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	<title>O Mar é minha Terra</title>
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		<title>Filme sobre a viagem Rota Austral</title>
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		<pubDate>Tue, 17 Apr 2012 22:09:46 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Beto Pandiani</dc:creator>
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		<description><![CDATA[São sete partes do filme Rota Austral, a segunda grande viagem que fiz juntamente com Gui von Schmidt, Felipe Tommazzi, e Santiago Iza. Foram 170 dias de viagem. Partimos de Puerto Montt e descemos a gelada costa do Chile até &#8230; <a href="http://exame.abril.com.br/rede-de-blogs/o-mar-e-minha-terra/2012/04/17/filme-sobre-a-viagem-rota-austral/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>São sete partes do filme Rota Austral, a segunda grande viagem que fiz juntamente com Gui von Schmidt, Felipe Tommazzi, e Santiago Iza. Foram 170 dias de viagem. Partimos de Puerto Montt e descemos a gelada costa do Chile até o lendário Cabo Horn. Depois veio a Patagônia argentina com seus fortes ventos, mar aberto, ondas imensas e costa inóspita. Tudo isso em dois barcos sem cabine.</p>
<p>Boa navegada:http://www.youtube.com/watch?v=20Q2Pf81K8E&amp;feature=endscreen&amp;NR=1</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><a href="http://exame.abril.com.br/rede-de-blogs/o-mar-e-minha-terra/files/2012/04/000084.jpg"><img class="size-medium wp-image-1502 aligncenter" src="http://exame.abril.com.br/rede-de-blogs/o-mar-e-minha-terra/files/2012/04/000084-300x203.jpg" alt="" width="300" height="203" /></a></p>
<p>&nbsp;</p>
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		<title>Para que serve uma tempestade?</title>
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		<pubDate>Fri, 09 Mar 2012 15:20:06 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Beto Pandiani</dc:creator>
				<category><![CDATA[Sem categoria]]></category>

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		<description><![CDATA[Esta é uma premissa que deveríamos ter em mente. Ao se lançar ao mar, o marinheiro deve saber aonde quer chegar, e ele tem isso bem claro. Também sabe o seu propósito ao partir. Ao encontrar uma tempestade no meio &#8230; <a href="http://exame.abril.com.br/rede-de-blogs/o-mar-e-minha-terra/2012/03/09/para-que-serve-uma-tempestade/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Esta é uma premissa que deveríamos ter em mente. Ao se lançar ao mar, o marinheiro deve saber aonde quer chegar, e ele tem isso bem claro. Também sabe o seu propósito ao partir.<br />
Ao encontrar uma tempestade no meio do caminho, suas habilidades vão ser testadas ao limite, e aonde o mar encontrar a sua fraqueza, lá será travado uma batalha. Passado o mau tempo, um dia o barco chegará ao porto seguro. Feliz e com um forte sentimento de vitória, o marinheiro olhará para trás e agradecerá ao mar. Sabemos que bons marinheiros são forjados nos mares tempestuosos, e por saber disso ele reconhece a oportunidade e agradece.<br />
Ele sabe que a tormenta tem um propósito, e ele sabe do seu também. Se não fosse o caos, quem daria a ele a referência e a noção do melhor? Como ele aprenderia a lidar com o imponderável? Como ele poderia dormir no aconchego da sua cama, ou mesmo dar valor a um prato quente de comida?<br />
Em certo momento da vida do navegador, ele para de julgar o mar, o vento forte, a marejada, os cortes nas mãos e as noites mal dormidas. Ele simplesmente aceita tudo, e aprende que cabe a ele buscar seus recursos internos e toda sua experiência para viver a vida entre os elementos. Sem viver o caos, nunca aprenderia sobre o discernimento, e sem o discernimento ele jamais saberia como fazer suas escolhas e assim nunca saberia como tomar uma decisão, e sem tomar decisões, ele jamais chegaria onde ele sabe que tem que chegar.<br />
Navegamos muitas vezes sem rumo, esquecemos onde queremos chegar, e nos negamos a vivenciar todas as experiências, por simplesmente não entendermos a natureza dos acontecimentos. Por isso quando o caos se apresenta nos apressamos em julgá-lo, desconsiderando tudo que ocorreu anteriormente.</p>
<p>Julgamos quem nos fere, julgamos o mundo, julgamos os que erram nos julgamos, e nos esquecemos que a dificuldade mora ao lado da superação, pois ela tem a tarefa de nos dar a referência de onde estamos e de onde podemos chegar.</p>
<p>Para idealistas a zona de conforto representa a interrupção da construção de um caminho. Todo barco que parte tem que chegar.</p>
<div id="attachment_1401" class="wp-caption alignnone" style="width: 310px"><a href="http://exame.abril.com.br/rede-de-blogs/o-mar-e-minha-terra/files/2012/03/194.jpg"><img class="size-medium wp-image-1401" src="http://exame.abril.com.br/rede-de-blogs/o-mar-e-minha-terra/files/2012/03/194-300x199.jpg" alt="" width="300" height="199" /></a><p class="wp-caption-text">Tempestade chegando, Travessia do Pacífico, foto Igor Bely.</p></div>
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		<title>Solidão, o que escrevi no livro da vida</title>
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		<pubDate>Tue, 17 Jan 2012 13:19:44 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Beto Pandiani</dc:creator>
				<category><![CDATA[Sem categoria]]></category>

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		<description><![CDATA[Olá amigos, vou me expressar em relação a uma emoção que talvez seja mal compreendida por muitos. O que é solidão? Quando a vida me ofereceu uma oportunidade de escolha diante de um conflito e eu optei por ser reativo e &#8230; <a href="http://exame.abril.com.br/rede-de-blogs/o-mar-e-minha-terra/2012/01/17/solidao-o-que-escrevi-no-livro-da-vida/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Olá amigos, vou me expressar em relação a uma emoção que talvez seja mal compreendida por muitos.<br />
O que é solidão? Quando a vida me ofereceu uma oportunidade de escolha diante de um conflito e eu optei por ser reativo e não amoroso, isso me levou para um lugar deserto. Sempre que fui reativo senti a tristeza tomar conta de mim, e isso me empurrou para o abismo da solidão.</p>
<p>Outra situação que me fez sentir só, foi quando abandonei a minha conexão espiritual e vivi a vida dos homens, a vida na programação, achando que a vida era somente o que enxergava. Nestes momentos normalmente tentamos encontrar alguém para preencher este buraco, achando que é a falta de um amor que nos deixa infeliz. Esta foi uma ilusão que vivi. Abandonar a alma é que me levou a solidão.</p>
<p>Estar só e se sentir abandonado também é uma ilusão, e isto pode estar ligado a baixa estima. Quando não nos conhecemos é difícil se gostar. Quando você sabe quem é e conhece seu propósito não pode mais se sentir só.<br />
