético e já deixou claro que está disposto a sacrificar os interesses econômicos por esse objetivo. O risco de abalar a reputação ou imagem internacional de seu país também não altera seus cálculos. Nem mesmo os 7 anos de preparativos e uma conta de 50 bilhões de dólares para sediar os Jogos de Sochi – que tinham como objetivo polir a imagem do país – foram suficientes para brecar suas ambições imperiais.

Uma revisão do status quo soberano abre precedentes que irradiariam insegurança para todos os membros do leste da OTAN e especialmente os países Bálticos–Lituânia, Estônia e Letônia (com as maiores minorias russas). A violação russa não se limita a soberania ucraniana mas também descumpre o Memorando de Budapeste quando a Rússia se comprometeu a não ameaçar ou atacar o território ucraniano. Depois da queda da União Soviética, a Ucrânia ficou em posse de muitas armas nucleares russas e concordou em devolver o arsenal somente depois de negociado garantias de proteção e segurança contra ofensivas futuras.

A crise Ucraniana elevou a polarização entre o Ocidente e Oriente dentro da periferia da antiga União Soviética. Moldova e Georgia estão buscando uma aproximação com o Ocidente para garantir sua segurança. Moldova enxerga a situação na Crimeia como uma replica da sua província (separatista e pro-russa) da Transnístria. Por outro lado, a Armênia anunciou que vai acelerar seu processo de adesão a União Euroasiática (uma espécie de União Europeia da Eurasia comanda pela Rússia). O país que já abriga uma base militar russa e laços econômicos sólidos está caminhando para uma integração ainda maior. No mundo pós-Crimeia, países como Polônia, Georgia, Ucrânia, Hungria, Romênia, Lituânia estão se perguntando se os EUA são aliados confiáveis e capazes de protege-los. Vai conquistar a fidelidade desses países aquele que demonstrar mais firmeza e força.

Globalmente falando também teríamos precedentes perigosos. Outras potências revisionistas poderiam pensar em recuperar territórios perdidos do passado. Se o argumento russo é de que deve controlar a Crimeia porque tem que proteger suas minorias, o que dizer da minoria chinesa na Tailândia ou Vietnam? E a minoria iraniana na Arabia Saudita? A lista é grande!

Independente do Putin ganhar ou perder na Ucrânia, as chances da Rússia se tornar um parceiro na solução dos problemas do mundo diminuíra drasticamente. No Oriente Médio, por exemplo, os impactos serão evidentes. Bashar al-Assad da Síria será o primeiro a ter certeza que escolheu o aliado e estratégia certa. E o acordo nuclear com o Irã? A vontade dos EUA em resolver rapidamente o dilema nuclear somado a intenção da Rússia em impedir o progresso americano vão fortalecer o Irã nas negociações daqui para frente.

Mais uma vez, a pergunta central é por que os brasileiros precisam entender a crise política de um país que representa apenas somente 0.2% do PIB global? A crise já atingiu os mercados financeiros do mundo. O benchmark de Moscou caiu 9.4% e o rublo atingiu seu ponto mais alto em relação ao dólar. Todas as empresas com exposição aos mercados ucraniano e russo experimentaram fuga de capitais. O Dow Jones, S&P, FTSE, Euro Stoxx caíram. Os mercados de energia também foram muito afetados. 80% do gás natural russo que vai para Europa passa pela Ucrânia e 40% do gás importado da Europa vem da Rússia. O preço do gás natural subiu 6% nos mercados ingleses e as ações da Gazprom caíram 10%. Em caso de um agravamento da crise e corte no fornecimento do gás, a Europa tem 18 dias de gás estocado. Essa é uma pequena amostra de como entender o que acontece na Ucrânia pode ajudar a medir os riscos políticos nos mercados.

Terra Australis Incognita: Geopolítica da Austrália

Heni Ozi Cukier

É sabido que a Austrália é um continente distante e isolado, mas isso só fica evidente quando se tenta chegar lá. Eu sai de São Paulo para Buenos Aires e segui pela Rota Polar (cruzando o Polo Sul) direto para Sydney. Depois de 15h15 minutos de voo, cheguei na Terra Australis Incognita, o nome dado na antiguidade para a terra desconhecida no hemisfério sul.

Desde a antiguidade, filósofos e geógrafos contemplavam a existência dessa região. Gregos e Romanos pensavam, em teoria, que o território existia. Em 150 A.D., Ptolomeu denominou uma grande região no mapa de Terra Australis. No século V, o filosofo romano Macróbio pensava que a terra era dividida em 3 zonas climáticas, com um grande continente cobrindo a maior parte do hemisfério sul. A fascinação pelo terra desconhecida continuou ao longo da história. Na Idade Media, chineses, indianos, gregos e árabes escreveram sobre uma região localizada em algum lugar ao sul de Java. Na pratica a Terra Australis só foi localizada muito tempo depois pelos exploradores europeus. Na verdade, o continente foi o ultimo pedaço de terra habitável do mundo a ser descoberto pelos europeus. 

Visitar a Austrália é se reconectar com a geografia. Austrália é uma ilha, continente, e nação em um só pacote. Não existe nada no mundo semelhante à condição australiana. De alguma forma seu isolamento pode ser comparado com a posição dos EUA, um país protegido de ameaças externas pelo oceano. Claro que os EUA possuem dois vizinhos, mesmo que pacatos e inofensivos. Austrália é o menor, mais seco e mais plano continente do mundo. Um dos sete maiores países do mundo. Metade do país é árido e 1/5 deserto; esse clima faz da maior parte do solo pobre para o cultivo agrícola.

A sociedade e economia australiana são reflexos dessa realidade geográfica e climática. Outro legado que define sua história é a sua colonização. Tudo começou com 11 navios levando presidiários exilados da Inglaterra. Os navios deixaram Portsmouth, no dia 13 de Maio de 1787, e chegaram em Sydney quase um ano depois, 26 de Janeiro de 1788 (celebrado como o Dia da Australia). Aqui caberia um debate interessante (quem sabe em outro post) sobre as causas da diferença do desenvolvimento social e econômico do Brasil e Austrália. Quantas vezes já não ouvimos o argumento que a causa dos problemas do Brasil foi a colonização de exploração portuguesa. Como explicar o sucesso australiano diante de uma colonização composta por presidiários? A história da Austrália nos faz refletir sobre nossas falhas e obviamente aponta para fatores alem do tipo de colonização como explicação dos nossos desafios. 

Chega de história e geografia e vamos falar um pouco da geopolítica australiana. O país vive um dilema estratégico: escolher entre quem te protege e quem te faz rico. Os EUA é o aliado indispensável, a ponto da Austrália ser o único país do mundo a participar todos os conflitos que os americanos se envolveram desde a Batalha de Hamel, na Primeira Guerra Mundial. A China se tornou o maior parceiro comercial passando o Japão em 2009. Obviamente a Austrália gostaria de manter boas relações com os dois gigantes. O problema é que tanto EUA quanto China enxergam sua relação política e estratégica com a ilha-continente através da sua rivalidade. Mesmo que a Austrália consiga agradar os dois, cada um deles vai fazer de tudo para impedir que seu rival fortaleça sua aliança.  

