28.02.2012 - 10h30

Falta de autonomia formal do BC eleva ruídos

O Banco Central (BC) brasileiro tem sido absolutamente transparente em seus comunicados recentes. Mesmo assim, os ruídos nos mercados locais têm sido elevados. Há três candidatos que podem explicar a dificuldade em se entender a estratégia do BC.

O primeiro candidato é o arranjo institucional brasileiro. Como não há autonomia formal do BC, eventuais pressões políticas, naturais em qualquer sociedade, têm gerado desconforto no mercado. Há sempre o temor que os políticos forcem um desempenho econômico de curto prazo em detrimento da estabilidade de longo prazo. Neste caso, uma estratégia de convergência lenta da inflação poderá ser confundida com maior tolerância à inflação. Ou, de outra forma, a decisão de o BC alcançar juros de um dígito pode ser vista como uma meta política, ainda que o BC em seus comunicados esteja dando todos os argumentos técnicos para justificar sua estratégia.

Neste ambiente, a recente pesquisa feita pelo BC junto a analistas reforçou os temores dos investidores ao mostrar que a maior parte dos economistas não comprou a idéia de que juros de um dígito possam ser sustentáveis ao longo do tempo. Faltaria produtividade e infraestrutura para taxas mais elevadas de crescimento sem que haja pressão na inflação.

Finalmente, outro ruído que tem sido amplificado pelo nosso quadro institucional é o uso dos instrumentos prudenciais. Diante da elevada liquidez global, é natural que a autoridade monetária tenha que estar atenta aos riscos de excessos do mercado financeiro, apertando a regulação em segmentos específicos. As falhas de regulação nos Estados Unidos, explicitadas com a crise de 2008, mostraram que os BCs precisam atuar para evitar a formação de bolhas, embora seja sempre difícil identificar tais processos. É sabido, da mesma forma, que o uso de instrumentos prudenciais influencia o comportamento da atividade e da inflação e, com isso, a própria gestão de curto prazo da política monetária.

Mas declarações recentes da autoridade monetária têm indicado que o uso de tais medidas faz parte do conjunto de instrumentos de curto prazo da política monetária. Com isso, tem ganhado força a leitura que poderia haver uma troca de instrumentos, com o BC compensando a queda da taxa de juros com o uso de medidas quantitativas. Da mesma forma, como não se conhece qual instrumento prudencial pode ser usado, quando e em que intensidade, a construção de cenários para inflação fica ainda mais complicada, o que dificulta a ancoragem das expectativas.

Nosso grande problema, portanto, é a falta de autonomia formal do BC. Sem ela, a condução de política monetária fica permanentemente sujeita a dúvidas. A decisão de se alcançar a meta de juros de um dígito e o uso de instrumentos prudenciais são as vítimas do momento.

26.02.2012 - 23h16

Convergência da inflação ainda é dúvida

A inflação será fonte de boas noticias ao longo dos próximos meses. O IPCA pode acumular uma alta de 1,55% neste primeiro trimestre, rodando na casa de 0,50 em fevereiro e março. A sazonalidade favorável de vestuário e alimentação, em especial o grupo carnes, deve fazer com que o IPCA se aproxime de 1,35% no segundo trimestre e 1,00% no terceiro trimestre. Da mesma forma, os preços administrados devem ter um bom comportamento (3,8%) por conta do ano eleitoral. Até julho, a inflação mensal deverá seguir em queda e alcançar o patamar de 0,25%.

Apesar deste bom desempenho, no entanto, a convergência em direção ao centro da meta (4,5%) ainda é uma dúvida. A partir do quarto trimestre a inflação pode voltar a se acelerar, acumulando no último trimestre deste ano uma alta de 1,5% e encerrando o ano em 5,5%. Para 2013, é provável uma aceleração suave, fechando o ano em 5,7%.

A causa principal de uma possível não-convergência está no comportamento da inflação de serviços, que pode ter alta de 9,5% neste ano e 10,0% em 2013, acima do que sugere a tendência histórica (7,5%). A inclusão de alimentação fora do domicilio no cálculo da inflação de serviços apenas reforça este cenário, fazendo com que o grupo oscile na casa de 0.80% ao mês.

