O Mar é minha Terra

03.11.2011 - 13h23

Como sobreviver a uma tempestade

Quando me apresentam socialmente é difícil não me associarem a um aventureiro, e de bate pronto respondo: “aventureiro é quem mora em São Paulo”. Faço isso sempre em tom de brincadeira. Prefiro ser chamado de velejador, pois a palavra aventureiro traz um significado pejorativo e uma ideia de despreparo.

Aliás, uma das mais famosas frases do mundo das explorações vem do norueguês Roald Amundsen, que foi o primeiro ser humano a chegar ao Pólo Sul. Disse ele que “aventura é uma viagem mal planejada”.

Quando pensamos em uma viagem em um barco sem cabine, me vem à cabeça a palavra crise. Pelo fato do barco ser pequeno e as viagens serem desproporcionais a ele, antes de partimos já estamos em crise. O planejamento minucioso de uma grande viagem é o conjunto de medidas que tomamos para diminuir o efeito dessa crise.

Um veleiro sem cabine, velejando em mar aberto por semanas dificilmente não vai passar por mau tempo, vento forte, cansaço extremo dos tripulantes e possivelmente algumas quebras.

Como lidar com a crise? Esta é uma questão fundamental para nós e já incorporada na nossa cultura, pois saímos preparados, sabendo disso. No mundo atual vejo que essa deveria ser a atitude preponderante de todos nós, que por muitas vezes nos esquecemos de olhar o cenário macro econômico e político. É como sair para uma viagem sem um prognóstico meteorológico do dia a dia e sem um estudo prévio da tendência da temporada de ventos.

Quando a viagem começa, nós começamos a executar o plano de como administrar a crise, pois nossos recursos são escassos, nossa capacidade de gerar energia é limitada, portanto ela é preciosa, nossos alimentos são contados e nosso espaço é o mínimo para viver.

Fica a questão: como um barco tão pequeno pode enfrentar um mar tão grande?

Algumas atitudes são muito importantes na administração de uma crise:

• Estar preparado, o que implica ter na mente que isso faz parte do caminho. Neste caso nosso emocional não é surpreendido pela adversidade e reagimos muito melhor a ela, com mais confiança.

• Se conhecer e saber que seu plano foi o melhor que você pode fazer. Significa que você se preparou ao máximo para se lançar em uma empreitada, sabe o quanto seu time está pronto também, e que a experiência conta muito, pois a retrospectiva de sucessos lidando com a crise ajuda a manter a tranquilidade.

Quando estávamos na Antártica, em 2003, fomos surpreendidos por um mau tempo que os centros meteorológicos não conseguiram detectar. Nossa saída estava preparada para as três e meia da manhã. Porém, como não havia vento, dormimos um pouco mais. A previsão da meteorologia dizia que teríamos ventos de setor norte variando de 4 a 8 nós e possibilidade de calmaria. Havíamos ficado seis dias na Ilha de Deception depois da travessia da passagem de Drake para nos recuperar do cansaço, pôr o sono em dia e ganhar um pouco do peso perdido.

Acabamos partindo da ilha às cinco e meia da manhã, com ventos bem fracos, chuva e muita neblina. Cruzamos a pequena abertura da ilha vulcânica para ganhar mar aberto. A costeira da ilha era formada por paredes de pedra e terra de coloração que variava do marrom ao avermelhado e subiam a uma altura de 100 metros. Envoltos na neblina, os cumes pontiagudos formavam um cenário tenebroso.