Posso dizer que vivi muito tempo só, não somente no mar. Nas viagens não sinto solidão, sinto solitude. Solitude é a comunhão entre eu e a vida. Foi quando a minha natureza interna se encontrou com a natureza externa. Foi isso também que aprendi no mar.</p>
<p>Me senti na solidão quando me abandonei, quando não fui fiel ao meu coração, quando escolhi o caminho menos amoroso, quando tomei a decisão do ego. Enfim, a SOLIDÃO aconteceu quando fui morar longe de mim. SOLIDÃO É UM LUGAR QUE NOS FAZ SENTIR SAUDADES DE QUEM SOMOS!<br />
Esqueram de você ou foi você que se esqueceu de você?</p>
<div id="attachment_1301" class="wp-caption alignnone" style="width: 310px"><a href="http://exame.abril.com.br/rede-de-blogs/o-mar-e-minha-terra/files/2012/01/018.jpg"><img class="alignnone size-medium wp-image-1321" src="http://exame.abril.com.br/rede-de-blogs/o-mar-e-minha-terra/files/2012/01/018-300x197.jpg" alt="" width="300" height="197" /></a><p class="wp-caption-text">Foto Maristela Colucci, Rota Boreal.</p></div>
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		<title>Qual o verdadeiro tamanho do mundo?</title>
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		<pubDate>Fri, 16 Dec 2011 12:44:38 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Beto Pandiani</dc:creator>
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		<description><![CDATA[&#160; &#160; Um dia pensei: será possível conhecer o tamanho verdadeiro do mundo? Já que estou morando temporariamente neste belo planeta, por que não explorá-lo,conhecer sua gente, seus hábitos, sua cultura, seu modo de pensar e seus valores? Resolvi tentar &#8230; <a href="http://exame.abril.com.br/rede-de-blogs/o-mar-e-minha-terra/2011/12/16/qual-o-verdadeiro-tamanho-do-mundo/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>&nbsp;</p>
<div id="attachment_1221" class="wp-caption alignnone" style="width: 310px"><a href="http://exame.abril.com.br/rede-de-blogs/o-mar-e-minha-terra/files/2011/12/0000045.jpg"><img class="size-medium wp-image-1221" src="http://exame.abril.com.br/rede-de-blogs/o-mar-e-minha-terra/files/2011/12/0000045-300x203.jpg" alt="" width="300" height="203" /></a><p class="wp-caption-text">Foto: André Andrade. Ave em uma ilha na Amazônia. Viagem Entre Trópicos</p></div>
<p>&nbsp;</p>
<p>Um dia pensei: será possível conhecer o tamanho verdadeiro do mundo? Já que estou morando temporariamente neste belo planeta, por que não explorá-lo,conhecer sua gente, seus hábitos, sua cultura, seu modo de pensar e seus valores?</p>
<p>Resolvi tentar e comecei pelas Américas. Corri regatas de hobie cat durante muitos anos e, por motivos óbvios, escolhi</p>
<p>o barco a vela para me lançar ao mar pela primeira vez para uma viagem de longa distância. A essa viagem seguiram-se muitas, todas motivadas pelo mesmo espírito aventureiro da primeira.</p>
<p>Um barco a vela proporciona uma relação interessante entre navegador e embarcação. Por exemplo, quando navegava pelos rios amazônicos, bem próximo à margem, podia observar a paisagem em detalhes. O deslocamento do barco, quase imperceptível, permitia até contar árvores. Deslizava a uma velocidade que ensejava à natureza humana poder observar e usufruir um lugar, tal qual em terra faria um zen-caminhante.</p>
<p>Comecei a refletir sobre essa relação entre tempo e espaço e descobri que perdemos totalmente a noção de distância quando andamos de avião ou mesmo de carro, ou seja, num barco a vela, eu poderia realmente vivenciar o deslocamento, torná-lo proporcional ao meu esforço e ser absorvido pela experiência de estar ali, interagindo com o meio ambiente, me expondo aos elementos do entorno.</p>
<p>Talvez exista um meio melhor de viajar do que em um pequeno barco sem cabine. Sem dúvida isso depende do objetivo. Mas foi ele mesmo, um pequeno barco a vela sem cabine, que elegi para minhas viagens. Hoje sei que foi a melhor escolha. Ao fechar os olhos, posso relembrar cada contorno que a costa americana desenha sobre o mar. Jamais vou me esquecer da imponência do delta do rio Amazonas; da beleza selvagem do recortado sudoeste do Chile; da cor turquesa exuberante das ilhas Exumas, nas Bahamas, com seus bancos de coral; da pureza da Antártica; das majestosas montanhas da costa do Labrador; do mágico fiorde da Eternidade, na Groenlândia, e da beleza de Ilhabela, meu porto seguro.</p>
<p>Quando parti pela primeira vez, logo notei que não era só o mar que me atraía.</p>
<p>Minha intuição me guiou para as mais significativas experiências que já tive e nem sonhava existir. Foram encontros e despedidas, situações de perigo e insegurança, mas incontáveis momentos de deslumbramento e aprendizado. Foi no mar que senti pela primeira vez o gosto da comunhão com a Natureza. Foi durante essas viagens que encontrei razões para desfazer-me da percepção de que o ser</p>
<p>humano “não vale a pena”, pois, distante do massacre diário dos meios de comunicação em forma de tragédias, violência e corrupção, tudo se clareou e experimentei outros aspectos do homem, pouco explorados pela mídia.</p>
<p>Meus preconceitos foram dissolvidos pela generosidade que provei, muitas vezes literalmente, compartilhando alimento, respeito, carinho humano, espírito cooperativo. Por onde passei deixei lembranças e levei saudades, num eterno chegar e partir. Quase todos os dias havia alguém acenando para nós em alguma praia desta linda e vasta América. Incontáveis vezes me emocionei com encontros únicos, que nunca mais iriam se repetir. Foi um exercício diário de morrer e nascer, um treino para me tornar um pouco mais desprendido. Mesmo assimsinto que essas pessoas fazem parte da minha família, uma imensa família. Essa bagagem afetiva, que carrego sempre e para todo lugar, além de não pesar nada, não é perecível.</p>
<p>Por mais solitárias que sejam as viagens, nenhum sentimento de solidão me tomou, talvez graças à certeza e à coragem de abrir mão de muitas coisas da vida que eu levava para simplesmente navegar com o vento. Tive que aprender a viver com o medo de fracassar, com a incerteza da chegada ao fim de um dia difícil no mar, entre outros sentimentos que nos assaltam quando enfrentamos praticamente sozinhos as manifestações da Natureza. Mas a sede por aventuras, pelo desconhecido, sempre foi mais forte; além disso, meu coração me dizia que esse mergulho me levaria por um caminho de profundas descobertas pessoais. Essa vivência me fortaleceu internamente e hoje continuo me entregando à minha maior aventura, à maior viagem de todas: a busca de saber quem sou eu.</p>
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		<title>Onde mora a informação?</title>
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		<pubDate>Tue, 22 Nov 2011 14:59:49 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Beto Pandiani</dc:creator>
				<category><![CDATA[Sem categoria]]></category>