É possível mostrar estatisticamente que a inflação de serviços é causada pelo desemprego e que, além disso, o comportamento do mercado de trabalho tem sido decisivo para a dinâmica inflacionária. Neste caso, os estímulos fiscais e monetários que têm sido concedidos em um cenário externo de não ruptura devem conduzir a um forte aquecimento econômico, principalmente no terceiro trimestre deste ano. Como resultado, a taxa de desemprego poderá continuar em queda, aproximando-se de seu nível de longo prazo e mantendo a pressão sobre serviços.

Portanto, para que a inflação continue em queda no quarto trimestre e no inicio de 2013, é preciso que o desempenho dos preços de produtos comercializáveis seja favorável o suficiente para compensar a alta esperada em serviços. Ou há um choque de oferta favorável para os preços agrícolas ou uma forte apreciação cambial. Mas como ambas hipóteses parecem pouco prováveis, então a inflação de comercializáveis pode se aproximar de 4,8% e a convergência pode ficar comprometida a partir do segundo semestre deste ano.

24.02.2012 - 08h29

Banco Central terá dificuldades em ancorar expectativas

O Banco Central divulgou ontem o resultado da pesquisa feita junta aos analistas sobre o nível neutro da taxa de juros e sobre a taxa de desemprego de longo prazo. As duas variváveis são construções teóricas, não observáveis na realidade, mas fundamentais para a condução da política monetária.

Se os juros são considerados excessivamente baixos e o mercado de trabalho se mostra muito aquecido, então faz sentido que a inflação se eleve ao longo do tempo. Parece ser esta a visão majoritária dos analistas. Segundo os analistas, os juros reais neutros estão próximos a 5,5%, ou seja, juros nominais de um dígito como já foi indicado pelo Banco Central dificilmente seriam sustentáveis. Da mesma forma, a taxa corrente de desemprego se mostra excessivamente baixa: o desemprego de longo prazo seria próxima a 6,5%, acima do que tem sido observado nos últimos meses.

De acordo com os analistas, portanto, há atualmente estímulos econômicos excessivos, que tende a fazer com que o mercado de trabalho fique ainda mais aquecido. O resultado tende a ser mais inflação e maiores pressões de custos para as empresas. Este consenso tende a criar dificuldades para a condução da política monetária, mesmo tendo a pesquisa mostrado que os analistas também acreditam que os juros neutros devem continuar em queda ao longo dos próximos dois anos.

23.02.2012 - 08h13

Após rally, mercados mostram cautela

Os mercados globais mostraram forte rcuperação. Desde meados de dezembro do ano passado, a alta da bolsa norte-americana alcança cerca de 13%, refletindo a confiança dos investidores em um cenário de não-ruptura na Europa. O Brasil não foi diferente: a bolsa valorizou-se cerca de 20%. De fato, a redução da volatilidade dos mercados tem sido um dos principais fatores para explicar a menor aversão a risco dos investidores.

Este desempenho, no entanto, não deve ter fôlego. Superada as incertezas mais agudas com Europa, os investidores devem reagir a um quadro global de baixo crescimento. Não há motivos econômicos para se trabalhar com alta continua dos preços dos ativos. As análises gráficas reforçam esta visão e mostram preços exagerados em relação ao comportamento histórico. A própria volatilidade de mercado mostra estabilidade ao longo deste mês.

Neste contexto, os investidores devem se tornar mais sensíveis aos dados de curto prazo, marcado ainda por incertezas e ruídos relativamente elevados. Alguma realização pode ocorrer, embora a forte liquidez global impeça quedas expressivas.

20.01.2012 - 14h23

Occupy NY: nosso pálido “maio de 68″

A crise bancária parece ter deixado tudo mais sem graça. Ano passado passei pelo Zuccotti Park e, não fosse a música, mal teria percebido que estava diante do epicentro do occupy NY. A manifestação se espalhou pelo mundo e foi um canal de repúdio aos excessos do mercado financeiro. Os jovens de classe média tomaram de assalto o espaço público de modo espontâneo e criativo. Vários artistas e intelectuais se envolveram: o discurso inflamado de Slavoj Zizek, a música de Ry Cooder e o apoio das celebridades de Holywood lembraram a efervescência de Maio de 68 em Paris.

