Mark Zuckerberg está para transformar o seu negócio numa das mais importantes operações de abertura de capital em Bolsa da história, certamente a iniciativa mais icônica de tudo o que a web 2.0 representa (ou veio a representar), uma jogada de financeirização da internet que marca esse momento de renovadas esperanças no fim da recessão americana.
Para tornar ainda mais promissora a atmosfera de véspera do IPO (“initial public offering”) do Facebook, ele disse que a “era da privacidade” acabou.
O argumento de venda é direto: afinal, nada mais lucrativo que adquirir uma mercadoria infinita que estaria sob o controle do jovem empreendedor californiano, a intimidade de cada um e de todos nós.
É praticamente um monopólio criado em escala mundial que, feito um Leviatã, a partir da servidão voluntária dos olhares, cliques e “cutucadas”, funciona como uma fábrica em “moto perpetuo” de intimidade, a matéria-prima do Facebook.
Na prática, o argumento está mais para frase de impacto do que para verdade absoluta: há poucos dias estourou um escândalo da internet, a quebra de privacidade em várias empresas nos EUA que exigem, como condição de “empregabilidade”, a abertura da senha de cada indivíduo para a seção de RH.
Certamente o pessoal do RH dessas empresas não concordam com o monopólio da intimidade ou mesmo com o fim desse conceito, como defende Zuckerberg.
Se milhões de “amigos” sentirem-se ameaçados, quanto tempo dura essa matéria-prima voluntária? O estrago pode ser pior que a efetiva fiscalização das condições de trabalho na China em fábricas de componentes para produtos da Apple.
É importante não confundir privacidade com intimidade. Mesmo quando cenas do que antigamente se considerada “intimidade” ganham publicidade na rede (por exemplo, no Facebook), isso resulta de uma estratégia que cada indivíduo escolhe para tornar-se visível, revelar-se como um ícone digital, construir sua sobrevivência na iconomia. No fundo, trata-se de uma “euconomia”. Exagerar na capitalização de cada “eu” pode custar caro na sociedade do espetáculo.
Quem é responsável em última análise pela privacidade é o indivíduo. Se o Facebook ajuda na educação sentimental das nossas comunidades, ótimo, é um serviço que tem preço. Mas daí a acreditar que o poço de adesão ou a gestão da privacidade no Facebook são infinitos no tempo e no espaço vai uma longa distância.
Até que ponto o uso (e o valor extraído) por Google e Facebook das nossas informações pessoais está sendo bem valorado pelo mercado e pelos investidores? Até que ponto o uso que os fregueses de Google ou Facebook fazem das suas informações pessoais lhes é providencial, útil, indispensável?
Nesse universo em que as redes digitais servem para construir economias e mercados feitos de ícones, a alma é o segredo do negócio.
Euconomia
Aviso aos navegantes deste blog: frequento o Facebook e o Tweeter. Estou xeretando a Enciclopédia da Nuvem do Luli Radfahrer, colega da Escola de Comunicações e Artes da USP e o relato pioneiro de quem desbravou salas de aula com mídias digitais, o Idade Mídia do Alexandre Le Voci Sayad.
Semanalmente às quintas-feiras, 19h30m, ao vivo pela IPTV da USP, transmito os cursos de graduação Introdução à Iconomia e Economia do Audiovisual Internacional oferecidos pelo Departamento de Cinema, Rádio e TV da Escola de Comunicações e Artes (ECA). A partir de 12.04.
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Para quem se liga em inovação e inteligência coletiva, a novidade são os games públicos online em escala global. Confira a iniciativa da Rockefeller Foundation.
Notícia
Esquentando em Brasília a temperatura dos projetos de inclusão digital, com chamada na Secretaria de Inclusão Digital do Ministério das Comunicações para projetos de “cidades digitais”. Essa agenda tem sido adiada por anos. Agora vai?


Gilson Schwartz é economista, sociólogo, pesquisador e empreendedor digital. É Diretor para América Latina da rede "Games for Change" e professor da Escola de Comunicações e Artes da USP.
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