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		<description><![CDATA[&#160; O que significa a palavra informação? Fui buscar a palavra no dicionário e como quase tudo vem do latim. Significa delinear, conceber uma idéia. Exatamente o que precisava ouvir, pois neste momento estou delineando uma idéia, concebendo uma viagem &#8230; <a href="http://exame.abril.com.br/rede-de-blogs/o-mar-e-minha-terra/2011/11/22/onde-mora-a-informacao/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>&nbsp;</p>
<p><em><br />
</em></p>
<div id="attachment_1001" class="wp-caption alignnone" style="width: 650px"><a href="http://exame.abril.com.br/rede-de-blogs/o-mar-e-minha-terra/files/2011/11/Image027.jpg"><img class="size-full wp-image-1001" src="http://exame.abril.com.br/rede-de-blogs/o-mar-e-minha-terra/files/2011/11/Image027.jpg" alt="" width="640" height="426" /></a><p class="wp-caption-text">Foto Thomas Scheidt, Atlantic 1000, regata na costa lesta americana.</p></div>
<p><em>O que significa a palavra informação? </em></p>
<p><em>Fui buscar a palavra no dicionário e como quase tudo vem do latim. Significa delinear, conceber uma idéia. Exatamente o que precisava ouvir, pois neste momento estou delineando uma idéia, concebendo uma viagem que ainda não me dá a segurança de poder afirmar se é possível realizá-la. Para eu poder ter segurança em partir preciso de muitas informações, e pergunto, onde mora a informação? </em></p>
<p><em>Muitas vezes no nosso focinho. Achamos que ela esta distante, ou podemos ter a crença de que ela nem existe, mas com um pouco de insistência e criatividade podemos encontrá-la.</em></p>
<p><em>O navegador moderno não se debruça mais somente sobre mapas como faziam os grandes navegadores antigamente, pois hoje temos uma poderosa ferramenta a disposição de todos, a internet. Hoje temos todas as cartas digitalizadas e com um clique pode-se ver com detalhes qualquer entrada de baia no Mar de Bering por exemplo. A informação esta disponível para todos, e isso é muito democrático. </em></p>
<p><em>Para a minha atividade o Google Earth é uma das mais geniais ferramentas e pela tela do meu computador aqui em pleno bairro do Itaim, onde fico no meu escritório, tenho viajado longe, passo horas navegando em águas geladas, explorando vilarejos no Ártico, pesquisando sobre passagens e a anatomia de praias que espero um dia pode pisar. Através do Panoramio, site de fotos do Google Earth pode-se ver o que viajantes do mundo todo postaram nos lugares mais improváveis do planeta.</em></p>
<p><em> Como todos sabem que gosto mesmo é de navegar no mar e com um bom planejamento pode-se ir bem longe. Isto é o que tem se repetido pelos últimos anos. Agora na net navego atrás de informações e foi o que aconteceu comigo há algum tempo atrás.</em></p>
<p><em> Procurando por expedições polares na Passagem Noroeste descobri várias viagens de veleiros que disponibilizam em seus sites fotos, diários e mapas. Para mim que quer viajar por uma região tão distante da nossa ficaria bem difícil levantar informações e não fosse a internet ia demorar muito mais. Do jeito antigo teria que comprar livros, cartas náuticas e Cartas Piloto (são informações sobre ventos, correntes, acidentes geográficos documentados em um livro). </em></p>
<p><em>Continuei minha pesquisa e descobri uma viagem que foi começada no ano retrasado e foi recomeçada em julho de 2010. O que me chamou a atenção é que os dois ingleses que se aventuraram pelo norte estão usando um barco a vela sem cabine e com remos, algo bem parecido com o queremos usar visto pelo aspecto da rusticidade da viagem. Apesar da viagem deles ser apenas um pequeno trecho da nossa, eles estão passando por uma região muito crítica, talvez uma das piores, pois tiveram que enfrentar águas congeladas, foram obrigados a arrastar o barco por cima de banquisas de gelo, dormiram acampados em praias ermas, tiveram a companhia de ursos polares e ficaram expostos ao frio intenso. </em></p>
<p><em>Mandei um e-mail para o Kevin Oliver, um dos tripulantes e o e-mail voltou.  Fiquei vários dias tentando outra forma de contato sem sucesso. Um dia à noite acordei pensando neles e dei um pulo da cama. Tive a idéia de procurar o fabricante do barco e tentar saber se ele tinha o contato do Kevin. Deu certo e o Kevin Jeffrey fabricante do NORSEBOAT copiou o Kevin Oliver me apresentando. Em cinqüenta e quatro minutos recebi um caloroso e-mail do navegador inglês. Como havia me apresentado ao fabricante do barco enviando um link do meu site e explicando as minhas intenções e justificando porque precisava falar com o Kevin, fui logo reconhecido como alguém da sua família, outro velejador sedento por explorações no Mar do Ártico.</em></p>
<p><em>O que eu não esperava era falar com uma pessoa que esta no meio da guerra do Afeganistão. Ele ainda se desculpou por não ter uma conexão de internet muito boa e também não poder ficar mais tempo comigo discorrendo sobre as dificuldades da sua viagem. A segunda surpresa veio no anexo da mensagem, o seu projeto com todos os detalhes do estudo e tudo que foi observado durante os quarenta e dois dias de viagem no Ártico.</em></p>
<p><em>Posso dizer que em dois e-mails deu para sentir quem é o Kevin. Não tenho dúvidas que ele faz parte das pessoas generosas que tenho tido a felicidade de encontrar pelo caminho. Com este documento em mãos comecei a pensar a logística da viagem com mais precisão. Ajudou-me a começar a responder as dezenas de perguntas que tenho que responder para mim mesmo. A viagem começa e se delinear de maneira mais concreta.</em></p>
<p><em>Agora estou fazendo um levantamento da média de temperaturas para os meses do verão, as médias de força e direção de vento e o mais importante, o movimento do gelo. Pelo histórico o mês de julho é quando a passagem começa a se abrir e setembro é quando volta a fechar.</em></p>
<p>Em 2013 espero estar por volta de abril em Vancouver para realização da oitava viagem, a sétima é no ano que vem Capetown ao Rio de Janeiro.</p>
<p><em>Agora tenho um amigo no Afeganistão e quando ouço alguma noticia sobre ataques de Talibãs penso no Kevin. Abraço a todos.</em></p>
]]></content:encoded>
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		<title>Como sobreviver a uma tempestade</title>
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		<pubDate>Thu, 03 Nov 2011 13:23:25 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Beto Pandiani</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Quando me apresentam socialmente é difícil não me associarem a um aventureiro, e de bate pronto respondo: “aventureiro é quem mora em São Paulo”. Faço isso sempre em tom de brincadeira. Prefiro ser chamado de velejador, pois a palavra aventureiro &#8230; <a href="http://exame.abril.com.br/rede-de-blogs/o-mar-e-minha-terra/2011/11/03/como-sobreviver-a-uma-tempestade/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Quando me apresentam socialmente é difícil não me associarem a um aventureiro, e de bate pronto respondo: “aventureiro é quem mora em São Paulo”. Faço isso sempre em tom de brincadeira. Prefiro ser chamado de velejador, pois a palavra aventureiro traz um significado pejorativo e uma ideia de despreparo.</p>