Assim que saímos da proteção da ilha, nos deparamos com os primeiros icebergs. Passamos bem próximo de um deles, que dava carona a pinguins e focas-peleteiras. Como a corrente estava forte, não conseguíamos nos afastar de Deception. O Kotic, nosso barco de apoio naquela expedição, mergulhou na forte neblina, que aumentava a cada minuto – a visibilidade passou a variar entre 100 e 200 metros. Aos poucos o vento foi dando o ar da graça e o nosso catamaran Satellite começou a avançar. Cento e cinco milhas nos separavam das ilhas Melchior, e se mantivéssemos a nossa média só alcançaríamos nosso objetivo depois de vinte horas. Já estávamos preparados para dormir mais uma noite no mar, o que não me agradava muito, pois a possibilidade de colidir com um pequeno bloco de gelo desprendido de algum iceberg não era desprezível. Icebergs apareciam no meio da neblina subitamente, imensos e assustadores. Não dava para imaginar navegar à noite por ali, nem se tivéssemos um radar.

O vento continuou a aumentar, e o entusiasmo também. Comecei a fazer contas para saber das possibilidades de chegar no mesmo dia. Seria a salvação da lavoura. Alcançamos o primeiro ponto de referência marcado no GPS: Austin Rocks, uma série de ilhotas e pedras perdidas no meio do mar. Imerso na neblina e cercado de icebergs, era um excelente cenário para ambientar pesadelos. Poucos lugares me deixaram tão impressionado como aquele. As rochas negras, castigadas por um mar mal-humorado, levantavam muita espuma. As nuvens estavam baixas. Pouco à frente os rochedos esperavam alguém disposto a cruzar seu destino por aquelas paragens. Uma sensação de pessimismo apoderou-se de mim.

O E-track, nosso rastreador via satélite, continuava enviando o sinal do Satellite para o Kotic a cada trinta minutos com a nossa latitude, longitude, velocidade e rumo. Para reforçar o procedimento de segurança, comunicávamo-nos via rádio a cada duas horas, tranquilizando Oleg e a tripulação. Com jacarés intermináveis, nosso catamaran avançava intrepidamente. Como o vento soprava de uma direção favorável, velejávamos com o spinnaker, a vela mestra sem rizos e a buja.

A certa altura meu parceiro Duncan anunciou: “Acho que o vento vai cair”. O vento pareceu ouvir, se zangou e, ao contrário da previsão de Duncan, começou a aumentar rapidamente, trazendo bastante mar. As descidas de ondas tornaram-se cada vez mais radicais, mas a sintonia entre Duncan e eu tornava a velejada ao mesmo tempo radical e prazerosa. Decidimos velejar rápido, pois sabíamos que chegar com luz seria um presente dos céus. Qualquer erro e o Satellite capotaria nas águas geladas da península antártica.

De repente, enormes golfinhos saltavam perto do barco. Era difícil olhar para a frente e conduzir o barco ao mesmo tempo, sem deixar que atravessasse uma onda. E o improvável aconteceu. Acho que foi o maior susto que levei em toda a minha vida de velejador. Uma baleia com o dorso cheio de cracas emergiu bem na frente do barco enquanto ele acelerava no topo de uma onda. Quando o barco começou a descer o jacaré só deu tempo de virar um pouco o leme e torcer para a baleia submergir novamente. Pensei: os lemes vão bater e destravar. A baleia passou por baixo do barco e ressurgiu atrás de nós, seguindo seu caminho. Talvez ela não tenha tido tempo de reagir. Não gritei, nem respirei – só observei.

A emoção continuou. Além dos golfinhos, outras baleias vieram nos bisbilhotar. Pensei comigo: aquela história só pertenceria a nós dois, pois ninguém jamais compreenderia o que vivemos. Só os anjos, as únicas testemunhas. O vento esperou que nos refizéssemos do susto e começou a aumentar, aumentar, até que ficou impossível usar o spinnaker. Baixamos e deixamos apenas a buja na proa. Pouco depois enrolamos a buja e fizemos um rizo na vela principal, a mestra.

