
Trust, o conceito anglo saxão de confiança mútua entre os indivíduos de uma sociedade, é uma vitória da civilização sobre a barbárie.
Eu disse que algumas coisas me chamaram a atenção nessa viagem a Nova York. Talvez nem sejam coisas novas, talvez sejam as minhas velhas obsessões aflorando de novo. Nova York, a cidade que nunca dorme – mentira, eles dormem e até que bem cedinho – não é os Estados Unidos. Assim como São Paulo não é o Brasil. Mas boa parte da alma americana, dos ideais, dos defeitos, das virtudes e dos percalços dos Estados Unidos, em realidade ou na forma de aspiração, está ali, sim, escrita em cada sinal de trânsito em Manhattan, em cada placa luminosa de Times Square.
Sempre me chama atenção o trust americano. O conceito anglo saxão de comunidade, de confiança mútua entre os cidadãos, de laço social invisível amarrando os indivíduos numa mesma sociedade. Já tinha percebido isso, de modo frontal, numa viagem a Palo Alto, na Califórnia, há alguns anos. Fazia um curso na Universidade de Stanford e ao longo daqueles dias ia percebendo que os Estados Unidos, muito antes de serem a terra da liberdade, são a terra da lei. Muito antes de ser uma terra de ninguém, é uma terra de todos – em que cada um, antes de excercer seus direitos, precisa cumprir seus deveres. E a lei é a mais básica das facetas do trust – eu preciso acreditar que o outro sujeito vai parar na luz vermelha para atravessar a rua sem medo. Preciso confiar que ele vai respeitar o sistema de trânsito, que é uma lei que vale para nós dois e nos rege a ambos, tanto quanto eu estou disposto a respeitá-la. No Brasil, você não olha para o semáforo antes de atravessar a rua. Você olha no olho do motorista que vem naquela direção. E somente depois disso toma a sua decisão de atravessar ou não. Não há imagem mais clara para denotar o tanto que os sistemas e que a lei valem pouco por aqui – e o tanto que dependemos das relações pessoais e do caso a caso para resolver as nossas questões. (Ressalve-se que também em Nova York descobri um lei que aparentemente “não pegou”, o que é um clássico no Brasil: um multa de 350 dólares para quem buzinar, apregoada em várias esquinas da cidade. E todo mundo buzina a todo momento. Muita vezes na frente de policiais parados embaixo dos postes que afixam os cartazes de multa.)
Seja como for, o trust, que talvez seja ainda mais forte em algumas sociedades européias, especialmente, creio eu, as menos latinas, as menos mediterrâneas, as menos católicas, é uma daquelas características que estão na ponta ponta de cima da régua que leva da barbárie à civilização. É um conceito fantástico. E uma prática mais fantástica ainda. Um exemplo simples: em lojas de comida estilo take out (em que não há lugar para sentar, onde você pega o que comprou e sai comendo e bebendo pela rua, enquanto anda, o que é uma verdadeira instituição novaiorquina), geralmente você pega primeiro e paga depois. Muitas vezes com a loja cheia (é incrível a quantidade de restaurantes de todo tipo que há em Nova York e como todos estão permanentemente cheios), com poucos funcionários cuidando, você vê o sujeito pedindo o que quer no balcão, ou simplesmente pegando os produtos na geladeira, e somente depois se dirigindo para a fila do caixa. Muitas vezes parando antes ainda para temperar seu café ou chá com leite, açúcar, adoçante, mel – ingredientes grátis que ficam à disposição de todos. Muitas vezes ainda relatando ao caixa, quase sem conferência, aquilo que pegou. Um sistema muito, mas muito fácil de ser burlado. Um cenário muito, mas muito propício a alguém mal intencionado sair sem pagar. Ou pagar a menos do que devia. A única coisa que garante a esse sistema dar certo é o trust. É a certeza de que todo mundo ali é honesto e fará a coisa certa – até prova em contrário.
Curiosamente, ou não, a pressão social, exercida exatamente pelos cidadãos de boa fé que prezam viver sob a égide do trust, sobre aqueles que eventualmente rompem com esse sistema, é muito maior do que aqui. No Brasil, ao que parece, como já esperamos que o outro não seja honesto, como vivemos na defensiva, como todo mundo é culpado até prova em contrário, o sujeito que realmente rompe o tecido social acaba simplesmente realizando a profecia já antevista. Ele não quebrou a confiança porque ela já não existia. Por lá, considera-se que o transgressor rouba muito mais do que aquilo que roubou de fato – ele como que assalta à própria constituição do país. E não a constituição escrita, que está na boca dos advogados, que volta e meia é emendada em Washington. Mas a verdadeira constituição de uma nação - aquela que não precisa ser dita, que existe de modo tácito e poderoso, como consciência coletiva, nas entrelinhas das relações, entre todos os cidadãos.