<p>Aliás, uma das mais famosas frases do mundo das explorações vem do norueguês Roald Amundsen, que foi o primeiro ser humano a chegar ao Pólo Sul. Disse ele que “aventura é uma viagem mal planejada”.</p>
<p>Quando pensamos em uma viagem em um barco sem cabine, me vem à cabeça a palavra crise. Pelo fato do barco ser pequeno e as viagens serem desproporcionais a ele, antes de partimos já estamos em crise. O planejamento minucioso de uma grande viagem é o conjunto de medidas que tomamos para diminuir o efeito dessa crise.</p>
<p>Um veleiro sem cabine, velejando em mar aberto por semanas dificilmente não vai passar por mau tempo, vento forte, cansaço extremo dos tripulantes e possivelmente algumas quebras.</p>
<p>Como lidar com a crise? Esta é uma questão fundamental para nós e já incorporada na nossa cultura, pois saímos preparados, sabendo disso. No mundo atual vejo que essa deveria ser a atitude preponderante de todos nós, que por muitas vezes nos esquecemos de olhar o cenário macro econômico e político. É como sair para uma viagem sem um prognóstico meteorológico do dia a dia e sem um estudo prévio da tendência da temporada de ventos.</p>
<p>Quando a viagem começa, nós começamos a executar o plano de como administrar a crise, pois nossos recursos são escassos, nossa capacidade de gerar energia é limitada, portanto ela é preciosa, nossos alimentos são contados e nosso espaço é o mínimo para viver.</p>
<p>Fica a questão: como um barco tão pequeno pode enfrentar um mar tão grande?</p>
<p>Algumas atitudes são muito importantes na administração de uma crise:</p>
<p>• Estar preparado, o que implica ter na mente que isso faz parte do caminho. Neste caso nosso emocional não é surpreendido pela adversidade e reagimos muito melhor a ela, com mais confiança.</p>
<p>• Se conhecer e saber que seu plano foi o melhor que você pode fazer. Significa que você se preparou ao máximo para se lançar em uma empreitada, sabe o quanto seu time está pronto também, e que a experiência conta muito, pois a retrospectiva de sucessos lidando com a crise ajuda a manter a tranquilidade.</p>
<p>Quando estávamos na Antártica, em 2003, fomos surpreendidos por um mau tempo que os centros meteorológicos não conseguiram detectar. Nossa saída estava preparada para as três e meia da manhã. Porém, como não havia vento, dormimos um pouco mais. A previsão da meteorologia dizia que teríamos ventos de setor norte variando de 4 a 8 nós e possibilidade de calmaria. Havíamos ficado seis dias na Ilha de Deception depois da travessia da passagem de Drake para nos recuperar do cansaço, pôr o sono em dia e ganhar um pouco do peso perdido.</p>
<p>Acabamos partindo da ilha às cinco e meia da manhã, com ventos bem fracos, chuva e muita neblina. Cruzamos a pequena abertura da ilha vulcânica para ganhar mar aberto. A costeira da ilha era formada por paredes de pedra e terra de coloração que variava do marrom ao avermelhado e subiam a uma altura de 100 metros. Envoltos na neblina, os cumes pontiagudos formavam um cenário tenebroso.</p>
<p>Assim que saímos da proteção da ilha, nos deparamos com os primeiros icebergs. Passamos bem próximo de um deles, que dava carona a pinguins e focas-peleteiras. Como a corrente estava forte, não conseguíamos nos afastar de Deception. O Kotic, nosso barco de apoio naquela expedição, mergulhou na forte neblina, que aumentava a cada minuto – a visibilidade passou a variar entre 100 e 200 metros. Aos poucos o vento foi dando o ar da graça e o nosso catamaran Satellite começou a avançar. Cento e cinco milhas nos separavam das ilhas Melchior, e se mantivéssemos a nossa média só alcançaríamos nosso objetivo depois de vinte horas. Já estávamos preparados para dormir mais uma noite no mar, o que não me agradava muito, pois a possibilidade de colidir com um pequeno bloco de gelo desprendido de algum iceberg não era desprezível. Icebergs apareciam no meio da neblina subitamente, imensos e assustadores. Não dava para imaginar navegar à noite por ali, nem se tivéssemos um radar.</p>
<p>O vento continuou a aumentar, e o entusiasmo também. Comecei a fazer contas para saber das possibilidades de chegar no mesmo dia. Seria a salvação da lavoura. Alcançamos o primeiro ponto de referência marcado no GPS: Austin Rocks, uma série de ilhotas e pedras perdidas no meio do mar. Imerso na neblina e cercado de icebergs, era um excelente cenário para ambientar pesadelos. Poucos lugares me deixaram tão impressionado como aquele. As rochas negras, castigadas por um mar mal-humorado, levantavam muita espuma. As nuvens estavam baixas. Pouco à frente os rochedos esperavam alguém disposto a cruzar seu destino por aquelas paragens. Uma sensação de pessimismo apoderou-se de mim.</p>
<p>O E-track, nosso rastreador via satélite, continuava enviando o sinal do Satellite para o Kotic a cada trinta minutos com a nossa latitude, longitude, velocidade e rumo. Para reforçar o procedimento de segurança, comunicávamo-nos via rádio a cada duas horas, tranquilizando Oleg e a tripulação. Com jacarés intermináveis, nosso catamaran avançava intrepidamente. Como o vento soprava de uma direção favorável, velejávamos com o spinnaker, a vela mestra sem rizos e a buja.</p>
<p>A certa altura meu parceiro Duncan anunciou: “Acho que o vento vai cair”. O vento pareceu ouvir, se zangou e, ao contrário da previsão de Duncan, começou a aumentar rapidamente, trazendo bastante mar. As descidas de ondas tornaram-se cada vez mais radicais, mas a sintonia entre Duncan e eu tornava a velejada ao mesmo tempo radical e prazerosa. Decidimos velejar rápido, pois sabíamos que chegar com luz seria um presente dos céus. Qualquer erro e o Satellite capotaria nas águas geladas da península antártica.</p>
<p>De repente, enormes golfinhos saltavam perto do barco. Era difícil olhar para a frente e conduzir o barco ao mesmo tempo, sem deixar que atravessasse uma onda. E o improvável aconteceu. Acho que foi o maior susto que levei em toda a minha vida de velejador. Uma baleia com o dorso cheio de cracas emergiu bem na frente do barco enquanto ele acelerava no topo de uma onda. Quando o barco começou a descer o jacaré só deu tempo de virar um pouco o leme e torcer para a baleia submergir novamente. Pensei: os lemes vão bater e destravar. A baleia passou por baixo do barco e ressurgiu atrás de nós, seguindo seu caminho. Talvez ela não tenha tido tempo de reagir. Não gritei, nem respirei – só observei.</p>
<p>A emoção continuou. Além dos golfinhos, outras baleias vieram nos bisbilhotar. Pensei comigo: aquela história só pertenceria a nós dois, pois ninguém jamais compreenderia o que vivemos. Só os anjos, as únicas testemunhas. O vento esperou que nos refizéssemos do susto e começou a aumentar, aumentar, até que ficou impossível usar o spinnaker. Baixamos e deixamos apenas a buja na proa. Pouco depois enrolamos a buja e fizemos um rizo na vela principal, a mestra.</p>