Por exemplo, qualquer choque militar entre Japão e China, pelas ilhas do Mar do Sul da China (ver post anterior), levaria a um envolvimento americano e consequentemente forte pressão para a Austrália se posicionar e participar. Nessa caso sua aliança com a China seria comprometida abalando as relações comerciais.  

Outro aspecto geopolítico é a dimensão marítima estratégica do continente. O hino australiano proclama: “our home is girt by sea” (nossa casa é cercada pelo mar); a frase ressalta a importância marítima da sua realidade. Cada estado australiano tem sua capital localizada em um porto ou próximo a um. No âmbito continental, a Austrália liga os Oceanos Pacífico e Índico. O Pacífico abriga a maior rota comercial do mundo e o Índico será o novo palco geopolítico do século 21, sendo o ponto de encontro entre China e Índia. Portanto, a localização da Austrália permite, dentre outras coisas, a criação de um corredor horizontal leste-oeste de extrema importância marítima. Forças estacionadas nos extremos de cada oceano — 7ª Frota Naval Americana localizada no Japão (Pacífico) e a 5ª Frota no Bahrain (Índico) — estão em desvantagem quando comparado com a possibilidade de estarem localizados próximo a geográfica central que a Austrália oferece.

Alguns podem estar pensando: “como a austrália influência decisões financeiras ou economicas no Brasil”. O par do dólar australiano e dólar americano são a quarta moeda mais comercializada do mundo, representando 7% de todo o mercado global de câmbio. A moeda australiana sempre esteve atrelada ao preço das suas commodities exportadas, contudo em 2003, graças a globalização financeira o link foi desfeito. A estabilidade e cotação do dólar australiano não podem ser dissociadas dos acontecimentos políticos e geopolíticos que ditam os rumos de sua economia e da região. Ou seja, qualquer avaliação precisa sobre seus fundamentos não pode excluir uma análise do risco político da Terra Australis e seu papel geopolítico. 

Crise na Ásia: Zona de Defesa Aérea e Mar do Leste da China

Heni Ozi Cukier

Nas ultimas semanas a China expandiu sua zona de defesa aérea dentro do Mar do Leste da China (veja mapa abaixo). Esse decisão ocorre em um contexto especifico: o acirramento das disputas territoriais das ilhas locais, o crescente nacionalismo na região e o redirecionamento estrategico-militar americano para a Ásia.

Mapa Zona de Defesa Aérea

 

 

Quando falamos de crises internacionais com potencial para escalada de confronto as atenções costumam estar voltadas para regiões tidas como mais frágeis: seja o Oriente Médio, África ou sul da Ásia (Índia e Paquistão). Contudo, a Ásia do século 21 pode se tornar a Europa do século 20. Até pouco tempo atras, todo o enfoque da região estava concentrado nas áreas econômicas e comerciais. A ascensão chinesa e o desenvolvimento econômico regional vem forçando a inclusão de preocupações geopoliticas na estratégia de segurança dos países.

A China reivindica 90% do total da area do seu mar do leste. A dificuldade com as ilhas desse mar estão na sobreposição do espaço territorial de todos os países próximos. Filipinas, Vietnã, China, Japão, Taiwan, Coreia do Sul, Malásia e Brunei possuem algum tipo de reivindicação territorial dentro desse espaço. Algumas dessas disputas, como a da soberania das ilhas Diaoyu/Senkakus existe desde a Guerra Sino-Japonesa de 1894. As ilhas não são a única causa da tensão, mas as zonas econômicas exclusivas pertinentes também geram disputa devido a abundância de recursos naturais como petróleo e gás.

O grande problema disso tudo é que estamos falando de disputas territoriais. Conflitos ideológicos podem ser menos precisos ou tangíveis. Território é algo fundamental para a existência de um estado. Busca por autonomia e controle de território é o que permite um povo ser dono do seu destino. Sem território não existe estado. Ou seja, nenhum país em sã consciência abdica de espaço pois esse é a matéria prima básica para sua existência. Não é por acaso que historicamente a vasta maioria das guerras, entre estados, foi travada por defesa e conquista territorial.

Outro risco com a demarcação da zona de defesa aérea chinesa é a sobreposição com mesma zona japonesa. A Coreia do Sul acabou de expandir sua zona de defesa aérea para dentro do mesmo espaço. Isso acentua as chances de um acidente ou choque não intencional. Quando um avião de qualquer um dos países entrar nessa zona vai ser interceptado e escoltado de acordo com as normas internacionais. Caso a interceptação não for feita da maneira correta temos o risco de um incidente internacional. Em 2001, um caça chinês estava executando intercepções agressivas até colidir com o avião americano de inteligência causando a morte do piloto chinês e forçando o pouso da aeronave americana na ilha de Hainan. Os 24 membros da tripulação ficaram presos por 11 dias gerando uma crise entre os dois países.

Essas zonas não são algo novo. São essencialmente um pára-choque fora do espaço aéreo do país. De acordo com o direito internacional, o espaço aéreo de um país engloba o céu acima do território mais os 22 quilômetros de distancia da sua costa de oceano. Muitos outros países criaram zonas parecidas em espaço aéreo internacional próximo ao seu estado. Como são impostas de forma unilateral e sem base legal facilitam atritos.

Por enquanto, o problema não foi a demarcação da zona chinesa, mas a possível tentativa em protege-la. Hoje, Pequim não tem os meios ou capacidade de monitorar todo o escopo desse espaço aéreo e nem as condições de projetar força. Monitorar o escopo da área requer sistemas navais, terrestres e aéreos. Como os chineses não controlam espaços terrestres (ilhas) próxima a zona ficam em desvantagem em relação aos japoneses. No quesito força, a China precisa de plataformas terrestres, aéreas e navais, mas ninguém pode atacar algo que não pode identificar ou localizar, e menos ainda sem a arma apropriada dentro do seu alcance. Essa capacidade de posicionar suas forças aéreas próximas a zona é comprometidas pela distância da costa e falta de treinamento e procedimentos.

O estabelecimento dessa zona trouxe uma nova dimensão – aérea, alem da naval e territorial – para a competição geopolítica da região. O desenrolar dessa tensão colocará em pauta a normalização militar japonesa e vai testar o comprometimento americano com seus aliados da região. Se Obama seguir o exemplo de como tem tratado os seus aliados do Oriente Médio, rapidamente o Japão pode mudar sua constituição e adotar uma postura mais agressiva. Os chineses estão desafiando o status quo enquanto os outros países estão apreensivos com as suas ambições.

O significado do acordo nuclear com o Irã

Heni Ozi Cukier

Chegou-se ao esperado: um acordo interino sobre o programa nuclear do Irã. Já tínhamos muitos indícios que isso aconteceria. A eleição do suposto moderado Hassam Houhani, a condução da política externa de Obama e o impacto das sanções favoreciam o cenário para um acordo.