No “assalto ao céu” da França de 68, os jovens também ocuparam ruas e universidades Da mesma forma, a indignação e as reivindicações eram difusas, não havia lideranças nem organização formal. Assim como hoje, mesmo sem coordenação, houve simultaneidade global. Diferentemente do Occuppy NY, no entanto, o Maio francês foi uma revolução de costumes. A agitação que empolgou uma geração logo se transformou em crise política e, mais importante, em ruptura cultural. Talvez por simbolizar o mal-estar de uma época e o sentimento de inadequação cultural, social e político, contagiou a sociedade francesa: uma greve geral parou o Pais, a desobediência civil suspendeu as instituições por três meses intensos.

Hoje estamos longe de uma ruptura cultural ou de uma “aventura pelo impossível”. A empolgação é muito menor. Enquanto maio de 68 foi uma brecha na história, occupy NY parece ser a reafirmação da própria história: como em toda crise financeira dos últimos séculos, há uma revolta contra políticos e banqueiros, mesmo sabendo que todos tenham se beneficiado da exuberância econômica das bolhas. O movimento é previsível e óbvio. Da mesma forma, a penúria econômica atual não permite o encantamento. Estamos distantes da alegria e leveza do crescimento econômico dos anos 60. É triste, mas o mais próximo que chegamos de maio de 68 foi o occupy NY.

11.01.2012 - 09h57

O Real deve se apreciar ao longo do ano

O final de ano mostrou uma taxa de câmbio bastante descolada dos chamados fundamentos. Enquanto a volatilidade dos mercados globais mostrou queda, permitindo recuperação de bolsas e commodities, a moeda brasileira manteve-se próxima a 1.85. Da mesma forma, chama atenção o fato de o real ter se depreciado mais que o euro, uma região em plena convulsão econômica e financeira. Outras moedas de emergentes mostraram avanços bem mais importantes que o real.

Este descolamento sugere que a moeda brasileira convirja para a média histórica, ou para os fundamentos. Pelo comportamento da cotação ao longo dos últimos, uma referência é o patamar de 1.70. De fato, olhando para as variáveis que tradicionalmente influenciam a cotação da moeda, há razões para apreciação. A estabilidade econômica doméstica (risco soberano), o crescimento esperado para 2012 e taxas ainda elevadas de juros mantém elevada a atratividade do País a fluxos de capitais, em particular investimentos diretos e empréstimos internacionais. Na mesma linha, a China vem afastando o temor de um colapso, o que fortalece o cenário de preços de commodities em ligeira recuperação. A dúvida central é a evolução da crise européia, afetando a volatilidade dos mercados. Nossa visão é favorável: a atuação do BCE, provendo liquidez aos bancos, e a firme convicção política em se promover ajustes fiscais deve fazer com que os problemas continuem restritos a Grécia, Portugal e Irlanda. Itália e Espanha tem uma situação fiscal mais favorável e maior capacidade em se ajustar.

Neste caso, os fundamentos locais e globais devem fazer com que o descolamento atual da moeda brasileira seja corrigido, buscando patamares históricos ao longo do ano.

06.01.2012 - 11h47

Euro deve ficar cada vez mais fraco

O medo de colapso econômico na Europa e as crescentes injeções de liquidez feitas pelo BCE tem feito com que a moeda Européia perca valor em relação às principais moedas negociadas no mercado internacional. Ao mesmo tempo, a confiança em relação à economia norte-americana é crescente, valorizando o dólar globalmente. De fato, apesar de o Euro ter oscilado fortemente nos últimos 3 anos, dentro do intervalo de 1.20/1.50, a cotação média entre 2009 e 2011 foi próxima a 1.35. É provável que a cotação em 2012 oscile ao redor de 1.30 e caminhe em direção a 1.20 nos próximos meses.

Se, por um lado, o aumento da liquidez e as desconfianças com relação à ruptura na Europa implicam uma moeda mais fraca, taxas de juros ainda baixas nos Estados Unidos e a tendência de melhores saldos comerciais na Europa evitam uma queda ainda maior da moeda. No entanto, à medida que o mercado internacional passe a trabalhar com uma normalização da política monetária nos Estados Unidos, o diferencial de juros deverá fortalecer o dolar em detrimento das demais moedas globais, em particular o Euro.

Estatisticamente, o efeito do diferencial de juros é bem mais importante sobre a moeda européia que o diferencial de crescimento. Neste caso, as dúvidas persistentes sobre a capacidade financeira e política da Europa em honrar dívidas associado a possíveis rebalanceamentos nos fluxos globais por conta de uma eventual mudança de viés de política monetária pelo Federal Reserve podem fazer o Euro caminhar para patamares mais baixos. Mas caso este cenário passe a ser visto como provável, então os mercados antecipam os efeitos e o Euro pode ter uma desvalorização mais rápida. A aposta, portanto, é por uma moeda cada vez mais fraca.

