16.04.2012 - 09h49

Mercados corrigem excesso de otimismo

Os investidores mostraram euforia em janeiro e fevereiro ao se confirmar um cenário de não-colapso financeiro e institucional na Europa. Esta euforia, no entanto, dificilmente poderia ter continuidade. O crescimento global continua fraco e a Europa ainda será fonte de ruídos por muito tempo.

Dadas as incertezas ainda presentes na economia global, o comportamento de preços a partir de agora deverá ser mais técnico que fundamental: na ausência de novidades econômicas relevantes nos próximos meses, os preços de ativos devem operar dentro de intervalos, com os investidores atentos a distorções de preços.

De fato, os mercados ajustaram os níveis de volatilidade a um ambiente de incertezas difusas ainda elevadas. O indicador VIX tem operado mais próximo ao nível de 20 que ao patamar de 15. Não apenas os indicadores recentes da economia norte-americana têm trazido frustração aos analistas, mas a Espanha continua mantendo a crise européia no radar. O CDS espanhol atingiu a máxima histórica, operando próximo a 500 bps, e há ainda muitos ruídos em relação à saúde dos bancos europeus.

28.03.2012 - 09h16

Bolsas: atento às oportunidades

Depois da alta puxada pela elevada liquidez global neste inicio de 2012, o mercado de ações deve entrar em uma fase bastante técnica. Há diversos fatores que indicam que o ritmo de valorização recente nos mercados dificilmente será mantido, o que implica que os investidores devam estar mais atentos a oportunidades de mercado.

Processos de rápida correção de preços podem trazer exageros. Parece ser este o caso agora: desde meados de dezembro de 2011, o SP500 subiu aproximadamente 22%, com o Ibovespa acompanhando o movimento global e registrando uma alta próxima a 24%.

Mais importante, parte da valorização recente das bolsas pode estar associada ao comportamento da volatilidade global. Com a redução da probabilidade de ruptura nos mercados, a volatilidade caiu de modo relevante, destravando parte da liquidez empoçada. Há, no entanto, pouco espaço para novas quedas na volatilidade, que já opera em patamares historicamente baixos. Superadas as incertezas mais agudas em relação à Europa e à China, a questão agora é identificar o fôlego da recuperação global.

Por este aspecto, os sinais são confusos, uma vez que a desalavancagem de governos e famílias deverá reforçar as condições ainda frágeis de renda e crédito nas economias centrais. Da mesma forma, a China caminha para taxas mais baixas de crescimento, o que tem gerado ruídos devido ao peso da Ásia na economia mundial. Da mesma forma, novas altas poderiam vir pelo aumento de liquidez no mundo. Um novo programa de afrouxamento quantitativo nos Estados Unidos, no entanto, parece pouco provável.

Neste caso, vem sendo construído relativo consenso entre analistas de que não há uma tendência de valorização. Justamente por isso, a melhor estratégia é estar atento a oportunidades.

26.03.2012 - 11h41

Brasil: pleno emprego com baixo crescimento

Há algum tempo o crescimento brasileiro vem sendo marcado por duas velocidades. Por um lado, há forte consumo doméstico. Por outro, o desempenho industrial continua fraco, o que leva a um ambiente paradoxal de baixo crescimento associado a pleno emprego.

Com um menor risco de ruptura global, a confiança de consumidores e empresários continua elevada no Brasil. Além disso, o governo vem concedendo fortes incentivos de política econômica, com cortes nos impostos, aumento dos gastos públicos e redução da taxa de juros. De fato, a taxa de desemprego dos últimos meses está muito próxima ao nível de longo prazo ou pleno emprego, que estimamos no patamar de 5,5%. Como resultado, as condições de renda real permanecem favoráveis, com impactos favoráveis sobre a inadimplência e a expansão do crédito doméstico.

No entanto, as precárias condições de produção impedem que a oferta acompanhe a expansão da demanda domestica. Com câmbio apreciado e, principalmente, custos de produção elevados – carga tributária pesada, mão-de-obra, energia e transporte caros, a indústria não consegue atender ao consumo local, perdendo espaço para os produtos importados.

A implicação prática deste cenário é que os indicadores serão de difícil leitura: alguns números irão mostrar uma economia fraca, como PIB e indústria, mas o mercado de trabalho continuará apontando para um crescimento excessivo do consumo local.