Os holofotes estão focados no acordo em si, quando o mais importante parece estar sendo deixado de lado. O ponto relevante não é a assinatura de um acordo, mas o tipo de acordo que foi assinado e seu significado para a questão em pauta — o programa nuclear iraniano.

Hoje a maior ameaça para a segurança internacional é o programa nuclear iraniano. Por que? Existem os motivos internos e externos. Do lado interno, o regime iraniano é um dos maiores violadores dos direitos humanos no mundo; financia, treina e arma dois dos mais ativos grupos terroristas (Hamas e Hezbollah); tem um projeto hegemônico na região; mantém o regime Sírio vivo; e ameaça riscar do mapa um dos seus rivais: Israel. Do ponto de vista externo, um Irã atômico desestruturaria o Tratado de Não Proliferação Nuclear (tratado que cuida das questões relacionadas a armas e energia atômica). O regime de proliferação nuclear seria abalado pois desencadearia uma corrida nuclear. Isso aconteceria justamente na região mais instável do planeta. Imaginem o Oriente Médio repleto de países nucleares? Arábia Saudita, Egito e Turquia iriam desenvolver sua bomba atômica. Se esses novos países entrassem para o clube nuclear, o que impediria outros países de buscar a arma mais poderosa de todas? Imaginem o mundo com 30 ou 40 países em posse de bombas atômicas!

O pior de todos os cenários seria a soma dos desafios internos e externos. Me refiro a proliferação nuclear para um grupo terrorista. O mundo entraria em choque, e simplesmente tudo mudaria caso tivéssemos um 11 de setembro nuclear. Todas as grandes capitais do mundo entrariam em estado de emergência com medo de serem alvos de um ataque terrorista nuclear. O numero de mortos seria muito superior a grandes conflitos históricos. O pânico seria total. Viagens e comércio internacional seriam muito abalados. As bolsas de valores do mundo derreteriam. O tamanho do estrago moral e material é imensurável e indescritível.

A descrição do pior cenário é necessária para contextualizarmos o porque está se debatendo um acordo com o Irã. O acordo não é para restabelecer relações diplomáticas do país com o Ocidente, principalmente os EUA. Claro que isso pode ser uma conseqüência futura, mas o foco dessa discussão é, ou deveria ser, o programa nuclear. Dessa forma, a conclusão obvia é de que um acordo só faz sentido se tratar do problema central: impedir as ambições nucleares do Irã.

O acordo assinado ontem tem uma serie de problemas. Segue a lista abaixo:

I. Inspeções não garantem confiabilidade

O acordo assinado permite inspetores visitar instalações, mas isso não tem muito significado devido ao histórico do país em dificultar as inspeções e enganar inspetores da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA). Por exemplo, desde o relatório da AIEA de 2011, a instalação de Parchin – um complexo de testes de explosivos e parte do programa militar nuclear do Irã – tem negado acesso aos inspetores da Agência Atômica. Pior do que isso, o Irã iniciou reformas no local que estão sendo documentadas por fotos de satélite. Todo o solo da base militar está sendo asfaltado. Normalmente inspetores precisam coletar amostras do solo para localizar rastros de material radioativo. Uma vez terminada a reforma, ficará impossível uma analise confiável. Para piorar, Parchin não está na lista de locais que inspetores terão acesso de acordo com o ultimo termo entre a Agência e o Irã. Como signatário do Tratado, o Irã já deveria permitir acesso irrestrito aos inspetores. Ou seja, essa concessão não pode ser vista nem como uma concessão, mas como uma falha na sua obrigação.

II. Acordos Interinos e seus problemas

Esse acordo não é um acordo final, mas apenas um aperitivo para preparar o terreno para as conversas futuras que virão. O problema é que o aperitivo foi muito farto para com o Irã e vai balizar as discussões dentro de uma perspectiva aonde o país precisa oferecer pouco e merece receber muito. O acordo atual não coloca um freio nos aspectos mais problemáticos do programa nuclear iraniano, particularmente limitando o numero de centrifugas e garantias solidas que o país não poderá converter seu urânio enriquecido em material para uma bomba.

Os obstáculos para serem superados são enormes, e os opositores internos dentro dos EUA e do Irã precisam estar convencidos que o acordo final representa seus maiores interesses. O Congresso americano só vai concordar em suspender todas as sanções caso existam propostas objetivas de destruição do programa nuclear e ao mesmo tempo mecanismos eficazes de verificação. Nada disso existe hoje, e nem foi colocado na mesa. Um acordo satisfatório para todos os stakeholders envolvidos tem uma cara muito diferente do acordo interino assinado ontem. Em outras palavras, será que Washington e Teerã são capazes de concordar com um acordo aonde o Irã abdica por completo do seu programa nuclear e os EUA suspende todas as sanções?

III. Legitimar um estado violador

O acordo atual manda um sinal muito ruim para o mundo e outros países que buscam construir suas bombas atômicas. O acordo retira o status de violador do Irã e passa a tratá-lo como um país que nunca descumpriu suas obrigações. A legitimidade das 6 resoluções do Conselho de Segurança da ONU, demandando que o Irã encerre o enriquecimento de urânio por não cumprimento do Tratado de Não Proliferação, jamais será restabelecida. Permitir que o Irã continue seu programa de enriquecimento, mesmo que seja até 5%, demonstra um retrocesso em termos das resoluções passadas do Conselho. O Irã sempre quis ter o direito de manter seu programa de enriquecimento e a comunidade internacional sempre se posicionou unanimemente contraria sabendo dos riscos dessa capacidade. Não existe bomba atômica sem capacidade de enriquecer urânio. O acordo interino recompensa o Irã pelo seu passado de violações e afrouxa os requisitos mínimos de garantia que possam impedir o país de construir sua bomba.

IV. Líbia ou Coreia do Norte

Presidentes em segundo mandato tentam melhorar seu legado. Obama passou os últimos anos dizendo que não deixaria o Irã adquirir a bomba atômica sob sua liderança. Reparem que ele está mais preocupado em garantir que isso não aconteça durante o seu mandato e não necessariamente em resolver o problema. Obama está tentando minimizar os seus riscos, jogando o problema o mais para frente possível com o mínimo de esforço e custo no presente. Clinton tentou sem sucesso em seu segundo mandato um acordo de Camp David II para acabar com o conflito Israelense e Palestino. Bush tentou um acordo final com a Coreia do Norte. Seu governo retirou a Coreia da lista de patrocinadores do terrorismo e suspendeu algumas sanções. Em resposta, os norte coreanos redobraram seu programa nuclear e balístico. O acordo atual remete mais ao cenário da Coreia do Norte do que ao acordo assinado com a Líbia para desmantelar seu programa nuclear.

