O Mar é minha Terra

02.10.2011 - 23h37

O tempo e o vento

Praia Nova, Ceará. Foto André Andrade

Em nossa primeira viagem, a Entre Trópicos, quando velejamos de Miami até a Ilhabela, muitas quebras e pequenos acidentes nos impediram de seguir viagem por alguns dias, forçando-nos a ficar ou a buscar um lugar para reparar o barco.

Sempre, sem exceção, quando imprevistos aconteciam, pessoas interessantes conhecíamos, lugares mágicos acabamos encontrando e a viagem tomava rumos inimagináveis. Encontrei gente em muitos recantos onde jamais sonhei parar.

Uma das paradas forçadas que nunca mais vou me esquecer foi em Praia Nova, quando descíamos a costa do Ceará, um pouco antes do porto de Camocin, o maior centro pesqueiro da região. Estávamos navegando contra o vento, com muita onda e os barcos sofriam muito batendo os cascos, tendo suas estruturas judiadas. Lembro-me de sair de manhã de uma praia e perguntar para mim mesmo: “o que vai quebrar hoje?”, pois todos os dias aconteciam imprevistos. Aquele pedaço de costa entre Belém e Natal é considerado o pior trecho da costa brasileira, principalmente velejando contra o vento como nós vínhamos fazendo.

No meio da tarde daquele dia, decidi parar o barco, pois algo me dizia que as coisas não estavam bem. Não consultei o outro barco no qual estava meu companheiro de viagem, o Marcus Sulzbacher; assim que vi umas pequenas casinhas enterradas nas dunas, arribei o barco em direção à praia. Descemos as ondas e “aterrizamos” na areia. Em um minuto fomos rodeados por toda a aldeia de pescadores. Mal começamos a baixar as velas, eu percebo que a travessa de alumínio que une os dois cascos estava rachada. Mais alguns minutos navegando e o barco implodiria no meio do mar.

Duncan, meu companheiro de barco, sugeriu que procurássemos algum pedaço de pau para colocar por dentro do perfil de alumínio como uma luva, até chegarmos a algum lugar com mais estrutura para tentar um reparo mais apropriado. Ironizando, eu respondi a ele, “mas, Duncan, aqui nem árvore tem, como vamos encontrar uma madeira?” Estávamos em uma vila enterrada nas dunas.

No mesmo instante um senhor bem magro, de chapéu de palha, camisa de manga curta abotoada até o pescoço, vem e diz: “Desculpe, moço, mas lá em casa eu tenho um pedaço de pau que pode caber aí”. Perguntei se era possível ver a peça e em dois minutos ele voltou com a madeira na mão.

Ficamos todos perplexos com a forma e o tamanho da peça. Era quase perfeita, como se tivesse sido fabricada para entrar no perfil de alumínio. Só faltava um par de horas e uma boa plaina.

Mesmo sem ter dito nada, aquele simples senhor começou a estudar o perfil de alumínio com um ar de entendido e a trabalhar com as ferramentas que trouxera com ele. Ainda não sabíamos, mas havíamos caído nas graças do pescador mais antigo da vila, um homem que passou a vida em cima de uma jangada, que se orgulhava de nunca ter visto televisão, de nunca ter saído de Praia Nova em 70 anos,. E, se dependesse dele, queria morrer lá.

Sr. Francisco era também excelente carpinteiro, e enquanto aquele velho pescador trabalhava, desmontávamos a travessa traseira. Como o vento estava bem forte e voava muita areia nos nossos olhos, transferimos a oficina para a casa dele. Ao chegar fomos muito bem recebidos pela sua esposa, que rapidamente nos ofereceu chá. Havia algo muito interessante naquele casal, que tinha filhos espalhados pelo mundo (somente o caçula morava com eles): tinham um espírito nobre, postura elegante e uma sabedoria própria das pessoas simples.

A história se repetiu muitas vezes naquela viagem, e sempre que chegávamos a lugares simples éramos recebidos com muita generosidade. As pessoas que menos tinham a nos oferecer materialmente, sempre nos abriam as portas de suas casas e cediam suas camas se preciso fosse para nos ver confortavelmente alojados.

A travessa ficou pronta, perfeita, e mesmo depois de alguns anos ela continuou lá, no mesmo lugar.

Acabamos dormindo na casa dos nossos novos amigos, e no outro dia partimos para Jericoacoara com o coração alimentado, depois de uma noite ouvindo muitas histórias.

O que fazer para retribuir tamanho carinho? Um homem como o Sr Francisco trazia um aprendizado que o mar ensina: ser. Ser simples, ser generoso, ser prestativo, ser amoroso e ser sábio sem alarde.

Foi muito difícil a nossa despedida deles e das crianças daquele pequeno povoado, quase esquecido, que de tempos em tempos é soterrado pelas dunas que avançam com o vento.

Muitos destes acontecimentos nos levaram a atrasar as viagens, mas por alguns momentos tive a sensação de que as coisas aconteciam propositalmente para entrarmos no tempo correto da viagem, dentro de um cronograma perfeito. Por vezes acho que precisei andar algumas milhas a mais somente para cruzar o olhar com alguém.

Agora, sempre que estou no meio do oceano, fico atento para os desígnios da vida. Não quero buscar explicações, por que ao se explicar você limita, cria barreiras. Nem tampouco falo o nome de Deus, pois não gosto de humanizar o que para mim, pessoalmente, é algo muito maior do que possamos imaginar.

Tudo isso que aprendi na vida mora nos oceanos profundos dos sentimentos. De tempos em tempos vem à tona me dando um conforto imensurável, trazendo-me a certeza de que estou fazendo o que devo fazer. Não dá para nominar algo tão sublime, seria muita pretensão da minha parte.

A vida tem seu tempo, e por vezes fiquei esperando uma resposta que veio somente alguns anos depois. A nossa tendência é querer controlar o tempo, habituados com os relógios, que podem ser um instrumento de aferição de tempo, mas não conseguem estabelecer o fim de um ciclo nem o começo de outro.

De tempos em tempos me recordo do Sr. Francisco e me vem a nostalgia de um tempo que ficou guardado no meu coração. Tempo de sentir saudades!

Comentários (2) 

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  • Suzana Palanti

    Oi Beto, Viajei na sua viajem... Senti até o cheiro do mar e o gosto do vento... O Sr. Francisco é um destes sábios que encontramos muito raramente e que ...

  • Beto Pandiani

    Olá Suzana, desculpe a demora em responder. Tens razão, este homem de origem simples, nos ensinou muito sobre generosidade, pois dar quando sobra é uma coisa...

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