O Mar é minha Terra

23.09.2011 - 02h33

Viaje leve, Viaje longe

Carga já redimensionada, foto Gui von Schmidt

Velejando nas Antilhas, foto Gui von Schmidt

Viaje leve, viaje longe.
O conceito de leveza para um barco a vela é fundamental. No passado os barcos eram muito pesados e foram necessários muitos anos para a madeira ser substituída por outros materiais. Com o desenvolvimento de novas tecnologias como a fibra de carbono e o kevlar, os barcos deram um salto de desempenho.
Para se ter uma dimensão, desde que Sir Robin Knox-Johnston deu a volta ao mundo em solitário em 1969, velejando sem escalas em 312 dias, esta marca vem caindo vertiginosamente. Hoje o recorde está em posse do francês Francis Joyon, que em 2008 conseguiu tal façanha em apenas 57 dias.
Nas nossas expedições o peso é um fator limitador. Somos obrigados a ter poucos recursos e, por isso mesmo, os melhores. A escolha tem que ser muito bem pensada E a pergunta constante é: O que levar? O que deixar?
Na nossa primeira viagem, quando partimos de Miami em 1994, não sabíamos muito bem o que íamos de fato precisar. Gastamos muito dinheiro nas lojas náuticas e quando faltavam apenas dois dias para partir, olhei para toda a carga espalhada no gramado do Iate Clube de Miami e fiquei em dúvida se tudo aquilo ia caber nos diminutos compartimentos do nosso pequeno catamaran.
Havia até um pequeno monitor de TV para que o cinegrafista Pablo Nobel pudesse assistir ao material filmado durante os nossos acampamentos nas praias do Caribe. Na teoria, parece um sinal de profissionalismo, mas na prática não condizia com a nossa realidade. Graças a Deus que entrou água no compartimento e logo na primeira parada em Bimini, nas Bahamas, o monitor foi para o lixo.
Estávamos em dois catamaranans e cada barco partiu dos EUA com 120 quilos de carga. 289 dias depois, quando chegamos à Ilhabela, tínhamos apenas 100 quilos somados nos dois barcos.
Anos depois dessa primeira viagem eu estava no meu escritório em São Paulo procurando na internet artigos em sites internacionais a respeito da viagem que acabara de realizar na época, a Travessia do Drake. Para minha surpresa, achei mais de sessenta matérias em sites nacionais e internacionais, mas uma em especial me chamou a atenção: uma revista chamada Cat Sailor mostrava a palavra “Drake” numa área de fórum. Vários velejadores discutiam e trocavam impressões sobre a travessia do Drake, mas o texto que me surpreendeu foi o de uma mulher chamada Mary Wells. Dizia ela:
“Em 1994 eu estava com meu marido Rick White no iate clube de Miami, em Watson Island, quando encontramos alguns velejadores brasileiros que se preparavam para partir em dois hobie cats de 21 pés para a América do Sul. Curiosa e um pouco preocupada, perguntei a um deles se tinham experiência com hobie cats, e se eles já haviam feito longas travessias. Para minha surpresa, um deles me disse, com muita sinceridade, que essa era a sua primeira viagem e que ninguém havia velejado antes naqueles catamarans. A única experiência era com hobie cat 16 em regatas. Meu marido e eu ficamos preocupados e continuamos a fazer perguntas:
‘Vocês já experimentaram colocar toda a carga dentro do barco para ver como ele reage com tanto peso?’ Perguntei isso porque havia uma grande quantidade de equipamentos ao redor dos barcos.
Com bastante franqueza o velejador me respondeu que ele não sabia nem se o material todo iria caber dentro dos catamarans. O fato é que eles partiram, e eu e Rick ficamos muito impressionados com aquela viagem, e desde então sempre nos perguntamos se eles conseguiram, se desapareceram no mar… o que aconteceu com aqueles velejadores. Essa pergunta nunca foi respondida, e ao longo desses anos sempre me volta à memória aquela imagem.”
Que sensação maravilhosa encontrar esse depoimento depois de tantos anos: aquele marujo inexperiente interpelado por Mary Wells era eu. Minha vontade era encontrar pessoalmente aquela senhora e contar-lhe tudo em detalhes. Continuei a ler o depoimento de Mary:
“Estou querendo saber se esse brasileiro que atravessou o Drake de catamaran 21 tem alguma ligação com os rapazes que partiram de Miami em 1994.”
Um dos internautas que participava do chat respondeu:
“Acho que sim, pois eles também fizeram outra viagem pelo sul do Chile, dobrando o cabo Horn, e me parece que eles são bem conhecidos no Brasil.”
No site encontrei o e-mail de Mary e enviei-lhe uma carinhosa carta, confirmando que havíamos terminado a viagem com saúde e segurança. Agradeci-lhe a atenção e disse-lhe que a preocupação dela quanto ao peso da carga tinha procedência.
Mary Wells tinha razão em ficar preocupada, mas em nenhum momento nos faltou responsabilidade. Pelo fato de não termos experiência em viagens longas, cometemos alguns erros que nos ensinaram a evitar outros mais sérios.
Viajar leve me parece que é um conceito que pode ser estendido ao nosso corpo, à nossa alma e também para uma empresa. A leveza à qual me refiro é aquela que possibilita nos movermos sem desperdício de energia. São também tomadas mais rápidas de decisões e a otimização inteligente de recursos.
No mundo atual este deveria ser o nosso norte, pois em se tratando de recursos naturais esquecemos que no nosso barco Terra tem uma capacidade limitada. Temos que escolher uma maneira mais inteligente de navegar, pois intempéries poderão vir e, como bons marinheiros, temos que aprender a usar a força da natureza a nosso favor.

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