<p>O mar estava ficando grande demais, com vagas de 3 a 4 metros, bem cavadas. Para piorar, começou a nevar forte, e o gelo ficava preso nas talas da vela, uma cena incomum para mim. A água estava a zero grau e, como o barco brigava com o mar, o frio era intenso. Nossos trajes eram os melhores que existiam, mas percebemos que estávamos no limite técnico da roupa. A sensação térmica deveria estar em torno dos 20 graus negativos. No topo das ondas o vento ficava mais forte, e lá de cima avistávamos uma confusão de vagas, espumas quebrando e um horizonte de montanhas escuras que se movia. Eram tão grandes as massas de água que algumas vezes eu pensava ver terra no curto horizonte. Não era terra, mas sim a gélida água da Antártica se movendo rapidamente com o vento.</p>
<p>Não demorou muito e fomos obrigados a fazer o terceiro rizo. Navegávamos com pouquíssima vela e o barco continuava a fazer uns 11 nós de velocidade, mas na descida das ondas acelerava para 16 nós. O vento soprava mais de 35 nós na rajada e o mar se levantava a 5 metros de altura, com ondas estourando por todos os lados. A ondulação vinha de três direções, e Duncan e eu fazíamos de tudo para manter o barco avançando equilibrado, livre de alguma onda transversal, a única que podia nos fazer capotar. A cada trinta minutos Duncan consultava no GPS a nossa posição e me passava o novo rumo, corrigindo a rota.</p>
<p>A tensão estava estampada no nosso rosto, quase não falávamos, e eu repetia para mim mesmo a frase de Santiago Isa: “Todo barco que parte tem que chegar”.</p>
<p>Com certeza aquele era mais um grande teste. O Drake havia testado nossa resistência e agora era a vez de nossa habilidade e frieza serem colocadas à prova. Naquele cenário de ondas imensas, vento forte, neblina, neve, icebergs, baleias, água congelante e temperatura de 2 graus a coisa mais improvável de se encontrar era um catamaran de 21 pés sem cabine. Mas estávamos lá e tínhamos de vencer aquela tempestade. Por volta das nove da noite o vento começou a dar sinais de que ia amainar e, depois de duas horas, quando já avistávamos Melchior, respiramos aliviados. Queríamos a todo o custo chegar, descansar e nos alimentar, pois não havíamos comido nada além de gel de energia.</p>
<p>O Kotic vinha 5 milhas atrás de nós. A entrada do arquipélago de Melchior estava marcada no nosso GPS, mas, em vez de encontrarmos uma passagem, víamos uma imensa ilha coberta de gelo. Ficamos confusos e rechecamos no GPS reserva a posição. Chamamos Oleg pelo rádio e explicamos a nossa dúvida. Ele pediu que o esperássemos. O vento caiu bastante, mas o mar, não, e ficamos ali, sendo jogados para baixo e para cima, quase à deriva. Estávamos a apenas 2 milhas do destino e não sabíamos para onde ir. Quando o Kotic nos chamou pelo rádio, o capitão nos explicou que o que estávamos vendo era um gigantesco iceberg estacionado na entrada do canal. Como tudo era branco, nos confundimos.</p>
<p>Depois de trinta minutos entramos rebocados em águas protegidas, em meio a montanhas cobertas de gelo e icebergs por todos os lados. O Kotic ia à frente, bem devagar, abrindo passagem entre o gelo solto com sua proa de aço. De pé e segurando o leme, eu observava em silêncio o Satellite com seus cascos vermelhos entrar em um mundo muito estranho para mim, quase proibido. Já estava escurecendo, era quase meia-noite e a luz se ia.</p>
<p>Aquele arquipélago perdido no meio do nada me deu a precisa ideia do que é estar em um lugar selvagem, abandonado, esquecido, distante, mas ao mesmo tempo sublime e imponente. Sempre é bom chegar, mas aquele dia&#8230;</p>
<p>Parto porque amo chegar.</p>
<p>Não somos capazes de vencer o mar, nem tampouco somos capazes de vencer o mundo. Na melhor das hipóteses, somos capazes de lidar com a crise.</p>
<div id="attachment_911" class="wp-caption alignnone" style="width: 650px"><a href="http://exame.abril.com.br/rede-de-blogs/o-mar-e-minha-terra/files/2011/11/000015tt.jpg"><img class="size-full wp-image-911" src="http://exame.abril.com.br/rede-de-blogs/o-mar-e-minha-terra/files/2011/11/000015tt.jpg" alt="" width="640" height="427" /></a><p class="wp-caption-text">Foto: Gui von Schmidt, Patagônia Chilena, Rota Austral</p></div>
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		<title>A mudança pode ser a ressurreição</title>
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		<pubDate>Wed, 26 Oct 2011 12:50:04 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Beto Pandiani</dc:creator>
				<category><![CDATA[Sem categoria]]></category>

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		<description><![CDATA[Minha vida profissional começou de uma maneira brusca. Perdi meu pai aos 18 anos e junto com ele foi-se toda a proteção, o conforto e assim a redoma de vidro se partiu. O apoio da família foi fundamental para amenizar &#8230; <a href="http://exame.abril.com.br/rede-de-blogs/o-mar-e-minha-terra/2011/10/26/a-mudanca-pode-ser-a-ressurreicao/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_861" class="wp-caption alignnone" style="width: 630px"><a href="http://exame.abril.com.br/rede-de-blogs/o-mar-e-minha-terra/files/2011/10/MAC23351.jpg"><img class="size-full wp-image-861" src="http://exame.abril.com.br/rede-de-blogs/o-mar-e-minha-terra/files/2011/10/MAC23351.jpg" alt="" width="620" height="415" /></a><p class="wp-caption-text">Partindo de Fakarava, um atol na Polinésia Francesa. foto Maristela Colucci</p></div>
<p>Minha vida profissional começou de uma maneira brusca. Perdi meu pai aos 18 anos e junto com ele foi-se toda a proteção, o conforto e assim a redoma de vidro se partiu.</p>
<p>O apoio da família foi fundamental para amenizar a dor da perda, mas eu precisava aprender uma profissão e começar a ganhar meu dinheiro.</p>
<p>Lembro-me que na minha primeira entrevista de trabalho com o dono de um supermercado, fui questionado sobre o que sabia fazer. Constrangido, respondi que não sabia fazer nada. Ao me escutar, estas palavras me fizeram sentir um incapaz, um zero à esquerda. Saí da minha primeira entrevista com a auto-estima arrasada, mas com o emprego garantido.</p>
<p>Comecei a trabalhar no estoque da empresa marcando e remarcando os preços. Corria o ano de 1976 e a inflação galopante me garantia horas e horas de trabalho.</p>
<p>Fiquei neste primeiro emprego por seis meses, e um belo dia me demiti, pois não aguentava fazer algo que não tinha sentido para mim. Eu não me enxergava naquela atividade. Meu sonho era ser velejaor e viajar pelo mundo. Naquele estoque escuro e quase sem ar a vida ficava ainda mais triste, eu me sentia sufocado. Foi uma época de muito conflito, pois não sabia o que era pior: não saber fazer nada ou não saber o que fazer.</p>
<p>Desempregado, por algum tempo me segurei com o dinheiro do aluguel de som para festinhas aqui em São Paulo.</p>
<p>Entrei na PUC no curso de Administração de Empresas porque me parecia um curso genérico, mas nada me empolgava e eu não me via feliz trabalhando de maneira convencional.</p>
