Olha, se esta fosse a última chance que eu tivesse de dizer algo a você, talvez fosse isto o que eu lhe diria:
Não é o celular que você tem, nem com quem você anda, nem quantas músicas esquisitas você tem no seu iPod, nem se tem carro da firma ou não. Não é o tablet que você exibe na reunião, nem os nomes que conseguiu contrabandear para dentro da sua agenda, nem com quem você consegue almoçar, nem se está pagando as prestações de uma casa no campo ou na praia. Não é o tênis que você comprou naquele outlet em Miami, nem os gestos charmosos que foi aprendendo ao longo da vida, nem a sua calça Diesel (que talvez diga mais sobre as suas fragilidades do que de quanto você é esperto e bem sucedido). Não é o carro que você dirige, nem o número de amigos que você arregimentou no Facebook, nem a velocidade com a qual você adapta o seu linguajar aos termos e à prosódia que entram e saem de moda.
Não é nada disso, meu irmão. Não é nada disso, minha irmã.
O que conta, no final das contas, a única taxa de sucesso que vale na carreira, o que define você, o que o absolverá ou o condenará de modo sumário diante de qualquer corte, a começar pela sua própria consciência, onde quer que ela more, na hora de julgar a sua trajetória profissional, é uma coisa só: a sua obra. Aquilo que você construiu. Aquilo que você pode, sem sombra de dúvida e sem qualquer risco de estar afanando algo que não lhe pertence, chamar de seu. Os projetos que você bolou e fez virar, os resultados que você erigiu, aquilo que você criou e que vai lhe suplantar no tempo, como uma daquelas marcas indeléveis que tem o poder de contar histórias.
Mas uma obra é mais do que isso. É também as pessoas que você conquistou. É também os afetos que você angariou, o respeito, as boas lembranças, a torcida a seu favor, o que algumas pessoas chamam de reputação, o modo, enfim, como você será lembrado pelos outros – ou pelo menos entre aqueles que importam. Isto é uma obra – os seus feitos e o seu efeito nas pessoas. As paredes que você levantou e as admirações que você arregimentou – ambas as coisas são feitas de rocha sólida. Isso é o que ninguém jamais poderá lhe sonegar. Isso é o que nunca poderão roubar de você, por mais que queiram.
O resto, meu amigo e minha amiga ingênuos, acredite, é vento. O resto é só espuma. O resto é pó.
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Foram 391 posts, contando este, deste o dia 8 de dezembro de 2008. Foram 1 781 comentários. Talvez você se lembre do que escrevi no post de estreia, aqui no Manual, que se chamava exatamente Talvez Você Se Lembre: “Minha missão é trazer para cá reflexões, insights, questões, provocações sobre essa vida que nos cabe viver como executivos, como empreendedores, como profissionais que fazem o capitalismo brasileiro versão 2009/2010. Somos uma turma que trabalha 12 horas por dia, perde mais quatro no trânsito, atua num mercado competitivo, em constante ebulição. Estamos no segundo casamento (no mínimo), temos dois celulares (no mínimo), vivemos culpados por ficar pouco tempo com os filhos, tentamos fazer academia para não criar barriga nem infartar cedo demais.”
Fiquei feliz e com uma sensação de dever cumprido ao reler agora esse statement inicial. Acho que chegamos lá, juntos, você e eu. Inventamos uma voz diferente no jornalismo de negócios brasileiro. Aqui, admitimos dúvidas e tentamos elaborar sobre elas. Aqui confessamos derrotas e tentamos extrair delas algum aprendizado. Aqui admitimos que não somos tão perfeitos quanto nossa foto no LinkedIn ou quanto o texto assertivo do nosso CV tentam fazer crer. Criamos um lugar para depor as máscaras, as armaduras, e falar de verdade sobre as alegrias e as tristezas, sobre as tragédias, as comédias e os dramas da vida real. O Manual do Executivo Ingênuo, por isso tudo, se tornou uma comunidade regida pela sinceridade. Não é um lugar só para certezas e conquistas – é um canto digital que construímos para comportar a totalidade daquilo que somos, mesmo quando não alcançamos compreender direito as sensações que aqui e ali nos arrebatam.
Agora é hora de partir. Principalmente porque a temática do Manual se expandiu organicamente para fora do mundo corporativo e das questões eminentemente ligadas à carreira e à vida nas grandes empresas. Não foi algo que eu planejei – mas que aconteceu ao natural, ao sabor das pautas que iam aparecendo e sendo saudadas ou apupadas por você.
Quero agradecer imensamente à Exame e à Abril por mais esse período em que fui acolhido e bem tratado. Obrigado pela confiança e pela paciência. Obrigado, Claudia Vassallo. Obrigado, Sandra Carvalho. Obrigado à Renatinha, ao Pilão, ao Elvis, ao Serginho Teixeira, ao João Sandrini, a todos os profissionais que de alguma maneira ajudaram o Manual do Executivo a acontecer ao longo desses 31 meses de convivência feliz.
O arquivo do Manual continuará vivo aqui nesse endereço – e você continuará encontrando aqui em Exame.com todos os demais blogs que enchem esse espaço de inteligência e relevância. Aos que quiserem continuar me acompanhando: basta acessar a partir de hoje o Manual de Ingenuidades, novo nome do blog (que já amplia um pouco o seu escopo, percebeu?) Adoraria encontrar você por lá. Seria uma honra. E uma alegria.












Adriano Silva