V. Assimetria de trocas

Até hoje o Irã não aceitou nenhuma das propostas de acordo. O que fez o país mudar de ideia? As sanções finalmente começaram a ter efeito e estão abalando a sua econômica. Só tem uma coisa que o regime em Teerã valoriza mais do que armas nucleares: sua sobrevivência. Na verdade a maior utilidade de possuir tais armas é garantir sua sobrevivência. As sanções estão criando mais instabilidade e colocando em risco a sobrevivência do regime. Dentro desse contexto de máxima vantagem para o Ocidente que se deu inicio as negociações em Geneva. Estranhamente no momento de maior vantagem, os EUA decidiram fazer as maiores concessões, justamente quando quem estava pronto para ceder mais era o Irã. O Ocidente ofereceu suspender algumas sanções em troca de mudanças cosméticas que não alteram em nada a infra-estrutura nuclear do Irã. O próprio EUA aliviaram suas demandas ao permitir que o Irã continuasse enriquecer urânio. Durante o primeiro mandato, o próprio governo Obama ofereceu um acordo aonde o Irã deveria importar urânio enriquecido ao invés de enriquece-lo. Essa assimetria vai produzir paradigmas perigosos para qualquer acordo definitivo além de ser leniente com o programa nuclear e não endereçar o problema central que seria impedir o Irã de desenvolver uma bomba atômica.

VI. Mudanças não acontecem tão rapidamente

O regime iraniano não deixou de ser o regime iraniano e nem tem porque deixar de ser. Negar o Holocausto, ameaçar riscar Israel do mapa, financiar terrorismo e muitos outros são algumas das políticas que continuam fazendo parte do cardápio iraniano. Eu já escrevi em outro post como o programa nuclear iraniano é em parte tão grave e problemático devido ao seu comportamento e suas políticas. Caso o governo do Irã não fosse quem é, os riscos em jogo seriam menores para todos. A retórica extremista só aumenta a tensão e mostra a essência do regime dos clérigos. O regime não mudou e não deve mudar. O ex-presidente Ahmadinejad não era o único extremista, e o atual presidente, Rouhani, só parece moderado quando comparado com seu antecessor. O líder supremo fez um pronunciamento semana passada descrevendo Israel como um “cachorro fanático” e demostrando que a ideologia extremista continua sendo o pilar do regime. Rouhani quando perguntado sobre o Holocausto respondeu que não era um historiador para confirmar sua veracidade.

O Irã não deve deixar de financiar e promover o terrorismo na região. Muito menos apoiar o regime de Assad. É difícil confiar em uma mudança na área nuclear sabendo que o governo segue o seu mesmo padrão em todas as outras áreas.

Em suma, o dilema do programa nuclear iraniano está longe de ser resolvido e o seu problema central não parece ter sido resolvido pelo acordo de ontem. Vamos acompanhar as cenas dos próximos capítulos.

Petróleo, Geopolítica e Segurança Energética

Heni Ozi Cukier

Há 40 anos atrás o mundo estava lidando com a crise do petróleo criada pela OPEC (Organização dos Países Exportadores de Petróleo) quando a organização cortou suas exportações para os EUA e seus aliados, como forma de punição ao apoio a Israel na Guerra do Yom Kippur em 1973.

O embargo de 1973 tem muito a nos dizer sobre risco político e geopolítica. A independência e segurança energética são questões estratégicas para qualquer país. É dentro desse contexto que o Brasil acaba de finalizar o leilão do primeiro bloco do pré-sal, a reserva de Libra.

Será que os EUA ainda têm sua segurança energética ameaçada por um embargo ou por uma dependência excessiva no combustível fóssil? Eu escuto muito as pessoas usando o petróleo como a explicação de tudo que acontece no mundo. Desde a política externa americana no Oriente Médio até as intervenções na Síria, Líbia e Iraque (só para citar alguns dos assuntos), a causa de tudo é o interesse no petróleo. Nesse post eu não quero me aprofundar nos porquês das guerras, mas posso afirmar que colocar o petróleo como o centro de tudo é uma simplificação e superficialização da realidade. Tendo dito isso podemos voltar para a pergunta acima.

Primeiramente, o embargo tinha como objetivo resolver uma questão geopolítica, acabar com o apoio do Ocidente a Israel. Não aconteceu. Portanto, o embargo não se mostrou uma ferramenta efetiva. Segundo, os países afetados foram em busca de alternativas e soluções para a sua dependência energetica. É curioso que um dos argumentos mais comuns aponta para a dependência americana de fornecimento do petróleo do Oriente Médio. Os EUA nunca foram dependentes do fornecimento de petróleo da região e hoje apenas 9% do seu fornecimento vem de lá. Historicamente, a região nunca forneceu mais de 15% do total do petróleo americano.

O erro comum de focar na dependência energética indica uma outra confusão mais grave. O perigo para os EUA, e para outros países que buscam auto suficiência energética, em termos de fornecimento, está na incapacidade de controlar o preço do petróleo e todas as conseqüências econômicas resultantes da sua variação. O problema do embargo não foi o corte de fornecimento para os EUA, mas a diminuição na produção do cartel que fez o preço do barril subir de $5.12 para $11.65. O mundo todo sofreu com o embargo, não somente os países que foram alvos do corte de fornecimento.

Hoje a China, por exemplo, importa 60% do seu petróleo e 30% do seu gás natural. Ter o seu fornecimento vindo de fontes externas não é o ideal, mas talvez a maior dependência seja em relação ao impacto do preço do petróleo na competitividade de uma economia de manufaturados orientada para exportação. A variação do preço do petróleo impacta o custo de transporte que por sua vez aumenta o preço final dos produtos chineses. Auto suficiência energética é só uma parte da equação energética.

O cartel do petróleo ainda domina 3/4 das reservas convencionais da commodity, 1/3 do fornecimento global e tem o menor custo de produção por barril do mundo. O fato do cartel ser formado por países soberanos, ao invés de empresas privadas, impossibilita que leis antitrust penalizem a pratica abusiva. Se estamos falando de um cartel de países, então estamos falando de riscos políticos na sua forma mais pura no que se refere ao combustível de transporte mais importante.

Felizmente, nem todos os membros da OPEC querem ver aumentos imediatos e exorbitantes da sua commodity. Venezuela e Irã adorariam que isso acontecesse pois ajudaria suas economias fracas. Já os outros países aprenderam algumas lições com o embargo de motivação política de 1973. A queda de preço do petróleo nos anos 80, posterior ao embargo, foi causada pelo impacto econômico nos países afetados e mostrou como pressionar seus clientes pode trazer problemas no longo prazo. A exploração de novos campos de petróleo fora do cartel e a busca por eficiência energética foram também algumas das medidas adotadas para contrapor o embargo.