<p>Logo no primeiro ano de faculdade surgiu a oportunidade de fazer um estágio na área de exportação de uma multinacional,. Depois de seis meses no estágio fui conversar com meu chefe para falar sobre a minha carreira na empresa. Ele me disse: “Sabe aquele fulano ali? Está aqui há 15 anos. O outro ao lado está há 10 anos. Esta é uma empresa muito estável, e se você for paciente vai se aposentar aqui”. O que na época soava como música no ouvido das pessoas para mim foi um tiro de misericórdia, o sinal de que eu tinha que sair de lá o quanto antes. O meu coração me dizia que meu lugar não era ali, mas não dizia para onde eu deveria ir. Uns dias depois encontrei um amigo na rua que me disse que estava trabalhando como barman em um restaurante chamado Clyde’s, que só admitia universitários e pagava muito bem.</p>
<p>Não pensei duas vezes, fui fazer uma entrevista e logo comecei a trabalhar no bar. Nesta altura da vida sabia já algumas coisas, como remarcar preços, tocar nas festas, preencher relatórios sem nenhum significado e tirar chopp. Eu nem desconfiava, mas havia um ensinamento importante sendo assimilado, que era seguir minha intuição.</p>
<p>Nunca havia imaginado na vida trabalhar como barman, mas esta profissão me deu a oportunidade de aprender a me relacionar com os clientes e assim fui conhecendo muita gente. Até então a vida parecia feita de uma porção de acontecimentos desconexos que me faziam sentir uma pessoa perdida, que procura um caminho.</p>
<p>Um ano depois fui convidado a trabalhar no Maksoud Plaza, hotel que estava sendo inaugurado. Uma ótima oportunidade para ligar meu curso de Administração de Empresas com a hotelaria. Minha experiência ali durou apenas seis meses, pois o diretor que havia me contratado saiu e eu não fazia parte dos planos do novo diretor.</p>
<p>Na mesma época conheci os proprietários de um pequeno bar nos Jardins chamado Sanduíche. Arthur e a Maria Helena foram dois anjos na minha vida. Eles estavam reformando um lugar onde iriam inaugurar um restaurante chamado Ritz, e me chamaram para organizar a carta dos vinhos e montar o cardápio de drinks da casa. Acabei contratado por eles para trabalhar no Ritz e no Sanduíche. De manhã ia para a PUC, às 16 horas entrava no Sanduíche e às 22 horas assumia o balcão do Ritz até as 3 da manhã. Depois de anos estava me sentindo realmente feliz. Sentia-me produzindo, aprendendo muitas coisas na administração do restaurante, ganhando meu dinheiro e conhecendo muita gente diferente.</p>
<p>Depois de três anos saí do Ritz e com dois amigos inaugurei o meu primeiro negócio, um bar nos Jardins que tornou-se um ícone na época, o Singapore Sling. Dois anos depois, em 1987, abrimos o Aeroanta, que fez um sucesso estrondoso, e em 1989 veio o Olivia, o primeiro bar diferenciado da Vila Madalena.</p>
<p>Aconteceu tudo muito rápido e eu nem tive tempo de me perguntar se era isso mesmo o que eu queria para minha vida. Em quatro anos abrimos três casas noturnas e passei a ter 130 funcionários. Este é um segmento muito intenso e que compromete a qualidade de vida. Eu não fazia o que sonhava bem lá no fundo, mas a vida havia melhorado bastante. Tinha conquistado minha independência, e isso me deu bastante autoconfiança.</p>
<p>Um belo dia andando na rua vi na capa da revista Exame uma matéria que dizia: “No futuro você será a empresa”. Aquilo me chamou a atenção e resolvi comprar a revista. Não sabia como, mas eu queria me tornar a minha empresa e me desfazer de tudo, sociedade, bens&#8230; e começar algo novo. Fiquei com isso na cabeça, e dois anos depois reencontrei um amigo da vela, o Marcus Sulzbacher, e, depois de uma conversa despretensiosa, juntos resolvemos fazer uma grande viagem, a Entre Trópicos, como contei há alguns dias aqui no blog.</p>
<p>Decidi tomar esta que foi uma das mais importantes decisões da minha vida. Ouvi meu coração e optei por apostar na felicidade, pois sabia que a minha inquietude de anos era exatamente a busca de fazer algo que tivesse realmente a ver comigo. Precisei de muito tempo para encontrar, mas valeu a pena.</p>
<p>Esta primeira viagem durou 289 dias e foi uma experiência transformadora, pois tive tempo de refletir muito a respeito da vida, dos meus propósitos e deste sistema de valores que nós criamos e que acabou nos escravizando.</p>
<p>De volta desta viagem, no começo de 1995, o Brasil entrou em crise e não consegui viabilizar nenhum projeto naquele ano. Com o caixa baixo, acabei me envolvendo mais uma vez com meu antigo ramo. Fiquei sócio do restaurante Mr. Fish, depois inauguramos o primeiro clube de música eletrônica no Brasil, o Clube B.A.S.E. e ainda o Lounge.</p>
<p>Precisei de mais alguns anos na noite para me reestruturar e voltar mais organizado para as viagens. Em 1999 voltei a organizar outra viagem junto com o Gui Von Schmidt, a Rota Austral. Desta vez soubemos administrar melhor nosso orçamento e o resultado de mídia também melhorou bastante. Com uma exposição maior surgiram os primeiros convites para fazer palestras e assim a vida foi me abrindo novos caminhos.</p>
<p>Hoje, depois de seis viagens, seis livros publicados, filmes, várias exposições fotográficas e centenas de palestras, consegui inventar uma profissão, ou melhor, várias.</p>
<p>Viver de brisa não é fácil, tenho que me reinventar todos os dias, mas não me arrependo de nada. Muitos anos atrás li um slogan de uma marca de bebidas que me serviu de muita inspiração. Dizia assim: “Sonhe, ouse fracassar”. Foi isso que fiz e continuo fazendo quando começo um novo projeto, como o próximo a ser realizado em 2012, a Travessia do Atlântico: Cape Town &#8211; Rio de Janeiro.</p>
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		<title>Travessia do Pacífico</title>
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		<pubDate>Mon, 10 Oct 2011 21:40:20 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Beto Pandiani</dc:creator>
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		<description><![CDATA[A cada semana vou publicar um capítulo do filme Travessia do Pacífico. Uma viagem de 9.000 milhas que começou em Vina del Mar no Chile e terminou na Austrália alguns meses depois. Cruzamos toda a Polinésia em um pequeno barco &#8230; <a href="http://exame.abril.com.br/rede-de-blogs/o-mar-e-minha-terra/2011/10/10/travessia-do-pacifico/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>A cada semana vou publicar um capítulo do filme Travessia do Pacífico. Uma viagem de 9.000 milhas que começou em Vina del Mar no Chile e terminou na Austrália alguns meses depois. Cruzamos toda a Polinésia em um pequeno barco sem cabine.</p>
<p>Boa viagem<a href="http://vimeo.com/channels/betopandianitv#9924918"> Travessia do Pacífico</a></p>
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		<title>O tempo e o vento</title>
