
- A nostalgia é um veneno quente que transforma eventos felizes em memórias tristes
Eu tenho uma turma de amigos muito especial, diferente de qualquer coisa que já tenha visto acontecer por aí. E nós nos entregamos a um exercício igualmente raro: a cada 5 anos nos encontramos para uma grande balada em Santa Maria, no coração do Rio Grande do Sul, a cidade em que todos morávamos quando nos cruzamos na vida, quando viramos adultos e éramos os donos do mundo, quando o futuro era nosso e uma conexão mágica, meio com jeito de Hollywood se estabeleceu entre nós, para não desaparecer jamais. (Pense, na época, num filme teen dos anos oitenta, com espírito eufórico, como Curtindo a Vida Adoidado, ou então, hoje, numa comédia romântica com gente de meia idade se reencontrando, em que tudo dá certo, em que a emoção aflora, e em que você sai do cinema leve e enlevado).
Nós estabelecemos o ano de 1986 como marco para contar o tempo da nossa amizade. Acho que fui eu mesmo que criei quase sem querer - referência explícita ao Legião – esse meme, num texto nostálgico que escrevi e enviei por carta para uma dúzia ou mais de amigos da Turma, ainda no finzinho dos anos 80. Eu fui talvez o primeiro a sair de Santa Maria para encarar a vida, ainda aos 17, e me via debaixo de um tempo bastante duro em Porto Alegre, na faculdade, me ambientando na cidade nova e morrendo de vontade de voltar para a minha passárgada, para a minha gente, que ainda estava por lá. Aprendia ali, pela primeira vez, quem sabe, que não há volta possível. Que só se vive para a frente. E que não é possível ser Ferris Bueller para sempre. Em breve quase todos os amigos também zarpariam dali em diáspora, para cair na vida, para ganhar a vida, uma diáspora que ainda não acabou, e nem vai acabar nunca. Você está sempre em movimento. E as pessoas que você ama também. Você já não é o mesmo de ontem, e muito menos o mesmo da semana passada. E elas também não. Nós somos todos pontos em movimento. Nos cruzamos por determinado tempo. E depois nos afastamos para sempre. E quando por ventura voltamos a nos aproximar, antes de nos afastarmos de novo, nós já somos outras pessoas. Talvez a graça do reencontro, por tudo isso, deva ser mesmo redescobrir, reinventar, renovar – e trazer a relação sempre para o presente. Isto é saudável e constroi. Ao invés de recuperar, resgatar, desenterrar – tentando dar as mãos e voltar ao passado. Este é um exercício de sofrimento – porque o passado não existe mais. De qualquer modo, meu texto, aquele desabafo de saudade – que grafafa pela primeira vez, quero crer, a Turma com T maiúsculo - circulou entre a galera. E os dois memes pegaram. Podia ser 1987. Mas assumimos 1986 - talvez, de fato, o ano mais charmoso das nossas adolescências – como o nosso marco zero. E, desde então, somos a Turma. Com T maiúsculo. Ponto.
O maluco é que não somos uma turma de formatura. Não éramos todos colegas em uma mesma classe. Não pertencíamos sequer a um único colégio – embora a gente dê ao nome da Turma o complemento ”do Cilon”, em referência à escola, Cilon Rosa, em que a maioria de nós estudava. A Turma é, antes que tudo, um ajuntamento geracional. Éramos a Turma da cidade. Uma horda brilhante, gerada por combustão espontânea, por acaso e necessidade, de modo orgânico e invencível, na piscina do clube, nos salões dos bailes de debutantes, nos catálogos de brotos, nas festinhas de garagem. O que somos, então? Um coletivo de meninos e meninas que conviveram mais ou menos entre 1985 e 1989, no auge do rock nacional (o que nos empurrou ainda mais na direção desse sentimento de geração e de pertencimento ao grupo), que se encontravam todo dia, e em várias noites, todo fim de semana, em inúmeras junções, saraus, matinês, audições, mingaus, praias, jantares (ainda que fosse um xis galinha salada com coca), tertúlias, chocolates quentes com pipoca e baladas. Éramos mais de 40. As melhores festas começavam quando chegávamos e terminavam quando íamos embora. Éramos charmosos, os donos do pedaço e sabíamos disso. Ou ao menos era assim que nos víamos. Andávamos sempre juntos – beijando na boca, perdidamente apaixonados, terrivelmente descornados, brigando, reatando, paquerando, selando amizades para a vida toda, desvendando o sexo, descobrindo o amor, tendo filhos precocentemente, experimentando as primeiras drogas, formando casais que estão juntos até hoje, sofrendo juntos as dores das primeiras experiências de morte, desabrochando para a vida juntos, marchando juntos por aquela ponte trepidante que leva da puberdade à vida adulta. Juntos. Juntos. Sempre juntos.
