Vale insistir: reduzir as taxas de juros não é sinônimo de estimular a economia. Essa visão mecânica, determinista, é recorrentemente desmentida pelos fatos. O Brasil de 2011-2012 é mais uma evidência de que os juros funcionam como ícone, como símbolo e não como alavanca. O economista hidráulico é a praga que nossas faculdades de economia despejam aos borbotões. Ele confunde economia com engenharia. E dá como burro n´água.
Há um ano o Banco Central promove a redução dos juros. Mas essa é apenas a ponta mais visível do processo. Para que essa redução tenha efeito nos níveis de crédito, o governo federal colocou seus bancões para forçar o aumento na oferta de crédito. As estatísticas confirmam: enquanto os bancos privados tornam-se cada vez mais seletivos e cautelosos num ambiente de juros menores, o governo bota a mão visível para emprestar. O resultado é desanimador, pois além dos juros o que pesa no crédito é a confiabilidade do devedor.
O governo Dilma está apostando todas as suas fichas na existência de uma suposta “nova classe média”. O inventor dessa preciosa pérola acaba de ser nomeado presidente do Ipea. Para reforçar a hipótese de uma nova classe criada pelo lulismo, ampliaram o número de universidades, distribuíram vagas e cotas e reduziram impostos em automóveis e outras linhas de produção.
Mas crédito e subsídio são insuficientes para criar uma nova classe social. Cria-se a rigor uma espuma consumista. Os investimentos no setor privado não aumentam, ganham terreno as importações. O banqueiro privado, percebendo a fina camada que sustenta a nova “classe”, torna-se mais seletivo.
Além desse efeito conhecido como “seleção adversa”, outra dimensão simbólica, icônica ou expectacional determina a decisão dos investidores. Quanto mais o governo pressiona juros para baixo e crédito para cima, cortando ainda impostos e inventando generosidades com a contenção de preços pela Petrobras (para segurar a pressão inflacionária e dar ainda mais fôlego ao consumo), mais aumenta a desconfiança de que esse elástico já foi longe demais. Ou arrebenta ou desistem de esticar.
Como já se viu em outros períodos eleitorais, a mágica, o milagre termina depois do segundo turno (em ano de eleições municipais, pode terminar logo depois do primeiro turno). Virá o ajuste. A repressão dos juros será revertida. Os preços contidos serão descomprimidos, justificando a necessidade de reverter a queda dos juros para evitar maior inflação.
Mercados são feitos de confiança, não simplesmente de oferta e demanda. Ao forçar a barra pela via fiscal e monetária, a política econômica brasileira pode acabar atingindo o próprio pé.


Gilson Schwartz é economista, sociólogo, pesquisador e empreendedor digital. É Diretor para América Latina da rede "Games for Change" e professor da Escola de Comunicações e Artes da USP.
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