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		<pubDate>Sun, 02 Oct 2011 23:37:30 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Beto Pandiani</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Em nossa primeira viagem, a Entre Trópicos, quando velejamos de Miami até a Ilhabela, muitas quebras e pequenos acidentes nos impediram de seguir viagem por alguns dias, forçando-nos a ficar ou a buscar um lugar para reparar o barco. Sempre, &#8230; <a href="http://exame.abril.com.br/rede-de-blogs/o-mar-e-minha-terra/2011/10/02/o-tempo-e-o-vento-2/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_731" class="wp-caption alignnone" style="width: 624px"><a href="http://exame.abril.com.br/rede-de-blogs/o-mar-e-minha-terra/files/2011/10/000005j2.jpg"><img class="size-full wp-image-731" src="http://exame.abril.com.br/rede-de-blogs/o-mar-e-minha-terra/files/2011/10/000005j2.jpg" alt="" width="614" height="410" /></a><p class="wp-caption-text">Praia Nova, Ceará. Foto André Andrade</p></div>
<p>Em nossa primeira viagem, a Entre Trópicos, quando velejamos de Miami até a Ilhabela, muitas quebras e pequenos acidentes nos impediram de seguir viagem por alguns dias, forçando-nos a ficar ou a buscar um lugar para reparar o barco.</p>
<p>Sempre, sem exceção, quando imprevistos aconteciam, pessoas interessantes conhecíamos, lugares mágicos acabamos encontrando e a viagem tomava rumos inimagináveis. Encontrei gente em muitos recantos onde jamais sonhei parar.</p>
<p>Uma das paradas forçadas que nunca mais vou me esquecer foi em Praia Nova, quando descíamos a costa do Ceará, um pouco antes do porto de Camocin, o maior centro pesqueiro da região. Estávamos navegando contra o vento, com muita onda e os barcos sofriam muito batendo os cascos, tendo suas estruturas judiadas. Lembro-me de sair de manhã de uma praia e perguntar para mim mesmo: “o que vai quebrar hoje?”, pois todos os dias aconteciam imprevistos. Aquele pedaço de costa entre Belém e Natal é considerado o pior trecho da costa brasileira, principalmente velejando contra o vento como nós vínhamos fazendo.</p>
<p>No meio da tarde daquele dia, decidi parar o barco, pois algo me dizia que as coisas não estavam bem. Não consultei o outro barco no qual estava meu companheiro de viagem, o Marcus Sulzbacher; assim que vi umas pequenas casinhas enterradas nas dunas, arribei o barco em direção à praia. Descemos as ondas e “aterrizamos” na areia. Em um minuto fomos rodeados por toda a aldeia de pescadores. Mal começamos a baixar as velas, eu percebo que a travessa de alumínio que une os dois cascos estava rachada. Mais alguns minutos navegando e o barco implodiria no meio do mar.</p>
<p>Duncan, meu companheiro de barco, sugeriu que procurássemos algum pedaço de pau para colocar por dentro do perfil de alumínio como uma luva, até chegarmos a algum lugar com mais estrutura para tentar um reparo mais apropriado. Ironizando, eu respondi a ele, “mas, Duncan, aqui nem árvore tem, como vamos encontrar uma madeira?” Estávamos em uma vila enterrada nas dunas.</p>
<p>No mesmo instante um senhor bem magro, de chapéu de palha, camisa de manga curta abotoada até o pescoço, vem e diz: “Desculpe, moço, mas lá em casa eu tenho um pedaço de pau que pode caber aí”. Perguntei se era possível ver a peça e em dois minutos ele voltou com a madeira na mão.</p>
<p>Ficamos todos perplexos com a forma e o tamanho da peça. Era quase perfeita, como se tivesse sido fabricada para entrar no perfil de alumínio. Só faltava um par de horas e uma boa plaina.</p>
<p>Mesmo sem ter dito nada, aquele simples senhor começou a estudar o perfil de alumínio com um ar de entendido e a trabalhar com as ferramentas que trouxera com ele. Ainda não sabíamos, mas havíamos caído nas graças do pescador mais antigo da vila, um homem que passou a vida em cima de uma jangada, que se orgulhava de nunca ter visto televisão, de nunca ter saído de Praia Nova em 70 anos,. E, se dependesse dele, queria morrer lá.</p>
<p>Sr. Francisco era também excelente carpinteiro, e enquanto aquele velho pescador trabalhava, desmontávamos a travessa traseira. Como o vento estava bem forte e voava muita areia nos nossos olhos, transferimos a oficina para a casa dele. Ao chegar fomos muito bem recebidos pela sua esposa, que rapidamente nos ofereceu chá. Havia algo muito interessante naquele casal, que tinha filhos espalhados pelo mundo (somente o caçula morava com eles): tinham um espírito nobre, postura elegante e uma sabedoria própria das pessoas simples.</p>
<p>A história se repetiu muitas vezes naquela viagem, e sempre que chegávamos a lugares simples éramos recebidos com muita generosidade. As pessoas que menos tinham a nos oferecer materialmente, sempre nos abriam as portas de suas casas e cediam suas camas se preciso fosse para nos ver confortavelmente alojados.</p>
<p>A travessa ficou pronta, perfeita, e mesmo depois de alguns anos ela continuou lá, no mesmo lugar.</p>
<p>Acabamos dormindo na casa dos nossos novos amigos, e no outro dia partimos para Jericoacoara com o coração alimentado, depois de uma noite ouvindo muitas histórias.</p>
<p>O que fazer para retribuir tamanho carinho? Um homem como o Sr Francisco trazia um aprendizado que o mar ensina: ser. Ser simples, ser generoso, ser prestativo, ser amoroso e ser sábio sem alarde.</p>
<p>Foi muito difícil a nossa despedida deles e das crianças daquele pequeno povoado, quase esquecido, que de tempos em tempos é soterrado pelas dunas que avançam com o vento.</p>
<p>Muitos destes acontecimentos nos levaram a atrasar as viagens, mas por alguns momentos tive a sensação de que as coisas aconteciam propositalmente para entrarmos no tempo correto da viagem, dentro de um cronograma perfeito. Por vezes acho que precisei andar algumas milhas a mais somente para cruzar o olhar com alguém.</p>
<p>Agora, sempre que estou no meio do oceano, fico atento para os desígnios da vida. Não quero buscar explicações, por que ao se explicar você limita, cria barreiras. Nem tampouco falo o nome de Deus, pois não gosto de humanizar o que para mim, pessoalmente, é algo muito maior do que possamos imaginar.</p>
<p>Tudo isso que aprendi na vida mora nos oceanos profundos dos sentimentos. De tempos em tempos vem à tona me dando um conforto imensurável, trazendo-me a certeza de que estou fazendo o que devo fazer. Não dá para nominar algo tão sublime, seria muita pretensão da minha parte.</p>
<p>A vida tem seu tempo, e por vezes fiquei esperando uma resposta que veio somente alguns anos depois. A nossa tendência é querer controlar o tempo, habituados com os relógios, que podem ser um instrumento de aferição de tempo, mas não conseguem estabelecer o fim de um ciclo nem o começo de outro.</p>
<p>De tempos em tempos me recordo do Sr. Francisco e me vem a nostalgia de um tempo que ficou guardado no meu coração. Tempo de sentir saudades!</p>
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		<title>Viaje leve, Viaje longe</title>
		<link>http://exame.abril.com.br/rede-de-blogs/o-mar-e-minha-terra/2011/09/23/591/</link>
