Numa palestra recente que fiz para um grupo de executivos, uma das perguntas ao final foi sobre os modelos mentais que estamos criando para nossos filhos. A pergunta dizia respeito a que tipo de referência, como pais, estamos sedimentando para nossos pequenos (e não tão pequenos) em relação ao ritmo de vida, ao tempo com a família, à velocidade do dia-a-dia, ao espaço dedicado às coisas mais importantes, ao modo como enfrentamos a rotina de trabalho e o stress diário. Compartilho, então, algumas reflexões e conclusões sobre o tema.
O primeiro ponto é o do paradoxo do “pai poupança”. Como pai (ou mãe) e profissional, nos dividimos entre o que queremos proporcionar para nossos filhos no futuro e o que querermos viver com eles no presente. Tarefa difícil, pois querer proporcionar mais significa, em muitos casos, maior dedicação ao trabalho. Ou seja, estar menos em casa, ter menos tempo com eles – hoje.
Na tentativa de fazer tudo ao mesmo tempo, o desafio é o da cabeça e alma presas, pois se gosto do que faço e o que faço me exige muitas horas no trabalho, quando chego em casa trago um fio invisível que segue me conectando ao trabalho. O resultado é que, muitas vezes, estou em casa somente de corpo presente, porque ou a cabeça continua nos assuntos do escritório ou estou tão acabado que mal e mal tenho energia para conversar com minha família… O tal “pai (ou mãe) poupança” abre mão do tempo de hoje para um ideal ou hipótese de tempo que talvez ocorra no amanhã, quando talvez ele não tenha saúde, não esteja mais aqui ou não tenha mais a família por perto para usufruir do que construiu.
Outro aspecto diz respeito ao “pai plugado” e à constante convivência com o fantasma (vício) da mobilidade. Com os smartphones, quantos de nós chegamos em casa após um longo dia no escritório e, depois do jantar (ou durante?), conferimos a caixa de entrada de e-mails? Existe algum assunto que, de fato, não possa esperar para ser resolvido na manhã do dia seguinte? E nos finais de semana, quem não puxa o celular para dar uma olhadela nos e-mails? Lógico que existem as exceções, os deadlines imperdíveis, os projetos extraordinários. Mas precisamos acessar nossos e-mails o tempo todo?? Será tão difícil usar o final de semana para se desconectar e curtir os filhos e a família?
Há também o “pai descarga”. Aquele que traz para casa somente suas sobras, o resto do resto de seu dia, e que despeja isto na família e nos filhos. Sai sempre cedo, passa o dia no trabalho e quando volta, vem somente com o resto: angústias, nervosismo, stress, irritação, impaciência, cansaço. Muito se fala em tempo de qualidade com os filhos, mas onde está a priorização deste tempo? Sendo que o desafio mais difícil, para muitos, está na presença real. Não a presença física, somente, mas aquela em que estamos de corpo e alma, sentados no chão, atentos, cativados, encantados com nossos pequenos, com suas brincadeiras, seus comentários e suas reações. Porém, estamos sempre correndo, sempre devendo, sempre cansados. E usamos, de forma recorrente, o nosso melhor para o trabalho.
E os “pais descompensados”? Aqui entram dois comportamentos: os excessos de comida/bebida e os presentes exagerados. Presentes exagerados são, em geral, sintomas de ausência, de peso na consciência. Pais ausentes apelam para presentes tentando recomprar créditos de presença ou laços de importância não demonstrada corriqueiramente…
Já outros, com a pressão diária de tentar dar conta de um volume cada vez maior de trabalho, encontram na comida ou na bebida uma forma de indulgência ou descanso. Com uma mentalidade de “pelo menos este luxo eu posso me dar”, se excedem na comida, nos jantares, no tripé usual de entrada/prato principal/sobremesa. Finais de semana viram banquetes contínuos, onde os exageros são rapidamente percebidos na balança depois de algum tempo. Quando acompanhamos a comida da bebida, o perigo aumenta mais. Clubes de vinho, happy-hours, degustações e tantas outras ocasiões são convites para o lazer, para o escape à pressão. Nada demais se levado como lazer. Mas o risco está no hábito, na fuga. Precisar do álcool para desligar a cabeça ou para aguentar o tranco é criar um problema muito maior. E o mais triste: estes comportamentos são observados muitas vezes de forma silenciosa pelos nossos filhos, testemunhas vivas de nosso desequilíbrio.
Volto à pergunta do final da palestra: que modelos mentais estamos criando para nossos filhos? Ninguém pode acreditar que não influencia direta e profundamente seus pequenos, por menor que seja a convivência. Adultos descompensados, excessivamente plugados, que sacrificam o tempo do hoje pelo amanhã ou que descarregam na família o seu pior vão criar que tipo de adultos futuros? Que tipo de comportamento imaginamos que nossos filhos terão, ao nos acompanharem enquanto vivemos nossas vidas profissionais e pessoais neste piloto automático maluco?
Não existem fórmulas mágicas ou soluções prontas. O desafio é de todos nós: diário, inclemente, real. Temos que ser competentes no trabalho, dar conta de nossos desafios profissionais, ao mesmo tempo em que temos que buscar o equilíbrio, tentando ser bons pais, presentes, amigos, modelos, que educam e impõem limites. Como dar conta disso tudo? O início da resposta, certamente, está no autoconhecimento, na autoanálise de cada um de nós, como profissionais, como pais, como seres humanos. Podemos pedir ajuda, podemos reorganizar nossas prioridades. O que não podemos é fingir que não é conosco, que não agimos desta forma, que não somos espelhos para nossos pequenos. Pois o tempo passa rápido, mas as impressões e modelos que deixamos para nossos filhos, não.
Para finalizar, reproduzo uma redação impressionante do filho de 10 anos de um leitor aqui do blog, que me enviou seu testemunhal de reflexão sobre vida pessoal x profissional, a partir do texto de seu filho, escrito como dever de escola. Fiquei muito impactado com a lógica, objetividade e ótica do menino, um verdadeiro sábio entre nós, executivos ensandecidos com tanto a aprender sobre o equilíbrio entre trabalho e família, sobre conquistar e crescer, sobre ter e ser.
O que é um adulto?
Um adulto é um ser quieto que só trabalha, trabalha e trabalha. Um adulto trata seu trabalho com muito carinho, amor e cuidado. Alguns adultos só sabem passar o dia no computador. Mas eles, poucas vezes nos dão a vez. Eles falam que é trabalho, mas acho que todas nós crianças, achamos que eles brincam no computador.
Os adultos sempre fazem a mesma cara no “trabalho”. Cara de que não gostam… cara de enjôo. Para eles deve ser muito ruim ganhar dinheiro. Todos os adultos gostariam de ganhar dinheiro sem trabalhar. Eu acho que os adultos são de pesos, tamanhos, e cores diferentes. Mas o modo de pensar, trabalhar, falar e até andar é igual… É… andar também! Eles andam como profissionais do trabalho. Mas se eles não gostam de trabalhar, por que usam o trabalho para se promover? Bom isso nunca vamos saber, né? Só quando crescermos.
Você é pai ou mãe? O que achou do texto? Colabore, compartilhe, interaja e critique: andre@proposito.com.br


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André Caldeira
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