21.03.2012 - 11h34

Gasolina: há incentivos para reajuste

As cotações do petróleo têm se elevado ao longo dos últimos quatro meses, impulsionando os preços internacionais de gasolina. Como resultado, a defasagem entre preços domésticos e internacionais do combustível se ampliou, aumentando a pressão para que a Petrobras reajuste seus preços internos.

Calcular a defasagem não é um exercício simples e, por isso mesmo, pouco preciso. Um exercício feito pelo economista Bruno Surano mostra que a defasagem pode estar oscilando ao redor de 10%. Este resultado foi feito a partir da comparação entre preços médios da gasolina pura – sem etanol e sem impostos – cobrados pela Petrobras com os preços internacionais praticados no golfo do México, sem frete.

Ainda que esta não seja a maior defasagem já registrada nem a mais longa, o reajuste pode, de fato, ocorrer. As perdas da Petrobras ocorrem em um momento em que a empresa se prepara para grandes investimentos. Além disso, um eventual reajuste de preços pode ser compensado pelo aumento da proporção de etanol na gasolina vendida ao consumidor e pela redução de impostos (CIDE). Dependendo da combinação que for feita, o impacto final sobre a inflação pode ser de até 0,2 pontos percentual no IPCA do ano.

Por último, este impacto na inflação pode ser acomodado tanto pelo comportamento mais favorável do IPCA neste início de ano quanto pela contribuição favorável de outros preços administrados. Os incentivos sugerem, portanto, que o reajuste venha.

19.03.2012 - 10h57

Indústria reflete desafios do País

Os jornais têm dado destaque nos últimos dias à preocupante situação da indústria brasileira. E há, de fato, motivos para preocupação. Mesmo com o crescimento esperado para a indústria ao longo dos próximos meses, a retomada deverá ser insuficiente para que a produção industrial supere o fraco desempenho registrado em 2011. É provável que o desempenho da indústria em 2012 seja ainda pior que a estabilidade registrada no ano passado, mostrando queda neste ano de cerca de 1,0%.

Há fatores cíclicos que abrem espaço para a recuperação, tais como estoques e confiança do empresário. A demanda externa e a falta de competitividade, no entanto, deverão impedir taxas mais robustas de crescimento. Considerando que a atividade econômica global continuará fraca em boa parte de 2012, então parece provável que as exportações de produtos manufaturados sejam um limitador para a recuperação da produção doméstica. Mais importante, o fraco desempenho industrial pode estar associado mais aos elevados custos de produção domésticos do que ao comportamento de juros e câmbio. Meu colega Alexandre Andrade mostrou, estatisticamente, que o custo unitário da mão de obra é a principal variável para explicar o comportamento da produção industrial.

Neste caso, os incentivos fiscais e monetários dados pelo governo ajudam a reduzir estoques e elevar a confiança. Por outro lado, colocam ainda mais pressão no mercado de trabalho, reforçando a trajetória de alta nos custos de mão-de-obra registrada desde 2010. Vai ficando claro que, mais que juros e câmbio, a indústria sofre com custos elevados de produção.

15.03.2012 - 18h06

Banco Central indicou fim do ciclo de queda nos juros

A ata do Copom deu sinais claros e cautelosos com relação aos próximos passos da política monetária. Muito provavelmente a taxa irá alcançar o patamar de 9,0% ao ano na reunião de abril, encerrando o ciclo de afrouxamento monetário.

Pela leitura da ata, o ritmo de corte pode ser mantido na próxima reunião pelo fato de o risco inflacionário continuar em queda. A inflação projetada para este ano, em particular, está abaixo da meta segundo o cenário de referência do Banco Central (BC). Além disso, os dados locais de curto prazo de atividade industrial e inflação, em conjunto com um cenário econômico global ainda com viés desinflacionário, contribuem para a ancoragem das expectativas.

No entanto, o comportamento do mercado de trabalho, a evolução do crédito público e as projeções da inflação para 2013 são fatores que sugerem cautela, o que pode ter permitido ao BC indicar de modo bastante claro o final do processo de afrouxamento monetário.

12.03.2012 - 09h44

Baixo crescimento global deverá orientar mercados

Apesar do relativo alívio com Europa, os investidores têm mostrado alguma preocupação com o crescimento global ao longo das últimas semanas. Os últimos dados econômicos da China sugerem, de fato, uma perda de ritmo: indústria, comércio e exportações vieram abaixo do consenso.

