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PMs medem melhor do que o Datafolha: Mais Evidência

João Manoel Pinho de Mello

 

Post escrito por Vinicius Carrasco e João Manoel Pinho de Mello

Em post anterior mostramos que a contagem de manifestantes feita pelas Polícias Militares (PMs) coincide muito com buscas no Google Trends (GT). Coincide muito mais do que a contagem feita pelo Datafolha. Interpretamos isso como evidência de que a contagem da PM é mais precisa.

 

Nosso ex-aluno Guilherme Lichand, agora PhD por Harvard (eita orgulho!), fez comentários pertinentes. Há dois problemas no uso do GT para estimar o tamanho relativo das manifestações pró e anti governo.

 

  1. Há diferenças entre os públicos das duas manifestações. Por exemplo, os manifestantes anti-governo têm renda mais alta do que os manifestantes pró-governo. O acesso à internet seria maior entre os apoiadores do impeachment. Basear-se no GT para medir o tamanho das manifestações superestimaria os participantes das manifestações anti-governo em relação às manifestações pró-governo.
  2. O método de mobilização é diferente. As manifestações anti-governo são marcadas pela internet, através de redes sociais. Os manifestantes pró-governo são majoritariamente mobilizados por sindicatos, movimentos sociais, etc. Portanto, por construção haverá mais buscas no Google por termos relacionados às manifestações anti-governo.

 

São problemas pertinentes. No entanto, por que o método utilizado pelas PMs também superestimaria o número de participantes nos atos anti-governo em relação aos atos pró-governo? Seriam as PMs sistematicamente anti-governistas? Talvez nos estados governados por tucanos ou democratas (mais sobre isso, e sobre PMs comandadas por governos petistas, abaixo). Mas duvidamos de PM valha para o país como um todo.

 

Há uma maneira simples de mitigar o problema 2. A mobilização ocorre, majoritariamente, antes das manifestações. No entanto, o pico das buscas ocorre durante a manifestação. Como mostramos no post, as buscas de GT coincidem com os números da PM mesmo quando comparamos apenas os números dos dias das manifestações (e não toda a semana). Logo, não é a diferença de método de mobilização que gera a aderência de buscas no GT e números das PMs.

 

Resta o ponto 1. Os dados do Google Trends não têm quebra por faixa de renda (seria bem assustador se houvesse!). Mas podemos quebrar por estado da federação. Imagine que a coincidência entre buscas no GT e números da PM ocorresse apenas em estados cuja distribuição de renda (e, presume-se, de acesso à internet) é pior. Então teríamos motivo para suspeitar que o a coincidência é entre buscas no GT e números da PM é produzida pelo fato dos manifestantes anti-governo terem mais acesso à internet. Vejamos os números em alguns estados (em São Paulo, 3o estado mais igualitário do Brasil, já sabemos que a coincidência é notável; ver post).[1] As comparações são sempre entre as buscas no GT nos dias 13/03 (anti-governo) e 18/03 (pró-governo).

 

Comecemos pelos estados mais igualitários, os da região sul. Em todos os três casos, as buscas relativas no GT coincidem fortemente com os números (sempre relativos) das PMs. Consideremos primeiro Santa Catarina, o estado mais igualitário do Brasil. Em SC, houve, segundo a PM, quase 16 vezes mais manifestantes anti-governo do que na pró-governo. Houve mais de 16,6 vezes mais buscas no GT no dia do ato anti-governo do que no dia do ato pró-governo. No RS – 2o estado mais igualitário – houve, segundo a PM, 10 vezes mais manifestantes anti-governo do que na pró-governo. Houve 9,1 vezes mais buscas no GT no dia do ato anti-governo do que no dia do ato pró-governo. No PR – 4o estado mais igualitário – houve, segundo a PM, 40 vezes mais manifestantes anti-governo do que na pró-governo. Houve mais de 14 vezes vezes mais buscas no GT no dia do ato anti-governo do que no dia do ato pró-governo. Ou seja, na região sul, onde a distribuição de renda é melhor, há enorme coincidência em dois dos três casos. No Paraná, há discrepância, mas no sentido das buscas do GT sugerirem menos participantes no ato anti-governo, em termos relativos. Ou seja, baseado no PR, as buscas no GT subestimariam as manifestações anti-governo. Ou pode ser que a PM paranaense, comandada há tempos pelo PSDB, superestime as manifestações anti-governo.

 

Repetimos o exercício para todos os estados para os quais há dados.[2] Dos 9 estados, há discrepâncias em dois deles. No Paraná, como notamos, e na Bahia. Lá, segundo a PM, houve 2,5 vezes mais manifestantes no ato pró-governo. E houve mais de 2,8 vezes mais buscas no GT no dia do ato anti-governo do que no dia do ato pró-governo. Novamente, as buscas do GT “acertam”. Em relação aos outros estados, a força relativa do ato pró-governo foi maior na Bahia. Mas, quantitativamente, os dados de busca do GT não aderem aos dados da PM baiana. Assim como no Paraná, mas com o sinal trocado, o fato da PM baiana ser comandada pelo PT há tempos pode explicar a discrepância.

 

 

 

[1] As afirmações sobre desigualdade de renda nos estados brasileiros são da PNAD 2013.

[2] Só há volume suficiente para gerar dados de buscas de ‘Não Vai Ter Golpe’ em 9 estados e no Distrito Federal. São 10 no total. Descartamos o Rio de Janeiro porque a PM fluminense não divulgou números do ato pró-governo.

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