A primeira festa de reencontro da Turma foi em 1996. Comemorávamos os nossos 10 anos. Numa festa relativamente pequena, na casa espaçosa de um dos nossos amigos queridos – onde costumávamos fazer algumas de nossas junções juvenis dez anos antes. Tínhamos todos ali mais ou menos 25 anos e estávamos em começo de carreira, na batalha, recém formados ou formandos. Eu enviei uma VHS do Japão, onde cursava meu MBA, com um depoimento para a Festa – a gente grafa com F maiúsculo também. Uma amiga querida ligou de Aracaju, onde começava sua trajetória profissional, e falou com todo mundo. Foi bem bacana. E vimos que era bom.
Em 2001 nos encontramos de novo – 15 anos de Turma. Estávamos todos virando a casa dos 30. E já deslanchando na vida. Alugamos um lugar. Com DJ, salão decorado, cerveja gelada – e até champanhe, para quem se dispusesse. E todos os caminhos possíveis, por via aérea ou terrestre, de carro ou de ônibus ou de camelo – ops, de novo! -, nos conduziram às dezenas para Santa Maria. Éramos uns 60 convivas. Todo mundo ainda jovem, subindo a ladeira em direção ao auge. Todo mundo feliz por estar junto. E por constatar o quanto ainda estava vivo aquilo que nos unia.
Em 2006, eu tinha 35. E éramos mais de 80. Eu tinha acabado de virar pai. E, ao contrário de 2001, viajei sem minha mulher para comemorar os 20 anos da Turma. Então mergulhei no meu próprio passado sem nenhum fio que pudesse me prender à vida atual. Mergulhei fundo no sonho, nas lembranças mitificadas, edulcoradas, editadas daquela que foi uma das melhores e mais doces épocas de minha vida (e de quem não haveria de ser?). Dançávamos as músicas da época, víamos tudo com lentes que nos permitiam recuperar as visões que tínhamos na época. E foi muito duro voltar da fantasia à realidade. O tempo ali dentro daquele salão era outro. Tínhamos passado uma madrugada em delírio, em outra dimensão, num limbo de tempo e espaço, no deslumbramento de poder voltar a ter 15 anos por algumas horas. O retorno à superfície foi muito difícil. Aquela experiência significava reviver por algumas horas uma juventude passada e, portanto, perdida. E saborear emoções muito fortes, já vividas, mesclando-as a sentimentos novos. Significava, de alguma forma, criar um turbilhão de sensações, mexer com sentimentos antigos, reabrir algumas gavetas há muito tempo fechadas, algumas mal arrumadas, e então tentar brincar com isso tudo sem se machucar. Para logo em seguida, tão logo o sol raiasse, perder tudo de novo, ver todo mundo sumindo na curva, indo embora, cada um para um lado, cada um na sua estrada, voltando a ser quase um estranho, todo mundo disperso mundo afora outra vez.
A ressaca emocional daquela viagem no tempo, e dentro de mim mesmo, e das minhas emoções, e das minhas lembranças adolescentes, nem todas elas bem resolvidas e bem assentadas, foi terrível. Foi muito doído me despedir outra vez daquelas pessoas. Me separar dos meus amigos queridos mais uma vez. Dor de perda mesmo. Inclusive porque eu também me despedia ali de mim mesmo, em certo sentido. Eu havia voltado por um instante a ter todas as possbilidades do mundo – e então tinha que seguir sendo apenas quem eu era, apenas aquilo que eu havia escolhido ser. Aquela situação nos convidava a ver tudo que poderíamos ter sido e não fomos – porque decidimos nos tornar outra coisa. Ou apenas uma coisa, entre tantos sonhos que havíamos sonhado, tantas janelas que um dia haviam estado abertas para nós. Aquela situação nos deixava ver que estávamos passando rapidamente pela vida, ficando velhos. Então era uma saudade não apenas do que fomos – mas também do que nunca chegamos a ser, dos caminhos que não foi possível trilhar. Uma parte de mim morria ali. Uma vez mais. Sem apelação. E a própria Festa, que celebrava uma lembrança maravilhosa, virava imediatamente uma outra recordação inesquecível a latejar no peito. Eis o que é a nostalgia - um veneno quente que transforma eventos alegres em memórias tristes. Vivíamos ao mesmo tempo, no intervalo de poucas horas, a euforia do reencontro e a depressão da nova despedida.
À medida que ia me recuperando daquele chacoalhão, que me assustava pelo seu poder de mexer comigo, me debrucei a refletir sobre aquele aperto no peito, sobre aquele nó na garganta, sobre os mecanismos que haviam gerado aquele tsunami – em mim, destacadamente, mas não apenas em mim, com certeza. Me dediquei, enfim, a tentar entender a saudade. A gênese e o alcance da nostalgia. As raízes e o funcionamento da melancolia. As razões e os efeitos do apego ao passado, dessa enorme tristeza ligada à contemplação do que já passou. Joguei o holofote e o microscópio sobre este gene macambúzio que existe em mim. Dois anos mais tarde, no começo de 2008, dei o texto por encerrado. (Nunca um ensaio me tomou tanto tempo para nascer. Eu evitava o texto. Porque ele me impunha uma reflexão lenta e dolorosa.) Eu o publiquei na revista Vida Simples. E agora o apresento agora a você, na versão integral – e levemente revista.
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