Mais que os números, as divulgações de China são um sinal de que a agenda dos investidores migra de uma preocupação de crise aguda para uma crise crônica. Neste caso, a volatilidade não deve mostrar o mesmo recuo dos últimos meses e o espaço para se repetir o rally recente é cada vez menor, ainda que a liquidez global se mantenha elevada.

Justamente por conta deste novo cenário, o SP500 mostra ao longo das últimas duas semanas sinais de alguma acomodação. A bolsa brasileira tem se estabilizado no patamar de 66 mil pontos no último mês. Sem espaço para grandes avanços no índice, os mercados devem ficar cada vez mais técnicos.

06.03.2012 - 09h28

Banco Central formalizou sua nova estratégia

O Banco Central publicou um trabalho de um de seus diretores, Luis Awazu Pereira, que sugere um novo modelo de condução da política monetária. O texto é “Sudden floods, macroprudention regulation and stability in an open economy”.

Segundo este trabalho, em um mundo caracterizado pela elevada liquidez, os bancos centrais podem usar outros instrumentos de política que não apenas a taxa de juros. A idéia é que diante do súbito aumento de liquidez global e das preocupações que este cenário gera sobre preços de ativos – como o câmbio – e sobre a estabilidade financeira, o papel da regulação bancária anticíclica tende a ser reforçado e pode mitigar os efeitos dos influxos de capitais.

A racionalidade está no fato de que a manutenção de juros elevados reforça os ingressos de capitais e, com isso, estimula ainda mais o crédito, o crescimento e eleva os riscos inflacionários. Em momentos como o atual, instrumentos prudenciais complementares à taxa de juros podem ser mais apropriados para manter a estabilidade econômica.

Esta estratégia, no entanto, não está livre de custos. Segundo o trabalho, a utilização da regulação bancária como instrumento de gestão de política de curto prazo pode atrapalhar a ancoragem das expectativas de inflação. De fato, sem saber com segurança quais instrumentos podem ser utilizados, em que momento e com que intensidade, os analistas dificilmente poderão estimar o comportamento da inflação.

01.03.2012 - 09h57

Bernanke colocou água na fervura

O discurso de Ben Bernanke no Congresso norte-americano indicou que o FED não tem intenção de implementar um novo programa de afrouxamento quantitativo. O sinal faz sentido. Sem um colapso financeiro e institucional na Europa, a probabilidade de uma forte queda na bolsa americana também se reduz. Neste caso, o FED não precisa intervir para sustentar preços de ativos e, com isso, a riqueza e a confiança nos Estados Unidos.

Da mesma forma, a forte liquidez global, a alta recente nos preços das commodities, em particular o petróleo, e os patamares mais elevados de inflação nos Estados Unidos tendem a reduzir a eficácia de um novo programa de afrouxamento quantitativo. Quanto mais o banco central norte-americano injeta recuros no mercado, maior a inflação e, portanto, menor o poder aquisitivo do consumidor nos Estados Unidos. Além disso, mais inflação no mundo implica menor crescimento global, o que é ruim para as exportações norte-americanas. Neste caso, os efeitos positivos de uma eventual desvalorização do dolar perde efeito.

Diante deste cenário, há cada vez menos fundamentos para se imaginar que o rally registrado nos mercados desde o final do ano passado tenha fôlego. Bernanke colocou água na fervura.

01.03.2012 - 09h40

Atuação do governo reforça estabilidade cambial

Há fortes e insistentes rumores de que o governo adotará novas medidas contra fluxos de capitais. Além das atuações do Banco Central, o governo poderia voltar a taxar, com IOF, as aplicações do investidor estrangeiro em renda variável (2%) e passar a taxar o investimento estrangeiro direto, inibindo com isso os empréstimos intercompanhia. Além disso, o governo já anunciou a taxação de IOF (6%) para captações externas de até três anos, estendendo a regra anterior que contemplava a incidência sobre captações de até dois anos.

A postura do governo reforça nosso cenário de relativa estabilidade da moeda brasileira. A despeito da redução da volatilidade global e do aumento da liquidez internacional, alguns fatores sugerem que o BRL possa oscilar ao redor de 1,70 em 2012 e 2013. Dentre os fundamentos mais importantes estão a redução da taxa de juros local, a retomada lenta dos preços das commodities e o pior desempenho do Balanço de Pagamentos.