Politicamente muitos dos países Árabes, principalmente a Arábia Saudita, têm a opção de aumentar sua produção para baixar o preço. Hoje os sauditas estão mais preocupados com a ameaça iraniana do que punir seus aliados ocidentais. O caos político e social que se instalou no Oriente Médio pós-Primavera Árabe mostra bem o tamanho das dificuldades intra-regionais. Talvez uma melhor opção nesse momento para a Arabia Saudita seja baixar o preço do petróleo e não aumenta-lo. A situação política regional e o risco de forçar seus clientes a acelerarem a busca por alternativas faz do cenário de 1973 um evento pouco provável.

A produção energética também está passando por uma revolução no que tange as novas tecnologias de exploração como o petróleo e o gás de xisto. 10% de todo o petróleo do mundo e 32% do gás natural estão localizados em formações de xisto. De acordo com o Energy Information Administration (EIA) esses novos recursos aumentaram as reservas globais de petróleo em 11% e 47% de gás natural. Em 2012, 1/4 da produção de gás americana vem do xisto e em 2035 o número será o dobro.

O mapa no post seguinte mostra as possíveis bacias de xisto espalhadas pelo mundo. Grandes reservadas estão na China, Argentina, Austrália e África do Sul. Muitos países se beneficiariam da exploração do xisto, incluindo Brasil. Alguns países como Polônia, Turquia e Ucrânia teriam ganhos geopolíticos ao conseguirem diminuir sua dependência de fornecedores hegemônicos como Rússia e Irã.

Concluindo, a OPEC ainda tem poder mas o cenário político de hoje não favorece o uso do petróleo como arma política contra o Ocidente. Um entendimento mais amplo do conceito de segurança energética deve transcender a ideia de auto suficiência e nesse ponto o Brasil deve pensar suas considerações estratégicas.

 

Fundamentos da supremacia do dólar e dos EUA

Heni Ozi Cukier

Com a crise do teto da dívida seguindo seu caminho recorrente de brinkmanship (tática de negociação de destruição mútua) começam os questionamentos sobre o poder americano, o papel do dólar no sistema internacional, decadência da potência, etc.

Existem razões estruturais pelas quais o dólar tem sido a moeda líder e de reserva do mundo após 1945. A moeda americana forneceu a fundação monetária para a economia internacional e seu papel é ao mesmo tempo um reflexo e reforço da supremacia dos EUA.

O dólar tem sido tão atraente devido ao tamanho e profundidade das instituições da sua economia, seu mercado de capitais, crescimento econômico, vitalidade e lucratividade, e mais importante: estabilidade política e incomparável segurança física.

A questão da segurança física pode parecer totalmente dissociada da solidez da moeda de um país. Entretanto, nada é mais básico do que ordem e segurança para os fundamentos do estado e consequentemente da economia, que não existe em um vácuo. Max Weber definiu o estado como a entidade que detém o monopólio do uso legitimo da força. Reparem que ele não fala de saúde, cultura, idioma, etnia, religião, educação, partidos políticos ou qualquer outra coisa relacionado ao estado, mas somente sobre uso da força; em outras palavras, segurança.

Segurança é uma vantagem única do Estado americano. Os EUA tiveram seu território atacado somente em Pearl Harbor e no 11 de setembro. Mesmo assim foram ataques pontuais. O continente da América do Norte está desconectado do resto do mundo, nenhuma outra região tem acesso terrestre ao continente. América do Sul não tem ligação capaz de ameaçar a segurança do norte. Europa, Ásia e Eurasia só acessam o território americano via oceanos e isso seria impossível hoje devido ao domínio dos oceanos pela marinha americana. Pergunte aos países asiáticos se sentem o mesmo nível de segurança na sua região. A Rússia vive presa a paranóias geopolíticas devido aos riscos territoriais. E os europeus? A Europa demorou muitos séculos para encontrar a sua paz baseada em uma aliança que está se mostrando extremamente frágil.

A questão da segurança é tão importante que serve de base para sustentação do dólar em contextos de insegurança de outras grandes potências. Alguns dos países que apoiam oficialmente o papel do dólar no mundo são países que dependem dos EUA para a sua segurança. Japão, Coreia do Sul, e membros do Conselho de Cooperação do Golfo (Emirados Árabes, Arábia Saudita, Omã, Qatar, Bahrein e Kuwait). Até mesmo a China tem uma relação política e estratégica que não vale a pena confrontar o papel do dólar.

Além da questão da segurança, existem outros fatores estruturais que oferecem vantagens únicas para os EUA. Os americanos captam dinheiro a um custo muito baixo. Os contratos são feitos dentro das suas próprias leis. Essa vantagem permite que calotes involuntários sejam impossíveis porque se o governo precisar pode imprimir mais dólares. Ainda é possível mudar as leis para beneficiar os devedores. Existe precedente na história americana aonde, em 1935, a Suprema Corte decidiu alterar as regras de contratos privados argumentando que o mesmo poder que lhe confere passar uma lei de falência, que possibilita seus devedores se livrarem das suas obrigações, também pode mudar leis contratuais.

A Grecia é um ótimo exemplo do custo de não poder imprimir sua moeda e mudar as leis sob as quais suas dividas estão regulamentadas. A incapacidade de mudar leis que governam os seus títulos impediram uma desvalorização da moeda e mudança de contratos que estavam registrados em jurisdição externa.

Todos os países gostariam de pegar dinheiro emprestado, de investidores estrangeiros, na sua própria moeda e dentro da sua jurisdição legal com poder de mudar as leis em seu beneficio, caso necessário. Felizmente ou infelizmente somente 3 países tem credibilidade para fazer isso: EUA, Grã-Bretanha e Japão.

Outra questão importante é não confundir o valor (ou taxa de câmbio) do dólar com o seu papel no mundo. A depreciação do dólar é diferente do seu papel político e econômico. Para medir o papel político do dólar precisamos analisar 3 utilidades do dinheiro: meio de troca, reserva de valor, unidade de conta.

Em todos esses aspectos o dólar tem sido disparado a moeda mais importante e continua sendo. O meio de troca se refere a moeda como um veiculo de transações internacionais. Um indicador da predominância absoluta do dólar como meio de troca é a ultima pesquisa do Banco de Compensações Internacionais (Bank of International Settlements) identificando a moeda americana como veiculo dominante em 87% de todas as transações do mercado de câmbio global. O Euro está em segundo com 33% (com queda de 6% de 2010 para cá). O FMI, mostra que como reserva de valor, o dólar compõe 61.9% das reservas oficiais do mundo comparado com 23.8% do Euro, 3.85 da Libra e 3.8% do Yen.

Mudanças estruturais na geopolítica global precisam acontecer para o dólar perder sua supremacia. Esses tipos de mudanças não acontecem apenas com uma crise fiscal ou impasse político como o teto da dívida.

Risco político, paralisação do governo e dívida americana

Heni Ozi Cukier

Desde a semana passada os serviços não essenciais do governo americano foram paralisados. A causa foi a disputa política entre democratas e republicanos sobre o orçamento para o ano fiscal de 2013-2014. Além disso, o teto da dívida pública americana, de 16,7 trilhões, está próximo de ser atingido. Esses dois eventos são frutos de um tipo de risco pouco considerado e analisado, o risco político. Este blog olha para os eventos políticos sob essa lente, analisando os riscos da política no mundo. O que está acontecendo nos EUA é um dos clássicos exemplos de como a política determina os rumos da economia e mercados.

