Um dos muitos testemunhais que recebi dos leitores aqui do blog MT,PS foi o de uma executiva, ocupadíssima, que me falou da frustração de estar na frente do computador às 23h30, com dor nas costas, enquanto o marido assistia televisão, os filhos dormiam, e ela tinha um monte de trabalho para dar conta. Não tinha tempo ou mesmo energia para sair com o marido há tempos, estava esgotada física e psicologicamente e ainda tinha que acordar às 5h da manhã no dia seguinte para pegar um vôo para uma apresentação em outra cidade. Perguntei qual era a motivação para tudo aquilo. Me disse: “Dinheiro e status”.
Foi quando me lembrei do termo “piedade patrocinada”.
Ouvi essa expressão no filme “Compramos um zoológico” do Cameron Crowe, recentemente. No filme, Matt Damon faz o protagonista e resolve mudar de vida (daí a compra de um zoológico), virando a mesa porque não aguentava mais a rotina que levava. Segundo ele, sua vida era uma piedade patrocinada.
O termo me impactou muito. Primeiro pela força do que representa, segundo pela verdade que carrega na vida de tantas pessoas em sua relação com o trabalho. Piedade de si mesmo, pena da vida não vivida, pena do que se vê no espelho, da existência robotizada, a tal sequência interminável de semanas que voam, que se transformam em anos, que faz com que a vida escoe pelas mãos. Patrocínio sob a forma do salário no final do mês, do dinheiro necessário para pagar as contas, para manter o padrão de vida ou para chegar no que se quer, ou comprar aquilo que se deseja.
Trabalhamos muito, cada vez mais. Vivemos sempre correndo atrás do relógio, do tempo que não temos para terminar os projetos, para dar conta dos compromissos, dos entregáveis, das reuniões, e-mails, expectativas e comparações com outros dentro da empresa. Fora as viagens, o trânsito, as conference-calls, a afobação, o trabalho até mais tarde, que invade finais de semana e o tempo pessoal, o tempo com a família, com amigos.
É fato que o trabalho é um hábito formidável. Com o trabalho criamos, crescemos, aprendemos, produzimos, prosperamos e nos realizamos. A questão é o limite. Temos, hoje em dia, dificuldade de colocar limites de até onde devemos trabalhar, até que ponto devemos nos sacrificar para conquistar mais, para sermos reconhecidos ou mesmo para não sermos considerados desnecessários…
Essa semana viajei a trabalho para São Paulo, e quando estava saindo do avião desembarcando em Congonhas, vi um sujeito falando ao telefone, esperando todo mundo passar para pegar sua mala, que tinha ficado num compartimento algumas fileiras atrás. O detalhe: ele estava usando o cartão de identificação da empresa, com foto e tudo. Crachá da empresa, dentro do avião, no meio de todo mundo?
OK, pode ter sido distração. Mas o simbólico desta pessoa dentro do avião é que o trabalho domina não somente o que fazemos dentro da empresa, mas vários outros aspectos da vida pessoal. Portamos o crachá da empresa dentro do avião, nos apresentamos uns aos outros como o “fulano da empresa tal”, incorporamos o nome da empresa ao nosso sobrenome. Isso nos confere status, como bem disse a leitora executiva que quase não tempo para cuidar do seu casamento, da sua vida pessoal.
Mas aí mora um grande perigo. Somos ou estamos em tal posição? Sou ou estou diretor? Tenho reconhecimento e bajulação pelo que sou ou pela posição que ocupo? Se eu sair (ou o pior dos mundos: se for saído!) da tal posição, da tal empresa, o que acontece com a minha identidade?
Somos, então, reféns?
Lógico que fazemos isso porque queremos construir um vida boa, confortável. Queremos progredir, acumular patrimônio, ter mais oportunidades na carreira. Para, lá na frente, um dia, poder usufruir disso tudo. Quando o tal dia chegar, vamos poder curtir o que acumulamos. Só que o detalhe é que não sabemos se viveremos até lá, se nossos maridos ou mulheres estarão (nos aguentarão?) conosco até lá. Nosso filhos já terão crescido. E nossa saúde, como estará com todos os abusos da rotina de hoje?
A verdade é que não dá para viver a vida em função do que um dia poderemos ter.
O dinheiro que ganhamos hoje tem que estar acompanhado de realização, de aprendizado, de sintonia com a empresa onde passamos a maior parte de nossos dias. O propósito pessoal tem que estar afinado com o profissional.
Para isso, o equilíbrio entre trabalho e stress, entre vida profissional e pessoal, entre presente e futuro não pode ser apenas teoria.
E a resposta, a atitude, é de cada um de nós. Assim como as consequências.
Um velho sábio estava andando por uma trilha, quando viu um rapaz jovem vindo em sua direção. O rapaz estava olhando para todos os lados, e prestava muita atenção ao caminho. A ponto de não ver o sábio, e quase se chocar contra ele.
O sábio perguntou ao rapaz aonde ele estava indo. “Vou atrás do meu futuro”, disse o rapaz.
“Como você sabe se já não passou por ele?”, disse o sábio.


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André Caldeira
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