Muito Trabalho, Pouco Stress

02.04.2012 - 00h06

Viciados em tecnologia?

Cena 1: Uma amiga, executiva de sucesso, me contou que estava planejando um cruzeiro de navio com a família. Ela, o marido, dois filhos, roteiro dos sonhos, descanso mais que merecido, pesquisa sobre os lugares que visitariam etc. Quando descobriu que o tal navio não tinha wi-fi, fim dos planos, fim de festa. Não tem mais viagem, pelo menos aquela tal viagem. Não sem internet.

Cena 2: Ilhas no Caribe oferecendo pacotes de “detech”. Já ouviu falar em detox, aquilo que celebridades (bem, executivos também…) fazem para se desintoxicar ou tentar deixar um vício, normalmente de bebida ou drogas? Pois bem, agora existe o “detech”, que é a tentativa de deixar o vício da tecnologia de lado. Gadgets eletrônicos não entram na ilha, são confiscados. E existem até profissionais especializados em dar o suporte psicológico para aqueles que entram em desespero por não terem acesso a e-mails, internet etc.

Cena 3: Restaurante lotado, almoço de sábado. Pelo menos 6 casais, em mesas diferentes, sentados um em frente ao outro, não conversam, não se olham. Olham para a tela do seu smartphone, e teclam, sorrindo (não para o companheiro, mas para a tela!).

Cena 4: Almoço na minha casa, dia de semana. Chego com a cabeça a mil, ainda pensando no tal projeto em que me debrucei a manhã toda. Sentado com a minha família, celular no bolso, começo a comer. De repente, sem nem perceber, pego o celular e começo a digitar um SMS para uma colega de trabalho, e logo depois já quero dar uma olhada nos e-mails. Minha mulher reclama, fala que estou viciado no meu I-Phone, o que nego (de novo), e tento desviar o assunto para algo mais ameno, como a escola do meu filho…

Quem não se identifica com uma das passagens acima? Eu já assumi a minha parte…

Quantas vezes você abre sua caixa de e-mails por dia? Quantas vezes você pega seu celular -para checar mensagens ou e-mails por hora? Você tem LinkedIn? Twitter? E Facebook? Você gosta de jogar on-line? Lê feeds de blogs (como este), assina RSSs de sites de seu interesse?

Bem, acho que o primeiro passo é reconhecer essa nossa compulsão. Gostamos de tecnologia, queremos usufruir dos benefícios do uso real time da tecnologia para acesso a informações, gostamos de redes sociais. Mas a pergunta é: conseguimos impor limites sadios para isso tudo? Aliás, podemos viver sem conectividade?

Meu filho, hoje com 10 anos, há alguns anos me deu a perspectiva certa da velocidade com que as coisas mudam. Ele estava jogando no celular da mãe, enquanto eu dirigia para passarmos o sábado na chácara de uns amigos. De repente, o celular toca e ele tem que parar de jogar. Enquanto a mãe atende, ele me pergunta “Pai, na sua época (a pergunta já começa torta quando mencionam algo da sua época, o que significa que a atual não é…), você não ficava brabo quando o celular do seu pai tocava e você tinha que parar de jogar para ele atender?” E eu, o dinossauro velho aqui, respondo: “Filho, quando o papai era criança não existia celular…”.

Verdade 1: meu filho ficou boquiaberto. Verdade 2: me senti um Matusalém. Verdade 3: a gente se acostuma muito rapidamente com tudo. Hoje é praticamente inadmissível estar num lugar sem wi-fi. 3G lento ou áreas de sombra são motivos mais que suficientes para xingarmos as operadoras de telefonia móvel. Queremos ubiquidade, queremos instantaneidade, queremos velocidade. Tudo, agora. E rápido.

O problema é que não desligamos.

Trabalhamos o tempo todo conectados no escritório, muitas vezes não almoçamos direito, tocamos em frente sem pausas, sem descanso. Ritmo frenético, alternado entre reuniões, e-mails, ligações, leitura de sites. Quando saímos do trabalho (normalmente tarde), muitas, muitas vezes fazemos o quê? Checamos e-mails no celular! Não raro, temos mais de um celular, o pessoal e o da empresa. Fora o notebook, e agora o tablet. De noite, escapamos para dar uma olhada nos e-mails. Finais de semana, idem. Quando não temos novas mensagens, vamos nos atualizar no Twitter, ver as últimas noticias, dar uma olhada nas nossas redes sociais. Levamos o celular para cama, para dar uma olhadinha antes de dormir. Como ele também é despertador, é ele quem recebe o primeiro bom dia. Tem gente que leva até para o banheiro…

Ou seja, estamos conectados o tempo todo.

Quem já ouviu o termo “coleira eletrônica”? Fiquei chocado quando li este termo a primeira vez. Estamos presos, o tempo todo. Somos alcançáveis a qualquer hora, em qualquer lugar. E ninguém nos coloca uma arma na cabeça para isso. Não assinamos nenhum contrato para tal. Fazemos porque queremos. Ao fazermos, nos viciamos, nos condicionamos a tal.

E os riscos disso tudo? O primeiro é o stress crônico. Por não desligarmos, não mudamos a frequência cerebral e não descansamos, de fato. Ficamos plugados dia e noite, o que pode causar baixa na produtividade, desgaste e até depressão. O segundo risco é o de deixarmos de lado a vida pessoal. Abrirmos mão de hobbies, de um bom livro, de outros assuntos ou ocupações que são muito importantes para o nosso equilíbrio. E o terceiro e mais importante: vivemos demais a vida digital e de menos a vida real, a da interação pessoal, a dos sentimentos e emoções, a dos momentos relevantes e transformadores do que somos e do que queremos ser. Não como profissionais, mas como seres humanos.

Para quem se enxerga nisso tudo, como em qualquer caminho para o bom combate de um vício, o primeiro passo é o reconhecimento. Depois, vem o auto-conhecimento. Por fim, o mais difícil: a disciplina.

To know others is wisdom;

To know yourself is enlightenment;

To master others requires force;

To master yourself requires true strength.

(Lao-tzu, Tao-te Ching)

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