Vivemos na era da informação e conhecimento, isso significa que o mundo se tornou mais rápido e dinâmico. Em um mundo assim, tudo se tornou mais complexo e instável. O dinamismo da comunicação da a impressão que vivemos em um mundo despolitizado, quando na verdade a política continua tendo um papel central em todas as esferas e atividades humanas.

Vamos entender o papel da política nessas crises nos EUA. Os críticos têm dito que a política americana está falida e enlouquecida, principalmente o partido Republicano e o Tea Party. Grande parte dessa visão acontece pela falta de entendimento da política. A paralisação do governo não é um fenômeno novo na política. O governo americano já foi paralisado 17 vezes desde 1976, e grande maioria das vezes os democratas controlavam a Câmara. Por exemplo, em 1981, ainda no primeiro ano de governo, Ronald Reagan enfrentou o primeiro fechamento do governo. No seu segundo mandato, o governo foi paralisado 6 vezes, em um total de 12 dias, devido a negociações de orçamento entre a Casa Branca e a Câmara democrata, liderada por Tip O’Neil.

As paralisações mostram que a política americana sempre foi partidária e conflituosa. Alias, democracias são assim! Debater e defender seus interesses até a ultima instancia é da natureza democrática. Muitas democracias foram desenhadas com divisões de poderes (executivo, legislativo e judiciário) para garantir que não houvesse supremacia de um grupo sobre o outro. Nem mesmo da maioria sobre a minoria. No sistema democrático, utopias de ambos os lados do espectro político são difíceis de serem levadas adiante porque fogem do consenso necessário que satisfaça as vontades de constituintes de até mesmo grupos menores. Ou seja, o que está acontecendo faz parte da norma, e não de uma disfunção política.

Quais seriam as conseqüências para o mercado financeiro, caso os EUA não aumentem o teto da dívida? Ben Bernanke, Chairman do Federal Reserve, disse que um calote da dívida seria um “recovery-ending event” (evento do fim da recuperação). Até mesmo um impasse de longa duração pode causar problemas para a economia. Incertezas nos mercados de bonds colocarão pressão para um aumento das taxas de juros, aumentando os custos de empréstimos do governo federal, negócios e consumidores. O longo e complicado debate sobre aumento da dívida em 2011 fez a agência de classificação Standard and Poor’s rebaixar a classificação de credito americana. No dia seguinte do rebaixamento, 8 de agosto de 2011, o Dow Jones Industrial Average despencou 635 pontos sendo uma das maiores quedas diárias da história do mercado financeiro e a maior queda desde dezembro de 2008. Alguns dias antes, 4 de agosto, já temendo o pior, o índice Dow marcou uma das suas 10 piores quedas diárias da história, caindo  513 pontos. Outro estudo do Escritório do Governo Americano mostrou que o atraso em aumentar o teto da dívida custou aos contribuintes aproximadamente $1.3 bilhões em 2011.

Como a política vai proseguir? Qual cenário político vai determinar a votação sobre o aumento do teto da dívida? Nas outras vezes aonde o impasse político se repetiu, Obama ainda podia concorrer a re-eleição e no caso de um calote – por mais que pudesse colocar a culpa nos republicanos – acabaria absorvendo parte da culpa afetando sua popularidade. Na discussão que está por vir, Obama pode estar mais inclinado a correr riscos, ainda mais se estiver mais preocupado com seu legado ao invés da futura candidatura democrata. Os republicanos sentindo a natural saturação da opinião pública, com 8 anos de Obama, podem se sentir mais confiantes em continuar pressionando a Casa Branca.

Os impactos na economia e nos mercados de um calote, ou impasse longo sobre as negociações do teto da dívida americana, são evidentes. Para analisar os riscos do desenrolar dessa discussão é preciso seguir de perto a política americana e o movimento das peças do xadrez para as próximas eleições. Eu estarei acompanhando o andamento desses cenários e comentando com vocês.

É possível um acordo com o Irã?

Heni Ozi Cukier

Talvez o assunto mais relevante da Assembleia Geral da ONU em Nova York essa semana foi os acenos do presidente iraniano, Hassan Rouhani, para os EUA. O mundo está eufórico com a possibilidade de normalização das relações do Irã com a comunidade internacional. Tudo parece  depender da possibilidade de um acordo sobre o seu programa nuclear.

É interessante que as expectativas estão depositadas somente no assunto nuclear, reduzindo a crise iraniana somente ao desejo do Irã em possuir uma arma nuclear. Será que um Irã que não financiasse terrorismo, desrespeitasse tanto os direitos humanos, e tivesse uma política externa menos hegemônica seu programa nuclear causaria menos tensão? Esses outros temas e comportamentos mostram que a crise com o Irã não se resume ao programa nuclear. Portanto, para analisar as possibilidades de um acordo não podemos esquecer do contexto que faz a questão nuclear mais grave no caso do Irã.

Os riscos de um Irã nuclear são muitos e representam a maior ameaça para a estabilidade e segurança internacional nos dias de hoje. Caso o Irã construa a bomba teríamos uma corrida nuclear na região mais instável do mundo. Arabia Saudita, Turquia e Egito seriam os primeiros candidatos. Outra conseqüência seria um desequilíbrio na balança de poder regional. Um Irã em posse de uma bomba atômica ficaria mais poderoso e os seus rivais ou inimigos se sentiriam ameaçados. Quando existe desequilíbrios as chances de conflitos são maiores. Outras conseqüências mais perigosas seriam a proliferação de tecnologia ou armas atômicas para grupos terroristas. O Irã financia, treina e ajuda Hezbollah e Hamas além de outros grupos menores.

Para termos um acordo entre Irã e EUA precisamos muito mais do que boa vontade por parte de Rouhani. Do lado iraniano quem comanda é o líder supremo, Aytollah Ali Khamenei e um dos maiores grupos de influencia do país é a Guarda Revolucionaria uma organização que controla grande parte do aparato de segurança e economia. Do lado americano, os possíveis obstáculos são o Congresso, opinião publica e outros grupos de interesses que não confiam no Irã e na capacidade de cumprir com qualquer acordo.

Aliados como Israel e Arabia Saudita também estão preocupados com a movimentação iraniana e se sentindo deixados de lado pelos EUA. Obviamente não querem que seu inimigo ganhe mais tempo e possa enrolar os americanos. Esse obstáculo é de natureza geopolítica.

A literatura sobre negociação internacional é bem clara quanto ao papel da confiança em um acordo. Ou seja, sem confiança é difícil se chegar em algum lugar. Eu já conversei com negociadores especializados em situações de reféns e resgates que defendem que confiança não é essencial. Mesmo assumindo que confiança seja irrelevante para um acordo, temos que entender quais são os mecanismos de verificação de um acordo. No caso de um acordo nuclear, inspeções seriam necessárias e ate hoje o Irã foi capaz de enganar os inspetores.