O mar estava ficando grande demais, com vagas de 3 a 4 metros, bem cavadas. Para piorar, começou a nevar forte, e o gelo ficava preso nas talas da vela, uma cena incomum para mim. A água estava a zero grau e, como o barco brigava com o mar, o frio era intenso. Nossos trajes eram os melhores que existiam, mas percebemos que estávamos no limite técnico da roupa. A sensação térmica deveria estar em torno dos 20 graus negativos. No topo das ondas o vento ficava mais forte, e lá de cima avistávamos uma confusão de vagas, espumas quebrando e um horizonte de montanhas escuras que se movia. Eram tão grandes as massas de água que algumas vezes eu pensava ver terra no curto horizonte. Não era terra, mas sim a gélida água da Antártica se movendo rapidamente com o vento.

Não demorou muito e fomos obrigados a fazer o terceiro rizo. Navegávamos com pouquíssima vela e o barco continuava a fazer uns 11 nós de velocidade, mas na descida das ondas acelerava para 16 nós. O vento soprava mais de 35 nós na rajada e o mar se levantava a 5 metros de altura, com ondas estourando por todos os lados. A ondulação vinha de três direções, e Duncan e eu fazíamos de tudo para manter o barco avançando equilibrado, livre de alguma onda transversal, a única que podia nos fazer capotar. A cada trinta minutos Duncan consultava no GPS a nossa posição e me passava o novo rumo, corrigindo a rota.

A tensão estava estampada no nosso rosto, quase não falávamos, e eu repetia para mim mesmo a frase de Santiago Isa: “Todo barco que parte tem que chegar”.

Com certeza aquele era mais um grande teste. O Drake havia testado nossa resistência e agora era a vez de nossa habilidade e frieza serem colocadas à prova. Naquele cenário de ondas imensas, vento forte, neblina, neve, icebergs, baleias, água congelante e temperatura de 2 graus a coisa mais improvável de se encontrar era um catamaran de 21 pés sem cabine. Mas estávamos lá e tínhamos de vencer aquela tempestade. Por volta das nove da noite o vento começou a dar sinais de que ia amainar e, depois de duas horas, quando já avistávamos Melchior, respiramos aliviados. Queríamos a todo o custo chegar, descansar e nos alimentar, pois não havíamos comido nada além de gel de energia.

O Kotic vinha 5 milhas atrás de nós. A entrada do arquipélago de Melchior estava marcada no nosso GPS, mas, em vez de encontrarmos uma passagem, víamos uma imensa ilha coberta de gelo. Ficamos confusos e rechecamos no GPS reserva a posição. Chamamos Oleg pelo rádio e explicamos a nossa dúvida. Ele pediu que o esperássemos. O vento caiu bastante, mas o mar, não, e ficamos ali, sendo jogados para baixo e para cima, quase à deriva. Estávamos a apenas 2 milhas do destino e não sabíamos para onde ir. Quando o Kotic nos chamou pelo rádio, o capitão nos explicou que o que estávamos vendo era um gigantesco iceberg estacionado na entrada do canal. Como tudo era branco, nos confundimos.

Depois de trinta minutos entramos rebocados em águas protegidas, em meio a montanhas cobertas de gelo e icebergs por todos os lados. O Kotic ia à frente, bem devagar, abrindo passagem entre o gelo solto com sua proa de aço. De pé e segurando o leme, eu observava em silêncio o Satellite com seus cascos vermelhos entrar em um mundo muito estranho para mim, quase proibido. Já estava escurecendo, era quase meia-noite e a luz se ia.

Aquele arquipélago perdido no meio do nada me deu a precisa ideia do que é estar em um lugar selvagem, abandonado, esquecido, distante, mas ao mesmo tempo sublime e imponente. Sempre é bom chegar, mas aquele dia…

Parto porque amo chegar.

Não somos capazes de vencer o mar, nem tampouco somos capazes de vencer o mundo. Na melhor das hipóteses, somos capazes de lidar com a crise.

Foto: Gui von Schmidt, Patagônia Chilena, Rota Austral

Comentários (2) 

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  • Lavínia Vasconcellos Martins

    Excelente texto! E como o planejamento usado pelos velejadores para enfrentar o mar e se preparar para as crises, o Planejamento Financeiro Pessoal é usado pa...

  • Beto Pandiani

    obrigado Lavínia,

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