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		<pubDate>Fri, 23 Sep 2011 02:33:56 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Beto Pandiani</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Viaje leve, viaje longe. O conceito de leveza para um barco a vela é fundamental. No passado os barcos eram muito pesados e foram necessários muitos anos para a madeira ser substituída por outros materiais. Com o desenvolvimento de novas &#8230; <a href="http://exame.abril.com.br/rede-de-blogs/o-mar-e-minha-terra/2011/09/23/591/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
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<div id="attachment_611" class="wp-caption alignnone" style="width: 629px"><a href="http://exame.abril.com.br/rede-de-blogs/o-mar-e-minha-terra/files/2011/09/000016-3.jpg"><img class="size-full wp-image-611" src="http://exame.abril.com.br/rede-de-blogs/o-mar-e-minha-terra/files/2011/09/000016-3.jpg" alt="" width="619" height="421" /></a><p class="wp-caption-text">Carga já redimensionada, foto Gui von Schmidt</p></div>
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<div id="attachment_621" class="wp-caption alignnone" style="width: 629px"><a href="http://exame.abril.com.br/rede-de-blogs/o-mar-e-minha-terra/files/2011/09/000083c.jpg"><img class="size-full wp-image-621" src="http://exame.abril.com.br/rede-de-blogs/o-mar-e-minha-terra/files/2011/09/000083c.jpg" alt="" width="619" height="421" /></a><p class="wp-caption-text">Velejando nas Antilhas, foto Gui von Schmidt</p></div>
</div>
<div>Viaje leve, viaje longe.</div>
<div>O conceito de leveza para um barco a vela é fundamental. No passado os barcos eram muito pesados e foram necessários muitos anos para a madeira ser substituída por outros materiais. Com o desenvolvimento de novas tecnologias como a fibra de carbono e o kevlar, os barcos deram um salto de desempenho.</div>
<div>Para se ter uma dimensão, desde que Sir Robin Knox-Johnston deu a volta ao mundo em solitário em 1969, velejando sem escalas em 312 dias, esta marca vem caindo vertiginosamente. Hoje o recorde está em posse do francês Francis Joyon, que em 2008 conseguiu tal façanha em apenas 57 dias.</div>
<div>Nas nossas expedições o peso é um fator limitador. Somos obrigados a ter poucos recursos e, por isso mesmo, os melhores. A escolha tem que ser muito bem pensada E a pergunta constante é: O que levar? O que deixar?</div>
<div>Na nossa primeira viagem, quando partimos de Miami em 1994, não sabíamos muito bem o que íamos de fato precisar. Gastamos muito dinheiro nas lojas náuticas e quando faltavam apenas dois dias para partir, olhei para toda a carga espalhada no gramado do Iate Clube de Miami e fiquei em dúvida se tudo aquilo ia caber nos diminutos compartimentos do nosso pequeno catamaran.</div>
<div>Havia até um pequeno monitor de TV para que o cinegrafista Pablo Nobel pudesse assistir ao material filmado durante os nossos acampamentos nas praias do Caribe. Na teoria, parece um sinal de profissionalismo, mas na prática não condizia com a nossa realidade. Graças a Deus que entrou água no compartimento e logo na primeira parada em Bimini, nas Bahamas, o monitor foi para o lixo.</div>
<div>Estávamos em dois catamaranans e cada barco partiu dos EUA com 120 quilos de carga. 289 dias depois, quando chegamos à Ilhabela, tínhamos apenas 100 quilos somados nos dois barcos.</div>
<div>Anos depois dessa primeira viagem eu estava no meu escritório em São Paulo procurando na internet artigos em sites internacionais a respeito da viagem que acabara de realizar na época, a Travessia do Drake. Para minha surpresa, achei mais de sessenta matérias em sites nacionais e internacionais, mas uma em especial me chamou a atenção: uma revista chamada Cat Sailor mostrava a palavra “Drake” numa área de fórum. Vários velejadores discutiam e trocavam impressões sobre a travessia do Drake, mas o texto que me surpreendeu foi o de uma mulher chamada Mary Wells. Dizia ela:</div>
<div>“Em 1994 eu estava com meu marido Rick White no iate clube de Miami, em Watson Island, quando encontramos alguns velejadores brasileiros que se preparavam para partir em dois hobie cats de 21 pés para a América do Sul. Curiosa e um pouco preocupada, perguntei a um deles se tinham experiência com hobie cats, e se eles já haviam feito longas travessias. Para minha surpresa, um deles me disse, com muita sinceridade, que essa era a sua primeira viagem e que ninguém havia velejado antes naqueles catamarans. A única experiência era com hobie cat 16 em regatas. Meu marido e eu ficamos preocupados e continuamos a fazer perguntas:</div>
<div>‘Vocês já experimentaram colocar toda a carga dentro do barco para ver como ele reage com tanto peso?’ Perguntei isso porque havia uma grande quantidade de equipamentos ao redor dos barcos.</div>
<div>Com bastante franqueza o velejador me respondeu que ele não sabia nem se o material todo iria caber dentro dos catamarans. O fato é que eles partiram, e eu e Rick ficamos muito impressionados com aquela viagem, e desde então sempre nos perguntamos se eles conseguiram, se desapareceram no mar&#8230; o que aconteceu com aqueles velejadores. Essa pergunta nunca foi respondida, e ao longo desses anos sempre me volta à memória aquela imagem.”</div>
<div>Que sensação maravilhosa encontrar esse depoimento depois de tantos anos: aquele marujo inexperiente interpelado por Mary Wells era eu. Minha vontade era encontrar pessoalmente aquela senhora e contar-lhe tudo em detalhes. Continuei a ler o depoimento de Mary:</div>
<div>“Estou querendo saber se esse brasileiro que atravessou o Drake de catamaran 21 tem alguma ligação com os rapazes que partiram de Miami em 1994.”</div>
<div>Um dos internautas que participava do chat respondeu:</div>
<div>“Acho que sim, pois eles também fizeram outra viagem pelo sul do Chile, dobrando o cabo Horn, e me parece que eles são bem conhecidos no Brasil.”</div>
<div>No site encontrei o e-mail de Mary e enviei-lhe uma carinhosa carta, confirmando que havíamos terminado a viagem com saúde e segurança. Agradeci-lhe a atenção e disse-lhe que a preocupação dela quanto ao peso da carga tinha procedência.</div>
<div>Mary Wells tinha razão em ficar preocupada, mas em nenhum momento nos faltou responsabilidade. Pelo fato de não termos experiência em viagens longas, cometemos alguns erros que nos ensinaram a evitar outros mais sérios.</div>
<div>Viajar leve me parece que é um conceito que pode ser estendido ao nosso corpo, à nossa alma e também para uma empresa. A leveza à qual me refiro é aquela que possibilita nos movermos sem desperdício de energia. São também tomadas mais rápidas de decisões e a otimização inteligente de recursos.</div>
<div>No mundo atual este deveria ser o nosso norte, pois em se tratando de recursos naturais esquecemos que no nosso barco Terra tem uma capacidade limitada. Temos que escolher uma maneira mais inteligente de navegar, pois intempéries poderão vir e, como bons marinheiros, temos que aprender a usar a força da natureza a nosso favor.</div>
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