05.01.2012 - 09h42

Fundamentos sugerem retomada do crescimento neste ano

Grande parte da desaceleração econômica observada em 2011 está ligada a uma combinação entre restrições fiscais, a partir de 2011, aperto monetário em 2010 e aceleração inflacionária, principalmente após o choque de commodities ao final de 2010. Como resultado, o ritmo de criação de empregos vem sendo reduzido, da mesma forma que a renda real passou a crescer bem menos ao longo dos últimos dois anos. Para completar a perda de ritmo de crescimento local, o quadro de incertezas externas postergou decisões de consumo e investimento a partir do segundo semestre do ano passado.

Todos este fatores devem ser revertidos em 2012. O governo vem relaxando as políticas fiscal e, principalmente, monetária. A inflação, por sua vez, deve ser mais baixa. Finalmente, vai sendo afastado um quadro de colapso na Europa, ainda que fique cada vez mais claro um cenário de baixo crescimento ao longo dos próximos anos. Tudo considerado, a renda real deve mostrar trajetória de recuperação, ajudada pelo ritmo ainda favorável do crédito. As implicações são claras: o crescimento do comércio deve se acelerar e a indústria pode mostrar alguma retomada.

03.01.2012 - 14h31

Meta fiscal não é garantia de crescimento maior e juros menores

Tem sido comum, dentro e fora do governo, a tese de que o governo optou por uma nova combinação de política, definida por uma política fiscal mais dura que permita juros mais baixos.

Alcançar a meta fiscal de curto prazo contribui, de fato, para menor pressão sobre a taxa de juros. A responsabilidade fiscal, principalmente em uma época de crise fiscal no mundo, reforça as condições de solvência de dívida, favorece a estabilidade de regras, atrai investimentos e reduz o crescimento econômico excessivo. Não há dúvida que o novo governo tem melhorado a posição fiscal do País.

Mas ainda que cumprir a meta fiscal do ano seja um fator inequivocamente positivo, a política fiscal dificilmente conduzirá a juros significativamente menores e crescimento estruturalmente mais forte. De fato, mesmo com novos cortes que deverão ser feitos a partir da Lei Orçamentária aprovada no Congresso, as despesas do governo continuarão muito elevadas. Como resultado, é provável que o governo mantenha a elevada carga tributária para sustentar uma trajetória de queda de dívida. O padrão dos últimos anos é um aumento na arrecadação de impostos que supera várias vezes o próprio crescimento econômico.

Deste modo, a combinação de consumo público elevado, baixos investimentos do governo, pesada e complexa carga tributária desestimula investimentos privados, reduzindo a capacidade de crescimento da economia. O resultado é conhecido: inflação e juros elevados.

Ainda que haja motivos para comemorar a responsabilidade fiscal no Brasil, portanto, será preciso um longo caminho para que o País avance em regras fiscais e caminhe para uma política fiscal de melhor qualidade que privilegie o crescimento e permita juros mais baixos.

15.12.2011 - 09h56

Riscos com inflação devem limitar corte nos juros

A pesquisa que o Banco Central (BC) faz com os analistas do mercado financeiro indica que a maior parte dos economistas acredita que o BC tenha se tornado mais tolerante à inflação ou, na melhor das hipóteses, tenha adotado uma estratégia de convergência mais lenta da inflação em direção à meta.

A razão principal é que o Banco Central iniciou um processo de corte da taxa de juros com as expectativas de inflação acima da meta. Os próprios modelos do BC não deixam claro se cortes adicionais nos juros não implicarão uma inflação acima da meta no ano que vem. Justamente por isso, ganhou espaço a tese de que as decisões de política monetária obedecem a metas políticas.

As ações mais amplas de estímulo econômico (política fiscal e bancos públicos), no entanto, devem elevar o risco inflacionário e fazer com que o BC seja cada vez mais conservador na condução da política monetária. Diferentemente do que foi indicado no início do ano, a combinação de política não deverá permitir ao BC cortes mais agressivos na taxa de juros. Apesar das desconfianças do mercado, portanto, o BC continua atento aos riscos de inflação e poderá dar sinais de crescente conservadorismo.