Tem um livro do Francis Fukuyama, “Trust – Social Virtues & The Creation of Prosperity” (algo como “Confiança – Virtudes Sociais & A Criação de Prosperidade”) que deve endereçar de modo mais alentado essa questão. Eu ainda não li. Pretendo ler em seguida. (Faz anos que eu digo isso a mim mesmo…)


















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Adriano, Não nos é muito caro querer que as coisas por cá funcionem como deveriam funcionar nos campos moral, político, legal, econômico e social? Não...
Augusto Barbosa Lima
Adriano,
Não nos é muito caro querer que as coisas por cá funcionem como deveriam funcionar nos campos moral, político, legal, econômico e social? Não pagamos um preço extremamente alto por insistirmos no respeito a tais práticas?
Sempre, em minhas conversas, digo para as pessoas que prefiro mais o comportamento do governo militar da época do regime aqui instalado em 1964. Eles diziam: Faça o que eu digo ou bato prendo e arrebento.
Vivi boa parte de minha juventude no último quadrante daquela época; nunca fui importunado pelas autoridades do regime e tive uma vida de jovem e de universitário para lá de boa. Podíamos confiar nas palavras dos daquele regime.
Hoje, há a democracia por aqui, democracia legalmente constituída, e, no entanto, na prática, quando contestamos as práticas de muitas lideranças de diversas esferas da sociedade não apanhamos, não somos presos nem somos arrebentados fisicamente. Somos execrados, motivos de escárnio e, assim, postos de lado e não convidados para mais nada.
Há momentos que, sinceramente, acredito que seria melhor prostituirmos e deixar de lado nossas causas e ideais.
Parabéns por suas indignações, amigo!
Rodrigo Cabral
Adriano, Muito bom o tema, novamente. Pegando carona na passagem "...o trust, que talvez seja ainda mais forte em algumas sociedades européias, especialme...
Rodrigo Cabral
Adriano,
Muito bom o tema, novamente.
Pegando carona na passagem “…o trust, que talvez seja ainda mais forte em algumas sociedades européias, especialmente, creio eu, as menos latinas, as menos mediterrâneas, as menos católicas…” e também no comentário “Não nos é muito caro querer que as coisas por cá funcionem como deveriam funcionar nos campos moral, político, legal, econômico e social?” – fica claro pra mim que o brasileiro é vítima da própria “malandragem”, mas não a malandragem do sambistas, capoeiristas, futebolistas e outros artistas tão importantes na nossa cultura. Me refiro à malandragem muito bem traduzida pela famosa “Lei de Gerson” – aonde levar vantagem em tudo é o objetivo principal. Um exemplo do cotidiano: trânsito. Aposto que mesmo buzinando excessivamente e burlando a lei, os motoristas em NY não trancam cruzamentos para evitar mais um sinal vermelho; não trancam a passagem de quem precisa fazer uma conversão; não trafegam pelo acostamento; não ultrapassam em local proíbido (obviamente existem os desvios, mas na média acredito nesse comportamento). E isso não é apenas questão de educação, cidadania, etiqueta ou ética. É pragmatismo: o americano não faz isso porque o seu benefício marginal não é compensado pelo risco a que se expõem adotando tais comportamentos, além da coerção social a que estão sujeitos. Por que será que não é necessário ter uma placa “Smile, we´re being recorded” em todas as lojas 7-Eleven? É porque o americano comum, ainda que inconscientemente, não consome um “sanduíche de pasta de amendoim” e diz que só tomou um café ou um frozen quando chega ao caixa. E não pensem que eles não são “malandros” como nós e não enxergam a oportunidade de fazer isso, na verdade eles sabem que se adotarem este comportamento as lojas necessitarão de investimentos em segurança preventiva e também sabem que o custo destes investimentos serão repassados para o consumidor final, no caso eles mesmos. Parece um tanto corporativa esta análise, mas este pragmatismo está no DNA dos anglo-saxões e não está nos latinos. É claro que não estou sendo preconceituso, nem mesmo generalista – é apenas uma análise, que no limite, tende a ser verdadeira.
Assim, acredito que o trust só existe enquanto houver pragmatismo nas relaçoes sociais.
abs,
Rodrigo Cabral
Adm Empresas IBMEC-SP
Consultor de Riscos
Augusto Barbosa Lima
É isto mesmo Rodrigo. Utilidade, êxito e satisfação são alguns dos benefícios gerados pela confiança. Quero ver este país virar um país desenvolvido ...
Augusto Barbosa Lima
É isto mesmo Rodrigo. Utilidade, êxito e satisfação são alguns dos benefícios gerados pela confiança.
Quero ver este país virar um país desenvolvido em todos os fatores intervenientes na construção de um sistema eficiente. Os fatores: Econômico, social, ambiental, político, legal, cultural e tecnológico.
Nós, como administradores, temos a obrigação moral e profissional de influenciar, no contexto deste artigo, a consciência de, pelo menos, nossos clientes empresários. O trabalho é grande, os operários são poucos e a colheita é lenta.
Parabéns por suas conclusões. Você está mais parecendo um cientista político que um administrador.
Êxitos amigo.