O frenesi da mídia internacional parece desproporcional ao desafio que existe pela frente. A primeira questão é se realmente o Irã quer mudar. Por que o país decidiu mudar radicalmente? Que tipos de incentivos existem para essa mudança? Se livrar das sanções? O país convive com elas a décadas. Rouhani é um moderado? Nunca foi, e mesmo que tenha virado, o poder não esta em suas mãos. Um acordo com o Irã não virá facilmente, e mesmo que suas intenções sejam sinceras, algumas cicatrizes profundas precisam ser curadas. Amanha Netanyahu fala na ONU, veremos o qual será o teor do seu discurso.

Analisando o artigo de Putin para a nação americana

Heni Ozi Cukier

Essa semana que passou Vladimir Putin escreveu um artigo no New York Times endereçado ao povo americano. Sua justificativa é o imbróglio da Síria. Vou comentar e analisar a maior parte do seu artigo. Em itálico seguem trechos do artigo original traduzido e eu sigo abaixo comentando. Está um pouco longo mas vale a pena refletirmos sobre as frases do Putin pois dizem muito sobre a política global.

Os recentes acontecimentos relativos à Síria enconrajaram-me a falar diretamente ao povo americano e a seus líderes políticos. É importante fazê-lo num momento em que a comunicação entre as nossas sociedades mostra-se insuficiente. As relações entre nós passaram por diferentes estágios. Estivemos de lados opostos durante a Guerra Fria. Mas em certo momento também fomos aliados e juntos derrotamos o nazismo. Uma organização internacional universal, a ONU, foi então criada para impedir que a devastação se repetisse.

Se dirigir ao povo de outra nação não só é ousado, mas vindo de Putin isso parece no mínimo irônico. Recentemente, ele ficou enfurecido com pequenas declarações da Hillary Clinton criticando a corrupção das ultimas eleições na Rússia. Putin atacou a ex-Secretaria de Estado dizendo que ela estava incitando protestos contra seu governo e chamou aquilo de “interferência nos assuntos internos da Rússia”. Imagine se Obama tivesse escrito um artigo no mais importante jornal russo? Se comentários da Hillary causaram tanta irritação, imaginem um artigo para o povo russo. Se a “comunicação entre as duas sociedades mostra-se insuficiente” é em grande parte porque a Rússia é um dos países mais perseguem jornalistas e censura qualquer tipo de mídia independente. Rússia está na posição #148 de um total de 179 países no ranking da organização Reports Without Borders. O que Putin quer dizer ao se referir que os dois foram aliados e inimigos? Hoje ele considera os EUA um aliado, rival, inimigo ou algo a se definir?

Os fundadores da ONU entenderam que as decisões sobre a guerra e a paz só deveriam ser tomadas por unanimidade, e, com consentimento dos EUA, o veto dos membros permanentes do Conselho de Segurança foi consignado na Carta da ONU. A profunda sabedoria desta determinação constitui, há dezenas de anos, a base da estabilidade das relações internacionais. Ninguém quer que a ONU tenha o mesmo destino da Liga das Nacoes, cujo fracasso se deu porque carecia de poder real. Mas isso poderá ocorrer se países que detêm uma grande influência ignorarem a ONU e empreenderem uma ação militar sem autorização do Conselho de Segurança.

Com certeza a existência do Conselho só é possível porque os membros permanentes tem poder de veto. Sem isso, o Conselho não teria sido criado e assim foi a lógica e entendimento desde o início. Não sei se podemos afirmar com tanta certeza que a estabilidade das relações internacionais está no fato dos países possuírem o veto. Eu diria que a estabilidade mundial tem sido mantida graças a aliança dos mais poderosos. Essa aliança está consolidada na estrutura do Conselho de Segurança da ONU com seus cinco membros permanentes. Contudo, conforme Reino Unido e França perdem relevância e cresce a necessidade de outros países fazerem parte da aliança dos P-5 -tão falada reforma do Conselho de Segurança – é questionável a durabilidade dessa “estabilidade das relações internacionais”. E também temos “estabilidade” porque nenhum dos 5 permanentes decidiu confrontar cabalmente um dos seus parceiros para defender aliados menores. Basta que alguma das potências emergentes ganhe musculatura e decida confrontar um dos 5 permanentes para questionarmos a solidez dessa ordem. A ONU vai ter o mesmo destino da Liga das Nações se a Rússia e a China continuarem usando o Conselho como uma ferramenta central da sua política externa. Já vimos isso acontecer quando Brasil e Turquia vieram a público e disseram ter resolvido o impasse nuclear com o Irã. O Conselho está a décadas lidando com a questão do Irã e a relutância da China e Rússia em fazer algo abriu caminho para países de fora debocharem do Conselho e fazerem ele parecer  um corpo obsoleto. As conseqüências desse episódio foram tão grave para a credibilidade do Conselho, que os dois problemáticos – Rússia e China –  prontamente aceitaram uma nova rodada de sanções contra o Irã em vista do cenário criado por Brasil e Turquia.

Putin ainda diz que  empreender ação militar sem aprovação do Conselho pode destruir o mesmo. Certamente isso pode acontecer, mas sabendo que o Conselho vive travado e a própria Rússia faz intervenções militares sem autorização do Conselho fica evidente que Putin não está levando a serio o que diz. Em 2008, a Rússia invadiu a Georgia sem autorização do Conselho alegando que deveria proteger a região separatista da Ossetia do Sul. Putin não quer que os EUA aja sem autorização do Conselho? Não gosto de “teoria da hipocrisia” e não falo disso para justificar porque os EUA devam agir sem autorização do Conselho, mas para descrever a realidade da (des)ordem mundial.

Um possível ataque dos EUA contra a Síria, a despeito da forte oposição de muitas nações e de importantes líderes políticos e religiosos, entre eles o papa, provocaria mais vítimas inocentes e escalada do conflito, e poderia espalhar-se muito além das fronteiras da Síria. Um ataque intensificaria a violência e desencadearia uma nova onda de terrorismo. Ficariam assim comprometidos os esforços multilaterais para a solução do problema nuclear iraniano e o conflito palestino-israelense, com a desestabilizacao do Oriente Médio e do norte da África. E também seria comprometido o equilíbrio de todo o sistema internacional da lei e da ordem.

Não consigo imaginar o papa sendo a favor de nenhum conflito armado. A posição de um líder religioso é trazer palavras de paz e amor e não lidar com a realidade dura e bruta das relações internacionais. Será que o papa é a favor da política russa de combate aos movimentos separatistas na Chechênia? Uma intervenção pode até contribuir para a intensificação do conflito e ajudar ele se espalhar para além das fronteiras Sírias. Mas o conflito já não tem caráter regional? Arábia Saudita, Qatar, Turquia, Irã, Líbano, Israel, etc já não estão envolvidos direta ou indiretamente no conflito? Se ninguém fizer nada, será que o conflito vai ficar contido dentro das fronteiras da Síria? Duvido!

