O que significa a palavra informação?
Fui buscar a palavra no dicionário e como quase tudo vem do latim. Significa delinear, conceber uma idéia. Exatamente o que precisava ouvir, pois neste momento estou delineando uma idéia, concebendo uma viagem que ainda não me dá a segurança de poder afirmar se é possível realizá-la. Para eu poder ter segurança em partir preciso de muitas informações, e pergunto, onde mora a informação?
Muitas vezes no nosso focinho. Achamos que ela esta distante, ou podemos ter a crença de que ela nem existe, mas com um pouco de insistência e criatividade podemos encontrá-la.
O navegador moderno não se debruça mais somente sobre mapas como faziam os grandes navegadores antigamente, pois hoje temos uma poderosa ferramenta a disposição de todos, a internet. Hoje temos todas as cartas digitalizadas e com um clique pode-se ver com detalhes qualquer entrada de baia no Mar de Bering por exemplo. A informação esta disponível para todos, e isso é muito democrático.
Para a minha atividade o Google Earth é uma das mais geniais ferramentas e pela tela do meu computador aqui em pleno bairro do Itaim, onde fico no meu escritório, tenho viajado longe, passo horas navegando em águas geladas, explorando vilarejos no Ártico, pesquisando sobre passagens e a anatomia de praias que espero um dia pode pisar. Através do Panoramio, site de fotos do Google Earth pode-se ver o que viajantes do mundo todo postaram nos lugares mais improváveis do planeta.
Como todos sabem que gosto mesmo é de navegar no mar e com um bom planejamento pode-se ir bem longe. Isto é o que tem se repetido pelos últimos anos. Agora na net navego atrás de informações e foi o que aconteceu comigo há algum tempo atrás.
Procurando por expedições polares na Passagem Noroeste descobri várias viagens de veleiros que disponibilizam em seus sites fotos, diários e mapas. Para mim que quer viajar por uma região tão distante da nossa ficaria bem difícil levantar informações e não fosse a internet ia demorar muito mais. Do jeito antigo teria que comprar livros, cartas náuticas e Cartas Piloto (são informações sobre ventos, correntes, acidentes geográficos documentados em um livro).
Continuei minha pesquisa e descobri uma viagem que foi começada no ano retrasado e foi recomeçada em julho de 2010. O que me chamou a atenção é que os dois ingleses que se aventuraram pelo norte estão usando um barco a vela sem cabine e com remos, algo bem parecido com o queremos usar visto pelo aspecto da rusticidade da viagem. Apesar da viagem deles ser apenas um pequeno trecho da nossa, eles estão passando por uma região muito crítica, talvez uma das piores, pois tiveram que enfrentar águas congeladas, foram obrigados a arrastar o barco por cima de banquisas de gelo, dormiram acampados em praias ermas, tiveram a companhia de ursos polares e ficaram expostos ao frio intenso.
Mandei um e-mail para o Kevin Oliver, um dos tripulantes e o e-mail voltou. Fiquei vários dias tentando outra forma de contato sem sucesso. Um dia à noite acordei pensando neles e dei um pulo da cama. Tive a idéia de procurar o fabricante do barco e tentar saber se ele tinha o contato do Kevin. Deu certo e o Kevin Jeffrey fabricante do NORSEBOAT copiou o Kevin Oliver me apresentando. Em cinqüenta e quatro minutos recebi um caloroso e-mail do navegador inglês. Como havia me apresentado ao fabricante do barco enviando um link do meu site e explicando as minhas intenções e justificando porque precisava falar com o Kevin, fui logo reconhecido como alguém da sua família, outro velejador sedento por explorações no Mar do Ártico.
O que eu não esperava era falar com uma pessoa que esta no meio da guerra do Afeganistão. Ele ainda se desculpou por não ter uma conexão de internet muito boa e também não poder ficar mais tempo comigo discorrendo sobre as dificuldades da sua viagem. A segunda surpresa veio no anexo da mensagem, o seu projeto com todos os detalhes do estudo e tudo que foi observado durante os quarenta e dois dias de viagem no Ártico.
Posso dizer que em dois e-mails deu para sentir quem é o Kevin. Não tenho dúvidas que ele faz parte das pessoas generosas que tenho tido a felicidade de encontrar pelo caminho. Com este documento em mãos comecei a pensar a logística da viagem com mais precisão. Ajudou-me a começar a responder as dezenas de perguntas que tenho que responder para mim mesmo. A viagem começa e se delinear de maneira mais concreta.
Agora estou fazendo um levantamento da média de temperaturas para os meses do verão, as médias de força e direção de vento e o mais importante, o movimento do gelo. Pelo histórico o mês de julho é quando a passagem começa a se abrir e setembro é quando volta a fechar.
Em 2013 espero estar por volta de abril em Vancouver para realização da oitava viagem, a sétima é no ano que vem Capetown ao Rio de Janeiro.
Agora tenho um amigo no Afeganistão e quando ouço alguma noticia sobre ataques de Talibãs penso no Kevin. Abraço a todos.



Expandir todos os 0
Beto Pandiani, velejador profissional, fez 6 grandes viagens da Antártica à Groenlândia e do Chile à Austrália em catamarans sem cabine. É Autor de O mar é minha terra. beto@betopandiani.com.br
Para deixar um comentário você precisa se identificar. Escolha um dos tipos de identificação abaixo:
Termos de uso | Comentários sujeitos a moderação