Adjetivar como “criativo” esse ou aquele bem, serviço ou comportamento tornou-se um lugar comum nessa economia de ícones construídos digitalmente. De “cidades criativas” a “setores criativos”, passando pela “economia criativa” e sempre com muita força no Brasil a “contabilidade criativa” de empresas, governos e partidos políticos.
Todo cuidado é pouco diante dos adjetivos. A agência da ONU para comércio e desenvolvimento (UNCTAD) tem sido paladina em defesa de mais atenção (e números) para as atividades cujo principal insumo é a criatividade. O informe divulgado nessa semana é impressionante: o comércio mundial de bens e serviços criativos superou a marca dos US$ 620 bilhões em 2011.
Os dados integram a “Global Database on the Creative Economy”. Artes e artesanato, livros, design gráfico e de interiores, moda, cinema, música, novas mídias visuais e audiovisuais bateram um pico em 2011, último ano com dados disponíveis. O patamar de exportações anterior à crise de 2008 já foi superado.
Os dados ganham publicidade para esquentar o Forum Global sobre Serviços que acontecerá em Pequim no final de maio. Os fluxos de serviços triplicaram desde 2002.
Essa pujança reflete a força das atividades ligadas a arquitetura e correlatos, serviços culturais e recreativos, serviços audiovisuais, publicidade, serviços de pesquisa e desenvolvimento, vetores de uma economia que se sofistica e pontua a imersão global numa sociedade da informação organizada em torno de uma economia do conhecimento. A internet é o solo fértil onde proliferam serviços inovadores no campo da educação, da cultura, da ciência, da tecnologia e das finanças. A taxa média de crescimento anual dessas atividades nos últimos dez anos é de 8,8% (a taxa sobe para 12,1% para exportações de países em desenvolvimento).
A liderança entretanto não está na América ou na Europa, mas na China, que começa a desafiar a ideia de que se tornou apenas a maior fábrica do planeta. As exportações de produtos criativos triplicaram entre 2002 (US$ 32 bilhões) e 2011 (125 bilhões) a uma taxa anual de 14,7%. Ou seja, os chineses se integraram aos principais fluxos de comércio mundial em conteúdo criativo. Não é casual que a Dreamworks tenha se instalado em Shanghai no ano passado, em parceria com o China Media Capital, Shanghai Media Group e Shanghai Alliance Investment.
O Brasil é cantado em prosa e verso como o paraíso perdido (ou futuro) da economia criativa. Por enquanto, eventos de alto impacto como Copa e Jogos Olímpicos deram emprego principalmente a trabalhadores de baixa qualificação na construção civil. Para ter sucesso nas chamadas “indústrias criativas”, a UNCTAD insiste na importância de infra-estrutura (especialmente digital), educação e qualidade da vida nas cidades. Não é difícil constatar que o Brasil está atrasadíssimo em tudo o que importa para figurar entre os grandes exportadores de conteúdo, produtos e serviços criativos. Estádios de futebol dão votos e lucros no curto prazo, mas não são bens exportáveis e ainda estão longe de movimentar massas de consumidores e turistas depois da grande festa.
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Fonte: UNCTAD, UN COMTRADE database.
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Gilson Schwartz é economista, sociólogo, pesquisador e empreendedor digital. É Diretor para América Latina da rede "Games for Change" e professor da Escola de Comunicações e Artes da USP.