Putin fala de Irã e estabilidade no Oriente Médio: os esforços multilaterais para conter o problema nuclear iraniano são inócuos. Oriente Médio não está desestabilizado? Pelo que me parece essa é a região mais desestabilizada do planeta vivendo um dos seus momentos mais caóticos. Se o que se passa hoje no Oriente Médio não é instabilidade, não consigo imaginar o que seja. Putin quer dar entender que o conflito da Síria é maior do que é, e tem poder de desestruturar a (des)ordem mundial.

A Síria não está testemunhando uma batalha pela democracia, mas um conflito armado entre governo e oposição em um país em que convivem muitas religiões. Há poucos campeões a democracia na Síria. Mas há um número mais do que suficiente de combatentes da Al-Qaeda e de extremistas de todas as tendências lutando contra o governo. O Departamento de Estado americano designou a Frente Nusra e o Estado Islâmico do Iraque e o Oriente Médio, que combatem ao lado da oposição, como organizações terroristas. Esse conflito interno, alimentado por armamento estrangeiro fornecida à oposição, é um dos mais sangrentos do mundo. Mercenários dos países árabes que lutam naquele país e as centenas de militantes procedentes de países do Ocidente e até mesmo da Rússia, são motivo de grande preocupação para nós. Não poderiam retornar aos nossos países com a experiência adquirida na Síria? Afinal depois de lutar na Líbia, os extremistas rumaram para o Mali. Essa é uma ameaça para todos nós. 

Putin está certo: a Síria não está testemunhando uma batalha pela democracia. Mas um dos não campeões da democracia com certeza é o regime ditatorial de Bashar al-Assad. Sem armar a oposição teríamos um genocídio. Quando apenas um dos lados está armado temos um genocídio, quando os dois estão temos uma guerra civil. O último é ruim, mas o primeiro é ainda pior. Esses mercenários sem dúvida podem voltar para lutar em outras frentes, mas não são apenas os mercenários da oposição que podem ganhar experiência, os mercenários do governo de Assad (Hezbollah) sempre lutaram em outras frentes.

Desde o início, a Rússia defendeu o diálogo pacífico a fim de permitir que os sírios criassem um plano de compromisso para o seu futuro. Nós não estamos protegendo o governo sírio, mas a lei internacional. Precisamos usar o Conselho de Segurança da ONU e acreditar que a preservação da lei e da ordem no complexo e turbulento mundo de nossos dias é um dos poucos meios capaz de impedir que as relações internacionais resvalem para o caos. A lei é  ainda a lei e nós devemos obedecê-la, gostemos ou não. Segundo a lei internacional, a força é permitida somente em defesa própria ou por decisão do Conselho de Segurança. Tudo o mais é inaceitável de acordo com a Carta da ONU e constituiria um ato de agressão.

Putin parece um republicano absolutista e defensor convicto do estado de direito. Pena que a Rússia seja um dos países aonde a lei tem menos valor. E seu país também desrespeite as leis internacionais em grande escala. A lei internacional diz que o Conselho tem a responsabilidade de manter a paz e a segurança do mundo. É aceito o uso da força quando a segurança internacional está em jogo. Uso de armas de destruição em massa – na era do terrorismo e no auge da crise do programa nuclear iraniano – é um gravíssimo risco para a segurança internacional. Se a intervenção teria ou não autorização do Conselho é uma outra discussão, mas do ponto de vista legal existe total embasamento para o uso da força. Eu não imagino qual seja a eficácia do diálogo que Putin menciona, porque depois de mais de 2 anos de conflito e mais de 110.000 mortos, usos de armas químicas não me parece que o diálogo esta resolvendo, não é mesmo? Ao contrario!

É alarmante que a intervenção militar nos conflitos internos em outros países tenha se tornado comum para os EUA. Será do interesse dos EUA no longo prazo? Duvido. Milhões de pessoas em todo o mundo já não consideram os EUA um modelo de democracia, mas um país que recorre exclusivamente à força bruta, criando coalizões com base no slogan “ou vocês estão conosco ou contra nós”.

Não sei como Putin classifica algo de “comum”. Os EUA não interviram no Afeganistão, eles foram atacados e responderam legitimamente ao ataque, e ainda tentaram reconstruir o país, sem sucesso. No Iraque houve uma intervenção não autorizada aonde todos concordam que foi um erro. Na Líbia, houve autorização do Conselho de Segurança e não foram os EUA que vieram com a ideia. Ou seja, não me parece que os EUA recorram a força com tanta freqüência. Se isso ocorreu no Iraque, a Rússia também tem a Georgia. Existe um problema grave e real na Síria! Como Putin ou a comunidade internacional sugere lidar com ele? Não existe solução fácil e resposta ideal. Qualquer escolha ali será complexa e terá seu efeito colateral, como tudo na vida. Dialogar não parece estar funcionando.

Putin usa o slogan do Bush, e apesar das críticas à Obama não se pode culpa-lo por dizer: “ou vocês estão conosco ou contra nós”. Ah, se milhões de pessoas já não consideram os EUA um modelo de democracia acho que o mundo deveria estar muito preocupado. Com certeza a democracia dos EUA está longe da perfeição – se é que existe isso – mas eu espero que esses milhões não tenham adotado a China, Rússia, Índia ou Brasil como modelos democráticos.

Discordaria apenas de sua defesa do excepcionalismo americano, quando declara que a político dos EUA é “o que torna os EUA diferentes. É o que nos torna excepcionais, qualquer que seja a razão. Há países grandes e países pequenos, ricos e pobres, os que tem longas tradições democráticas e os que ainda buscam o caminha da democracia. Suas políticas diferentes entre si. Todos nós somos diferentes, mas ao pedirmos as bênçãos do Senhor, não devemos esquecer de que Deus criou todos os homens iguais.

Todos os povos se veem como excepcionais em algum momento. É da natureza humana. Claro que se achar especial ou melhor que o outro sem critérios é perigoso. Mas é obvio que existe algum valor universal que todos os seres humanos buscam e almejam alcançar. Se for dentro dessa categoria é saudável sabermos que que existem pessoas mais elevadas ou evoluídas. A ideia é que apesar de sermos todos iguais na essência, certos valores e comportamentos são mais desejáveis do que outros. É melhor ser honesto do que desonesto. Se o excepcionalismo for fundamento em critérios não acho perigoso, mas desejável. É melhor viver em um mundo aonde temos modelos ou líderes de excelência do que em um mundo aonde somos todos iguais sem norte moral ou ético.

Daqui a pouco a ONU anuncia em seu relatório que houve uso de armas químicas na Síria. Enquanto isso, Obama continua mais perdido do que nunca e os russos vão ditando para onde o mundo deve seguir. Em breve falarei disso.

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